Time To Let Go
3 Um Novo Dia, Um Novo Sentimento
Notas iniciais
Depois de uma longa e boa noite de sono, Lin acordou se sentindo revigorada e livre. Antes de sair do quarto, ela se limpou e se arrumou. Quando ela finalmente saiu, encontrou Han no andar de baixo, consertando um dos vários carros. Lin não desceu, apenas se apoiou no corrimão e olhou para ele com um ar de ironia. Demorou um minuto até que Han notasse que Lin estava parada, olhando para ele.
–Então você acordou! Finalmente, eu achei que você ia dormir a manhã toda. — Brincou Han.
–Não sou tão preguiçosa assim! — Retrucou Lin, ofendida.
–Hey, calma, era só brincadeira! — Disse Han, fazendo-a se acalmar. — Seu machucado está melhorando...
Lin passou os dedos pela testa (ela já tirou o curativo) e sentiu a fenda quase cicatrizada. Ela era vaidosa sim, mas não significava que ia dar piti por causa de um machucadinho. Talvez uma base, ou colocar a mecha da franja na frente ajudasse...
–É, eu só espero que não fique marcado. – Disse Lin, descendo a escadaria.
Ela parou em frente ao carro que Han estava consertando. Era um esportivo azul-marinho, com algumas faixas alaranjadas. Ela o examinou desde as rodas até o capô.
–Você sempre acorda cedo para consertar carros? – Ela perguntou.
–Não. Mas hoje eu fiquei com vontade, e quis aproveitar que a garagem está vazia, por enquanto. – Ele respondeu.
Lin direcionou seu olhar para as “casinhas de cachorro” onde as outras garotas dormiam, e fez cara feia. Han percebeu e a tranquilizou.
–Relaxe, elas não acordam antes das duas da tarde. – Disse Han. – E também não ficam aqui o dia todo. São modelos, sabe. Fotografam a tarde toda e a noite, elas tomam todas na sala aqui do lado. – Ele apontou com a cabeça, para uma porta fechada.
–São modelos de revistas que tem fotos de mulheres peladas, né? – Brincou Lin.
–Não vou mentir... algumas delas sim. – Respondeu Han.
Lin olhou no relógio da parede e percebeu que eram 09:30 da manhã. Geralmente, as lojas de Tokyo costumam abrir nesses horários. Ela teria que sair agora se quisesse comprar as roupas.
–Eu vou sair, tenho que fazer umas compras. Não vou demorar. – Disse Lin.
Quando Han notou que Lin estava saindo a pé, rapidamente a impediu.
–Ei, você não vai a pé, vai? – Ele perguntou.
–Bem, não dá pra dirigir a minha lata amassada. – Ela ironizou.
–Pegue um dos meus. – Han jogou uma chave para Lin. – É o Nissan preto e azul. – Ele apontou com a cabeça novamente, para o carro.
Ela estranhou a atitude. Ele estava fazendo isso por duas razões: 1 – Não ligava para emprestar carros, ou 2 – Estava sendo romântico com ela.
–Ok, obrigada. – Disse Lin, com uma expressão surpresa. – Ah, e á propósito, o estilo Casanova não combina com você. Bad Boy é mais parecido. – Ela pôs um sorriso no rosto e saiu com o carro.
Assim que o carro saiu da garagem, Han sussurrou para si mesmo:
–Ela saiu sem comer...
Era verdade sim. Na verdade, Lin detestava tomar café da manhã, nem que fosse uma simples fruta. Para ela, comer de manhã causa enjoos. O motivo, nem ela mesma sabia.
No meio da estrada, Lin se sentia poderosa, com os vidros abaixados e o vento batendo no cabelo. Se isso fosse nos Estados Unidos, estaria tocando “Highway To Hell” de AC/DC no carro. Mas como era no Japão, claro que tinha que estar tocando uma música japonesa.
Por mais que Lin estivesse se sentindo ótima, ela não podia estragar o carro. Se não, ela pensou que Han poderia lhe arrancar o couro. Ela estacionou o carro em um Shopping, que a esta hora, já estava aberto.
Para a sorte de Lin, estava quase vazio. Só tinham umas cinco pessoas em cada loja, no máximo. Ela aproveitou a oportunidade e foi de loja em loja para comprar as mais lindas e sofisticadas roupas. Assim que comprou o primeiro conjunto, já aproveitou para trocar de roupa, já que a dela estava um tanto chamativa. Era uma simples blusa branca estampada, com uma calça preta.
Quando Lin acabou suas compras, ela partiu com o carro de volta para a garagem de Han. Porém, antes de chegar lá, ela decidiu comer algo, já que ainda não tinha comido nada, o dia todo. Parou em uma espécie de barraquinha, que ficava perto de uma escola, e pediu um sushi carregado de frutos do mar (além de peixe, é claro). Como ficava perto de uma escola, e estava no horário de almoço, alguns alunos que não comiam na cantina da escola almoçavam nessa barraquinha. E naquele dia, uma das alunas foi Neela, a namorada de DK.
Quando Neela avistou Lin (que estava esperando o sushi ficar pronto), a reconheceu na hora, largou o grupinho de amigas e foi falar com ela.
–Hey! – Chamou Neela, amigavelmente. – Você não é a garota que apostou corrida com DK?
–É, sou eu. – Respondeu Lin, em um tom de ironia. – Por quê? Ele te mandou pra cobrar o carro que eu estou devendo pra ele?
–Não, eu não costumo me meter nos negócios dele. – Respondeu Neela. – Só queria te dizer que, mesmo perdendo, você foi uma das melhores oponentes dele até agora! Sério, eu nunca vi ninguém correr daquele jeito.
–Obrigada, mas eu não me acho tão boa assim. Se eu fosse, teria vencido aquela corrida... – Disse Lin. – Você corre?
–Hmm, depende. Eu não corro no estacionamento, mas eu corro em outros lugares. – Respondeu Neela.
Nesse momento, o cozinheiro da barraquinha anunciou que o pedido de Lin estava pronto.
–Por que você não almoça conosco? – Sugeriu Neela. – Eu queria muito conversar um assunto que não fosse... – Neela olhou para suas amigas – cabelos, maquiagem e garotos.
Lin não conseguiu segurar a risada, porém, aceitou o convite de Neela. Enquanto as amigas de Neela se sentavam mais afastadas, ela conversava com Lin sobre todo o universo que envolvia carros, Drift e a emoção de correr.
–Ah, então você corre nas montanhas. É, parece ser um bom lugar pra treinar. – Disse Lin.
–É um lugar perfeito. Não tem brigas, não tem polícia e nem qualquer outra coisa que te impeça de correr. Somente você e a estrada. – Disse Neela, em um tom nostálgico. – Devia vir comigo qualquer dia desses, iria ser legal!
–Seria mesmo. – Lin se levantou da mesa. – Qualquer dia seria bom. Mas agora, eu tenho que ir. Espere aí, hoje à noite vai ter alguma corrida?
–Sim, no estacionamento, como sempre. Todos vão lá todas as noites que tem corrida, eu, DK, Twinkie, Reiko, Earl e o Han também. Você devia vir junto. Até porque, eu estou com uma certa impressão de que o Han gostou de você... – Neela deu uma risadinha leve.
–Fala sério. – Lin revirou os olhos. – Eu posso até ir, mas não posso correr. Meu carro já era, eu tô usando um emprestado!
–O Han não tem uma oficina gigante cheia de carros? Qual é, um carro não vai fazer falta. – Ironizou Neela.
–Peraí. Como você sabe que eu peguei emprestado do Han? – Perguntou Lin.
–De quem mais poderia ser? Novo, tunado, chamativo... Só o Han faz carros desse tipo. Ele quem construiu o meu, sabe... O do DK também. – Disse Neela. – Pode ser que ele construa um pra você.
–Mas ele me conheceu ontem! – Retrucou Lin.
–E daí? Não existe um determinado tempo pra se apaixonar por uma pessoa! – Neela caiu na risada novamente.
–Pela última vez, não estamos apaixonados! – Disse Lin, indo embora.
–Não se esqueça de ficar sexy para ir ao estacionamento hoje à noite! – Disse Neela, ao longe, de um jeito que só Lin escutou.
Lin dirigiu de volta para a garagem de Han, pensando no que Neela havia lhe dito. Han havia sido gentil com ela, lhe emprestado um carro e deixá-la morar com ele. Havia sim essa possibilidade de Han ter aquela paixão a primeira vista por Lin. Mas se isso iria evoluir para amor, ninguém sabia.
Chegando lá, era começo de tarde. Umas duas horas, mais ou menos. Lin estacionou o carro e já viu algumas das modelos saindo para trabalhar e jogando charminho pra cima de Han (que, é claro, retribuiu).
Vadias, Lin pensou. Ela detestava se comportar daquele jeito promíscuo e obsceno, mesmo tendo que se comportar assim nas corridas. Mas o pior foi ver Han dando trela para aquelas magrelas. Mesmo sendo apenas uma distração para ele, ela sentiu uma pontada de ciúmes.
Han estava sentado no sofá da sala (onde esteve com Lin na noite anterior), assistindo um jogo de baseball e bebendo cerveja. Lin pegou todas as sacolas de compras e subiu as escadas. Mesmo naquele visual mais simples, arrancou alguns olhares de Han.
–Ei, Han. – Ela disse, passando por ele e indo em direção ao quarto.
Han nem teve tempo de responder, pois ela foi praticamente correndo até o quarto para não ter que olhar muito para Han e se lembrar da conversa que teve com Neela. Assim que Lin fechou a porta, largou as sacolas na cama e suspirou de alívio. Pensou um pouco no que diria a Han quando saísse dali, mas as opções não pareciam boas. Porém, ela não poderia ficar ali para sempre. Pegou uma escova e penteou os cabelos, fazendo um rabo de cavalo com a franja para fora, para esconder o machucado. Respirou fundo e saiu do quarto.
Tentou parecer normal e calma, mas as suspeitas caíram assim que Han ofereceu um lugar ao lado dele e ela foi sentar no outro sofá. Han ficou confuso, mas resolveu não questionar.
–Isso é baseball, não é? — Ela perguntou. — É que eu não entendo muito de esportes.
–É sim. — Ele respondeu.
Depois de alguns minutos de silêncio constrangedor, ela resolveu o quebrar.
–Esse lugar sempre fica vazio? — Ela perguntou, arrancando uma risadinha dele.
–Está agora. Tem que ver como fica depois de uma corrida... — Ele respondeu.
–E como não estava cheio ontem? — Ela perguntou.
–Não estava cheio porque eu disse que não teria festa depois da corrida ontem. — Ele respondeu. — Falando em corridas, vai ter outra hoje à noite. Quer ir comigo?
–É eu já sabia. Vamos sim, contanto que eu não dê de cara com o DK. — Ela respondeu, fazendo-o rir outra vez.
–É impossível. Ele sempre está lá. — Disse Han.
–Mas é claro, burrice a minha. — Lin revirou os olhos.
Ficaram em silêncio novamente, quando disfarçadamente, Han começou a olhar para Lin, ao invés de olhar para a TV. Naquelas roupas e no cabelo preso, ela lhe lembrava mais ainda Gisele, em todo aquele seu jeito "dominador feminino". Ele observava cada sorriso de canto que ela dava, sem o encarar. Sua face pálida, porém angelical.
Se controle, Han! Ela é a Lin, não a Gisele! Gisele não vai mais voltar... Ele dizia para si mesmo, tentando controlar os pensamentos em direção à Lin. As duas eram tão parecidas e diferentes ao mesmo tempo. Mas se Han fosse se apaixonar por Lin, tinha que ser apenas pela Lin, não pela Gisele que ele viu nela. E era possível, pois Lin havia vários atributos diferentes dos de Gisele. Estava perdido em pensamentos quando ouviu a voz dela lhe chamar.
–Ah, Han, eu esqueci de te devolver as chaves do carro. — Disse Lin, tirando as chaves do bolso e entregando a Han.
–Não, não, pode ficar. Você está sem carro, não está? — Perguntou Han.
–Estou... mas o carro é seu... — Ela respondeu, meio sem jeito. — E eu já dormi aqui, já usei o seu carro... eu estou abusando da hospitalidade.
–Quem disse que está? Vá por mim, pode abusar à vontade. É a melhor companhia que tenho há meses. — Ele disse.
Lin sentiu as bochechas corarem levemente e se virou para o lado, para tentar esconder. Que patético. Uma mulher de 23 anos ficando com vergonha perto de um homem... Ela pensou, depreciando a si mesma. Será que o que Neela havia lhe dito era realmente verdade? Mas de todo modo, estavam indo rápido demais. Se conheceram no dia anterior!
Ficaram em silêncio pelas próximas horas, parecendo um casal de adolescentes com vergonha um do outro. Lá pelas 5 horas, Earl, Reiko e Twinkie chegaram na garagem para começarem a arrumar seus carros para a corrida da noite. E chegaram fazendo muito barulho, por sinal.
–São eles os seus amigos colegiais? — Perguntou Lin.
–É, são eles mesmos. — Respondeu Han, observando a bagunça que estavam fazendo. — Vamos lá. — Ele se levantou e ofereceu a mão para ajudar Lin se levantar.
Lin e Han desceram as escadas, indo em direção a Earl, Reiko e Twinkie. Lin já conhecia Twinkie, mas ainda não conhecia Earl e Reiko.
–Hey Twinkie! — Disse Han, cumprimentando Twinkie. — E aí? Vai correr hoje?
–Não sei, talvez não. Não tô a fim de ser massacrado pelo DK. — Disse Twinkie.
–É, uma vez já foi o suficiente, muito obrigada. — Disse Lin, chegando mais perto.
–Ei, você é a garota da noite passada! A que correu com o DK e saiu com a testa machucada! — Disse Twinkie.
–É, sou eu... — Ironizou Lin.
–Nossa, o jeito que você desafiou o DK foi muito maneiro! Só não falei isso antes porque ele estava por perto, mas agora... — Disse Twinkie.
–É, muito engraçado Twinkie, mas agora chega. Guarda as piadinhas pra quando estiver frente a frente com ele. — Disse Han. — Agora, pessoal — Ele apontou para Lin. — essa é a Lin. Ela vai correr conosco todos os dias, a partir de agora.
Twinkie, Earl e Reiko se apresentaram rapidamente (Twinkie se apresentou de novo). Lin teve que falar japonês com Reiko, pois ela não falava inglês fluentemente.
–Pois é, falando em corrida, nós temos que arrumar os carros pra corrida de hoje à noite. — Disse Twinkie. — Eu não vou correr, mas eu tenho que chamar a atenção das gatas!
Todos reviraram os olhos ao ouvir isso. Passaram as próximas duas horas arrumando os carros. Fazendo revisão geral e coisas do tipo. Comeram uma espécie de Yakissoba gigantesco (Twinkie foi o que mais comeu) antes de tomarem banho e se vestirem. Lin vestiu uma blusa roxa, meio decotada com uma saia preta. Colocou acessórios, como brincos, colares e um cinto. Nos pés, sua boa e velha bota de cano longo, que nunca deixava pra trás quando ia correr. Os cabelos, soltos num penteado sexy e ousado. Também colocou o seu característico perfume doce, que além da bota, era a única coisa de que não abriria mão.
Assim que todos se encontraram no andar de baixo da garagem, pegaram as chaves dos carros e saíram (cada um no próprio carro). Em seu carro, Han sorria ao pensar em Lin, e no quanto ela ficou linda e sexy com aquela roupa. É, algo estava acontecendo com ele para pensar em Lin o tempo todo. Lin sentiu a mesma coisa quando viu Han tão bem vestido, como se fosse um galã, ou algo do tipo. Sem falar na colônia dele, que deixava Lin extasiada.
Assim que chegaram no estacionamento, encontraram Neela e, infelizmente, DK. Neela chamou Earl e Reiko para arrumarem seu carro, como sempre faziam. Twinkie foi "caçar gatinhas", como dizia. Neela aproveitou e chamou Lin para o lado dela, antes que DK fosse falar com Han.
–Oi, Neela. — Cumprimentou Lin. — Então você vai correr mesmo?
–Vou. Não contra o DK, mas eu vou sim. — Respondeu Neela. — Mas e aí? O que aconteceu entre você e o Han?
–Neela, eu já disse que não aconteceu nada! — Respondeu Lin, corada. — Fala sério, o que ele iria ver em mim com todas essas garotas aqui?
–Ele iria te enxergar como a única que não é artificial. Tente se aproximar mais dele, dá pra ver que vocês dois se gostam! — Disse Neela.
Em certo ponto, Neela tinha razão. Han e Lin se gostavam, mas ambos estavam com vergonha de admitir. Na verdade, Lin estava esperando aquilo evoluir para algo mais forte. Ela queria amar Han. Mas isso exigia algum tempo para se desenvolver.
A corrida foi excelente aquela noite. Neela venceu a sua, Twinkie resolveu correr, mas acabou perdendo. Até mesmo a tímida Reiko tentou correr. Ela perdeu, mas correu muito melhor do que Twinkie. Nenhum dos três correu com DK.
E assim, os dias se passaram. Uma semana naquele ritmo. Durante essa semana, em quatro noites, tiveram corridas e festas. Às vezes, quando Han estava com suas marias-gasolina, ele as largava para ficar com Lin. E ambos já estavam mais à vontade, um com o outro, só que ainda estavam desenvolvendo os sentimentos. Han se esforçava para diferenciar Lin de Gisele o máximo que podia. E estava dando certo. Só que pra aquilo evoluir de vez, iria precisar da ajuda de um garoto americano recém chegado, chamado Sean Boswell.
Continua.
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