Time Warp

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Lets bora, migxs!

— Mariana e Teodoro mandaram lembranças para os senhores, mas estão viajando.

— Que gentil.

— Mariana está no Alasca com o marido, Teodoro está em Las Vegas com os amigos. Não sei até agora o que Marian foi fazer no Alasca.

— Ela deve gostar de neve, suponho.

— Estou é supondo que foram para uma segunda lua de mel com as maluquices de João!

— Então que seja fantástica.

Chris me passou o leite condensado e despejei devagar no liquidificador, enquanto fazíamos o pudim da ceia de amanhã. Eu tinha quatro netos brincando na sala e dois viajando, então não veria meus bisnetos no natal, o que me deixou realmente magoada. Minha casa pequena podia ser melhor que o Alasca e Las Vegas, mas sabe o que dizem de vó, não é? Coração tão bom quanto o de mãe. Eu não estragaria a segunda lua de mel de Mariana e nem a diversão de Teodoro, então teria que ficar feliz apenas tendo July, Francis, Laila e Peter amanhã da parte de Chris. Miranda traria Lucia e Kay, o pequeno oriental que havia adotado. Sorri para mim mesma, de qualquer jeito minha casa ainda estaria aquela gritaria que eu tanto amava.

— Sei o que está pensando — Chris disse, lendo minhas feições — Eles não te deixaram, mamãe.

— Ora! — Eu ri, deixando ela cuidar do pudim e indo descascar algumas batatas para o purê favorito de Elaine, minha maravilhosa nora — Que bobeira, Christiane! Só estou impressionada com o fato de ser no Alasca.

Chris me olhou intensamente nos olhos e eu sustentei o olhar de forma desafiadora, segurando uma batata gorducha nas mãos. Por fim suspirei e me dei por vencida.

— Eu somente sinto falta deles e dos meus bisnetos, posso?

— Pode, mamãe — Sorriu ela, voltando para o pudim — Mas pode admitir isso, sabia? É fofo demais.

Seguimos a tarde conversando sobre os filhos dela e sobre como Bill estava melhorando com a fisioterapia, tanto que havia ido buscar as crianças na escolinha e na creche com seu passinho lento. Como se quisesse ilustrar a conversa, a gritaria começou e eu explodi em um sorriso.

— Difícil domar vocês, ferinhas! — Escutei a risada rouca de meu marido tomando conta do hall da casa, seguida de risadas e vozes estridentes — Sua mãe e sua avó estão na cozinha, agora me deixem sentar porque já estou passando da data de validade!

Laila e Peter eram gêmeos, estavam na alfa. Francis estava na primeira série e July no quarto período. Laila veio correndo de mãos dadas com Peter, gargalhando, com as bochechas vermelhas. Eles dois abraçaram a mãe, mas claro que Francis veio em mim antes. Eu era a favorita dele.

— Vovó! — Berrou ele, com seu sorriso desdentado — Eu te amo!

Sorri e soltei as batatas, abaixando um pouco para beijar o topo da cabeleira lisa e negra como o céu a noite. Dei vários beijinhos ali até ser abraçada por July, com seus cachos arruivados.

— Eu amo mais a vovó! — Ela gritou, enquanto eu a beijava também.

— Não ama não, idiota! — Berrou Francis novamente — Ela é minha favorita!

July estendeu a língua para ele e me soltou, indo correndo para a mesa da cozinha e sentando-se, como se esperasse o café da tarde. Francis a seguiu, imitando um avião na ida, com os braços estendidos. Olhei para Laila e Peter, que estavam atrás da mãe. Estendi os braços para eles e eles olharam nervosos entre si.

— O que é isso? — Falei, sentindo uma mágoa grande brotar no meu peito — Chris, o que eu fiz agora?

Chris revirou os olhos e jogou as crianças para frente do corpo sem cerimônia alguma. Ela foi mãe cedo, aos 16 anos, não sabia como lidar com crianças até hoje. Revirei os olhos para a ação.

— Papai falou do duende para eles, disse que era o presente de Licinha e que era mágico. Aparentemente, Peter associou o duende com um ogro para ter tanto medo, argh! — Então Chris gritou, me fazendo revirar os olhos — PEÇAM DESCULPAS À VOVÓ!

Peter foi o primeiro. Com seu sorrisinho, ele me abraçou com sinceridade. Laila veio timidamente, depois o seguiu. Os abracei e tentei passar segurança, pensando que talvez não fosse apenas eu que odiava o bendito do duende.

A noite foi agitada na minha casa, com gorros natalinos e algumas canções e dancinhas das crianças. A animação estava no ar até a hora de ir embora, quando todos se foram e eu fiquei na sala, vendo televisão. De alguma forma, conseguia sentir aquele duende maldito me olhando e eu não parava de olhar de esgoela para o local que eu sabia que ele estava. A sensação ruim que ele me passava me deixava nervosa e já estava me tirando o sono, mas por que um duende daqueles estava me deixando mal assim? Não era possível, só podia ser coisa da minha cabeça. Suspirei e voltei a ver o programa, que mostrava jovens bonitas desfilando com vestidos de noiva super caros. Tentei pensar no meu casamento, que foi tão bonito e simples, mas nem isso me tirou a atenção do maldito duende.

Ok. Vencida.

Levantei e subi na ponta dos pés até alcançar o bendito. Ele me encarava, com seu sorriso congelado e olhos vidrados. Suspirei e li as instruções. Era somente desejar algo de coração que ele atenderia.

Ri para mim mesma. Como isso me botava medo?

Desejar algo...

Olhei para os lados, como uma criança que tem medo de ser pega no ato sapeca que fazia, assim como Peter olhava quando subia nos ombrinhos da irmã para roubar biscoitos caseiros em cima da prateleira da cozinha, que era baixa o suficiente para que ele fizesse isso. Encarei o duende e pensei no que eu mais queria.

Foi quando pensei em Bill.

Na mesma hora, fechei os olhos e desejei de coração.

— Quero minha juventude de volta junto com meu marido, para que possa ficar mais anos e anos do seu lado.

Foi quando aconteceu.

Senti um choque forte e estático na mão, que me fez gritar e soltar o duende no chão. O mesmo se espatifou em mil pedacinhos, mas pude jurar o vê-lo brilhando em um tom forte de azul antes disso acontecer. O choque me assustou e acelerou meu coração, me fazendo engolir em seco e querer chorar.

O que foi isso?

Fiquei encarando os caquinhos e pensando nas instruções, de olhos arregalados no escuro enquanto uma jovem gritava da televisão "É EXATAMENTE O QUE EU QUERO!"

— Querida? — A voz sonolenta de Bill soou no escuro, sendo acompanhada pelo som de sua bengalinha e de sua silhueta cansada no corredor — Você está bem?

Pensei em gritar que não estava, balançar a mão e chorar desesperada abraçada com ele no corredor, como uma jovem assustada quando vê um fantasma no seu quarto pela madrugada... Mas isso não fazia sentido. Bill não acreditaria e ainda ficaria bravo quando visse o duende quebrado no chão. Franzi os lábios, ainda em pânico, porém disfarcei e tentei sorrir.

— S-Somente me assustei com o filme de horror que passava...

Silêncio. Então, a voz de Bill com um tom cômico perguntou.

— Filme de horror com vestidos de noivas?

Olhei para a tv, depois para ele e juntei as mãos dormentes perante o corpo, assentindo lentamente.

— Vestidos podem ser horríveis.

Bill sorriu e veio capengando até mim, parecendo não notar o duende no chão. Beijou-me nos lábios e segurou as minhas mãos trêmulas, foi aí que se assustou.

— Daisy, você está tremendo! — Alarmou-se ele, arregalando os olhos — O filme é tão ruim assim?

— Horrível! — Respondi, abraçando-o devagar — Só seu peito pode curar um susto desses!

— Então venha, minha querida, vamos dormir juntinhos e afastarei os pesadelos.

Desliguei a televisão e segui Bill lentamente até o quarto, ainda apavorada e sem saber no que pensar.