Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
17 A Insanidade Pede Passagem
Notas iniciais
Alice observava tranquilamente a luta dos dois, como se fosse um belo espetáculo de dança. Batman mantinha-se em vantagem, pois Coringa não parava de gargalhar por um segundo sequer – levando sua sanidade a um nível ainda mais profundo de questionamento –, até que os capangas do Palhaço intervieram, dividindo a atenção do Morcego.
Coringa aproveitou-se dessa situação para terminar o que havia começado com a hippie. Vendo que ele se aproximava dela novamente, lançou-lhe um sorriso provocativo e um tanto travesso.
– Sabe, você devia ao menos tentar disfarçar essa satisfação de apanhar do Batman... As pessoas comentam! Ainda mais usando essa maquiagem questionável.
Ele riu, doentio, segurando firme seu braço.
– Será que eu vou ter que te dar mais uma provinha da minha virilidade? – diminuiu o tom de voz, sussurrando rente ao seu ouvido para que apenas ela pudesse escutá-lo – O nosso último encontro já não foi suficiente, Docinho? Você está muito insaciável ultimamente... Eu gosto! – dizendo isso, lambeu a curva de sua orelha, despertando com mais intensidade ainda o desejo inexplicável de Alice pelo vilão, reduzindo novamente as defesas da hippie a pó.
Suas pálpebras se fecharam com o prazer de sentir o inesperado e úmido toque, retaliando a vontade que Alice sentia de demonstrar frieza ante a presença do psicopata. Os convidados da festa interpretaram os tremores da hippie como uma evidência de medo pela proximidade tão íntima que o Palhaço a submeteu. Mal sabiam que, na verdade, o corpo de Alice protestava avidamente assim que Coringa ameaçou se afastar de sua pele...
Foi o brusco puxão que ele deu em seu braço que a fez despertar daquele estado anestesiado em que se encontrava. Sem prévio aviso, Coringa a conduzia para a enorme sacada da Cobertura Wayne, de forma ríspida, fazendo Alice cambalear por conta do salto fino que usava.
– Hey, vai com calma! Você deve estar acostumado a usar salto agulha, mas eu não! – reclamou.
A festa havia transformado-se no próprio caos! A luta de Batman com a dezena de capangas e a simples aparição e presença de Coringa no ambiente já foram suficientes para que os convidados se desesperassem e corressem, desgovernados, em direção à saída – que estava bloqueada por mais dois capangas, impedindo que qualquer pessoa entrasse ou saísse, e tornando a confusão ainda maior.
O Palhaço fez com que Alice ficasse com metade do corpo para fora das pilastras de segurança que cercavam a sacada da cobertura. Seu rosto manteve-se inclinado para baixo, e dali a hippie pôde visualizar os automóveis de luxos – que mais pareciam pequenos pontos na estrada – andando pelas ruas, seus motoristas totalmente alheios ao que ocorria apenas alguns metros acima de suas cabeças. Se Coringa a jogasse dali de cima, certamente ela viraria “Omelete de Hippie”.
– Você não teria coragem de jogar dessa altura uma pessoa de óculos, teria?
– Você não usa óculos – rolou os olhos, impaciente.
– Mas isso é um mísero detalhe! – disse, quase implorando – Tudo bem, já que você gosta de se prender a pormenores insignificantes, eu reformulo minha pergunta: Você teria coragem de jogar dessa altura a pessoa que salvou sua vida? – Ela já sabia a resposta antes mesmo de perguntar, apenas queria ganhar tempo com aquela distração.
– Realmente acha que algum tipo de... escrúpulo... – falou a palavra com nojo – me deteria? – os olhos do Palhaço faiscaram, desejosos de qualquer manifestação de súplica por parte daquela estranha e contraditória mulher.
“Céus... será que esse Morcego inútil não percebe que eu estou prestes a ser jogada do 15º andar? Talvez fosse melhor tentar falar em código com ele!” – analisou por um breve momento qual seria o melhor código a usar, já que ela não era fluente em Morceguês – “Já sei!!! Vou falar na língua do 'K'! Você é um gênio, Alice.”
Pigarreou antes de começar a sua súplica desesperada direcionada ao Cavaleiro das Trevas.
– Batman k, você k ainda k não k percebeu k que k eu k estou k pendurada k aqui k, seu k bostinha k? – a hippie praticamente gritou para conseguir a atenção do Justiceiro Mascarado, que a olhou confuso, e logo que percebeu o que estava acontecendo, livrou-se da luta com os capangas e foi até o Palhaço, mantendo certa distância para que Coringa não se sentisse ameaçado com sua aparição brusca e acabasse soltando Alice, deixando-a à mercê dos princípios da gravitação.
– Larga ela, Palhaço! – sua voz saiu repleta de raiva em meio à tradicional rouquidão.
– Escolheu mal as palavras, Batsy! – Coringa gargalhou e olhou uma última vez para sua vítima antes de atirá-la dali, desencadeando sua inevitável queda até o asfalto – Até breve, Docinho! – dizendo isso, exerceu a pressão necessária que a fez cair, gargalhando insanamente.
Batman correu até o local em que Alice havia sido jogada pelo Palhaço, e sem hesitar, mergulhou na escuridão atrás dela, desafiando a própria gravidade. A hippie gritava com todas as forças que seus pulmões suportavam, vendo o chão aproximar-se cada vez mais rápido, perigosamente fatal.
“Oh, e agora, quem poderá me defender?”
Sentiu na mesma hora dois braços fortes e revestidos por uma carapaça dura circundando completamente sua cintura num abraço apertado e tão protetor quanto.
– Chapolin Colorado? – perguntou, surpresa, mas não obteve resposta.
Assim que o titânio a envolveu naquele abraço firme, a velocidade da queda começou a diminuir lentamente, perpetuando uma rápida dúvida em Alice, que passou a não ter certeza se era apenas uma doce impressão sua, ou se realmente teria chance de sair viva desse novo encontro com Coringa. A queda brusca começou a assemelhar-se a um voo desgovernado – o que certamente já era um grande progresso! – Seu corpo ainda era envolvido por músculos fortes, totalmente protegidos por uma armadura resistente e negra como a noite.
Eles finalmente caíram no chão, sentindo a frieza e rugosidade do asfalto sob seus corpos, ainda abraçados. O Morcego conseguiu, nos últimos instantes, posicioná-la em cima de sua armadura, para que ela não sofresse todo o impacto do encontro com a pavimentação. Tudo o que Alice estava ciente no momento era a forte queimação em sua garganta, causada pelos gritos histéricos que suas cordas vocais produziram enquanto caía ao cenário da escura Gotham City.
– Você está bem? – Batman ainda estava embaixo de Alice, analisando-a por completo.
A hippie procurou forças para sair de cima daquela armadura que a havia protegido contra a queda, mas não encontrou forças para dispensar a sustentação. Estava sentindo cada músculo seu tremer, e sem querer, deixou-se cair ainda mais no peito do Morcego.
– Estou bem! – sua voz saiu tão rouca quanto a de Batman, não intencionalmente – Será que você pode me ajudar aqui? Esqueci como comandar minhas pernas...
Na mesma hora ele levantou os dois, segurando Alice cuidadosamente sobre seu corpo, até que ela, a seu tempo, reencontrasse o próprio equilíbrio. Ficaram ainda abraçados por um tempo, até que a hippie disse, bem humorada:
– Podemos fazer isso de novo?
A falsa animação na voz de Alice camuflava o que realmente estava passando pelos seus pensamentos mais obscuros. Seu orgulho estava completamente ferido... Ela ainda sentia-se intoxicada por Coringa, e mais uma vez ele havia tentado matá-la, como se fosse apenas um obstáculo que deveria ser eliminado de sua vida o quanto antes. Alice jamais admitiria aquilo nem mesmo para ela, mas detestava a sensação de se sentir unicamente um material de descarte para os planos do psicopata.
Foi a rouquidão do Cavaleiro das Trevas que a trouxe de volta à realidade.
– Não saia daqui! Eu vou voltar e ir atrás do Palhaço.
– Ele vai adorar... Coringa sonha com o dia em que você fique atrás dele! – riu.
– Pelo jeito já está melhor! Voltou a fazer piadas das quais só você acha graça.
– Certo, vamos esclarecer uma coisa por aqui, senhor morcego; você pode ofender a mim, pode ofender a minha família – “até porque eu não tenho nenhuma mesmo!” –, pode ofender qualquer coisa ou pessoa que se relacione comigo, menos as minhas piadas, entendeu?
Alice percebeu, para o seu completo desgosto, que falava sozinha. Batman já havia sumido nas sombras, como se fizesse parte delas, como se ele fosse a própria escuridão, sem que ela sequer notasse. Era realmente incrível essa capacidade que o Morcego tinha de se mesclar com a noite, tornando-se invisível quando fosse conveniente. Ainda mais irritada por ele tê-la deixado falando com as paredes, Alice gritou, enfurecida.
– Se você acha que eu vou ficar aqui esperando você caçar o Palhaço, está muito enganado, Morcegão! – a garganta ardeu novamente com os novos gritos, causando uma série de tosses doloridas.
Alice não tinha a menor intenção de ficar como observadora passiva do desfecho daquela história. Ela já havia visto Batman falhar na captura de Coringa uma vez, e não estava disposta a testemunhar novamente seu fracasso. Não sabia como, mas ajudaria a colocar Coringa atrás das grades.
Estava começando a voltar para a festa caótica, quando sentiu uma mão fria e delicada segurar seu braço. Virou-se para encarar o rosto da mulher que a impedia de prosseguir seu caminho tortuoso até o Psicopata Maquiado. Sem paciência nenhuma para interrupções e irritada com o aperto forte em sua pele, disse:
– O quê que foi, quê que foi, quê que há?
– Você é a Alice, não é? – o semblante da mulher, assim como sua voz, exalava um tipo estranho de súplica, evidenciado ainda mais fortemente pelos cantos de seus lábios pequenos que se arqueavam em um sorriso de expectativa.
Alice já havia se acostumado com aquele tipo de abordagem depois que se tornou um dos assuntos preferidos dos jornalistas. Suspirou, cansada das perguntas sobre sua vida pessoal.
– Sim, sou eu mesma. A Gata Borralheira de Gotham – disse, completamente entediada, tentando se livrar do aperto em seu braço, contudo ele apenas se intensificou ainda mais.
O rosto dela iluminou-se ao ouvir aquela confirmação, e ela começou a tropeçar nas próprias palavras, sem dizer coisa com coisa.
– Eu sabia que era você! Bom, imaginei que estaria aqui, já que você está comprometida com o Wayne agora! – a mulher disse aquilo com enorme satisfação, confundindo ainda mais a hippie.
– Vem cá, eu te conheço? – franziu a testa diante daquela figura visivelmente desequilibrada.
Um novo sorriso marcou seu rosto cansado ao responder:
– Sim, Alice. Você me conhece... – parecia que ela queria dizer algo mais, porém sem saber como. Sua boca permaneceu aberta, mas nenhum som ultrapassou o limite de seus lábios trêmulos.
– Puxa, que ótimo então... – Alice achou melhor não contrariá-la – É realmente incrível rever você, pessoa, mas eu preciso ir agora!
Finalmente conseguiu ver-se livre do aperto em seu braço – que já estava dolorido – e lhe deu as costas, tomando um rumo apressado em direção à festa.
“Que louca! Nunca a vi mais gorda...”
Alice estava quase saindo do campo visual da mulher, que ainda estava estática no mesmo lugar, encarando-a com profundidade, como se finalmente encontrasse a coragem que precisava.
– Eu... eu sou sua mãe, Alice!
– Ah, sim, minha mãe! – comentou distraidamente, ainda não processando aquelas palavras como deveria. Até que, no segundo seguinte, o comentário que aquela estranha senhora despejou pareceu realizar o efeito certo (embora tardio) em Alice, entorpecendo-a completamente e deixando-a no mais profundo estado de choque. Depois de ficar longos e intermináveis segundos paralisada com o que tinha acabado de ouvir, virou-se lentamente na direção daquela louca – Minha o quê? – perguntou boquiaberta, certa de que havia entendido errado.
– Eu sou sua mãe! – repetiu, tentando aproximar-se, mas cada passo para perto de Alice, fazia com que a hippie se distanciasse na mesma proporção, mantendo a distância entre as duas exatamente a mesma.
– Minha mãe? – perguntou, sentindo ânsias de vômito formarem-se na boca do estômago, e lágrimas raivosas passaram a se formar em seus olhos grandes e ferinos. Mas respirou fundo, cogitando uma provável confusão por parte da mulher – A senhora deve estar bêbada. Eu nunca tive família, muito menos uma mãe. Certamente me confundiu com alguém – preveniu, um tanto prestativa, e novamente dando as costas à mulher.
– Você foi criada até os cinco anos de idade por uma senhora, numa casa simples em Minnesota, e desde então passou a viver num orfanato de freiras. – disse, disposta a convencê-la.
– Como... – Alice arfou, incerta, voltando a se virar na direção da mulher – Como você sabe disso? – "Isso nunca esteve nos jornais..."
– Eu sou sua mãe, Alice. Não há engano nenhum, minha... minha filha!
– Já disse, eu nunca tive mãe! – protestou, agora a fúria dominando-lhe de forma completa. Após tantos anos... poderia ser verdade?
– Sim, você tem! – rebateu, tão teimosa quanto Alice, parecendo ceder às emoções que lhe turvavam os olhos – Foi de mim que você saiu, portanto é minha filha!
– Isso não importa! – sentiu que estava prestes a berrar, sua garganta recebendo um aperto extra pelo inesperado encontro – A maternidade não se resume em dar a vida a alguém, porque mãe é quem cria, quem sente amor incondicional pelo filho, e nunca teria coragem de abandoná-lo como se fosse um objeto inútil que não tem serventia – seu tom de voz aumentava gradativamente, cada vez mais rouco e descontrolado. Sentia-se tremer, tão desolada como quando pensou que sucumbiria de vez à queda que acabara de viver.
– Filha... – a mulher disse, sentindo um nó na garganta – Por favor, me perdoe! Eu era jovem demais na época, e estava apavorada com a responsabilidade de ter que arcar com a maternidade precoce...
– Não. Me. Chame. De. Filha! – falou pausadamente, tentando a todo custo controlar a raiva que sentia – E me poupe dessa história de merda de “ser jovem demais”. Você nunca quis saber de mim, teve tempo suficiente para se arrepender do que fez, mas nunca nem se deu ao trabalho de me procurar.
– Eu estou aqui agora. Você pode negar o quanto quiser, mas nada vai mudar o vínculo que temos de mãe e filha!
Alice riu com toda a frieza que conseguiu misturar à sua voz cada vez mais rouca e falha.
– Vínculo? – disse, com escárnio – Você sabe o que precede o vínculo entre mãe e filha? – fez uma pausa, esperando pela resposta, mas como a mulher permanecia em silêncio, Alice prosseguiu – É claro que você não entende! Nós teríamos essa conexão se você tivesse participado da minha vida, se eu pudesse contar com você nos momentos em que mais precisei de uma mãe. Se nós duas já tivéssemos perdido o fôlego de tanto rir de alguma besteira – as lágrimas finalmente começaram a cair raivosamente de seus olhos, sem trégua –, se eu tivesse confiado a você todas as minhas derrotas e vitórias, e você chorasse por mim, ou comemorasse comigo. Isso é ser mãe. Você não passou de uma barriga de aluguel. – atacou, querendo feri-la a qualquer custo.
Alice analisava cada detalhe da mulher à sua frente, com toda a dureza e determinação que pôde dar a sua feição, esperando que seu rosto não revelasse tudo o que estava sentindo ao ver-se diante de sua mãe biológica: raiva, dor e esperança – esperança de que ela realmente estivesse arrependida de todo o mal que causou ao não se fazer presente em sua vida – todos esses três sentimentos misturados difusamente em seu peito apertado.
Ela era um pouco mais alta do que Alice, e tinha enormes olhos castanhos de tom medianamente escuro, que agora estavam encharcados pelas lágrimas. As poucas rugas espalhadas pelo seu rosto revelavam que ela era de meia-idade. O cabelo curto e negro caía suavemente na altura de seus ombros, perfeitamente lisos. Não havia qualquer semelhança que explicasse o parentesco...
– Você nem ao menos tem curiosidade em saber meu nome, Alice?
– Isso não faz diferença. É um pouco tarde para aproximações agora!
– Meu nome é Lilian Thatcher – apresentou-se mesmo diante da indiferença que a filha havia acabado de demonstrar.
– Pouco me importa – mentiu, sentindo uma onda de frios na barriga ao conhecer o nome de sua mãe. Odiou-se por se permitir sentir aquele princípio de afeição apenas por conhecer um nome que tanto fez falta nos anos de sua vida. Um sobrenome que também deveria ter sido seu.
– Você tem todo o direito de me odiar...
– Eu sei! – Alice a interrompeu, fazendo Lilian encarar o chão por um momento, até que inspirou fundo e voltou a falar.
– Eu entendo se você não quiser tentar se aproximar de mim, mas eu queria que soubesse... – encarou a filha nos olhos – ...que você tem um irmão! E ele não tem culpa de nada disso...
– Um irmão? – sussurrou, derretendo a frieza do seu tom de voz na mesma hora em que pronunciou aquelas duas palavras. A hippie sempre viveu sozinha, nem conseguia imaginar como seria ter um irmão.
– Sim – Lílian sorriu –, é um ótimo garoto. Tenho certeza de que vocês dois se dariam bem.
– Quantos anos ele tem? Qual o nome dele? O que ele faz? – Alice não conseguiu conter a chuva de perguntas que saiu da sua boca, e mais lágrimas escaparam teimosamente de seus olhos.
– Tem dezoito. – sorriu com a curiosidade de Alice – Ele se mudou há pouco tempo para Gotham, e está trabalhando como taxista para tentar juntar dinheiro para a faculdade. O nome dele é William.
Nesse momento a cabeça da hippie começou a rodar, e pareceu que ela havia engolido uma enorme pedra de gelo, pois todo o calor de seu corpo foi severamente roubado, ou talvez brutalmente revertido ao frio que se apoderou de sua barriga.
– O Will...? – perguntou para si mesma, sem acreditar em seus ouvidos.
– Vocês se conhecem? – Lilian estava nitidamente surpresa.
Alice apenas assentiu com a cabeça, incapaz de falar diante daquela revelação.
“O Will é meu irmão!” – tentou convencer a si mesma – “Meu irmão caçula...”
– É muito bom ver que vocês já se conhecem, assim você tem dimensão do quanto ele é especial. Foi por causa dele que eu criei coragem para te procurar quando reconheci seu nome naquele jornal, Alice!
– Como? – perguntou, confusa, sem entender exatamente aonde Lilian pretendia chegar.
– Eu preciso da sua ajuda! – ela foi direto ao ponto – Na verdade, o Will precisa! Sei que agora você está namorando Bruce Wayne e que tem condições de nos auxiliar nessa hora difícil.
A hippie estreitou os olhos, recusando-se a acreditar no cinismo daquela mulher. Lilian continuou falando, sem perceber o quanto aquelas palavras atingiam Alice. Talvez se a suposta "mãe" tivesse o mínimo de conhecimento sobre a filha, perceberia no mesmo instante que aquele era um terreno perigoso.
– Seu irmão não tem condições de continuar trabalhando noite e dia como taxista e juntar migalhas para fazer a faculdade que deseja. – continuou – E eu não posso fazer mais do que já tenho feito por ele... – fez uma pausa, olhando hesitante para a filha, que agora adotava uma expressão impenetrável – Será que você não pode nos ajudar dando algum dinheiro? Isso não seria nada difícil já que agora você é a Cinderela de Gotham... – sorriu, como se tivesse acabado de verbalizar um valioso elogio.
Alice abriu a boca para falar, mas tornou a fechá-la, tentando medir as palavras com cuidado. Fechou os olhos e respirou fundo antes de demonstrar toda a cólera que sentia por aquela mulher em suas palavras calmas, porém cruéis.
– Você me procurou pra pedir dinheiro? – sentiu um enorme nojo da figura à sua frente que se dizia sua mãe.
– Entenda, Alice, não é por mim! O Will precisa da sua ajuda. E eu já queria te procurar muito antes de saber que você estava envolvida com o Wayne, e quando li essa notícia nos jornais...
– ... achou que seria uma bela oportunidade para dar um golpe, não é? – completou a frase, quase aos berros, na medida em que sua fraca voz permitia – Como você tem a cara de pau de vir até aqui pra tentar arrancar dinheiro de mim?
– Um dia você será mãe... E fará qualquer coisa pelo seu filho – disse, na defensiva.
– Nossa, é mesmo? – riu, arregalando os olhos com a ironia da situação – Eu espero sinceramente nunca ser uma mãe do seu nível!
– Não é por mim, Alice! – repetiu, como se aquele fosse o seu melhor argumento – É pelo seu irmão... Ele não tem culpa de nenhum dos meus erros com você.
– Vou deixar uma coisa bem clara, mamãe – pronunciou o tratamento repleta de asco – Nem todas as pessoas são meras aproveitadoras como você. Apesar do nosso triste laço genético, eu não compartilho essa sua sede em tentar tirar vantagem de tudo, e muito menos passar por cima dos sentimentos de quem quer que seja para conseguir o que deseja! Eu não vou pedir dinheiro ao Bruce. Isso pode soar estranho para uma mulher como você, mas eu não namoro aquele Almofadinha por causa do dinheiro.
Alice deu as costas para Lilian, sem esperar pela sua resposta, e andando rapidamente em direção à festa, sabendo que havia perdido a oportunidade de tentar ajudar Batman na captura do Palhaço. Só conseguia pensar no abraço que Bruce lhe daria... Nunca precisou tanto de um de seus abraços fortes e acolhedores como só ele sabia dar e a faziam sentir tão bem.... Ainda escutou o apelo suplicante e egoísta de Lilian antes de sumir de vista:
– Por favor, não conte nada ao Will... – pediu num tom encarecido, as palavras doendo em Alice tanto quanto o abandono em si.
Por toda a vida, a hippie imaginou como seria encontrar sua mãe... Na infância, fantasiava por horas o que uma diria à outra, e se ela seria capaz de perdoar o abandono e descaso de todos os anos ausentes em sua vida... Todas as suas expectativas relacionadas a esse encontro foram completamente frustradas! Alice podia esperar qualquer coisa desse primeiro contato, menos uma tentativa de estelionato... Aquilo era picaretagem demais, mesmo vindo de uma mulher sem escrúpulos que abandonara a própria filha...
Esses foram os pensamentos que a assombraram enquanto ela subia novamente até o 15° andar à procura de Bruce... Aliás, por que ele havia fugido da festa e a abandonado para a própria sorte? Ele praticamente entregou a cabeça de Alice em uma bandeja para o Palhaço! Se não fosse por Batman, certamente a hippie não estaria viva para a continuidade do que viria a seguir.
Mas isso era a última coisa que ela queria pensar no momento, discutiria esse assunto com ele depois! Agora só queria um abraço seu, e palavras doces que lhe dissessem que tudo ficaria bem, mesmo que soubesse se tratar de palavras ilusórias apenas para o seu conforto momentâneo...
O elevador parou bruscamente no andar do Bilionário, e ela agradeceu por não precisar mais ficar sozinha com seus pensamentos, que ultimamente tinham se provado seus piores e mais cruéis inimigos.
Quando entrou na cobertura, percebeu de imediato que praticamente todos os convidados haviam fugido, o que intrigou Alice por um momento, já que não viu ninguém passar por ela enquanto estava na rua com a sua... com aquela detestável mulher! Não pensaria nisso também. Não havia a menor importância em saber como as pessoas fugiram, pelo menos não naquele momento. Nem se deu conta da enorme bagunça que rodeava o lugar.
"Será que Batman conseguiu capturar Coringa?"
Aquele pensamento lhe trouxe uma estranha contradição de sensações... Queria que o Palhaço fosse preso, mas ao mesmo tempo não o imaginava por muito tempo longe de sua vida. Sentia raiva dele, por todas as tentativas de homicídio e todas as mentiras, mas não conseguia esquecer o toque viciante da língua úmida que dançava por sua orelha, provocando arrepios por cada centímetro de seu corpo, em completo êxtase pela sua simples presença. Irritou-se ainda mais. Ele tinha que aparecer logo agora, quando Alice finalmente julgava ser capaz de superá-lo.
Era como se os dois fossem pólos diferentes de um mesmo ímã; a atração entre eles era certa, porém o embate efetivo tornava-se impraticável, já que faziam parte do mesmo material. Para que concretizassem uma união, deveriam primeiro romper uma das extremidades do ímã, aquele ápice mais frágil. De um lado Coringa, tentando massacrar a pouca saúde mental de Alice. Do outro lado Alice, que julgava possível resgatar o que sobrou da sanidade de Coringa.
E os dois brigavam silenciosamente nesse joguinho eterno, para ver qual era o pólo fraco que quebraria primeiro e sucumbiria aos caprichos do outro, sem que nenhum deles ousasse admitir o quanto esperavam ansiosos pelo rompimento que daria possibilidade a uma relação mais íntima entre a Hippie e o Palhaço. Era apenas uma questão de tempo para que um deles cedesse.
Nem mesmo a própria Alice tinha consciência do quanto estava perigosamente envolvida pelo psicopata, na verdade ela acreditava cegamente que Bruce poderia ser seu porto seguro, e até aquela noite ele realmente havia sido, contudo, algo estava prestes a mudar para sempre dentro da hippie, algo que talvez contribuísse para que ela se tornasse o pólo mais fraco naquela injusta disputa...
Alice mantinha olhares atentos a cada canto do luxuoso imóvel na esperança de encontrar Bruce, contudo não havia qualquer sinal do anfitrião. Ela já estava começando a se irritar pelo sumiço repentino do Bilionário, quando avistou a cabeleira loira conhecida do Promotor, o motivo da calamitosa festa.
– Harvey! – chamou-o após um segundo gasto para lembrar o nome do homenageado, atraindo seu olhar – Você viu Bruce por aí?
Ele coçou o queixo ao responder:
– Na verdade eu não o vejo desde que ele me levou para um esconderijo dentro da cobertura...
Alice não escondeu a surpresa em seu rosto.
– Ele te levou para um esconderijo?
– Sim... Bruce disse alguma coisa sobre Coringa estar me caçando, e me fez prometer que eu ficaria lá, até que ele voltasse e me tirasse dali. Mas eu não aguentei esperar e acabei saindo! E agora vejo que aquele Palhaço espantou todo mundo...
"Não acredito... Ele protegeu o Harvey e nem se importou com a minha segurança, mesmo sabendo que eu também estava na lista de morte do Palhaço! Que cretino..."
Recompondo-se do choque que sentiu, Alice sorriu simpática para o Promotor ao perceber aqueles olhos azuis intrigados sobre ela por conta do seu silêncio prolongado.
– Tudo bem então... Vou procurá-lo mais um pouco! – começou a se afastar.
– Espere! Eu vou com você, também estou procurando pela minha noiva.
– Ela deve ter fugido como os outros convidados... – arriscou.
– Espero que sim... Mas se eu bem conheço o gênio da Rachel, ela deve estar me procurando e me xingando pelo sumiço – sorriu amavelmente, e o assunto morreu, ofuscado pela busca de ambos.
Os dois caminharam em silêncio, olhando atentamente para os lados e esbarrando algumas vezes na bagunça que todo aquele alvoroço com Coringa havia causado no luxuoso ambiente.
– Tenho pena da empregada que vai ter que limpar tudo isso amanhã! – Alice pensou em voz alta.
– Espera, não são os dois ali? – Harvey apontou para a sacada, quase no mesmo lugar em que ela havia sido jogada pelo Palhaço alguns instantes antes.
– Sim, são eles! – confirmou, reconhecendo-os imediatamente. Estavam debruçados sobre as pilastras, encarando-se sem desviar o olhar por nada, conversando. Aquela cena parecia um pouco estranha, talvez pela intensidade do olhar que cada um emitia ao outro...
Alice não soube ao certo o que mais a incomodou naquela cena, mas quando estava quase entrando na sacada, entendeu o que havia de errado... Percebeu o rosto dos dois cada vez mais próximos, até que seus lábios se encontrassem.
O beijo começou calmo, parecia que Alice era espectadora de um filme sem graça, longe de sua realidade. Ainda não estava conseguindo processar aquela informação que seus olhos insistiam em transmitir ao seu cérebro, até que percebeu a intensidade súbita com que os dois se tocavam.
Alice e Harvey apenas observavam, estáticos, sem reação nenhuma diante daquele terrível espetáculo. Bruce beijava Rachel com uma sede que parecia incontrolável, como se ela fosse um oásis em meio a um escaldante deserto, e ela correspondia com a mesma vontade.
Alguma coisa despertou dentro da hippie naquele minuto, e de um segundo a outro seus olhos faiscaram de repugnância e ódio, iniciando uma breve batalha interior.
“Dou os golpes de Kung Fu agora, ou quebro a cara da ruivinha primeiro?”
Nenhuma das duas coisas foi o que Alice decidiu fazer. Não deixaria Bruce saber que ele tinha essa importância em sua vida! A fúria camuflada em indiferença seria seu pior castigo, embora aquele beijo entre Bruce e Rachel deixasse bem claro para ela que não seria castigo nenhum para o Bilionário o término com Alice.
O Promotor continuava com a mesma cara inconformada e incrédula, mas a hippie não poderia culpá-lo pela sua falta de reação. Até um segundo atrás ela sabia que estava com a mesma expressão idiota de impotência pelo que presenciaram. Ainda bem que se recompôs antes que Bruce pudesse vê-la naquele estado.
A hippie aproximou-se mais do casal, que ainda se beijava longamente sem perceber a presença de Harvey e Alice, e começou a aplaudir freneticamente na frente dos dois, como se batesse palma a uma bela apresentação, reparando com satisfação no pulo de susto que eles deram ao se soltarem.
– Alice! – a voz de Bruce estava repleta de culpa, assim como o vinco preocupado entre as sobrancelhas.
– Bruce! – respondeu, como se o cumprimentasse – Por acaso você vai me dizer que pode me explicar e que não é nada disso que eu estou pensando? – bufou de raiva. Rachel não conseguia sequer encarar o noivo, mas Alice não tinha olhos para mais ninguém ao seu redor.
– Eu... não tenho o que dizer, Alice! – disse, simplesmente.
– Poderia começar dizendo o quanto você é idiota! – olhou para Rachel por um instante, e voltou sua atenção novamente para Bruce – Ela me lembra alguém – fingiu estar pensativa por um momento, e em seguida estalou os dedos, como se finalmente a reconhecesse – Já sei! Não foi ela que interpretou o papel da vaquinha propaganda da Parmalat?
Rachel a fuzilou com os olhos, falando pela primeira vez desde o flagrante.
– Quem você pensa que é para me julgar, sua riponga ridícula?
Encarando a ruiva com desprezo, Alice disse:
– Eu estou falando com a mula, e não com seus carrapatos!
– Por favor, Alice, acalme-se! – Bruce interveio, tentando apaziguar os ânimos, mas apenas conseguiu piorar o humor de Alice ao ouvir aquela voz irritantemente polida e controlada, nada apropriada para a situação.
A hippie riu, mais uma daquelas suas risadas frias que tanto estava usando ultimamente.
– Não me diga para ficar calma, seu besta! E não precisa se preocupar, Bruce, eu não tenho a menor intenção de estragar o relacionamento de vocês... Afinal, os dois são perfeitos um para o outro! Quem sou eu para interferir?
– Eu não tinha a intenção de...
– Você fica ainda mais patético tentando arranjar explicações... Seja homem pelo menos uma vez na sua vida e assuma o seu envolvimento com a Vaquinha de Presépio!
– Pra mim chega! – Rachel disse, irritada – Eu vou embora daqui. Vamos, Harvey.
Alice ficou olhando o Promotor segui-la feito um cachorrinho adestrado, e nem sequer conseguiu sentir pena do homem... Era lamentável sua falta de orgulho próprio! Tinha dom para ser corno manso...
– Eu também vou indo! – Alice disse quando os dois sumiram de vista – Não tenho mais nada para fazer aqui! Só tenho uma última pergunta, senhor Wayne, se não for abusar demais do seu precioso tempo. Há quanto tempo vocês têm um caso?
Ele suspirou diante da sua desconfiança e do tom formal que a hippie usou para se dirigir a ele.
– Nós não temos um caso! Foi um infeliz momento de fraqueza...
Bruce ia começar a tentar explicar de novo, mas Alice levantou os ombros, como se expulsasse um enorme peso de cima deles, e o interrompeu:
– Que bom pra você! – fez uma pausa para encarar novamente a angústia no rosto do Bilionário, sem em momento algum acreditar na veracidade daquela tristeza que escapava de suas feições – Não se preocupe, senhor Wayne, amanhã mesmo eu devolvo esse vestido.
– Não, Alice... – ele começou a protestar.
– Se o senhor fizer questão eu devolvo agora! – disse calmamente.
– Não é isso, só queria dizer que foi um presente, você não precisa devolver nada!
– Amanhã! – ela repetiu – Os sapatos eu já vou deixar aqui, prefiro ir descalça – tirou os enormes saltos dos pés, colocando-os na frente do Bilionário e ficando vários centímetros mais baixa e inegavelmente mais confortável ao livrar-se daquele aperto nos pés.
– Por favor, ao menos me permita levá-la para casa... Assim poderíamos conversar melhor!
Alice não evitou a risada desprovida de humor que saiu de sua boca.
– Bela piada! Muito obrigada pela gentileza, senhor Wayne, mas é como diz o velho ditado: "Antes só em casa de espeto de pau do que mal acompanhada em terra de cego". É alguma coisa assim...
– Se não me quer por perto, deixe que Alfred a leve então – ele praticamente implorou –, é perigoso andar sozinha por Gotham a essa hora da noite.
A hippie fechou os olhos com força, sentindo a sua expressão se comprimir em total fúria... Aquele comentário de Bruce a fez esquecer seu plano inicial de tratá-lo com indiferença, e ela se aproximou dele até deixar seus rostos a apenas um palmo de distância, desnivelados apenas pela diferença gritante de altura.
– Perigoso? Desde quando você se importa com a minha segurança? – começou a cuspir o que estava entalado – Foi muito mais perigoso me deixar sozinha nessa festa com Coringa. Talvez você não saiba, mas ele me jogou da sacada! – empurrou o peito de Bruce com toda a força que conseguiu juntar, mas ele mal se moveu – Ah, me desculpe, você devia estar ocupado demais tirando o tonto do Harvey de circulação pra poder se amassar em paz com a noiva dele...
Bruce segurou o rosto de Alice entre suas mãos, mesmo com os protestos da hippie, e reparou bem nos olhos inchados e na maquiagem um pouco borrada.
– Você esteve chorando? – passou delicadamente o polegar sobre uma fina linha preta que ia do seu olho direito até a curva do nariz – O que houve?
– Vai chupar meia! – gritou, furiosa, e se livrou do toque de Bruce, estapeando-o a esmo, cega pela necessidade de se afastar dali o mais rápido possível.
Ele ficou parado, fitando Alice caminhar irritada até a saída. E mesmo quando a hippie não estava mais lá, continuou naquela posição por longos minutos, mirando fixamente o lugar em que Alice estava, agora vazio... Nem percebeu quando Alfred se aproximou.
– Creio que a noite não tenha sido das melhores, Patrão Bruce...
– O que foi que eu fiz, Alfred?
– Acabou com a chance de manter um relacionamento saudável e duradouro com a senhorita Alice para viver poucos minutos de fantasia utópica e nostálgica com a senhorita Rachel – respondeu prontamente.
Bruce sorriu com a sinceridade cortante do mordomo.
– Bastava dizer: “Eu te avisei”...
– Como queira, senhor! Eu te avisei.
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Foi muito difícil para Alice conseguir manter o autocontrole na presença de Bruce, e agora ela agradecia por estar sozinha e não precisar mais conter as lágrimas que caíam teimosas pelo seu rosto enquanto caminhava.
– Desse jeito vai faltar espaço na minha testa pra tanto chifre... – riu amargamente – Mas pelo menos agora não pode ficar pior!
Uma estrondosa trovoada fez Alice pular de susto, e no mesmo instante começou a sentir grossos pingos de chuva caindo violentamente sobre o seu corpo, com uma intensidade repentina. Mas Alice não se importou. Ela adorava a sensação que advinha da chuva.
Era como sentir a própria alma sendo lavada. Gostou de perceber que suas lágrimas se camuflavam aos pingos que molhavam seu rosto, e de sentir o calor de sua pele sendo extraído pela tempestade, dos pés descalços que encontravam a frieza e a umidade do chão... Talvez ela ficasse doente, mas no momento nem deu importância para o fato.
Envolveu o próprio corpo com os braços, como se desse um abraço em si mesma, e continuou caminhando sem parar, com a cabeça um pouco baixa. Meia dúzia de rapazes bêbados estavam abrigando-se na calçada coberta por uma lona em frente a um bar, e suas vozes saíram totalmente embriagadas quando gritaram em direção à hippie.
– Ei, delícia! Tá cobrando quanto?
– Você não quer se esquentar aqui, princesa?
– Eu te seco!
Eles riram de um jeito abobalhado e continuaram gritando para ela, mas Alice nem prestava atenção, apenas revirou os olhos e manteve o ritmo da caminhada, concentrando-se unicamente no som da água que se espalhava pelo asfalto conforme ela avançava em suas passadas.
Continuou andando por alguns minutos e a chuva não dava trégua, caía cada vez mais intensamente. Não havia mais qualquer mecha presa no coque que fizera mais cedo para contar história, e o vestido, completamente encharcado, parecia pesar bem mais sobre o corpo arrepiado de Alice.
Agradeceu mentalmente por Bruce ter feito essa festa na sua cobertura, que localizava-se bem mais perto de sua casa do que a mansão. Sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao pensar na festa, e tudo o que havia acontecido naquele dia... Naquele único e fatídico dia amaldiçoado.
O que ela queria mesmo era saber como Coringa conseguiu escapar de novo. A imagem do Palhaço não saía da sua cabeça... Naquelas semanas que namorou Bruce, ele havia sido uma peça fundamental para que ela esquecesse – ou pelo menos fingisse que obteve êxito na tentativa de esquecer – o quanto Coringa a fascinava, de uma forma inegavelmente macabra, mas ainda assim ela sentia-se arrebatada por ele cada vez que o via. E agora que perdeu seu ponto de apoio em Bruce, a obsessão que ela sentia pelo Palhaço parecia ainda mais doentia e incontrolável.
Teria que lidar com isso sozinha agora. Bruce não fazia mais parte de sua realidade...
Finalmente viu-se diante de sua casa, e quando estava entrando, a chuva começou a parar, tão repentinamente quando começou.
Sentou-se no chão da sala, encharcando o local, e deixou que todos os seus cachorros viessem saudá-la, lambendo seus braços e pernas molhados, sabendo que aquele era o único tipo de afeição em que ela sempre poderia confiar.
Ficou por alguns momentos naquela posição, com a cabeça encostada na parede e os olhos fechados, tentando digerir todos os acontecimentos daquela única noite. Somente quando percebeu que seus cachorros estavam começando a ficar molhados também, decidiu que era hora de tomar um banho e se secar.
Foi até seu quarto e levou um enorme susto ao se olhar no espelho. De alguma forma, sua imagem lembrava demais a figura retorcida de...
Aproximou-se melhor do objeto refletor, tentando clarear a sua visão, e olhando-se de todos os ângulos possíveis. O vestido roxo, o cabelo bagunçado e a maquiagem borrada faziam com que ela parecesse o par perfeito para Coringa...
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