Time is the best spell
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Onze anos. A idade mais almejada por todos os bruxinhos finalmente alcançara Arthur. Tudo estava pronto. O caldeirão, os livros, seu uniforme. Talvez o caldeirão estivesse meio batido, os livros fossem aquisições antigas de seus irmãos e o uniforme fosse comprado em uma loja de segunda mão, mas isso não desanimava o menino que acarinhava a coruja cinzenta dentro da gaiola.
—Até que enfim, Marla! Mal posso esperar pra ir pra Hogwarts! Vou ser tão forte quanto o Scott e serei muito melhor nos feitiços que a Eireen! Quem sabe eu vire monitor como o Brody, mas o William disse que todos os monitores são babacas. Se bem que ele é um babaca maior ainda...
A coruja soltou um pio entediado. Seu dono não a deixara em paz desde que chegara à casa nova. Arthur soltou um risinho e foi checar seus livros pela nona, talvez décima vez.
—Parece que alguém está muito animado – Uma voz lânguida e suave penetrou no quarto do loirinho.
—Mamãe! – Arthur correra ao seu encontro, abraçando suas pernas – Estava contando pra Marla sobre amanhã! Estou tão tão tão tão feliz!
A mãe riu graciosa e retribuiu o abraço do pequeno. A cascata de cachos vermelhos emoldurava seu rosto cansado, mas muito bonito.
—Deve estar mesmo, querido. Não lembro a última vez que vi você ansioso assim. –Sentou-se na cama do filho trazendo-o consigo – Qual a primeira coisa que você vai fazer em Hogwarts?
—Formar um time de Quadribol! O Scott vive dizendo que sou uma negação pra isso...
—E é mesmo! – Gritou o irmão no cômodo ao lado.
Arthur berrou um “não sou!” de volta e fez um bico imenso, tanto que mal reparara no outro Kirkland que invadira seu quarto.
Brody fora direto para a escrivaninha minuciosamente arrumada, pegar a varinha de Arthur.
—Salgueiro e pelo de cauda de unicórnio. Vinte e três centímetros. Bem flexível. – Apontou o objeto para o irmão mais novo – Definitivamente uma varinha de menininha!
Arthur rolou os olhos verdes. Ao abrir a boca para defender-se, a gêmea de Brody interpelou:
—Não existem varinhas de meninas ou varinhas de meninos, seu imbecil! – A ruivinha apoiou-se no batente da porta, contrariada – As varinhas escolhem o bruxo e ponto final. Se existisse essa possibilidade, você deveria usar uma varinha de trasgo!
Arthur explodira em riso, assim como seus demais irmãos que aos poucos foram pipocando no apertado quarto. Nem mesmo a Sra. Kirkland conseguira se conter e disfarçar a gargalhada assim que Brody a fitou indignado.
—Ok, crianças. Chega de brincadeira. Eireen, você não devia falar assim do seu irmão. E Brody, eu sou menina também. Isso por acaso é motivo de fraqueza?
Os olhos da quarta cria se arregalaram.
—Claro que não, mãe! Você é diferente... você é incrível!
—E você é um babaca, Brody – Zombou Scott, enquanto William lhe descia um tabefe na nuca.
Não demorou para os irmãos recomeçarem a brigar, sem ao menos lembrarem do motivo inicial da discussão. No mar de bruxos, uma figurinha desajeitada e de pijamas corria para o colo da mãe.
—Mamãe! Eu quero ir pra Ogwats também!
—Oh, Peter! –Tomou o caçula em seu colo – Você vai precisar esperar mais um tempo. Faltam mais quatro anos ainda.
Peter e Arthur eram os únicos loiros da ninhada de Cordélia Kirkland. Tinham os cabelos do pai. Ao lembrar-se disso, não pode evitar um suspiro saudoso. Não iria chorar, pelo menos não na frente de seus filhos.
—Muito bem, pestinhas! Chega de briga e todos pra cama!
A manada disseminou-se para seus respectivos dormitórios, restando apenas a mãe e o penúltimo de sua prole. A Sra. Kirkland se preparava para apagar a luz e desejar ao filho boa noite.
—Mãe... – Começou Arthur – E se eu for pra Sonserina?
A bela mulher se virou e encontrou o olhar preocupado do filho. Sorriu com meiguice e lhe respondeu com aquela tranquilidade e afeição que apenas as mães têm:
—Arthur, uma vez um homem muito sábio me disse que são as nossas escolhas, mais do que as nossas capacidades, que mostram quem realmente somos. Portanto não se preocupe em qual casa você irá cair, tenho certeza de que você será um aluno espetacular em qualquer uma delas.
O peito do menino se aqueceu de gratidão, mas ainda havia insegurança dentro de si.
—Ainda sim tenho medo...
—O Chapéu Seletor leva em conta sua opinião. Basta você dizer a ele.
—Sério?!
—Claro. Funcionou comigo. – E com uma piscadela divertida, apagou a luz e deixou o pequeno sozinho em seus pensamentos.
Arthur ficara imensuravelmente aliviado. Aninhou-se na cama e fechou os olhos para sonhar feliz.
(...)
Era difícil se locomover em um trem em alta velocidade com tantas malas pesando nos braços magrelos, enquanto limpava a marca de batom da mãe em sua bochecha. Marla também não cooperava, piando irritada pela falta de jeito do menino ao carregar a gaiola. Se ao menos algum dos irmãos tivesse esperado por ele ao entrar!
Arthur cambaleava em busca de uma cabine vaga. Todas por qual tinha passado estavam apinhadas de estudantes, e sua fome apenas contribuía para o aumento de seu mau humor.
Finalmente, pela bênção de Merlim, encontrara um lugar.
—Oi... Posso ficar aqui?
De trás de um livro emergiu uma cabeça de cabelos muito pretos e olhos finos. Observou Arthur minimamente e acenou em silêncio, retomando a leitura como se não tivesse tido interrupções.
Arthur se sentou meio desconfortável à indiferença do novo colega, mas se ocupou em guardar sua bagagem e em acariciar a coruja ranzinza.
—Kiku – Disse a voz atrás do livro.
—Desculpe?
—Meu nome é Kiku. Kiku Honda.
As jades dos olhos de Arthur se arregalaram.
—Você é o sobrinho do Ministro da Magia? – Exclamou animado.
O menino do outro lado da cabine acenou mudo mais uma vez.
—Sou Arthur Kirkland. Deve ser legal ser parente de alguém como ele.
Kiku deu de ombros.
—Ele me dá livros. Pra mim isso é o suficiente.
Arthur achou um pouco rude Kiku pensar assim, mas como ele havia se enterrado atrás do livro grosso de novo, não falou mais nada.
A viagem seguiu tranquila. Vez ou outra alguma risada explodia nas cabines vizinhas, passos se intensificavam na frente da porta, mas dentro de sua cabine mantinha-se o mesmo silêncio. Arthur não se incomodou. Estava feliz simplesmente por estar ali.
Até a porta se abrir com um estrondo.
—KIKU, SOCORRO! – Berrou um menino muito vermelho. Parecia que correra uma maratona –ELES VÃO JOGAR BOMBAS DE BOSTA EM MIM!
Kiku fechara seu livro e o enfiara de baixo de uma almofada como uma mãe a proteger seu filhote.
—Eles quem, Feliciano? – Perguntou aflito, sua voz atingindo um tom agudo que causou espanto a Arthur.
—ELES!
Gritou enquanto se escondia inutilmente atrás da cortina, começando a soluçar em meio ao choro. Não tardou para Arthur descobrir quem eram “eles”. Os terrores de Feliciano apareceram no mesmo instante no batente da porta, mal se controlando de tanto rir. Um menino loiro e outro de estranhos cabelos brancos. Reconhecera apenas um.
—Alfred, você é genial! – Guinchou o de cabelos brancos. – Esse aí parece que vai molhar as calças!
—Eu sei, eu sei – Alfred recuperou o ar, exibindo leve prepotência – E aí, Kiku!
Kiku rolou os olhos puxados. Aquele caos todo lhe desperdiçava momentos valiosos de leitura.
—Qual o problema, Jones? – Sussurrou tentando omitir a impaciência.
—Só estou me divertindo um pouco. Essa viagem ‘tá um saco. – Penteou a franja amarela, ostentando um charme que com certeza não tinha. –Agora... Onde será que o nosso amiguinho chorão se meteu?
Feliciano tremia tanto que seu disfarce mudou de inútil para ridículo. O moleque de cabelos brancos não parava de gargalhar. Arthur não pôde se conter mais.
—Deixa ele em paz. – Rosnou baixo, pondo-se à frente de Alfred e Feliciano.
Alfred não esperava a interrupção, mas retomou a pose estreitando os olhos. Arthur viu o quão azuis eles eram, e sentiu que todos no vagão emudeceram. Jones soltou um risinho frio.
—Ora ora... sobrancelhas de Acromântula e roupas de segunda mão. Só pode ser um Kirkland.
Arthur exibiu uma carranca emburrada ao recém rival. O menino albino da porta soltou uma risada mecânica, provavelmente por hábito.
—E o que você vai fazer pra defender seu amiguinho? – Desdenhou Alfred, dando um passo a frente.
Alfred era poucos centímetros mais alto que Arthur e provavelmente mais forte, mas isso não o amedrontou.
—O suficiente para você se por no seu lugar, filhote de Comensal da Morte.
Kiku arregalou os olhos miúdos. O moleque da porta rumara pisando forte até eles, pela primeira vez exibindo uma feição séria.
—Não Gil – interrompeu pondo a mão no caminho do amigo – Eu vou mostrar pra esse sangue-ruim o lugar dele.
A ofensa não demorou aos ouvidos de Arthur. Ambos os punhos – o seu e de Alfred – se fecharam e ergueram-se no ar, cruzando em busca do rosto do outro.
—PETRIFICUS TOTALUS!
Arthur sentiu seu corpo congelar. O punho ficou a milímetros da boca de um Alfred também congelado.
—Mas que droga está acontecendo aqui? – Rugiu alguém.
Os passos rápidos e pesados avançaram sobre eles. Arthur adoraria saber quem o paralisara, mas o rosto pasmo de Alfred estava na frente. O pouco que pode captar é que era alguém bravo o suficiente para encarar um dragão sozinho.
—Gilbert, não faz nem três horas que você se separou do seu pai e já está se metendo em confusão? Seu irmão está te procurando como um louco e você o deixou sozinho com aquela sua bagagem inútil! E você! Não tem vergonha de sair correndo atrás de todo mundo ameaçando jogar bombas de bosta? Você acertou pra valer o Lovino e como se não bastasse foi amedrontar o Feliciano! Eu que devia dar uma surra em cada um de vocês! Ah, oi Kiku!
Ao ouvir o sermão de Alfred , Arthur mal pode acreditar. O emissor daquele rugido furioso se transformara numa menininha de longos cabelos castanhos. Se pudesse, estaria de queixo caído.
—Como você consegue fazer feitiços sendo tão nova?! – O tal Gilbert embasbacou-se.
—Se você parasse de perder tempo sendo um palerma e estudasse mais, talvez já soubesse como fazer feitiços também! A prática leva à perfeição! É o que minha mãe sempre diz e eu pratico pelo menos cinco vezes por semana e...
—Liz, eles ainda estão paralisados – Afirmou o fio de voz de Kiku.
—Quem? Ah! – Ela desfez o feitiço com um abanar de varinha e Arthur se sentiu muito melhor ao recobrar o controle do corpo – Me desculpe. – Se dirigiu a ele – Quis evitar uma briga pior e não vi outra maneira. Se vocês começassem a brigar poderiam se machucar sério, ou pior, poderiam ser expulsos de Hogwarts sem nem terem entrado lá!
—Tudo bem. – Murmurou trocando faíscas com Alfred.
—Sou Elizabeta Hedervary, ou Liz, se preferir.
—Arthur. Arthur Kirkland.
Alfred bufou em provocação.
—Pelo visto nesse trem é proibido se divertir. Vamos embora, Gil. O espaço ficou pequeno demais por aqui.
Gilbert concordou passando as mãos para a nuca, e os dois amigos saíram da cabine como dois maiorais de filmes americanos. Arthur nunca os achou tão estúpidos.
—Não ligue pra eles. – Consolou Liz – Gilbert está no segundo ano. É um idiota, mas é boa pessoa. Alfred é a mesma coisa. Chegou agora em Hogwarts e já quer impressionar.
—Pra mim são só dois idiotas – Disse Arthur voltando ao seu lugar.
Tudo amenizara e Kiku pôde voltar a atenção a seu estimado livro. Elizabeta se sentara com Arthur e ambos jogaram conversa fora até o esquecido Feliciano surgir de trás das cortinas.
—E-eles já foram?
—Já, Feli. Está tudo bem agora. – Protegeu a amiga.
Feliciano saiu de seu esconderijo e se posicionou na frente de Arthur.
—Obrigado por ter me defendido. – Disse com seus grandes olhos castanhos brilhantes de choro. – Você foi muito corajoso em enfrentá-los.
A comoção no olhar do menino deixou Arthur incomodado e Liz não resistiu em fazer troça.
—Para enfrentar o Alfred não é preciso muita coragem, Feli. Mas sim, a atitude do Arthur foi um amor.
Arthur sentiu as bochechas queimarem um pouco e suspirou um “não tem de que”.
—Você disse que... que o Alfred é filho de um Comensal da Morte? – Indagou Feliciano, tirando um embrulho dos bolsos e passando a comer seu conteúdo enquanto se sentava ao lado de Kiku.
—Ah, sim... A família dele, os Jones. Minha mãe trabalha como auror e já levantou várias acusações contra eles. Como eles são riquinhos e influentes, sempre se safam de alguma forma.
—Espera aí! – Liz deu um sobressalto – Você é filho da Cordélia? Cordélia Kirkland?
—Er... sim?
—OH MEU DEUS! EU SOU A MAIOR FÃ DELA! – Os gritinhos agudos da menina se evacuaram. Arthur pôde jurar que Kiku se jogaria nos trilhos para terminar seu livro sossegado. – Ela é incrível! Meu Deus! Quando você disse seu nome achei que fosse um primo, ou sei lá, mas meu Deus! Eu conheci o filho da Cordélia Kirkland!
O loirinho achou graça e não viu problema em contar várias das inúmeras aventuras pelo qual sua mãe passara, não poupando em reforçar o orgulho que sentia dela. Até uma Elizabeta muito acanhada lhe perguntar em um fiozinho de voz:
—E seu pai, Arthur?
Arthur já esperava essa pergunta, mas não havia ensaiado uma resposta. Olhou de relance para Kiku e Feliciano, e ambos já haviam se desconectado do assunto há muito tempo.
—Meu pai nasceu trouxa, mas sempre foi um admirador das artes bruxas. Minha mãe diz que ele sempre foi o melhor marido e pai do mundo, e que gostava de colecionar artefatos de bruxaria. Uma vez ele foi limpar um chifre de Erumpente da coleção e bem... ele derrubou sem querer.
Liz levou a mãozinha trêmula até a boca. Seus olhos esverdeados umedeceram de leve.
—A sala e a cozinha explodiram, e por pouco não pegou nossos quartos. Minha mãe estava grávida do meu irmão caçula, Peter. Só sei de tudo isso porque meu irmão mais velho, Scott, me contou. Só ele e a mamãe viram meu pai...
Suas palavras se perderam. Sem aviso, Elizabeta o abraçou com força. Força demais pra uma menina tão pequena.
—Sinto muito, Arthur! Eu não devia ter perguntado!
—Não tem problema. – Reconheceu dando fracos tapinhas nas costas da nova amiga que estava prestes a lhe partir uma costela. – É horrível, mas passou. A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
Liz o fitou deslumbrada.
—Você é tão corajoso, Arthur! Um legítimo Kirkland!
~Anos mais tarde~
Fazia um lindo dia de sol. Daqueles com céu tão limpo que até as nuvens ficavam preguiçosas e se recusavam a aparecer. Por sorte era um dia de folga, e Arthur e Kiku liam à sombra de uma das grandes árvores do jardim. Estavam agora no último ano letivo na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, com todos os exames finais feitos e ansiando pelas férias definitivas.
Arthur estava orgulhoso de seu desempenho. Se tornara um grande aluno da Grifinória, assim como todos de sua família. Um ícone em feitiços e poções, mas ainda era motivo de troça por parte dos irmãos por ser tão ruim em Quadribol. Nem tudo era perfeito, não é mesmo?
Kiku ia mais além. Como corvino, tirara nota E em todas as disciplinas e Arthur acreditava que o melhor amigo já tinha devorado todos os livros da biblioteca colossal da escola mais de uma vez.
O loiro estava tão focado na leitura que levara um susto ao ser abordado por um pequeno pomo de ouro. A bolinha alada sobrevoou sua cabeça ligeira e pousou em seu colo.
—E aí, Sobrancelhas? – Chamou a voz tão conhecida e tão detestada por Arthur.
—O que você quer, Jones? – Questionou cansado. Será que Alfred nunca iria crescer e parar com suas brincadeirinhas boçais?
—Nossa, quanta violência! – Zombou, atirando-se na grama despreocupado. – Pode guardar as pedras. Vim em missão de paz.
Vendo que calmaria e Alfred jamais dariam certo, Kiku juntara suas coisas e partira em retirada. Ao vê-lo levantar, Jones também o abordou:
—Kiku, avise a Hedervary que a Sonserina vai dizimar a Corvinal no Quadribol semana que vem. O jogo do ano passado foi trapaça dela que eu sei!
O asiático apenas concordou com educação forçada. Kiku adquirira um ódio silencioso por Alfred depois que este molhara seu volume novo de Mil Ervas e Fungos Mágicos, de Filida Spore. Alfred jurara que foi sem querer, mas nem assim conseguiu o perdão do japonês.
Indiferente à apatia do “agora não tão amigo”, Alfred se ajeitou ao lado de Kirkland.
Arthur achou que ele estava perto demais pra alguém que o odiava de forma tão recíproca, mas desviou o assunto.
—Ainda tem rancor da Liz por ela ter jogado aquele balaço em você?
—Foi de propósito! Ela tem sorte de ser tão boa em tudo o que faz... Caso contrário já teria me vingado. – Sentenciou, alisando o nariz agora levemente torto.
—Pensei que tivesse virado bom moço, agora que o Gilbert saiu da escola – Alfinetou o grifino.
—Eu sempre fui bom moço. O problema é o ponto de vista das pessoas.
Arthur deixou escapar uma risada de escárnio.
Alfred, para desgosto de Arthur, também se tornara um aluno e tanto. O rival brilhava na Sonserina tanto nas notas, quanto nos esportes. Colecionara certas detenções e cicatrizes que Argo Filch lhe presenteara, mas superou isso com novas traquinagens e uma malandragem ímpar para se safar.
O inimigo se calou e Arthur fez o mesmo. Mirou o campo, buscando algo para se distrair, e encontrou Feliciano –agora estudante da Lufa-Lufa– fugindo do sermão de Ludwig, o irmão brutamontes de Gilbert.
Tomou coragem e admitiu sua dúvida:
—Você veio falar do seu pai?
Alfred continuava sério. Isso era tão raro, mas permitiu que Arthur reparasse o quão Alfred também crescera. O maxilar quadrado, os olhos azulíssimos e até mesmo o nariz um pouquinho torto lapidaram o rosto de um homem. E um homem muito bonito.
Arthur engasgara com tal pensamento, mas o outro não deu atenção.
—Não. – Respondera com a voz grave. – Sua mãe fez o trabalho dela e meu pai sofreu as consequências do dele. Vim aqui por outro motivo.
O loiro da Grifinória aguardou em silêncio, a curiosidade mastigando suas entranhas.
—Vim pedir desculpas.
Arthur tentara guardar a risada com a mão, mas não se segurou. Alfred esperou pacientemente, não resistindo e sorrindo com sua reação estúpida.
—Ok, ok... você me pede desculpas, e aí? A gente dá um abraço de reconciliação até você jogar uma bomba de bosta em mim?
—Imaginei que você agiria assim. A ideia é até tentadora, mas estou falando a verdade.
—E qual a garantia eu ganho?
—...Confiar em mim?
Arthur fechou o livro ainda rindo. Alfred realmente era bom em piadas.
—‘Tô falando sério, Arthur! – Insistiu – Eu estou cansado! Cansei das ladainhas da minha família. Cansei de ser o prodígio dos Jones! Demorei, mas me toquei que vivia em um covil de cobras. Quero pensar por mim mesmo, agir por mim mesmo. Liberdade, entende?
Kirkland engoliu seco. Jamais esperava ver Alfred dessa forma.
—Eu sei que fiz muita merda. Não vou dizer que me arrependo de tudo, porque seria mentira, mas me arrependo de pelo menos da metade. A maior parte da metade! Eu-
Alfred buscara os olhos de Arthur e ambos se estudaram por um tempo que pareceu infinito.
—Eu não queria perder contato com você.
Arthur queria muito se convencer de que aquilo não o tinha atingido. As bochechas estavam em brasa pura, mas atuou com o marasmo mais dissimulado que conseguiu.
—E o que você propõe?
—Uma rodada de cerveja amanteigada no Três Vassouras? Minha conta.
O convite inusitado arrancou um riso genuíno de Arthur.
—Vou pensar no caso.
O sonserino ergueu a mão receoso, como se fosse acarinhar um pássaro arisco. Arthur, no entanto, não voou de seu toque. Provavelmente porque estava petrificado.
—Arthie, eu... sempre gostei... de você. – Confessou.
—Até quando me chamava de sobrancelha de Acromântula?
A risada de Alfred fora tão gostosa de se ouvir. Toda a prepotência havia se extinguido. Foi como acordar de um sonho bom.
—Eu sempre as achei um charme, sabia?
—Certo, nisso eu não acredito.
Os dois riram como crianças travessas.
—Talvez eu também goste de você – Revelou o grifino, enxugando uma lágrima divertida com a manga de sua capa.
—Eu sei. Seria muita imbecilidade sua não gostar de mim. Eu sou lindo, inteligente, incrível, um astro no Quadribol, o herói dos heróis...
—Ugh! Gostava mais de você quando te odiava!
Voltaram ao ar risonho, até Jones colar seus lábios com os de Arthur.
Fora um beijo de segundos. Centésimos, com certeza. Mas fora o suficiente para enrijecer os dois.
Alfred mal respirava, tremendo como se fosse receber uma detenção pelo que tinha feito. Arthur piscava atordoado, tentando captar o que tinha ocorrido.
Foi real. Eles se beijaram. Alfred o beijara.
E foi bom.
Sem pestanejar, Arthur tulipou suas mãos no pescoço de Alfred e o beijou de volta. Alfred agradeceu internamente e aprofundou a carícia, enlaçando os braços em torno de Kirkland.
Infelizmente, precisaram tomar fôlego. Arthur engolira o ar, mas Alfred continuava a distribuir pequenos beijinhos em torno de sua boca e rosto, como se não quisesse esquecer o gosto que Kirkland tinha.
—ALFRED E ARTHUR EMBAIXO DE UMA ÁRVORE SE B-E-I-J-A-N-D-O!
Liz apontava para eles, rindo até ficar roxa, acompanhada de algumas de suas amigas. Para se safar da ira eminente dos colegas, partira em disparada sem cessar a gargalhada.
—Eu vou matar a sua amiga! –Rugiu Alfred, pondo-se de pé e empunhando a varinha.
—Não se eu matar primeiro! – Acompanhou Arthur, manejando a sua.
—Sangue-ruim.
—Filhote de Comensal da Morte.
Deram um último beijo e partiram em busca de Elizabeta.
Correndo pelo campo, lembrara-se das palavras de sua mãe, há muito tempo atrás. Com certeza, as escolhas de Arthur e Alfred mostraram a eles, quem eles realmente eram.
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