Tic-Tac

8 Capítulo 6


Gustavo estava semi-acordado, virando inconsciente de um lado para o outro na superfície cheia de irregularidades duras. Que estava desconfortável e lutando para manter seu sono calmo era claro, mas só acordou quando ouviu ruídos realmente altos ecoando pelo lugar onde estava. Com certa irritabilidade, abriu os olhos já se acostumando com a escuridão local e olhou curioso de um lado para o outro, tentando entender onde estava e se estava em perigo.

A primeira coisa que foi notar foi que tinha uma luz clara avermelhada mais para a esquerda e outra luz fraca, porém mais amarelada, para a direita. Depois, a textura do chão onde estava deitado. Parecia algo como carvão, rochas e terra. Se a iluminação fosse maior, poderia ter um diagnóstico certo.

Ao analisar o que seria paredes do mesmo material e ver que se seguia em forma de túnel, pôde concluir que estava numa caverna antiga. Agora bastava saber se seus amigos estavam por aí e que caverna exatamente estava. Ou, no caso, se iria sobreviver.

Sem mais delongas, se levantou e bateu contra o próprio corpo para tirar quaisquer pós ou bichos que teriam se instalado enquanto dormia. Pegou uma pedrinha e jogou para a entrada mais clara e avermelhada, ouvindo um som oco. Repetiu o processo com a outra, ouvindo outro som oco com o final mais curto.

Seguiu o caminho da esquerda, segundo ele o mais óbvio, indo em direção à luz vermelha. Seus olhos estavam atentos e ouvidos aguçados. Talvez tão aguçados ao ponto que se houvesse outro ruído dramático — que não se repetira desde que acordara — poderia acabar surdo e ter um ataque cardíaco.

Mas, é claro, isso é só a narradora pessimista.

Quanto mais aprofundava, mais a luz aumentava e o calor começava a aparecer. Aos poucos, se sentiu cozinhando e suando, com uma fraqueza percorrendo seu corpo. Suspirou ao notar que sua pressão havia caído e que as paredes começavam a suar junto com ele.

Com certa irritabilidade pelo fato que poderia acabar desmaiando — algo extremamente desagradável quando se tem mais o que fazer e, digamos, está em outra época -, colocou uma pedrinha na boca e absorveu o sal que o minério guardava.

Precisaria descobrir mais informações sobre o local o mais rápido possível. Sabia que não tinha muito tempo (há!) e, independente de tudo, estava muito quente. Seriamente quente. Poderia cozinhar la dentro.

Por mais que seu orgulho negasse curiosidade, alegando que estava la apenas para interesses necessários, algo dentro dele pulsava intensamente de vontade de desvendar todos aqueles mistérios.

Adentrou profundamente a caverna, vendo luzes vermelhas aumentarem a intensidade. Numa das viradas, se deparou com duas opções. Passagem amarela, passagem vermelha. Sem se arriscar de verdade, deu um passo em direção à vermelha e colocou sua cabeça no ambiente, tendo uma visão ampla do que acontecia e a segurança de não estar demasiado exposto.

Olhou atentamente e viu ovos gigantes, amarelos e de cascas aparentemente grossas. Uma mistura de lagarto e avestruz, poderia dizer?

A "sala" em que os ovos estavam depositados era rodeada de lava, o que o fez acreditar que estaria em uma parte afastada de algum vulcão. Antes que o perigo fosse demais e alguma bolha fervente saltasse em direção ao seu rosto, Gustavo retirou sua cabeça com a informação já adquirida e foi em direção à outra opção, de luz amarela.

Suspeitava de onde estava no tempo, agora faltava ter certeza. E encontrar os rapazes. Com sorte conseguiria um plano e toda aquela baboseira poderia finalmente acabar.

Riu com ironia e pisou tranquilamente no outro ambiente. O pior que iria encontrar já tinha encontrado, não é mesmo?

Claro. Mas o que viu não foi realmente confortável e aceitável. Tinha, agora, uma informação mais chocante em sua mente.

O cara da época passada estava la dentro, montado no Dino que Gustavo tinha colocado para devorar o humano. Não foi o que aconteceu. O homem tinha praticamente domado a fera, usando-a para suas vontades e sobrevivência.

Bom, domado não. Conquistado. Não parecia fazer esforço no domínio ou então chantagear o dinossauro. O que era bem ruim.

Afastando-se devagar, Guga concluiu que estavam bem ferrados. Primeiro porque o inimigo deles era uma pessoa esperta e poderosa o suficiente ao ponto de dominar um dinossauro.

Segundo porque eles não estavam mais viajando sozinhos.

O ar não era inteiramente agradável, com partículas de poeira flutuando e formando pequenos e violentos tornados ao redor.

Quem sabe não estivesse dentro de um?

Sentia que sua pele e sua alma estavam se dissolvendo aos poucos, dentro daquela grande bagunça.
Aquele caos. Sua essência se perdia lentamente naquele caos estranho e ela sentia isso; assistia a isso. Seus olhos percorreram tudo, tentando entender aquilo que lhe prendia e envolvia. O oxigênio poderia estar entrando por uma lasquinha daquele lugar e ela precisava achá-lo e provar sua hipótese.

Partículas brilhavam como se estivesse ocorrendo a fusão de hélio e hidrogênio em frente aos seus olhos, dançando no vácuo e explodindo segundos depois. Eram pequenos fogos de artifício que se misturavam ao seu pó corporal.

Estava em uma nebulosa, talvez? Era difícil dizer com aquela ventania e a probabilidade das coisas. A gravidade enlouquecendo e agindo de forma desesperada. Quando as leis da física são quebradas, o que de pior pode acontecer?

As estruturas do Universo fraquejando, seus pilares fraquejando.

Era o fim.

Não sentia dor, mas o vazio lhe preenchia de forma atrevida, sugando-a e deixando sem forças cada vez mais.

"Eu tenho que lutar..." repetia mentalmente toda vez que partes generosas de si se esvaía. Uma força intensa de vontade, mas ela sabia que não tinha a necessária para se libertar ou avisar alguém sobre o que acontecera e acontecia. A imponência lhe consumia.

A sensação de se desmanchar em pó era a mesma que a parte de cima da redoma de uma ampulheta deveria sentir. Que quando todo o seu conteúdo chegasse a parte final, acabando toda a contagem, seu tempo teria se esgotado também.

Notas finais
Olá, pessoal. O capitulo está pequeno porque o próximo será bastante esclarecedor e grande. E, lógico. Adoro manter um suspense. Críticas, sugestões? Eu adoraria!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.