Time Warp
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Essa é uma história que você não gostaria de ler, porém se lesse, teria vergonha de admitir que leu. Por que? Porque ninguém quer sabe da história de uma velha que vai ao bingo todo domingo com seu marido. Ainda mais se seu nome for clichê como Daisy. Sim, estou falando de mim. Meu nome é Daisy Williams, tenho 63 anos e moro com meu marido Bill, de 65. Moramos em um bairro lotado de crianças e famílias felizes, bem tranquilo assim como a nossa cidade que parecia ter sido esquecida pela violência do mundo. Sou casada com Bill desde que tenho 22 anos, namoro com ele desde os 16, foi o homem que tirou minha virgindade e meu... Como os jovens chamam? Bv, não é? Sim, foi ele, e não me arrependo. Desde então ele tem sido meu parceiro e companheiro na vida, me ajudando no que eu preciso em qualquer situação. Seu nome não era Bill para ser sincera, era Bernardo, mas ele achava Bill um apelido radical e o usava desde que tinha 13 anos. Bill tinha os olhos cinzentos e uma pele cor de café, usava um bigodinho farto e estava meio careca. Os joelhos estavam fracos, então ele usava uma bengala de madeira escura para se locomover, e mesmo com todos esses problemas eu ainda conseguia ver um jovem por trás daquele sorriso cansado, ouvir a voz forte que cantava melodias na minha janela por trás daquela meio rouca. O tempo podia ter levado a juventude e até mesmo um pouco da saúde do meu Bill, mas não havia levado seu espírito aventureiro. Nossa casa não era muito grande e só abrigava a nós dois. Era de madeira clara, com cômodos medianos e decorados com coisinhas em tons pastéis de rosa, amarelo, bege e etc. Haviam muitos babadinhos e fru-frus, assim como toda casa devia ter. Eu gostava e Bill também, e chamávamos de Nossa Pequena Casa da Barbie, ou Dollhouse, como você preferir. Nossa Dollhouse ficava em frente a macieira antiga da rua, sendo quase sempre protegida pelas folhas vastas e grandes galhos. Eu amava aquelas maçãs, volta e meia pedia para minha filha Chris pegar algumas para fazer algumas tortas e doces. Chris morava na rua debaixo em uma casa apinhada de crianças, me fazendo ter o total de quatro netos pequenos. Ela também tinha dois filhos já crescidos que haviam me dado dois bisnetos. Esses, obviamente, não moravam com ela. Minha outra fillha, Miranda, que era casada com uma jovem moça chamada Elaine. Elaine já tinha uma filha quando casou com Miranda, depois adotaram um menino. Eram felizes e eu amava essa felicidade. No natal, minha pequena Dollhouse ficava tão preenchida e feliz, eu e Bill amávamos as crianças brincando, nossas filhas e seus maridos bebericando umas coisinhas e comendo, era tudo muito maravilhoso por ali e eu jamais pensei que essa felicidade seria perturbada.
Fui com Bill para a cidade para fazermos compras de Natal quando ele viu uma pequena estatueta na loja da nova Miff.
— Dai!— Bill chamou baixinho, tirando minha atenção dos pisca-pisca de cores diferentes. Ele estava em frente ao balcão de esoterismo, olhando os santinhos e imagens. Apontou para um duende muito bonito e azul, que segurava um saquinho nas costas — Parece o Papai Noel, só que de outra dimensão, e está só 10 reais!
Cheguei perto de Bill e pousei minha mão na dele, abaixando o dedo de meu marido e lendo o nome do duende. Yonkie Donkie, o Duende Natalino. Peguei o duende e li embaixo, estava escrito para fazermos um desejo e ele corresponderia. Ergui a sobrancelhas e olhei Bill.
— Você quer um duende natalino que realiza desejos, amor?
— Todos querem um, Daisy — Bill disse, pegando o duende de minhas mãos suavemente e depois beijando minha face — Eu o achei bonito e as crianças podem gostar, a Licinha ama azul!
Meu marido saiu capengando com sua bengalinha em direção aos outros acessórios. Senti algo estranho na espinha quando pensei naquele duende me olhando, não sabia explicar muito bem o que era, só sabia que era realmente estranho sobre aquela pequena estatueta na mão dele. Ignorei aquela sensação ruim no peito e deixei de ser paranoica, voltando as minhas compras.
Saímos apinhados de presentinhos para colocar na traseira no carro, assim como alguns acessórios natalinos para a casa, a árvore e para Moly, nossa cadelinha. O dia havia sido cheio e eu estava indo com Bill para casa. Virei o carro na esquina lentamente, ouvindo a rádio antiga tocar alguns rocks bem baixinho enquanto meu marido assobiava alegremente ao meu lado, revezando os presentes como se quisesse lembrar de cada destinatário. Olhei de canto de olho e sorri no exato momento que ele pegou o tal duende, então perguntei.
— Qual desejo fará à ele, querido?
Fui surpreendida por um beijinho na bochecha e a voz doce de Bill em meu ouvido.
— Tudo que eu sempre desejei já tenho ao meu lado.
E foi contente que fui com meu velhinho para casa, contente também por ter comprado aquele duende. Ah, se eu soubesse o que nos esperava...
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