Tik Tok
1 Capítulo Único
- Er... Wooyoung, Junho, vocês podem parar um pouco? – Harry, o produtor que a Cass Beer tinha contratado para gravar a música que seria usada no comercial que eles estavam promovendo – Tik Tok – pediu pela milésima vez. Bem, pelo menos para Junho aquela parecia a milésima vez.
Ele olhou para Wooyoung, já um pouco irritado com o comportamento do americano. Primeiro ele quisera que ele e Wooyoung gravassem juntos e sozinhos a parte em que cantavam um após o outro na música. E agora, como se só aquilo já não fosse suficientemente tenso, ele ficava pedindo para que eles repetissem a gravação toda a vez, dizendo que não era o suficiente.
- Qual foi o problema, agora? – Junho perguntou, sentindo os músculos do braço se contraírem.
Às vezes eles tinham alguns problemas como esse na gravação de uma música, algum deles que não conseguia encontrar o tom certo e tinha que regravar algumas vezes... Só que o problema aqui não era o tom deles. O problema é que ele não podia ficar cantando aquela música com Wooyoung, e somente ele, do seu lado. Não podia deixar fluir o sentimento da música para si mesmo. Falando sério, aquilo estava virando um desastre.
- Vocês continuam sem entrosamento nenhum! – Harry disse, parecendo cansado e, mesmo assim, conseguindo fazer o maior estardalhaço. “Projeto de Jokwon” era como Chansung o tinha apelidado, e todos acharam que combinava perfeitamente.
Wooyoung suspirou ruidosamente ao seu lado. Nos últimos dias Junho mal conseguia olhar para ele direito.
- Bem, então tente nos dizer o que acha que precisamos melhorar, hyung – ele não parecia muito mais feliz do que Junho.
- Garotos, onde está a emoção de vocês? – ele perguntou, enfático. – Eu quero dizer, vocês estão gravando uma música e essa não é a primeira da carreira de vocês, pelo amor de Deus! Vocês sabem que o principal, o essencial é sentir o que estão cantando!!
Junho fechou os olhos. Estava começando a sentir outra coisa no momento, e parecia mais com raiva.
Depois do que havia acontecido há... quanto tempo fazia mesmo? Cinco dias? De qualquer forma, depois daquilo, seria como cantar para Wooyoung. Ainda mais com a temática da música de um amor escondido, impossível... Ah, desde quando a sua vida tinha virado um dorama daqueles bem desesperadores?
E o pior de tudo era que Wooyoung parecia estar sofrendo do mesmo problema que ele.
- Caras... eu sinto muito dizer isso, mas ele tem razão, sim – Junsu disse, do lado de fora da cabine de gravação. – Vocês... vocês não estão conseguindo sentir mesmo o que estão cantando, sabe.
Junho e Wooyoung trocaram um olhar nervoso.
- É uma letra difícil. – Wooyoung se explicou. – Talvez fosse melhor que nós cantássemos separados essa parte, um de cada vez.
Junho soltou lentamente a respiração. Isso. Wooyoung dissera tudo o que ele quisera dizer e não soubera como.
- Não! – Harry disse, quase gritando. – Não, não, nããão! Vocês estão cantando o mesmo verso e ele todo fala sobre uma única história, uma única pessoa, conseguem entender? Vocês estão sentindo a mesma coisa! Vocês tem que transformar as duas pessoas distintas que estão cantando em uma única, e tem que fazer isso juntos, entendem?
Não, Junho não entendia – e pelo visto Chansung também não, já que ele teve que fazer um esforço muito grande para não rir vendo a cara que o maknae fazia ao ouvir as palavras do produtor. Aliás, essa parte de ser uma única pessoa era o pior. Porque, na opinião dele, pareciam duas pessoas cantando, na letra. Como se eles estivessem, sei lá, falando um para o outro. E podia ser paranóia da sua cabeça, mas era exatamente assim que se sentia.
- Olha... – ele começou, cauteloso – tudo bem esse papo estranho de sermos um só e tal, mas então não seria melhor que só um de nós-
- Quer saber, estou CHEIO! – o produtor exclamou, escandalosamente. – Escutem vocês dois, nós aqui e o resto dos garotos vamos dar uma pausa, comer alguma coisa e descansar e, enquanto isso, vocês dois vão ficar aí! Em meia hora nós estaremos de volta e eu acho bom, eu espero sinceramente, que vocês tenham dissipado essa tensão entre vocês, que ela já está colorida de tão consistente! Não me interessa como vocês vão fazer isso, simplesmente façam!
- Mas- — Wooyoung tentou.
- Dispersando gente, voltamos em trinta minutos! – ele exclamou, pena antes de fazer uma saída triunfal da sala, seguido por seus assistentes.
No momento em que ele deixou o local Taecyeon e Chansung explodiram em uma gargalhada histérica, apoiando-se um no outro, como se nunca tivessem rido antes na vida. Junsu olhou feio para eles e para Nichkhun, que parecia dormir escorado em um canto do estúdio.
- Hey, caras! – Taec disse, no microfone para eles, ainda rindo – Se vocês precisarem de mais do que trinta minutos para, sabe, dissolverem a tensão... dêem um toque, pra gente não ter que ver voc-
- Vá se foder, Ok Taecyeon! – Junho gritou, só não atirando alguma coisa nele e em Chansung porque não valia a pena quebrar o vidro do estúdio.
Graças a Deus depois disso eles tiveram a brilhante ideia de ir embora, sem fôlego de tanto rir e acompanhados por um Junsu que não parecia muito satisfeito e um Nichkhun sonolento.
Junho respirou fundo quando eles ficaram sozinhos – provavelmente pela primeira vez nos últimos cinco dias – e olhou para Wooyoung. O mais velho fitava o chão, mordendo o lábio inferior.
- Woo...
- Nós não vamos conseguir desse jeito – ele disse simplesmente. – E é nossa culpa, o projeto de Kwon tem razão, nós-
Mas ele se interrompeu aí e acabou não terminando a frase. No fundo, Junho ficou feliz por isso. O que tinha acontecido... não era uma coisa que fosse acontecer novamente. E não podia atrapalhar o relacionamento deles como colegas de grupo, tampouco. Junho caminhou até a parede do estúdio e sentou-se.
- O que você acha que podemos fazer?
- Sinceramente, Junho, eu... eu não sei se podemos fazer alguma coisa além de tentar. Tentar e ver se podemos melhorar o nosso entrosamento ou sei lá.
O mais velho caminhou até onde ele estava e sentou-se ao seu lado.
- A mesma interpretação, foi o que ele disse? – Junho perguntou olhando para frente. – O que você pensa sobre a música, hyung?
Wooyoung entreabriu a boca, mas acabou fechando-a sem dizer nada. Se eles tivessem essa conversa há uma semana, ele tinha certeza de que as palavras teriam fluído soltas, simples. Agora não. Agora ele sentia que eles estavam incomunicáveis.
- Eu não sei, Junho. Não sei o que eu penso sobre ela. – Junho continuou olhando para ele, esperando que ele dissesse mais alguma coisa. Wooyoung bufou. – É sobre duas pessoas que estão apaixonadas uma pela outra, mas estão escondendo isso do mundo, não é? Como se elas não pudessem contar, ou algo assim.
- Sim, eu sei. Mas o que você acha disso?
- O que eu- — ele se interrompeu novamente, tenso. Junho se arrependeu de ter perguntado aquilo. Parecia que ele queria forçá-lo a responder, só que, honestamente, ele não queria. Ele só... achava que essa era a única forma de eles se entenderem. – O que você acha? É uma situação boa, não é, ele estar tão apaixonado e ser correspondido, mas ao mesmo tempo é péssima, porque na música dá pra sentir como eles queriam estar juntos o tempo todo, livremente, e não podem...
- É, eles não podem.
- Não – eles ficaram em silêncio, refletindo. – Como você se sentiria? – Wooyoung perguntou de repente, olhando para ele. Junho arregalou os olhos. Não sabia bem se a pergunta significava só o que aparentava num primeiro momento, ou se Woo queria dizer outra coisa.
- Hyung...
- É para nos sentirmos do mesmo jeito, não é? Então eu acho que a gente podia falar sobre isso.
Junho suspirou. Bem, era melhor do que ele estava esperando, ao menos.
- Bom... Eu acho que eu poderia aguentar um pouco numa situação como a descrita na música, mas então... – ele tentou se imaginar como aquela pessoa. Engraçado, não era difícil essa parte. Falar é que era pior. – Não sei. Não sei se o que eu faria importa, Wooyoung.
Wooyoung esperou alguns segundos em silêncio.
- Você realmente acha que não importa ou é simplesmente embaraçoso dizer pra mim como seria?
Junho ficou mudo, sem saber o que dizer. É claro que era embaraçoso. Era praticamente descrever como ele se sentiria se um dia ele e Wooyoung ficassem realmente juntos! Bem, não que isso fosse acontecer, claro.
“Junho... eu posso ficar aqui essa noite?”, foi o que ele dissera. Bem, ele conseguia lembrar daquilo tão bem que era como se ainda estivesse escutando. Mas Junho não dissera que não, ele achara uma ótima ideia. Afinal, desde que o Jay voltara para Seattle, ele estava dormindo sozinho no quarto... e não existia companhia no mundo melhor do que a de Wooyoung... até aquela noite, pelo menos.
- Eu acho que na altura da história em que a música é cantada, eles já não aguentam mais – ele disse, para se esquivar da pergunta. – Mas a parte que a gente canta...
- É a parte em que ele lembra como foi o começo, não é? – Wooyoung terminou a frase por ele.
- Então esse é o sentimento do que nós deveríamos cantar. Que eles não estão juntos para passar o tempo, simplesmente. Que existiu algo antes disso.
Wooyoung olhou para ele.
- “Eu sabia disso desde o começo...” – ele disse uma das frases da música.
Junho sorriu sem humor, deixando para lá o significado implícito. E Wooyoung não estava sorrindo, de qualquer forma.
- Hyung, porque nós não cantamos? A gente deveria tentar, pelo menos.
Wooyoung suspirou, mas deu de ombros e começou a cantar a sua parte.
“Cheombuteo arasseo nan
(Eu sabia disso desde o começo)
mwongaga isseosseo neon
(Tinha alguma coisa em você)
Niga-”
Ele se interrompeu no meio da última frase, suspirou e colocou a cabeça entre as mãos.
- Eu não posso. É pior do que com eles aqui, eu não posso cantar pra você desse jeito...
Junho colocou uma das mãos no ombro dele.
“Wooyoung... você também não consegue dormir?”, isso era sua culpa, o que tinha acontecido depois. E Wooyoung nem se quer respondera, ele simplesmente deixou-se levar quando a mão de Junho encontrou a sua e a puxou para sua cama, como se eles estivessem pretendendo aquilo o tempo todo.
- Wooyoung, essa letra não é sobre nós dois – ele disse frio.
- Não – o mais alto concordou, com uma pitada de cinismo na voz. – É sobre o que poderíamos ser.
- E esse é o problema dela. Não podemos ser muita coisa.
- Mas podemos ser mais do somos agora. – ele ergueu a cabeça e fitou os olhos negros nos de Junho. – Escuta, naquela noite – e não venha me dizer que você ignora que o nosso problema é o que aconteceu naquela noite, Junho – eu não teria ido pro seu quarto se eu não quisesse transar com você, e você não teria me puxado da cama do Jay pra sua se não quisesse transar comigo. E se isso não tivesse mexido com a gente, a gente não estaria desse jeito simplesmente para cantar uma música e-
Junho bufou.
- Tudo bem, você venceu. Você está certo. Não aconteceu por acaso. E eu queria fazer sexo com você, droga, eu ainda quero. Aliás, quer saber, eu queria porque eu estava apaixonado por você, porque “eu sempre acabo procurando por você”, ou o que quer que seja. Está satisfeito agora, ou tem alguma coisa que você ainda queira me jogar na cara?
Wooyoung sorriu, apesar de não parecer de todo feliz, e recomeçou:
“Cheombuteo arasseo nan
(Eu sabia disso desde o começo)
mwongaga isseosseo neon
(Tinha alguma coisa em você)
Niga nareul boneun geu nunbiche
(O jeito como você me olhava)”
Junho suspirou, ainda sem acreditar no que tinha dito, e continuou com a sua parte.
“Jjarithan ni sarange
(Seu amor emocionante)
naneun neul mogmareungeol
(E eu sempre estive sedento daquele amor)
Amudo mollae neol jakku chajgedoe
(Eu sempre acabo procurando por você)”
Junho se absteve de qualquer coisa que o outro ainda quisesse dizer depois daquilo, simplesmente olhou fundo nos olhos dele, roçou os dedos por sua mandíbula, rompeu o espaço que havia entre eles e o beijou, puxando-o pela nuca para mais perto e se perguntando como havia conseguido esperar cinco dias para se aproximar dele novamente. Era aquilo que estivera faltando o tempo todo, o gosto dele, o cheiro dele, a textura da pele dele. Wooyoung passou os dedos por seu cabelo num convite explícito para que continuassem, mas antes que Junho pudesse aprofundar mais o beijo o mais velho o interrompeu.
- Por que será – ele perguntou sorrindo – que eu acho que nós encontramos o tom certo, agora?
O mais novo rolou os olhos e decidiu não responder à provocação e simplesmente continuar de onde eles tinham parado antes. E enquanto ele puxava Wooyoung para seu colo e travava uma batalha mental sobre tirar ou não a camiseta que ele estava usando, ele se perguntou se Taecyeon não teria razão.
Afinal, talvez eles fossem precisar mesmo de mais do que meia hora.
Notas finais
Desculpem pela filosofia barata em cima da música xD
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