Tied To Them
2 Começando a acordar
Notas iniciais
A quanto tempo eu não via a Gabi? Desde que eu saí do curso de inglês, talvez. Isso não importava. O que passeava pela minha cabeça era o Vitor, mas sem dúvidas, eu já estava me sentindo mil vezes melhor.
O sol de quarenta graus que fazia naquele início de tarde de segunda-feira só me fazia ter vontade de uma coisa: dar meia volta e voltar para casa. Mas não o fiz, estava no meio do caminho e já dava para ver o prédio amarelo quando dobrei a esquina. A escola! Finalmente! Eu me sentia em uma maratona pelo deserto.
– Ei! — Uma voz familiar, a voz de Gabi, que acenava para mim e me esperava debaixo das sombras das árvores em frente à escola — Achei que você não ia vir!
– Pois é, nem eu — Falei, ofegando com as mãos no joelho
Nos abraçamos, comentamos o quanto estávamos com saudade e o de sempre... Alguns garotos que passaram por nós olharam para Gabi, ela falou que eles olharam para mim, mas eu sei que olharam para ela, ela é realmente muito bonita... Passaram alguns minutos de conversa e um garoto baixinho, moreno e de cabelos lisos chegou em nós. Gabi nos apresentou e ele se chamava Daniel.
– Vamos logo, gente! — Apressou Daniel — Quero chegar em casa com pelo menos um pouco de água no corpo, porque pelo jeito que eu estou suando já não me resta quase nada!
Daniel tinha razão. Pena que a casa da Gabi ficava em direção oposta a casa da minha avó e a casa do Daniel. Em certo ponto, eu e Daniel, seguimos sozinhos.
– Posso te perguntar uma coisa? — Eu arrisquei, estava pensando naquilo desde a primeira vez que ele abriu a boca
Ele me olhou, esperando a pergunta.
– Mas não pode se ofender, tá? — O garoto me conhecia não tinha nem uma hora, não queria acabar com uma possível chance de amizade
– Prometo que não vou me ofender — Tinha curiosidade em seu tom de voz e eu desembuchei logo, fechei os olhos, respirei fundo e...
– Você é gay? — Eu falei rápido, não acreditando na minha cara de pau
Daniel soltou uma gargalhada, por sorte a rua estava vazia, apenas uma velhinha apareceu na janela para ver o que estava acontecendo. Daniel ainda ria e eu já estava ficando sem graça, mas não apressei a resposta.
– É tão óbvio assim? — Falou Daniel, em meio a risadas e o pouco fôlego que lhe restava.
Ufa.
– Um pouco... — Continuei — Seu jeito de falar te denuncia.
– Amiga, — Ele colocou a mão no meu ombro — Pode perguntar, falar... sobre o que quiser comigo. Você é legal, gostei de você.
– Vou fazer isso... — E completei — Amigo.
Pensei em uma pergunta, pensei, pensei, pensei... Pensei tanto que Daniel já estava impaciente, de braços cruzados e batendo o pé...
– Tá bom, vai uma bem besta, estou sem criatividade. — Fiz suspense, batendo com a ponta dos dedos nos lábios e continuei — Você gosta de algum garoto?
– O que você acha? — Um sorriso malicioso se formou em seus lábios e eu sorri também. Eu ia perguntar o nome, quando Daniel pareceu ter lido minha mente e feito isso antes que eu pudesse abrir a boca. — O nome dele é César, mas ele não sente o mesmo... Digo, as vezes parece que sente, outras não...
Ele contou toda a história, contou da vez em que César o chamou para ir ao cinema e em cima da hora desmarcou e o chamou de nomes horríveis. Notei a tristeza dele em falar disso... Contou também de coisas mais alegres: como ele fazia para descobrir se um garoto era gay ou não, contou do primeiro beijo dele... Eu ria muito com aquele menino e já começava a sentir um imenso carinho de amizade por ele... Quando percebemos, já tínhamos passado da casa da minha avó e Dani (A intimidade já permitia apelidinhos) fez questão de voltar tudo junto comigo.
Então chegamos à casa da minha avó e dali Daniel seguiu sozinho, ele se despediu com um beijo no meu rosto, um abraço e virou a esquina, sumindo.
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