Tiger's Life

2 De Volta para Casa.


Kelsey se reencostou na poltrona, o livro estava abeto em seu colo, e ela suspirou, entediada. Ren tinha saindo para uma importante reunião, o dia estava feio, chuvoso, ela nem ao menos podia sair para dar uma caminhada. Ela se lembrou de como chovia pouco na índia, e aquele calor que sempre lhe era bem vindo. Kelsey nunca fora fã de frio.

Ela fechou os olhos, as imagens passando a faziam sorrir. A casa em que eles costumavam ficar; Senhor Kadam sentado na poltrona na biblioteca, com um livro no colo, sorrindo amigavelmente; Kishan na piscina, os cabelos molhados nos olhos dourados enquanto ele convidada Kelsey a se juntar a ele; Ren, sentado na sacada em uma noite fresca, com o violão no colo; Nilima entrando no quarto com um lindo vestido para Kelsey.

Ela só percebeu que estava chorando quando abriu os olhos e viu seu reflexo na janela de vidro.

Kelsey estava cansada de ficar no Oregon. Ela tinha crescido ali, mas isso não significava que queria passar o resto de sua vida naquele lugar. Algumas coisas devem permanecer intocadas como estão, para não perder o brilho. O lugar de Kelsey, de Ren, era na índia. Kelsey sabia que Ren estava no Oregon por ela, mas nem ela mesma queria ficar naquele lugar.

Sentia falta de Nilima, sabia que a garota estava seria com Sunil, ela nunca mais tinha os visto. Ela sentia falta de fazer alguma coisa, ser útil. Odiava ficar sentada o dia todo. Ela sabia que não precisava trabalhar se quisesse, mas ela estava ficando louca, precisava urgentemente ocupar a cabeça com alguma coisa.

Então, com um lampejo, Kelsey teve uma ideia. Ela correu escada a cima, em busca de um papel e de uma caneta. Ela desceu as escadas novamente, um grande sorriso no rosto, e voltou a se sentar, o caderno apoiado nas pernas, ela escreveu.

“ Eu me encontrava a beira de um precipício. Quer dizer, eu estava apenas na fila de uma agencia de empregos temporários no Oregon, mas a sensação era de estar me aproximando de um despenhadeiro... “

Foi ai que a porta de frente se abriu. Ren entrou, tirando o paletó e soltando a gravata. Ele colocou a mala no sofá, e foi até Kelsey, mas antes de beija-la, ele parou e sorriu.

– Eu conheço esse sorriso – disse ele. – O que você está aprontando Kelsey Rajaram?

– Eu estou escrevendo – ela disse. – Estou cansada de ficar aqui sem fazer nada, o dia todo. Decidi escrever nossas aventuras. Ninguém vai acreditar nelas, mas vão ao menos se divertir. E além do mais, eu estou cansada do Oregon, acho que devemos voltar para a índia.

– Uau – disse Ren, em meio a uma risada. Ele estava radiante. Mas é claro que estava. Tudo o que ele queria era voltar para casa, a índia, seu lugar. – Parece que alguém passou a tarde tomando decisões.

– Então você concorda? – ela perguntou entusiasmada. – Quando vamos?

– Agora.

– Agora? Dhiren, você não pode estar falando serio.

– Estou falando muito serio – ele disse sorrindo. Eu mando alguém de confiança vir empacotar nossas coisas, vamos para a índia agora.

– Bom, isso não estava nas minhas decisões dessa tarde, mas eu não vejo porque não.

– Ótimo – ele disse batendo as mãos. – Preciso fazer algumas ligações, você pode por favor fazer uma mala para nós, iadala? Só as coisas mais importantes.

– Claro que posso, Homem de Negocios – ela disse beijando os lábios dele.

Kelsey subiu as escadas. Ela pegou uma mala de viajem preta, pequena o suficiente para que não precisasse ser despachada no avião. Ela pegou a caixa de fitas, que era muito preciosa para ficar para trás, um par de agasalhos, era quente na índia, mas frio no avião. O caderno de poemas de Ren, o laptop, o caderno que ela começara a escrever, algumas coisas simples de banheiro, como escovas de dente, e por fim, o colar de casamento de Kelsey.

Ela fechou a mala e desceu as escadas. Ren estava esperando por ela, com o telefone na mão.

– Pegou tudo? –ele perguntou.

– Sim.

– Ótimo – ele sorriu. – O taxi está nos esperando lá embaixo. – ele passou os braços pelos ombros dela. – Vamos para casa.

O voo foi tranquilo, e imensamente demorado. Ren tinha pedido um dos aviões da empresa. Um luxuoso jatinho. Kelsey imaginou que deveria agir como aquela mulheres ricas, sempre arrumadas, mas a verdade é que nem ela sabia ao certo o tamanho do patrimônio de Ren. Sabia que ele tinha dinheiro o suficiente para sustentar três gerações sem trabalhar, se não mais do que isso. Ela não se sentia na necessidade de se arrumar ou nada parecido. Ren não ligava pra tudo isso, e nem ela tão pouco. Futilidade era uma coisa que ela desprezava.

Eles desembarcaram exaustos, depois de quase dez horas de voo. Ren estava em sono profundo quando eles aterrissaram. Ela teve que chamar o nome dele varias vezes até ele acordar. O sol começava a nascer na índia, deixando tudo dourado. Do momento que eles colocaram o pé para fora do avião, Kelsey tirou o casaco. O calor familiar foi bem vindo.

– Eu dirijo – disse Kelsey.

– De maneira alguma – disse Ren. – eu não vou deixar você dirigir na índia, é caótico!

– Ren, fique quieto. Eu já dirigi na índia, se você não se lembra, e além do mais, já enfrentamos coisas muito mais caóticas do que transito, por fim, você está quase dormindo de pé. Eu vi que você ficou a viajem inteira trabalhando nesse computador. Eu não devia ter trazido esse treco. Agora seja um bom gatinho e vá descansando enquanto eu dirijo.

Ren concordou, afinal. Ele dormiu a viajem inteira, como previsto por Kelsey, com os braços cruzados e a cabeça pendente. Kelsey se divertira nos primeiros dez minutos da viajem, vendo Ren lutar contra o sono, tentando manter os olhos abertos, só para provar para Kelsey que ela estava errada, mas no fim, o sono o venceu, e ele acabou por dormir desconfortavelmente no banco do passageiro.

Kelsey entrou com o carro na conhecida estradinha de cascalhos, a casa crescia ao longe, a mansão toda brilhava em dourado. Extremamente bem cuidada, Nilima tinha continuado a morar la, para manter tudo em ordem. Ela ficara extremamente feliz com a noticia de que eles voltariam, e dessa vez era definitivo. Ela tinha saído para fazer compras, e faria um jantar de comemoração a noite. Kelsey parou o carro e suspirou.

Ela tocou o ombro de Ren – Acorde, ela disse, estamos em casa.

Ren abriu as portas. A casa estava estranhamente vazia e silenciosa. Ele foi atingido por um estranho sentimento de vazio. As lembranças que ele tinha dessa casa sempre haviam sido muito boas. Mas agora parecia que tudo tinha sido levado, e só sobrara uma casca vazia. Ele acendeu as luzes, mas nada mudou. Kelsey sentiu a mesma coisa, ele sabia, só de olhar para os olhos dela. Eles estavam desorientados, procurando por alguma coisa que não estava lá.

Ren foi até a biblioteca, ele não sabia ao certo o porque. Talvez alguma parte de si esperasse encontrar a lareira acesa, o senhor Kadam lendo algum livro na poltrona, ou até mesmo Kishan, na forma de tigre negro, deitado no tapete.

Nada.

A sala continuava vazia, o fogo apagado. Senhor Kadam estava morto, e Kishan, em outro tempo. Ren desabou no sofá, enterrando o rosto nas mãos, ele não era do tipo que chorava. Mas aquilo o atingiu de uma maneira muito dolorosa. Ele não tinha pensado muito em nada disso. Nem sobre Kishan, nem sobre o senhor Kadam, ou qualquer outra coisa que tivesse perdido. Kelsey chorou por semanas, mas ele, ao contrario, ocupou a cabeça em trabalho, e sufocou o que a muito estava gritando para sair.

Kelsey colocou os braços em volta dele, reconfortando-o. era estranho saber que ela estava reconfortando-o pelo mesmo motivo que ele havia feito o mesmo meses atrás.

– Eu sei – ela disse em uma voz emocionada. – Eu também sinto falta deles. Ainda mais aqui, é difícil, mas nós vamos passar por isso. – Ela pegou o rosto dele entre as mãos. – Ren, eu prometo.

Ele assentiu e a puxou para um abraço.

– Venha – ela disse pegando-o pela mão. – Vamos dar um pouco de vida para esse lugar, eles gostariam disso.

Kelsey abriu todas as janelas deixando o sol entrar, a casa estava perfeitamente limpa, Nilima tinha cuidado disso. Kelsey acedeu a lareira, e colocou no forno uma travessa de biscoitos, colocou flores nos vasos, e sapatos na porta de entrada. Foi um trabalho de um dia inteiro para uma casa daquele tamanho, mas no final do dia, o lugar parecia aconchegante e familiar como sempre fora.

– Obrigada – disse Ren.

– Nada a agradecer- ela disse se sentando ao lado dele na sacada. – Eu também me sinto assim, mas acho que esgotei meus estoques de lágrimas.

– Eu nunca pensei que diria isso, mas eu sinto muita falta de Kishan.

– Nós todos sentimos – ela disse – eu ainda leio a carta as vezes, eu guardo ela na minha caixa de fitas, eu leio so para ter certeza de que ele está feliz, aonde quer que ele esteja. Kishan... era um irmão para mim também. Eu confundi o que eu sentia por ele... tentei forçar um sentimento que eu não tinha, mas o lugar dele sempre foi como família para mim, e agora que eu notei isso, ele está longe demais – Kelsey limpou uma lágrima – Parece que eu ainda tinha alguma reserva de lágrimas.

– Sabe o que falta para essa casa voltar a vida? – Ren perguntou, ele tinha um brilho esperançoso nos olhos. – Crianças.

– Crianças Ren? – Kelsey sorriu.

– Sim – disse ele – tudo bem se você não estiver pronta ainda, mas eu gosto de imaginar esse lugar com crianças correndo e brincando, e nós dois atrás delas, colocando-as para dormir, vendo-as crescer....

Ele olhou para Kelsey, ela sorria como se fosse finalmente contar um segredo que escondera por muito tempo.

– Eu fico feliz que você pense assim, porque eu estou pronta – ela levou as mãos dele ao ventre dela. – Mais do que pronta, eu estou grávida.

Notas finais
espero que tenham gostado (: não se esqueçam de comentar!