Time
4 Memórias
Notas iniciais
- Cara, quando é que ele ficou tão pesado de repente? – Reclamou Gaz.
- Bem – Disse Brian, olhando para o chão enquanto passava. – Deve ter sido na escada que passamos há pouco tempo. Mas não estou achando ele tão pesado assim. – Olhava para o chão e para trás, enquanto levavam o corpo do rapaz adormecido para o pátio do templo.
- Bom, deve ser porque não estou acostumado a carregar peso. – Respondeu Gaz, ajeitando o corpo do rapaz que escorregava pelos seus braços suados. – Falta muito para chegarmos ao pátio? — Perguntou, já que estava andando de costas.
- Acho que não. Estamos quase lá. – Disse Brian, olhando além. – Aguente mais um pouco só.
Cerca de alguns minutos depois chegaram ao pátio. O pátio era a área central do templo, e provavelmente, a maior de todas, pelo menos, do que eles pensaram que seria. Era simplesmente um espaço a céu aberto, com fontes de água, pequenos jardins e estátuas por todo o lado. Mas o que chamava a atenção era o fato de ter três portas enormes dispostas uma ao lado da outra estarem ali como se fosse algo normal.
- Esse lugar... É enorme – Disse Gaz, soltando as pernas do rapaz próximo a uma fonte de água. Brian soltou as mãos e começou a testar a temperatura colocando alguns dedos por debaixo d’água.
- Bem. Acredito que aqui seja a moradia de algum deus, ou algo assim. – Respondeu Brian, arregaçando as mangas da camisa e lavando as mãos. – Me ajude aqui, tire a camisa dele, assim a gente não suja ela na hora de colocar a água na boca.
- Não vou fazer isso. – Disse Gaz, dando um passo para trás. – Isso já é demais. Não acha melhor usar uma vasilha para fazer isso? E outra, eu tenho algumas roupas na minha mochila, posso emprestar uma para ele...
- E onde conseguiríamos essa vasilha? Se estivermos mesmo numa moradia dos deuses, e vendo o tamanho das estruturas aqui, provavelmente a vasilha deve ser quatro vezes maior do que a gente. Isso se tiver uma vasilha aqui. Anda, desbotoe a camisa, rápido.
- Verdade. – Disse Gaz, depois de uma pausa. – Bem, vamos ver isso então. – Disse pouco satisfeito. Andou até o corpo e se agachou até próximo ao peitoral. O rapaz tinha cabelos brancos e barbas brancas, assim como as suas roupas, que eram todas brancas, com exceção do cinto cinza que usava para guardar algumas adagas que lhe chamaram a atenção vagamente.
Devagar, Gaz foi retirando o manto branco que estava por cima de uma camisa simples, também branca.
- E agora? Teremos que levantar o corpo, puxar a camisa e... – Disse Gaz, fazendo uma cara feia. Não queria fazer aquilo. – Ah, quer saber – Disse, mudando de ideia. – Depois eu dou uma camisa minha para ele. – Puxou a camisa pelo centro, e a rasgou com toda sua força, fazendo-a em três pedaços.
- Então tudo bem. –Disse Brian, apenas observando o peito nu do rapaz. – Ele até que está em forma.
- Isso não importa. Vamos pegue um pouco de água com a mão. – Disse Gaz, abrindo a boca do rapaz para a passagem da água. – Não acredito que estou fazendo isso. – E quanto mais abria a boca, mais afastava sua cabeça, fazendo uma careta. – Anda logo, daqui a pouco vou vomitar.
- Calma mocinha. – Disse Brian, que se ajoelhava devagar para que a água, que já estava derramando entre seus dedos, não derramasse ainda mais. – Abra mais, se não, não vai passar
Gaz abriu ainda mais a boca do rapaz. E antes que pudesse soltar para vomitar, Brian já derramara a água com suavidade..
Rapidamente o rapaz acordou e começou a se engasgar com a água. Brian o pegou pelos ombros e o levantou para ajuda-lo a respirar.
Gaz apenas observava. Brian o colocou na beira da fonte, para reencostá-lo, e esperar ele se recuperar.
Alguns minutos depois, o rapaz decidiu falar.
- O... O que aconteceu? – Disse. Olhando para os dois homens ao lado dele, para seu peito nu molhado, a sua camisa rasgada no chão, sua blusa branca ao seu lado, e para a construção gigante em volta.
- Longa história. – Disse Gaz, levantando. – Acho melhor escolhermos um local melhor para passar a noite. – Estava começando a escurecer.
- Sim – Brain respondeu, se levantando. – Aqui deve ser extremamente frio à noite. Vamos... Quer ajuda para se levantar? – Disse olhando para o rapaz que estava se levantando com dificuldade. – Primeiro... Qual seu nome?
- Eu me chamo... – Parou por um tempo. Teriam eles como saber quem era ele? Provavelmente não. – Podem me chamar de Klaus, e sim, gostaria de ajuda. – Disse por fim. O impacto mais cedo machucara suas costas, e agora a dor decidiu aparecer.
Enquanto Brian o segurava por um dos ombros, Klaus decidiu perguntar:
- E vocês? Como se chamam? – Disse Klaus, andando com dificuldade com a ajuda de Brian, indo na direção de uma cobertura próxima, onde ficavam os três enormes portões.
- Bem, eu me chamo Gaz. E ele... – Parou de falar. Finalmente percebeu que o tempo todo estava com um rapaz que não sabia o nome.
Brian ficou quieto. Se soubessem o nome dele, provavelmente passariam a tratá-lo de outra forma. Mas não queria arriscar. Finalmente decidiu falar:
- Vocês... Tem certeza que querem saber meu nome? – Disse Brian.
- Bem – Disse Klaus. – Se não dizer seu nome, como iremos chamá-lo?
- Concordo com o Klaus. – Continuou Gaz – Estava o tempo todo andando contigo e não sei seu nome. Vamos, nós dois já falamos, só falta você.
Brian parou para pensar, enquanto trocava o peso de Klaus para Gaz. “Ele provavelmente devem estar falando a verdade...”.
- Bem, eu me chamo Brian. – Disse finalmente. Ficou observando a reação dos dois, mas nada aconteceu.
- Viu só? Doeu? – Disse Gaz, rindo – Não custa nada falar. Vamos Klaus, estamos chegando.
Estavam andando para perto das três enormes portas, que tinham um teto protetor, onde poderiam se abrir no canto e, se possível, passar a noite.
- Vai ser ali? – Disse Klaus, olhando com uma cara estranha para o canto da parede onde iriam ficar.
- Bem, é o mais próximo que temos até você melhorar. Fora que temos muitas coisas a esclarecer por aqui.
- Verdade. – Disse Klaus. — Precisamos esclarecer várias coisas...
Algumas horas mais tarde, lá estavam os três sentados num dos cantos do templo. Gaz foi aos jardins e pegou alguns galhos de árvore para a fogueira que iriam fazer mais tarde. Brian pegou alguns remédios que Gaz levava na mochila para ajudar Klaus a se recuperar, e um pouco depois, lá estavam os três.
- Bem... E então? – Disse Klaus – Quem começa? Quero dizer... contem um pouco sobre vocês.
- Acho que – Respondeu Gaz – Eu devo começar. Tudo bem?
Os outros dois assentiram com a cabeça.
- Vamos lá. Meu nome é Gaz, como já sabem. – Disse, alternando a visão entre eles e a fogueira. Klaus estava no canto, enquanto Brian ficava do lado direito, e Gaz do lado esquerdo da fogueira. Formando um triângulo quase equilátero se não fosse a gordura do Gaz -n — . – E... Sou um lutador. Treino vários tipos de lutas corpo a corpo. Acho que é só...
- Por quê? – Disse Brian, antes que ele terminasse a apresentação.
- Bem... Quando eu tinha seis anos, meus dois pais morreram. Eles pegaram fogo junto com a minha casa. – Respondeu na mesma hora, dessa vez, olhando fixamente para a fogueira. Falava sem emoção na voz, como se estivesse vivendo novamente o que aconteceu naquele dia.
Ficou um tempo sem falar, Brian e Klaus perceberam que devia ser difícil para ele, então decidiram mudar um pouco o rumo do assunto
- Que tipo de lutas você costuma... Usar? – Disse Klaus, olhando para o físico de Gaz. Gaz tinha um porte físico bom, só parecia ser um pouquinho acima do peso, mas nada que devesse atrapalhar nas lutas.
- Bem, estava treinando taekwondo em Ariant, e fui para Leafre treinar um pouco de boxe. – Disse Gaz, libertando-se do transe que as más lembranças o haviam prendido.
- Mas... Por quê? – Disse Brian, ainda sem trocar a posição, enquanto já Klaus se ajeitava de quatro em quatro minutos. – Bem... Você não poderia ter ficado apenas com o taekwondo e pronto...?
- Só uma não é o bastante, eu preciso de mais força para... – Parou de falar. Por mais que não quisesse, o passado estava voltando à tona mais uma vez.
- Para...? – Disse Klaus, ficando interessado na conversa. Rapidamente Brian tampou a boca de Klaus. Eles sabiam que o amigo estava sofrendo, mas não podiam fazer nada, e o melhor era parar de tocar no assunto.
- Deixe ele, Brian. – Disse Gaz, que mesmo olhando para fogueira, viu o movimento do amigo. – Vocês precisam saber, oras.
- Eu... –Continuou. – Minha casa pegou fogo por causa do Spyr. O Spyr era um mago de fogo que treinava para poder invocar um tal de fogo do inferno, uma magia proibida aí. Por isso, ele foi preso. Mas como ele nem tinha sequer feito o primeiro ritual, foi julgado apenas como tentativa de violação, e por isso foi preso perto da minha vila, em Henesys, que não é lá muito importante.
Brian e Klaus se ajeitaram, e ouviram o amigo continuar a história.
- Um tempo depois, ninguém mais se lembrava dele. Porém, com um descuido do policiamento, ele teve a chance perfeita de fazer com que todos recuperassem suas memórias.
Gaz fez uma pausa. Klaus ia falar, mas Brian tapou novamente a boca dele. Gaz prosseguiu
- Para isso acontecer, ele foi botando fogo em todas as casas de uma rua, a rua que levava para fora da vila, uma forma de fazer os moradores se preocuparem com as suas casas, e não com o fugitivo incendiário. – Gaz parou um pouco e mudou a posição, agora, olhando diretamente para o céu. – Minha casa ficava ali. Minha mãe vendia frutas na frente da entrada, para os viajantes que passavam. –Lágrimas começaram a cair, lentamente –... Com aquele sorriso dela, ela sempre parava os viajantes e os fazia contar a sua história, enquanto ela vendia as maçãs... – As lágrimas escorriam devagar pela pele lisa, e aos poucos, formavam os círculos de água no chão de pedra. -... Teve uma vez, que ela parou um assassino, ele era profissional no ramo, e veio para a vila matar um morador. Mesmo depois que o assassino contou o que veio fazer, ela não se intimidou, e ainda assim vendeu as maçãs pra ele.
- Gaz... – Disse Klaus. Percebia que o amigo estava sofrendo, mas não sabia o que fazer.
- Não se preocupe Klaus. – Continuou Gaz, limpando as lágrimas com as mangas da camisa. – Vou... – fez uma pausa. – dar uma volta.
- Vê se não se perde. – Disse Brian, preocupado.
- Não se preocupe Brian. Eu sei me virar. – Disse Gaz, dando meia-volta e caminhando para o pátio.
- Coitado... – Disse Brian.
- Eu entendo ele. – Continuou Klaus. – Também tive um passado ruim... – Disse enquanto se encolhia entre as pernas.
- Todos nós tivemos Klaus – Disse Brian, olhando para o céu. – Todos nós tivemos...
Bastante tempo depois...
- Já estava ficando tarde. – Disse Brian, olhando para o céu – Esperamos pelo Gaz mais um pouco...?
- Bem — disse Klaus, olhando para cima, mas, infelizmente, não conseguia ver o céu muito bem por causa da parede do templo. – Perdi completamente a noção do tempo aqui em cima. Não sei dizer exatamente se está tarde...
- Bom, de qualquer forma – Disse Brian, se levantando e ajeitando as roupas que ficaram amassadas por causa do tempo que esteve sentado. – Vou chamá-lo. Amanhã teremos um grande dia. – Brian pegou sua mochila e foi andando na direção que tinha visto Gaz passar.
Vendo o amigo indo embora, Klaus se levantou. Não tinha percebido que estava com a camisa rasgada esse tempo todo. Pegou sua mochila, e pegou uma camisa reserva igual a anterior. Enquanto se trocava, percebeu uma leve cicatriz abaixo de uma das costelas do lado esquerdo.
- Quando foi que isso aconteceu? – Disse, enquanto passava o dedo indicador e o médio na cicatriz. – Deve ter sido enquanto eu estava desacordado...
- Klaus, rápido, me ajude aqui. – Ouviu. Era a voz de Brian, virou-se e viu que ele carregava Gaz desacordado nas costas.
- O que aconteceu? – Disse Klaus, abaixando a blusa rapidamente para que Brian não percebesse que estava com uma cicatriz. Correu até ele e puxou um dos braços de Gaz e o apoiou no seu pescoço. – Ele...
- Ele não está morto se é o que está pensando. –Exclamou Brian. Logo chegaram à fogueira e o colocaram deitado, de barriga para cima, com o apoio de uma mochila na cabeça.
- O que você fez? – Disse Klaus, indo na sua mochila e pegando uma das garrafas de água que ainda tinha. Aproximou-se de Gaz, abriu sua boca e derramou um pouco da água da garrafa garganta adentro. Rapidamente o rapas acordou, se engasgando com a água repentina que foi forçado a engolir.
- Nada – Disse Brian, vendo Klaus ajudar Gaz a se levantar – eu o encontrei assim, ele estava caído de baixo de uma estátua, nos jardins ao leste daqui...
Brian parou de falar, assim que viu que Gaz estava pronto para contar o que aconteceu.
- Eu... – Disse Gaz, tentando recobrar um pouco do que havia acontecido – Fui andando pelo jardim e encontrei aquela estátua, uma linda mulher de vestido e cabelos longos, com uma das pernas levantadas, enquanto a outra a apoiava numa posição que fazia imaginar que estava pulando. Enfim, eu senti um calafrio e uma voz de uma mulher dizendo “Rápido” – Fez uma pausa e tomou posse da garrafa de água e despejou tudo o que ainda restava garganta abaixo. Nesse breve momento, Brian percebeu que se eles não voltassem para Leafre logo, não saberia como iriam sobreviver sem alimentos.
- Eu me virei – Continuou Gaz – E não vi ninguém. Logo ouvi de novo algo como “Pelo portão” ou algo do tipo, e então, simplesmente do nada, cai no chão.
- Assim... do nada? – Disse Klaus, olhando um para Gaz com uma cara curiosa.
- Sim... Não tenho certeza se eu fui atingido ou algo parecido, sabe? Só consigo me lembrar de ter caído no chão, e depois de tudo ficando escuro...
- Estava pensando – Disse Brian, levantando-se e olhando para o norte. – Se isso realmente aconteceu, e se você realmente ouviu sobre o Portão... Será que não são aqueles três ali? – Disse, olhando para Klaus e Gaz sentados, enquanto apontava seu dedo indicador da mão esquerda para os três enormes portões gigantes na parede oposta a que eles estavam.
- Será? – Disse Gaz, levantando-se e indo ao encontro de Brian, olhar os portões. Logo, Klaus também se juntou e ali ficaram os três olhando.
- Bem, vocês querem tentar? – Disse Klaus, olhando os outros dois.
- Tem muitas coisas pra checar ainda ante de tentarmos abrir esses portões. – Disse Gaz, voltando-se para a fogueira e abrindo sua mochila. – Olhem a sua volta. Nem metade desse pátio nós exploramos ainda. O que vocês acham de nós dormimos, e, amanhã cedo, investigarmos mais um pouco?
- Podemos mas... – Disse Brian, também voltando para a fogueira. – Está na hora de eu me apresentar.
- E tem eu ainda – Disse Klaus, sentando ao lado de Brian. – Pode começar se quiser.
- Bem – Disse Brian, olhando atentamente os dois. – Espero que não fiquem bravos comigo.
Klaus e Gaz deram de ombros.
Voltaram a se sentar nas posições de antes, alguns segundos depois, Brian tornou a falar:
- Vocês se lembram daquele incidente, anos atrás... – Continuou, jogando a cabeça para trás e olhando o céu. Ficou um pouco nessa posição até voltar, com os olhos... Vermelhos. Gaz pensou por um momento que fosse magia, mas não iria perguntar agora. Iria esperar até que Brian terminasse de falar.- Do Banco Central de Orbis?
- Sim, me lembro – Disse Gaz, revirando os olhos para ver se a informação que continha em sua mente era realmente o que estava pensando – Um tal de Brian...
Todos se calaram, logo caiu a ficha.
- Esse sou eu.
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