Time Well Spent
32 Dia de Neve
Notas iniciais
P. O. V. Luna
O frio alucinante me acordou e a primeira coisa que constatei foi a cor púrpura que os meus dedos dos pés vinham adquirindo. Os enfiei em grossas meias de lã azul antes de atravessar o dormitório para olhar pela janela: Uma grossa camada de neve cobria os jardins de Hogwarts enquanto mais flocos ainda caiam.
Ótimo. Vai ser um final de semana perfeito para andar de trenó.
Estou sorridente enquanto visto um blusão de frio listrado e calço luvas rosas com bolas amarelas. Quando terminei, uma Mádi frustrada atravessou o dormitório, as galochas pretas que usava fazendo um barulho alto e irritante.
–O que aconteceu com ela? –Cho perguntou baixo para mim, a voz sonolenta.
Enruguei a testa dando de ombros em resposta.
–Está a fim de sair por aí de trenó? –Tentei sustentar uma conversa em meio a bocejos.
–Ah, claro. –Ela respondeu. –Não é como se meus finais de semana em Hogwarts fossem super ocupados, de qualquer forma.
Sorri gentilmente me adiantando para o baú que ficava em frente à cama na procura por um trenó verde-fluorescente que eu tinha certeza de ter trazido.
–Pode ir na frente, eu sei que está por aqui. –Murmurei após algum tempo, constrangida. Eu não deveria ter aumentado o fundo do baú com mágica e enfiado aquele tanto de tralhas lá dentro.
–Ah, sim. Tudo bem. –Cho disse, despreocupada.
Ouço seus passos se afastando e logo estou sozinha no dormitório, enfiando o braço o mais fundo que consigo no baú. Como se esperasse por essa deixa, ouço um barulho baixo na janela, como se alguém batesse suavemente contra a vidraça.
Estiquei o pescoço, incapaz de me desprender de imediato do baú, quando vi um lampejo branco contra o fundo cinzento do céu. Pensei ter sido apenas um monte de neve que se desprendeu do teto antes de ver de relance um dourado forte e então uma nova batida se propagou pelo quarto.
–Quem está aí? –Sussurrei, finalmente me desprendendo e me pondo de pé.
Não obtive resposta enquanto caminhava na direção da janela. Foi quando encarei os grandes olhos rubros, que se fincaram a mim por um instante. Sem dúvidas, era uma coruja. Suas penas tão brancas quanto a neve reluziam, se confundindo aos flocos que caiam ao seu redor, e o bico fez uma nova investida contra a janela, como se pedisse permissão para entrar. Empurrei a vidraça para o lado de fora, ainda hesitante, mas a criatura não entrou, se limitando a largar um envelope creme que trazia no bico em cima do parapeito.
Fiquei observando a coruja desaparecer em meio ao céu cinzento, se tornando apenas um borrão branco ao longe. Finalmente respirei profundamente antes de voltar os olhos para o envelope que trazia seguro entre os dedos, o verso estampando uma caligrafia elegante e familiar: Draco.
Rasguei a lateral para que fosse possível puxar um pergaminho amarelado do seu interior.
“Luna,
Eu conversei com o Snape e nós bolamos um bom plano. Se tudo der certo, eu não comparecerei às aulas durante a segunda-feira, então acho que não nos veremos até a terça. Sinto sua falta, Lovegood. Não esqueça que você é minha, ok?
Você sabe quem é”
Não pude evitar um suspiro frustrado. Eu passaria cinco dias sem sequer ter notícias sobre Draco, o que era ridiculamente angustiante.
Guardei a carta dentro de uma bolsa, no fundo do baú. Enquanto a colocava lá, encontrei o trenó verde em um golpe de sorte, puxando o objeto com dificuldade.
Me dirigi então aos arredores do castelo, tentando recuperar o ânimo com que acordei e varrer a memória da carta de minha mente. Desde quando a ausência de Malfoy me tornava uma garota tão dependente e melancólica? Aquilo me assustava seriamente.
–Ei, precisa de ajuda? –Eu estava no quarto lance de escada quando a voz rouca me pegou desprevenida.
O garoto alto e ostentando os símbolos da Corvinal parou à meio metro de mim. Seus cabelos castanhos estavam parcialmente cobertos por um gorro vermelho e suas mãos enluvadas tentavam puxar o trenó das minhas.
Eu considerei rejeitar o pedido, mas podia sentir meus dedos ficando dormentes ao redor do objeto nada leve... Por fim cedi e entreguei o trenó ao garoto murmurando um “obrigada”.
–Por nada. –Ele respondeu em um tom animado. –Sou Peter, novato por aqui.
–Luna Lovegood.
–Hum, eu espero que não soe extremamente como um aproveitador, mas estava pensando se não podia me ensinar a andar de trenó. –Seu tom era confiante quando continuou a conversa.
O encaro momentaneamente sem reação.
–Ah, claro. Por que não? –Enrugo a testa forçando um sorriso.
–Ótimo. –Ele sorri exibindo fileiras brancas de dentes impecáveis.
Alcançamos o portão da escola, o ar frio de inverno fustigando meu rosto e me arrancando um sorriso bobo. Apontei distraidamente para um monte relativamente alto de neve, de onde vários alunos desciam sobre trenós, apostando corridas.
–Podemos começar por ali.
–Certo. –Peter se adianta na minha frente, correndo até o monte.
Corro atrás dele até parar ofegante atrás de algumas outras pessoas que se amontoavam para descer também.
–Bom, o que fazemos agora? –Ele pergunta, um sorriso torto estampado no rosto. Por Merlin, o garoto era inegavelmente bonito. Espantei esse pensamento da cabeça enquanto encolhia os ombros.
–Você basicamente se senta no trenó e o empurra para baixo. Não esqueça de cruzar os dedos e pedir para cair em um lugar fofo. –Sorri.
Peter soltou uma risadinha baixa, parecendo envergonhado.
–Desculpa, eu vim do Sul. Lá nós não temos neve e tal.
–Relaxa.
Ele se senta no trenó quando chega a nossa vez. Assim que percebe que não o acompanho, ele enruga a testa e indica o lugar atrás de si para que eu me sente. Balanço a cabeça sorrindo sem-graça.
–Você não vem? –Pergunta por fim.
–Eu realmente não deveria. –Murmuro.
Algumas pessoas estão se amontoando atrás de nós na fila, o que me deixa nervosa.
–Droga, você tem namorado? –Peter indaga após alguns segundos, constrangido. –Desculpa...
Por Merlin... Eu não podia falar na frente de toda aquela gente que tinha um namorado, afinal os boatos corriam e ninguém poderia confirmar um caso comigo. Não tive opção se não negar com a cabeça, ao que Peter reagiu com um sorriso.
–Então senta aqui.
Droga.
Me sentei, segurando da melhor maneira que pude a cintura do garoto sem agarrá-lo.
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