Tic Tac

2 Um medo subentendido


Aquela tarde parecia tão calma, com o verde das plantas em contraste com a luz do sol.Você pode imaginar essa cena?Pássaros cantando, assim como todos os dias, só que dessa vez parecia ser diferente.

E era.Era porque daria início a um medo subentendido, aparentemente de uma criança, medo de criança, medo semelhante a ignorância.Naquela tarde iniciaria um sentimento que essa criança não tinha conhecimento.

Seu pequeno e talvez inútil sonho, estava prestes a se quebrar como uma boneca de porcelana.Em seu futuro, que imaginava estar próximo, ela queria estar vestida de branco e com orgulho dizer que era médica.

Mas por que ser médica e curar as pessoas, poupa-las da morte, quando ninguém se importava com ela?Um pensamento egoísta que ela adquiriu mais tarde, foi esse.

E ela subia as escadas, daquela escola barulhenta.Para que tanto barulho se ela ainda se sente só?

Com os olhos Lia procura um lugar para se sentar.No momento ela nem tinha noção de quanto tempo já havia se passado até ela ter entrado naquela escola, e também não imaginava que já se tinha passado tempo o suficiente para ter pelo menos uma amizade ali.As únicas \"amigas\" dela, eram suas vizinhas, bem conhecidas, que brincavam de casinha com ela.Tanto que foi com elas que ela iniciou um incêndio em sua casa, quando resolveu queimar as bonecas das parceiras de travessuras.Deveria ser por isso que elas se afastaram dela, e nem \"oi\" fazia parte do diálogo entre elas.Estranho para uma criança que queria ser médica; gostaria de cuidar de bonecas, e fingir dar remédios e indicações para as amigas e mães daquelas insignificantes criaturas sem vida.Tantas coisas, bem distantes de queima-las.\"Ela é desapegada aos objetos materiais\", desculpa que sua mãe dava a atitude indefinida da garotinha.

Esse momento foi uma recapitulada em seu passado que poderia refletir em sua personalidade.Um momento que aconteceu quando ela começou a observar uma garota que tinha nos braços uma boneca.

A professora então coloca para funcionar o vídeo, um vídeo que tinha como assunto corpo humano, e consequentemente sangue.Sangue...aquele líquido de cor forte e um cheiro inconfundível.

Minutos depois, ela já estava chocada com tudo que tinha visto.Não tinha em mente que se quisesse se tornar uma médica, não poderia ficar em estado de choque por ver um vídeo.Porque ela viria aquilo pessoalmente, tocaria naquilo e sentiria o cheiro.

O sinal bate, para o intervalo.Nisso, uma garota de olhos azuis e cabelos loiros faz um convite para Lia, dizendo que ela poderia passar o intervalo com ela e as duas diviriam seus lanches.Ela aceita o convite e ainda chocada e quieta, acompanha a garota.

Seu corpo estava dormente, parecia que aquele tempo todo que estava na sala, seu único foco teria sido o vídeo, e as cenas que ela não sabia o motivo, mas estava daquele jeito.Suas mãos estavam frias, parecia que era inverno e ela estava desprotegida, sem luvas, sem agasalhos...suava frio, mesmo com aquele sol escaudante.Lia sentia aquilo, não sabia o que era, mas sabia que não era bom.

A menina percebeu que ela não estava muito bem, e tenta distrai-la.Seria uma boa oportunidade para tentar conhecer a misteriosa e solitária Lia, que sem perceber era comentada pelas meninas e citada como a \"esquezita\".

Lia começou a admirar o jeito de como aquela garota a \"acolhia\", querendo sua compania.Finalmente, se sentiu um pouco melhor, mas ainda não havia esquecido por inteiro tudo que tinha visto e sua reação.

E realmente, ela não iria nunca mais esquecer...porque foi aquilo que a fez desistir.Desistir é tão fácil, ela poderia lutar e colocar na cabeça que aquilo era inútil.Mas não.Ela não o fez.Até porque não saberia como iria fazer.

Depois que o intervalo acabou, a sensação voltou, mas dessa vez não era tão forte.Parecia que ela podia sentir a presença de alguém estranho a perseguindo e sentir o cheiro de sangue.