Timidez Natural
1 Oneshot
Notas iniciais
Timidez Natural
Ruki batia um pé no chão, tentando ficar calmo. Estava cansado de tudo isso. O resto da banda discutia qualquer coisa sobre iluminação e ria, gargalhava, interagia.
Eles pareciam à vontade, como se estivessem em casa, ou como se estivessem sozinhos. Era o que ele pensava ao observá-los.
Bem, seria tudo mais fácil se aquela coisa não estivesse ali.
Coçou a testa num ato inconsciente. Ele sempre fazia isso nessas horas, talvez para esconder um pouco o rosto ou para parecer mais casual, talvez só para fazer algo com a mão...
Em seguida, aprumou-se na cadeira.
Sentia o rosto queimar um pouco... Estaria com febre?! Não... Ele sabia que não, estava acostumado com essa sensação do estomago revirando, mas resolveu ignorar isso, o suor nas mãos e o provável rubor que tomava conta de sua face muito branca.
Em situações como aquela, Ruki apenas desejava ser alguém anônimo, ou simplesmente não ter contratado pessoas com coisas inúteis.
Precisava sair dali. Precisava fazer algo.
Ele estava....ofegante.
Quem sabe jogar uma pedra no homem cara-de-pau parado ali ou na droga do instrumento que ele segurava? Mas... não haviam pedras ali. Seu olhar correu, desesperado, a procura de algo que pudesse atirar no objeto.
Uma caneta, o notebook, um papel, um anel, um óculos, um maço de cigarros? Nada lhe parecia pesado o bastante para descontar sua raiva.
Foi mais ou menos nessa altura do campeonato, que percebeu o grau de sua loucura. Precisava se controlar. PRECISAVA se controlar. Abaixou a cabeça e suspirou pesadamente, o pé ainda batendo insistentemente no chão, cada vez mais forte, sem perder o ritmo.
Ruki resolveu começar a cantarolar. É, aquilo parecia uma coisa normal de se fazer. Escolheu uma melodia qualquer e cantarolou, com as mãos enrolando-se nervosamente. Como se não bastasse, seus olhos não conseguiam se fixar em nada e passeavam por todo o cômodo bagunçado. O loiro nem mesmo se dava conta da expressão, no mínimo engraçada, que exibia.
Foi quando seu olhar se cruzou com o de Aoi. Ruki só não entendeu o porquê de ele estar com aquele sorrisinho contido no rosto. Que...irritante da parte dele!
Perguntou o que foi.
Estava começando a ficar de mal-humor MESMO. Pra variar.
“Cara, relaxa.”
“Eu to relaxado” Ele tentava continuar parecendo convincente.
“Não ta não.” Disse Uruha, divertindo-se também.
Céus! Eles eram tão patéticos quando faziam isso!“É só uma câmera. Tente pensar que ela não ta aí.”
Ok, Aoi parecia calmo demais.O vocalista não conseguia acreditar que ele estava falando aquilo, lhe dando uma lição de como se comportar, NA FRENTE da câmera. Aquilo podia ir para os extras do DVD, ou ir parar na internet. Ele precisava disfarçar.
Soltou um sorriso amarelo, que não convenceu nem a si próprio, e respondeu:
“É, eu sei. Estou bem.”
“Sabe...você só não parece...natural.”
O que ele queria dizer com isso? Bufou. Como Aoi se atrevia a desmoralizá-lo em público?!
Percebendo, provavelmente, seu nível de irritação e desconforto, Reita cochichou algo no ouvido do guitarrista, o que conseguiu fazer Ruki sentir nojo. Odiava que o tratassem como criança. Sim, porque na cabeça do baixinho, era exatamente isso que estava acontecendo ali.
De repente, a gola da sua camisa pareceu estar mais apertada que o normal. Ele passou os dedos, esticando-a, tentando afrouxar, enquanto era acompanhado pelo olhar de compaixão de Kai.
O resto da banda continuava falando sem parar. Sentia-se excluído, ridicularizado e muito, muito mesmo incomodado.
Decidiu que precisava sair dali imediatamente. PRECISAVA sair dali, antes que enlouquecesse.
Bruscamente se levantou, fazendo todos olharem para ele, assustados. Aquilo era pior do que imaginava.
“Preciso...falar com a...Moru-san. Depois eu volto.”
Atropelando tudo, até mesmo as palavras que saíram de sua boca, saiu da sala.
Quando voltasse talvez estivesse melhor.
Ele fechou a porta atrás de si e encostou-se nela, olhando em volta para ver se não vinha ninguém. Nem uma alma viva.
“Graças a Deus.” Suspirou.
Deixou-se ficar parado, respirando fundo, apenas sendo natural.
Uma staff qualquer saiu de alguma porta do corredor, resmungando qualquer coisa sobre som.
Era Moru. Droga, Agora ele precisava achar algo para dizer a ela, para que não tivesse problemas futuros.Rápido, rápido.
“Boa tarde, Ruki-san. Você está bem?”
“Eu não pareço bem?”
“Era só o que faltava”.“E-É que... e-está um pouco pálido.”
“Ah! Isso? Foi uma queda de pressão. Já estou melhor.”
“Boa escapada! Você é um gênio, Ruki”.“É bom você tomar uma água, não? Vou à lanchonete agora.”
“Esta bem...Mas eu vou junto...Preciso de ar.”
“Pense em algo, Ruki.”
Ele tentava achar algo importante para dizer, enquanto caminhavam para a lanchonete.“Ah, Moru-san! Eu gostaria de rever a iluminação da ultima música do show.”
“Esta bem... estou com os papeis aqui, mas qual é a ultima música do show?”
Ele não lembrava. Tinham feito o Set List há dois dias e ele ainda não tinha parado para decorar.
“Ora... Isso não importa! Quero ver a iluminação”
A mulher ergueu uma sobrancelha, achando aquilo tudo bastante estranho, mas preferiu não dizer nada.
Na lanchonete, Ruki tomou um copo d’agua, comprou alguns chocolates e modificou alguma coisa insignificante na iluminação ultima música do próximo show.
Assim, quando voltou para a sala onde os outros membros da banda se encontravam, estava mais tranqüilo.
Devorou uma barra de chocolate na frente da câmera. É, aquilo lhe parecia bastante natural. Assim se passou o resto do dia e chegou a noite. A linda noite com uma gorda e clara lua cheia.
Já mencionei que Ruki adorava noites assim? Pois é, e adorava as noites em que, longe das câmeras, podia saborear um bom vinho e um jantar com os amigos. Noites em que não tinha nada demais pra fazer.
Chegou ao restaurante em que seus amigos estavam às 20:00h em ponto, apesar de estar marcado para 19:30, e encontrou Reita, Uruha, Kai e Aoi sentados à mesa.
Estava tudo bem, ele estava calmo e pediu desculpas pelo atraso. Foi quando sentou-se e sentiu um olhar divertido de Uruha sobre si, que sua santa e RARA paciência foi pelo ralo. A cada riso ou piada dos outros ele pensava que era de si.
Complexado? Talvez...mas aquilo foi irritando-o de tal forma, que no final da noite não dava nem sequer uma palavra.
“Aconteceu algo, Ruu?” A voz de Kai chegou aos seus ouvidos doce demais, como se estivesse com medo dele. Se tinha algo que Ruki odiava.... Ah, vocês já sabem o resto.
“Não, Kai. Por que?” Perguntou, áspero.
O baterista apenas balançou a cabeça, como quem diz para esquecer.
“Bem, na verdade é porque...” Começou Aoi.
“Eu não te pareço NATURAL?!”
O moreno apenas o encarou, surpreso com a sua irritação.
“Você me parece estressado.” Quem se pronunciou foi Reita, despreocupado,em seguida servindo-se de um pouco de vinho e bebendo.
“É.” Sem palavras, Aoi procurava não irritá-lo mais. “Mas não consigo entender porque.”
O vocalista suspirou. Talvez nem ele mesmo soubesse. Talvez tudo aquilo fosse uma bobagem.
“Estou cansado.” Respondeu, com vergonha. Ele não queria se mostrar fraco, mas no final sempre acabava parecendo uma criança arrependida.
“OK...Não importa nada disso agora.” Uruha serviu-lhe vinho também e ofereceu. “Estamos aqui para descançar”
“É, esqueça o trabalho, Ruu. Esse jantar é para nós.” Kai presenteou-o com mais um de seus sorrisos radiantes.
Ruki viu os quatro sorrirem junto para ele, com as taças levantadas. Sorriu também. O primeiro sorriso verdadeiro em semanas.
“À amizade!”
Ele disse, baixinho.“Amizade!” Repetiram, brindando. É, talvez tivessem razão. Talvez fosse melhor relaxar.
Mas só até o próximo dia da turnê. E as próximas malditas câmeras.
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