Through the Glass
1 Através dos quatro vidros
Notas iniciais
Voltar da escola, tomar um banho, fazer a lição de casa, pegar seu binóculo desfocado e sentar-se no parapeito da janela de seu quarto.
Essa era a rotina sagrada de Tobias.
Ele observava sua vizinha, Elen, cumprir sua própria rotina sagrada. A dela era um pouco diferente da dele — ela, após fazer sua própria lição, ia direto para o rádio, para dar play no CD que ela nunca tirava de lá; depois, ela colocava seu avental e se debruçava sobre seu cavalete, distribuindo tinta em sua nova tela em branco enquanto dançava ao som do que quer que estivesse tocando. Tobias, no entanto… Bem, ele a observava fazer tudo isso.
Aquele dia, porém, estava um pouco diferente. E Tobias não gostou disso.
Para começar, Elen não tinha feito sua lição de casa, então seus horários se desencontraram. Quando ele chegou à janela, ela já estava em frente à tela — contudo, ela não dançava: apenas encarava a tela vazia, seus olhos desfocados enquanto ela… chorava?
Foi então que ele notou. E ficou horrorizado.
O lado esquerdo do rosto de sua vizinha, antes tão delicado, agora estava manchado com cores doentias: roxo ao redor de seu olho azul, pontos amarelos e verdes na bolsa inchada abaixo deste; um rosa forte em toda a sua bochecha; e apenas uma linha vermelha escura, líquida e grossa, que escorria de um corte em sua sobrancelha até seu busto, sujando o decote de sua blusa branca.
Por isso ela não tinha ido à escola, então.
Haviam batido nela.
Tobias ainda pensava em que monstro poderia ter feito isso quando a porta do quarto de Elen se abriu num rompante, fazendo-a derrubar a tinta escura que segurava.
Ele não conseguiu acreditar.
A mãe de Elen, a mulher mais generosa e simpática da vizinhança, berrava com a própria filha enquanto avançava nela, esbofetando e arranhando seu lindo rosto com a mão livre.
Na outra mão, ela segurava uma arma de fogo.
Tobias não conseguia se mover. Ele sabia que tinha que fazer alguma coisa, mas o choque, o mais puro medo, o havia paralisado.
Ele continuou assistindo, congelado, a mãe apertar a arma para o peito da própria filha; viu Elen se virar e encarar a janela, desistindo de lutar. A mulher destravou a arma.
Elen o viu através do vidro. “Adeus”, ela disse.
E só aí ele se mexeu. Mas já era tarde demais — o disparo fez seu ouvido zunir, fez seu coração se partir dolorosamente.
Com lágrimas nos olhos, tremendo em descrença, ele ligou para a polícia.
*
Os dias passam. Ele ainda volta da escola, ainda toma seu banho, ainda faz sua lição de casa, seu binóculo ainda está lá.
E o quarto de Elen continua vazio.
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