Tic-Tac
2 Capítulo 2
Uma enfermeira loira sorridente passou pelos garotos, ficando perto da cama deIago e checando os sinais vitais. O dispositivo que dizia sobre suas batidas cardíacas estava apitando loucamente.
– Está com dor? — a moça perguntou com um sotaque alemão rasgando a garganta enquanto o olhava.
Iago estava incrédulo, com a boca semi-aberta. A imagem dele era até engraçada, com os olhos arregalados e em choque. A moça estava até com o chapeuzinho típico da época!
– Ah? — soltou um único som.
– Dor. — A enfermeira sorriu doce.
– Ah... Só na cabeça... O que eu estou fazendo aqui? O que aconteceu com meus amigos?
A enfermeira cujo tinha um "Marilyn" escrito no seu uniforme, o olhou preocupada.
– Esperava que o senhor pudesse nos responder isso.
Iago franziu a testa.
Mais atrás, Gabriel parecia despertar, com uma careta de dor. Os olhos ainda não estavam abertos, mas viu que ele já murmurava e se mexia desconfortável.
– Não se preocupe, vamos contar exatamente o que aconteceu — continuou a tal Marilyn. — Encontramos você e seus amigos caídos no chão lá da rua, em uma posição bem diferente, então trouxeram vocês até aqui para ver se está tudo bem.
Caídos? Na rua?
– Posição diferente? — perguntou em voz alta.
– Um em cima do outro; como um montinho. — Riu divertida.
Bom, isso explicava muita coisa, pelo fato que Gabriel estava quase chorando de dor — apesar que sua feição era de SouMachoEAguentoTudo.
– Onde estamos? — perguntou depois de um tempo que usou tentando entender tudo.
Marilyn olhou para ele, analisando com cuidado. Não podia deixar de reparar: Iago era bonito de uma maneira estranha. Seu cabelo era desfiado e liso, quase como um topete. Nada igual ao Elvis P., infelizmente. Seu nariz era bonito e seus olhos um castanho curioso. Será que ele seria de outro país? Não conhecia ninguém que se arrumava assim!
A moça tratou logo de chamar o neurologista do hospital para checar o rapaz, com medo de algum dano cerebral. Já o mesmo se sentia estranho, como se cada partícula do seu corpo fosse sido separada e chacoalhada, sendo colocada de volta logo depois. Mais estranho ainda, era que isso não era sinal de dor. Sentia-se renovado, alias (ou será que deve ser por que caiu por cima de todo o montinho e seu 'colchão' era o gordo do Guga?), como se fosse capaz de fazer uma operação de matemática enquanto corresse numa competição veloz e... Vocês entenderam. Ele estava sentindo um barato louco. E dor de cabeça.
– Olá, eu sou o dr. Milles. Vim fazer testes no seu cérebro, para garantir sua memória de curto e longo prazo.
Gabriel finalmente havia levantado, tirando os fios do corpo e andando até Iago, quase como um zumbi. Algumas enfermeiras estavam quase indo atrás dele, mas ele era mais rápido. Onde já se viu Biel correndo de mulher?
Gustavo estava desmaiado quase como um vampiro; quieto, pálido e sério. Era como se tivesse jogando xadrez, concentrado e sem tempo para expressões faciais.
Já Derek, na cama ao lado, parecia dormir em paz, com bons sonhos. O cabelo cor de areia se misturava com o sangue presente na testa e... Sangue?
– Ele está sangrando! Você tem que ver como está a cabeça dele, doutor. Não a minha!
Dr. Milles foi examinar o loiro; logo depois, riu. Mostrou os três pontos depositados na testa para Thiago.
– Todos vocês chegaram aqui com marcas de sangue. Não se preocupe. Ele está bem. É só um corte.
– Todos? — perguntou, tentando se lembrar de algo.
– Todos. — Com isso, Thiago colocou a mão na sua cabeça. Ela girava novamente. O local onde tocou deu uma onda de dor por todo o corpo.
Estava tudo tão confuso. O que estavam fazendo ali? Onde era ali? Por que todos se vestiam como se fosse o dia das bruxas americano? Nem sequer estavam em Outubro! Ele até pensou que estaria viajando no tempo, mas que raios de pensamento seria esse? Claramente, era impossível fazer isso. Grandes cientistas já tentaram fazer, mas vacilaram legal. Se bem que o sentido tinha: Ampulheta, tempo, cenário...
Follen sentiu vontade de rir. E riria, se não estivesse tão desesperado e com saudades de casa.
Havia se passado cerca de três horas desde que os quatro estava acordados, ou dez minutos, em seus leitos de hospital separados apenas por uma divisa de pano branco com bolinhas adoráveis azuis. Iago não tinha mais noção do tempo.
A confusão já havia passado quase que por inteira, mas os garotos ainda estavam tentando entender em que dimensão estavam ou qual foi a última vez que beberam tanto.
O doutor deu uma olhada e fez coisas estranhas com os garotos, mas no final disse que estavam todos perfeitamente saudáveis. Agora, estavam deitados e encarando o teto.
– Só pode ser culpa daquele negócio amaldiçoado — Guga comentou.
– Que negócio?
– A ampulheta. E aquelas poerinhas loucas que dão dor na cabeça que ela soltava.
– Não inventa, cara. — Gabriel comentou e jogou a primeira coisa que viu ao seu lado — no caso, uma agulha — pro alto e pegou de novo, brincando como o cachorrinho que era.
– Aquela Marilyn me pareceu familiar. — Dery se pronunciou.
– À mim também. Eu senti uma sensação de... — Iago começou.
– ...deja vu... — Dery complementou.
– ...como se ela fosse alguém que conheço... — Guga. E todos olharam para o Biel distraído com sua seringa.
– O quê?
Estavam ainda mais abismados! Compartilhavam a mesma linha de raciocínio e as mesmas sensações. O que diabos estava acontecendo?
– ...mas ao mesmo tempo não. Como se eu devesse lembrar dela, uma antiga amiga, mas não lembro. — Iago fez o favor de finalizar e os três concordaram.
O garoto de cabelos cor de areia roeu a unha, em um sinal claro de desespero.
– Como vamos sair daqui? — perguntou suspirando.
– Esperem. Acho que achei um negócio. — Biel largou o brinquedinho e olhou para a estante de madeira — que tinha mais seringas ainda...
– Mitchell, agora não é hora de bancar o mé...
– Olhem ali em cima! — debateu.
Os olhares se seguiram para o topo da estante.
– Achamos a maldita.
A ampulheta brilhava, enquanto alguns grãos de areia caíam aos poucos. Ela estava voltada ao início, agora. Com um pequeno montinho caído na parte debaixo.
Quando Gustavo começou a se aproximar para pegar a infeliz, ela brilhou novamente e desapareceu.
Gritos agudos, femininos e desesperados foram ouvidos mais tarde. O pequeno hospital estava vazio agora, com apenas dois médicos de plantão e fora os rapazes, três pacientes desmaiados em seus leitos.
– Ajudem! Ajudem! — a moça gritou de longe.
– É a Marilyn! — Gabriel se levantou na hora, revigorado. Eles se entreolharam e concordaram, saindo correndo em busca dos gritos.
Os corredores brancos pareciam infinitos, mas estavam cada vez mais próximos do barulho.
Quando abriram a porta e deram de cara com Marilyn, a surpresa foi grande demais.
– O que é aquele bicho? – Derek gaguejou.
– Eu acho que é... – Thiago começou.
– Oh, não. Isso está cada vez mais estranho...
O protótipo de lagarto grunhiu e rosnou para eles.
– Um dinossauro do tamanho da minha perna! Legal! – Gabriel gritou animado e foi para cima do bicho, salvar mais uma vez o dia.
Mas nós sabemos que não é bem assim...
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