Tic-tac
6 Tac
Notas iniciais
Tê,
O Pierrot, você sabe, é triste. Triste-triste-triste-triste-tão-só-por-amar-mais-que-as-leis-da-vida-permitem-triste-triste-triste. Me disseram que ele se suicidou, não acreditei. O Pierrot amava a Colombina. A Colombina amava o Alerquim. O Alerquim amava a Colombina. Pierrot que amava Colombina que amava Alerquim que amava Colombina. Pierrot fica sozinho: triste-triste. Por isso as lágrimas, Maitê, porque o amor dói: qualquer forma de amor dói e o amor do Pierrot era inseguro, bobo, palhaço; frágil, por isso ele chora. Ele sempre está chorando, uma pequena cachoeira embaixo dos olhos. Mas o Pierrot é rei do riso, dos risos ternos, e ele é assim de engraçado. O Pierrot te protege, Tê, o ame, por favor, o ame, ele não suportaria mais um desamor na vida (ou na morte). Você é o Pierrot, não se decepcione, eu estou te amando aos poucos, te aquecendo aos poucos. Paulatinamente.
Acho que mata. Mata isso sim. Overdose.
Não se mata, não me deixe sozinha, porque a Rô nunca vai ser a Tê que me acha uma flor fura-neve. Não se mate porque estou junto a você nessa solidão de riso. E o Pierrot, está junto; ele, o Romeu, a Joana, a Rô, a sua colega de quarto e nós duas; estamos no mesmo barco e isso é lindo. Não quebre a beleza de nós duas estarmos juntas, não agora.
Eu não leio. Nem sei quem é Marx, na verdade. Eu não leio livros, leio poemas. Sou um pardalzinho que recita poemas. Marx é um moço que estudei na aula da história e me constrangeu com as ideias de revolução. Revolução é muito pesado, é um mundo todo em cima de mim, não aguento, deixo cair. E os livros, os seus, de coração, não vou ler. Porque os livros me deixam estranha, eu sugo a essência dos personagens. Eu viro os personagens. Quero ser a Acácia que a Rô acha bonita e que a Maitê gosta e que a Joana dá coices. Mais alguém não, minha constituição é pequena e posso rachar.
E, Maitê.
Eu te beijaria.
Te beijaria porque você conseguiu colocar beleza nos meus olhos e isso te faz bonita. O mundo todo está rosa-laranja-quente. Você e a Rô me aqueceram. A Rô está me aquecendo, sim, estou feliz-quase-feliz. Os abraços fazem uma diferença enorme.
O meu relógio é feio. É velho, demorou no tempo por tempo demais. Coisas velhas me assustam.
Estou aprendendo a gostar da morte. Um suicídio em queda lenta, um voo, uma canção. Vi um filme com a Rô. A moça se suicidou e foi belíssimo. A Rô achou feio, mas ela não entendeu a essência. Mas Tê, eu sou o contrário, a minha morte tem que ser rápida e agressiva. Vai que o suave demora, e o tempo ri de mim. Se o tempo ri vou morrer de loucura.
Maitê, o seu irmão. Não sei o que dizer, não vou te reconfortar porque acho que a sua culpa é certa. Relativamente certa. Mas as facadas, o descontrole, a compulsão, está tudo bem. Os seus neurônios estavam a mil a um milhão um trilhão e congelaram porque seu irmão não era seu irmão, o congelamento foi forte demais e não te culpo. A sua família está sendo tola, tola porque perdeu dois entes. Não se pode perder pessoas assim, pessoas são importantes, são frágeis. Eles deviam te amar ainda, te amar mais fraco, a morte é complicada, mexe com todo mundo. Todo mundo é vítima do tempo. Mas te amar, porque você não era você assim como seu irmão não era seu irmão. Ninguém era ninguém. As pessoas não entendem que às vezes você voa e outro alguém chega. Talvez eu nem seja muda de verdade, seja só uma metamorfose conveniente. Não te culpo. A morte chega.
Acho que também mataria meu irmão, se ele viesse me roubar a Rô (que é a única coisa concreta com quem compartilho uma relaçãozinha de posse). A Rô é o meu relógio. Mataria, sem acho. Facadas, talvez não, sangue me enjoa. Talvez veneno de rato e gostaria da morte lenta. Externaria o meu lado ruim, horrível; neve e não fura-neve. Algumas coisas são mais importantes que a vida. Morreria por coisas. Morreria em troca da eternidade e da juventude. Mataria, também.
Sou menos que metade de você, talvez você se machuque se preenchendo de mim. O suco gástrico coma o seu estômago, porque sou pequenina demais, meu coração mal cabe o amor, o seu é grande, cabe culpa, cabe medo, cabe muito. Se encher de menos o estômago, há tonturas. Não seja uma tonta por mim.
A nossa dor, Maitê, vai ser como a de Pierrot, será maior do que a vida permite. A nossa dor vai ser eterna, como a morte e o tempo.
Acácia.
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