Notas iniciais
Olá pessoal, espero que não tenha demorado tanto. Gostaria de pedir desculpas, pois tive uns problemas pessoais. Uma pessoa muito importante para mim faleceu e infelizmente eu fiquei completamente sem ânimo para continuar escrevendo. Mas fiz de coração esse novo capítulo e espero que continuem acompanhando e curtindo a fic.

— O senhor me desculpe, mas não posso abrir um boletim de ocorrência por desaparecimento se o homem em questão saiu de casa por vontade própria. — Um dos policiais explicou pela décima vez naquela mesma manhã. Já haviam recebido um telefonema por parte do tal modelo, mas imaginou que era algum tipo de trote ou brincadeira de mal gosto, no entanto, lá estava o homem, irritado, vociferando e exigindo uma posição. — Senhor, entenda, ele apesar de não ter 21 anos de idade, tem 18 e se saiu de casa por livre e espontânea vontade não posso enviar meus homens para uma busca desse patamar. Será que o senhor está se ouvindo? Temos inúmeros crimes que ainda não foram resolvidos, recebemos todos os tipos de chamadas todos os dias e o senhor quer que enviemos nossa força tarefa na busca de uma pessoa que simplesmente quis ir embora? Entende como isso não faz sentido? — O rapaz lambeu os lábios e encarou o loiro com uma expressão esperançosa.

— Eu estou dizendo que ele não saiu desse modo. — Milo desviou o olhar constrangido, sim, era loucura, é claro que ele havia ido embora, deixara até mesmo um bilhete, bilhete este que ele ocultara a fim de conseguir a tal ajuda, mas nem isso estava sendo útil. — Ele pode ter sido sequestrado na rua! Eu sou uma figura pública e ele foi inúmeras vezes citado em revistas e jornais, não acha que pode ter sido atacado?

— Já fomos até sua residência, não houve arrombamento, também interrogamos o porteiro e vimos os vídeos de segurança, ele saiu com a mala, saiu sozinho, não havia ninguém o obrigando a deixar o local. Eu acho que o senhor deveria voltar para casa, se ele quiser voltar, voltará. Senão, deve seguir em frente, sei que é difícil, minha mulher também foi embora há pouco tempo. — O homem sorriu meio sem graça e mostrou o dedo anelar, havia ali uma marca do anel que costumava usar. — Minha profissão exige muito tempo e a sua não é tão diferente, são áreas distintas é claro, mas imagino que o rapaz tenha se sentido pressionado e decidiu partir. A vida é assim, senhor Séferis.

O modelo entreabriu os lábios para rebater, queria gritar que não havia sido abandonando, mas sim, tudo indicava que era exatamente isso. Havia sido deixado de lado, até mesmo Shaka se cansou dele, concluiu com pesar. Deixou a delegacia com uma expressão derrotada, Shura o aguardava do lado de fora, ele decidira acompanha-lo, passaram quase a noite inteira procurando Shaka, mas após tanto tempo ambos decidiram ir até a delegacia. É claro que haviam também ido ao apartamento do modelo, nada fora do lugar, era exatamente como o policial afirmara, não havia sinais de arrombamento ou briga, nada, simplesmente o vazio.

— E então? — Shura se desencostou do veículo e se aproximou do amigo. — Vão encarar como desaparecimento? — O espanhol tinha suspeitas de que jamais fariam tal disparate, mas não queria deixar o amigo mais chateado do que já estava. Talvez fosse melhor, claro que as circunstâncias não eram as ideais, mas era bom que cada um tomasse seu rumo. Afinal, ambos continuavam sustentando aquela farsa e magoando um ao outro dia após dia.

— Não. — Milo disse simplesmente e se limitou a adentrar o carro, estava de péssimo humor. Ao se sentar no veículo, retirou do bolso um vidrinho com algumas pílulas.

— O que é isso? — Shura indagou ao ocupar o lugar do motorista. — Desde quando toma remédios?

— Não são meus, são do Shaka, eu estou tomando, mas parece que ele levou os meus por engano, espero que ele perceba, ele nunca toma remédios, isso aqui é feito de ervas. — O modelo sorriu ao se lembrar da neura do loiro em relação ao consumo de drogas, mesmo que lícitas. — Acha mesmo que ele vai ficar bem?

— Eu acho que sim, Milo, não vejo Shaka agindo de maneira desesperada, ele é uma pessoa centrada, se tomou a decisão de ir embora, deve ter algum plano em mente. Não acho que ele seja frágil o suficiente para ter problemas, ele vai lidar bem e superar. E você meu amigo, devia fazer o mesmo, não digo só em relação a ele, mas em relação ao Ca...

— Não começa! — Milo resmungou irritado e apertou o frasco entre os dedos. — Eu bem que suspeitei, você anda enfiado com o Saga no escritório, imagino que ele te passou um sermão para tentar me fazer mudar de idéia, mas não vai funcionar. Inclusive eu quero que me deixe no hospital se você não quiser fazer parte disso, então me deixa ali naquela esquina que eu pego um táxi.

— Por que insiste nisso? Você continua indo até lá, dia após dia, sempre volta com a mesma notícia, de que ele não deseja e nem pode receber visitas, não acha que está na hora de parar com isso? Acho que é chato até para ele, Milo, imagina que droga, estar preso naquele lugar e ainda ficar recebendo insistentes visitas de uma pessoa que ele nem conhece e que por sinal o pouco que conviveu apenas trouxe dores de cabeça. — O moreno bufou irritado e continuou seguindo, o levaria, pois, o teimoso não parecia disposto a ouvi-lo e certamente se não parasse para deixa-lo ir de táxi e se recusasse a fazer sua vontade, era capaz do maluco saltar do carro em movimento.

— Porque eu gosto dele. — Respondeu pura e simplesmente, não havia dito ao amigo a respeito da condição do outro, não achava correto. — Eu realmente gosto dele, não gosto de saber que está doente.

— Então é por pena? — Mantinha os olhos fixos na avenida pela qual percorria, mas estava verdadeiramente curioso. Nunca viu Milo daquele jeito, não era somente a insistência do amigo em respeito a ver o ruivo, mas sim na mudança óbvia que ele sofrera. Em questão de praticamente um mês o modelo perdeu peso, tornou-se melancólico e introspectivo. Há quanto tempo ele se recusava a sair ou festejar? Já não bebia mais, ia para o trabalho extremamente cedo e saia às pressas para ir até aquele bendito hospital.

— Não é por pena, você não entenderia Shura, por que continua me perguntando? Eu mesmo não entendo, eu só, quero estar ao lado dele. Quero proteger aquele cara. — Confessou triste, não era pena, pensou muito àquele respeito, se era somente por ouvir as terríveis circunstâncias que envolviam o francês, mas era mais do que isso. Não queria deixa-lo sozinho, mesmo depois de saber pela boca do irmão que possivelmente nunca concretizaria o desejo de tocá-lo em vista do trauma terrível que ele havia sofrido. Ele que sempre foi ligado a sexo, agora simplesmente não se importava apenas de ficar ao lado de uma pessoa que era basicamente um desconhecido. Era irônico, ridículo em certos aspectos, se alguém dissesse algo assim iria rir e dizer que é impossível e improvável que algo desse tipo pudesse ocorrer.

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— Se o senhor sabe que o nome dele é Shaka, por que deixou que fizessem a ficha como paciente desconhecido? Isso é irregular doutor. — A enfermeira mirou o médico um tanto intrigada e até desaprovando a atitude do moreno. — Se alguma coisa der errado o senhor pode ser demitido.

— É porque esse garoto se envolveu em escândalos recentemente, já não podemos mais aguentar a presença insuportável daqueles abutres. — Referia-se aos repórteres que continuavam a importunar os funcionários ocasionalmente a respeito do estado de saúde de Camus Versailles e agora aquele garoto Shaka Devraj caia de bandeja no local, era irônico, concluiu ao analisar bem a situação. — Se eles souberem que o rapaz está aqui não teremos paz e depois as circunstâncias com que chegou aqui são suspeitas. Eu sei que ele se chama Shaka, porque eu vi no jornal, mas ele não tem documentos e tampouco acompanhantes. Foi simplesmente jogado na frente do hospital, isso é sem dúvidas inusitado.

— Não são suspeitas, o rapaz tentou se suicidar, o senhor mesmo concluiu ao examiná-lo, o rapaz teve uma overdose. Não acho nada suspeito, devem ter largado na frente do hospital para não se implicar em consequências drásticas caso acabasse morrendo. — A mulher franziu o cenho, entendia os motivos do médico, mas ainda achava um procedimento inapropriado.

— Sim, o diagnóstico é overdose, tudo indica uma tentativa de suicídio, mas mesmo assim, a quantidade ingerida não foi tão alta quanto os outros pacientes que recebemos. Não posso simplesmente concluir nada sem falar com o rapaz. Então até que tudo seja esclarecido, peço que mantenha isso em sigilo absoluto. Eu me responsabilizo. — O moreno tornou com seriedade e voltou para perto do paciente. Havia passado a noite inteira ao lado dele, normalmente teria apenas feito o procedimento padrão e ido embora, afinal, seu horário já havia sido concluído há muito tempo, no entanto, sentiu-se compelido a ficar. O rapaz parecia tão jovem e era desesperador imaginar que um rapaz daquela idade tivesse tomado uma atitude tão irresponsável.

— Doutor Amamiya, devo lembra-lo que o senhor tem outros pacientes? — A mais velha tornou rígida. — O paciente está estável, não deveria dar preferência a ninguém aqui, não é parte da sua função.

— A minha função, senhorita, é garantir que meus pacientes se recuperem, estou ciente das minhas obrigações, pode se retirar. — Ele tornou azedo.

A mulher deixou o quarto inconformada, talvez fosse o momento de intervir, era melhor ir até o diretor informar a atitude do médico, afinal, caso ocorresse algum problema poderia ser responsabilizada por ficar ao lado do novato. Ikki era estrangeiro e não trabalhava naquele local há muito, haviam muitos que admiravam a forma com que ele trabalhava, mas ela sem dúvidas não concordava com os métodos não ortodoxos do homem. Pacientes eram apenas números e pessoas desequilibradas não eram exatamente bem vistas aos seus olhos. Primeiro o tal Camus Versailles que em sua opinião deveria estar em um hospital psiquiátrico e não em um hospital familiar e agora aquele loiro suicida, que por sinal, deveria ter sido levado para um hospital público visando que não parecia ter dinheiro para arcar com as despesas.

— Abra os olhos loiro, já sei que está acordado. — O médico disse com uma expressão tranquila quando a mulher deixou o quarto. — Sua respiração está alterada e os batimentos cardíacos subiram, não se preocupe, ela já foi.

— Eu não gosto de hospitais. — O loiro disse fraco, sentia a boca seca, tentou se sentar, todavia, uma súbita tontura fê-lo deitar-se novamente e gemer, tocando a cabeça com uma expressão dolorida. — Eu não fiz isso, tentar me matar, eu juro. — Ele explicou ainda de olhos fechados.

— Não? — Ikki se aproximou da cama e sentou-se próximo ao rapaz. — Então como explica os remédios que ingeriu?

— Eu não sei. — Shaka abriu os olhos e mirou a face séria do japonês. Ambos ficaram apenas se olhando, Ikki curioso e ele sincero até os ossos. — Eu só sei que me senti muito mal, costumo tomar remédios à base de ervas para dormir, mas nunca tive mal-estar por causa deles.

— Tem certeza que é isso? Eu não vou julgá-lo, sei que está passando por complicações, todos sabem, os jornais não deixam ninguém esquecer. — Se referia ao escândalo do suposto namoro com o modelo. — Não tomou remédios propositalmente?

— Eu já disse que não tomei, por que acha que eu faria isso? Olha, eu não quis chamar a atenção de ninguém se é o que está pensado. — Shaka sorriu com um ‘q’ de incredulidade e havia certa raiva no olhar. — Você nem me conhece, acha mesmo que sabe de alguma coisa? Eu passei o inferno nesses últimos meses, meu pai me odeia, Milo está enlouquecendo por um completo estranho e todo mundo me aponta e me julga como se eu fosse um criminoso! Não entendo como as pessoas podem ser tão cruéis, vivem falando coisas ao meu respeito e eu não fiz absolutamente nada! Eu apenas pensei que estaria tudo bem namorar a pessoa que eu gosto, mas isso me custou tudo! Minha carreira, minha família e pelo jeito minha sanidade também, porque o senhor e aquela mulher me acham um doido suicida!

Embora quisesse acreditar que ele estivesse sendo sincero, ainda restavam algumas dúvidas. Ele dizer que não sabia como ingeriu os remédios não provava absolutamente nada, mas já era um começo, talvez e só talvez o tivesse feito por engano. Não queria piorar a situação, portanto, decidiu deixa-lo falar e analisar o caso em silêncio. Pelo jeito que estava bem deprimido, mas não acreditava que fosse depressão, o que era incomum, visando que a maioria dos pacientes que chegavam ao ponto de tentar tirar a própria vida sofriam de depressão grave. — Não acho que seja louco, creio que esteja lúcido, mas admita que é estranho, os remédios que constam no exame são remédios controlados e não remédios à base de ervas. Mas agora o mais importante é sua recuperação e acima de tudo precisamos entrar em contato com algum familiar ou responsável, você foi simplesmente jogado na frente do hospital, como explica isso?

— Eu sai de casa, eu estava em um hotel antigo, em um bairro de classe baixa, o nome era... era.... — Tentou se lembrar com exatidão do nome, mas não conseguia, se lembrava do letreiro com defeito, do cheiro ruim do local, mas o nome, isso não vinha a mente mesmo que se esforçasse muito. — Eu não consigo lembrar! O letreiro estava quebrado, algumas letras não piscavam e outras estavam desgastadas, eu realmente não sei. Talvez o dono do lugar tenha me encontrado e quis se livrar de mim, ao menos me trouxe para um hospital.

— Sim, mas agora as coisas se complicam ainda mais, você tinha um local confortável para ficar e decidiu sair de casa, se hospedou em uma espelunca e tomou inúmeros remédios, não acho que as circunstâncias estejam ao seu favor, não é? — O médico se levantou e bagunçou os cabelos um tanto nervoso. — Não tenho razões para mantê-lo aqui por mais de 24 horas, você está estável, mas não posso permitir que saia sozinho, não depois do seu diagnóstico, seria irresponsabilidade de todos os ângulos.

— Eu não tenho nenhum familiar no país e eu não quero que Milo saiba que estou aqui, sai de casa, porque queria minha própria independência. Eu quero trabalhar e me sustentar sozinho, não temos mais nada um com o outro, por que eu ficaria vivendo embaixo do teto dele, vivendo do dinheiro dele? Não me obrigue a voltar para lá. — Era orgulhoso, mas havia súplica no tom de voz. Seus olhos estavam fixos nos do médico, não podia permitir que ele contasse a alguém, pois se seu pai acabasse sabendo disso o odiaria de uma vez por todas. Os pais eram muito ligados aos preceitos da religião e ele próprio o era, suicídio era um pecado mortal, não importava qual ângulo encarasse, era abominável.

— Você não tem documentos, não tem nenhum pertence, chegou aqui com a roupa do corpo, não posso simplesmente dar alta desse jeito. — Ikki tentou explicar, não queria implicar o loiro em mais problemas, mas também não podia arriscar. Ainda achava que ele poderia sim ter tentado suicídio, temia que ele conseguisse da próxima vez. — Eu entendo sua situação Shaka, quero te ajudar, mas você está limitando as opções.

— Eu não sei, mas não quero que ligue para ele, não pode simplesmente me deixar ir embora? Eu juro que não farei nada de errado, só me deixe ir embora. — Pediu esperançoso.

“Doutor Ikki Amamiya, favor comparecer a sala do diretor. Doutor Ikki Amamiya, favor comparecer a sala do diretor. ”

O alto falante soou alto e claro e o médico suspirou diante do chamado.

— De qualquer maneira, você ainda deve permanecer aqui, mais tarde venho ver como está e então podemos resolver a questão. Eu tenho que ir. — Se despediu do paciente e deixou o local.

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— Até que aqui não é tão ruim, tem flores ao menos. — Afrodite sorriu e se espreguiçou, ambos estavam sentados em um banco feito de pedra próximos a uma fonte muito bonita e no jardim havia toda espécie de plantas e flores, era bem terapêutico. — Ah, Camus, não faz essa cara, tem lugares piores. — O loiro empurrou o amigo com o ombro de levinho e sorriu.

— É, tem, a cadeia, que por sinal Hyoga ainda não está livre e eu aqui trancado nesse hospício. — O ruivo tornou chateado. — Eu não acredito que você me colocou aqui Dite, francamente. — Tornou magoado.

— Hyoga está melhor que você, posso garantir, está dormindo cedo, comendo bem, indo as aulas, arrisco até a dizer que as notas dele vão subir. — O sueco tornou com uma expressão azeda. — Pare de pensar no Hyoga e se concentra no seu tratamento, certo? Sim, eu te coloquei aqui, te colocaria de novo se tivesse a chance, eu gosto de você Camus, por isso fiz isso. Não me venha com reclamações a essa altura do campeonato, você vai ficar bem e logo tudo isso será apenas uma lembrança ruim, não fique bravo comigo, eu é que devia estar bravo. — O loirinho se ergueu e encarou o amigo com um bico adorável. — Você é mesmo um idiota! Sempre guardando tudo para você, devia ter me contato, devia dividir o fardo, mas em vez disso preferiu resolver tudo sozinho e quase ficou doido.

— Eu não sou doido. — O ruivo também se levantou. — Eu tive um surto momentâneo, qualquer pessoa está sujeita a isso se estiver sob muito estresse, até você, Afrodite. Eu sei que gosta de mim, mas não acho que me deixar trancado nesse hospício vai resolver coisa alguma.

— Exatamente, até eu, mas eu não vou surtar hoje, então senta aí e sossega. — O loiro segurou os ombros do outro e fê-lo se sentar. — Eu disse ‘quase’. — Pontuou. — E isso não é um hospício, é apenas um hospital, por acaso você está cego? Olhe em volta, tem um monte de gente aqui com diversos tipos de sintomas, olha aquele ali, quebrou a perna, viu? Não é hospício. — Explicou pela milésima vez.

— Eu já vi, não precisa ficar apontando. — Camus se permitiu sorrir pela primeira vez no dia e maneou a cabeça negativamente. — Você é um estouro, Dite, pare já com isso. — Pediu. — Mas é sério? O Hyoga está mesmo bem? Ele não veio me ver nenhuma vez.

— Engano seu, ele veio sim, logo depois que saiu da cadeia ele veio, mas você estava dormindo e depois disso ele não quis mais vir. Acho que a cena não foi muito legal para ele, dê um tempo a ele Camus, deve ser estranho ver o irmão que sempre esteve bem dormindo em uma cama de hospital. E ele está ótimo, chato, insuportável, mesquinho como sempre. O seu bebê está inteirinho. — O loiro revirou os olhos e riu da cara surpresa do amigo. — Que foi? Eu ouvi você dizendo que ele era seu filho, depois de pensar um pouco faz sentido, só sendo pai mesmo para ver inocência naquela praga.

— Ele não é praga. — Se irritou. — Ele só está passando por momentos difíceis.

— Sim, falta de surra, eu sempre pensei nisso, devia pegar ele de jeito e dar uns bons tapas naquela bunda branca. — O loiro caiu na risada ao ver a expressão horrorizada do amigo. — Ah, sério, sua cara é impagável. — Gargalhou.

— Você não presta. — Beliscou o amigo e sorriu. — Talvez eu devesse, não é? Colocar ele de castigo ajoelhado no milho ou olhando para a parede durante duas horas.

— Nossa que castigo arcaico, isso é da época do meu bisavô, credo. — Afrodite rebateu divertido. — Podia cortar a mesada dele, deixar ele no quarto sem ver TV ou usar o computador, essas coisas, sabe?

— E ele ia mesmo respeitar minhas regras, não é? Hyoga é tão regrado. — Camus debochou.

— Oh, não é que você está certo dessa vez? Nesse caso para mostrar minha empatia, saindo daqui vou comprar aquelas boias que se usa quando machuca os quadris, sabe? Assim quando ele levar as palmadas não vai resmungar para sentar. Sério, imagino a cara dele se você jogasse ele nos joelhos e deixasse ele com a poupança toda vermelha, seria cômico. — O loiro voltou a rir e dizer coisas inconcebíveis que faziam o próprio ruivo cair na risada.

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— Eu vim ver o Camus. — Milo disse para uma das enfermeiras, enfermeira essa que habitualmente o atendia e já o conhecia muito bem. — Hoje está um bom dia, será que ele não estaria relaxando no jardim? — Sorriu charmoso e cheio de esperanças.

— Ele está sim, mas o senhor não pode entrar, sabe disso. — A mulher tornou um tanto triste por ver aquele sorriso lindo desaparecer. — Sabe que o doutor Amamiya não vai deixar de jeito nenhum. — Advertiu.

— Doutor Amamiya... eu ouço falar desse cara toda hora, mas nunca vi ele frente a frente, me faz um favor, chama ele, deixa eu tentar fazer ele mudar de idéia. Sou bom em convencer as pessoas, sabe? Nem esse tal Amamiya vai resistir ao meu charme, deve ser um velhinho gorducho de óculos, aposto que o velho não aguenta o sorriso de Milo Séferis. — O modelo passou um dos braços em volta do ombro da enfermeira que corou, mas acabou rindo.

— Disso eu duvido muito. — Ikki tornou com uma carranca nada amigável. — E seu charme de quinta não cola com ele, disso não tenho dúvidas. Ah, mais uma coisa, esse seu sorriso nem é tão deslumbrante assim.

Milo soltou a mulher que ria baixinho e se virou na direção da voz masculina, franziu o cenho, aquele era novo, ao menos nunca o tinha visto. Quase caiu para trás quando leu o nome no crachá ‘Doutor Amamiya’. — Eu estava brincando! — Se apressou em dizer. — Não entenda errado, foi só uma piada.

— Estou vendo, aqui é um ambiente bem propício para piadas mesmo, cheio de pessoas loucas para dar risada. Aquela ali por exemplo, olha. — Indicou com a cabeça. — O marido daquela moça está em cirurgia no momento e pode não sobreviver, aposto que ela está bem relaxada e deseja mesmo ficar ouvindo suas palhaçadas, por que não vai até lá contar piadinhas, uh? — Estreitou os olhos. — E a senhorita, vá se ocupar dos pacientes, imagino que muitos estejam necessitando de atendimento, pare de jogar conversa fora com esse tipo. — Volveu rígido.

— Olha cara, eu sinto muito, eu realmente não tive a intenção. — Depositou a mão no ombro do japonês. — Eu só quero ver o meu ruivo, toda vez que venho aqui dizem que ele não pode receber visitas.

Ikki franziu ainda mais o cenho e mirou a mão do outro que passeava livremente por seu ombro. Respirou fundo e soltou o ar devagar, por alguns momentos imaginou que o tal modelo tivesse ido ali ver Shaka, talvez ele tivesse mudado de idéia e ligado para o traste, mas não, ele estava ali por causa do ‘ruivo’, ou seja, Camus, bem que já tinham dito que um sujeito andava rondando o hospital atrás do ruivo, porém, obviamente ele negou categoricamente visitas de pessoas não vinculadas a família e agora tinha o desprazer de conhecer a figura. Já estava de péssimo humor depois da conversa que tivera com Dohko a respeito de Shaka e agora ainda tinha que aturar as gracinhas daquele loiro de farmácia.

— Então, vai me deixar ver o meu ruivo? Estou com tanta saudade. — Milo continuou, todo cheio de esperanças, sem, no entanto, perceber o perigo nos olhos tempestuosos do moreno que só faltava soltar fumaça de tão irritado.

O japonês moveu o ombro, livrando-se do contato e sem pensar duas vezes desferiu um soco contra a face do loiro que caiu sentado diante da reação do mesmo. — Tire suas patas de cima de mim e vá embora, se eu ver você aqui de novo eu vou quebrar a sua cara, entendeu? — Volveu furioso, não sabia o porquê, mas conseguia imaginar o quanto seu outro paciente sofrera com aquela personalidade terrível do modelo. E isso o fazia ter vontade de arrancar aquela cabeça loira, não era possível que ele estivesse ali correndo atrás de outro, enquanto o suposto namorado quase havia se matado na noite anterior. Visando pela ‘animação’ da criatura, nem devia ter dado falta do amante e tampouco se preocupado em procurá-lo.

— Você ficou doido? — Milo se ergueu irritado. — Eu vou te matar! — Partiu para cima do médico tentando acertá-lo, porém, ele parecia estar esperando o golpe e o evitou com facilidade.

A briga se iniciou e logo a confusão estava formada, foi preciso a interversão de dois seguranças para separar os dois que mais pareciam querer o sangue um do outro. Ikki ainda tentava se soltar para continuar com a discussão e Milo não parecia disposto a ceder, todavia, foi Afrodite quem conseguiu fazer o modelo se acalmar, pois, ao vislumbrá-lo, correu na direção dele e mirou-o nos olhos estarrecido.

— Milo? O que você está fazendo? — O loiro indagou incrédulo e se colocou em meio à confusão, mais precisamente, na frente do loiro e entre o outro segurança e um Ikki irritadíssimo. — Por todos os Deuses, parem já com isso, onde já se viu. Isso é um hospital. — Se irritou. — Você vem comigo. — Agarrou o braço do modelo. — E o senhor, doutor, vejo daqui a pouco. — Fulminou o japonês com o olhar e saiu arrastando o modelo em direção a cafeteria.

Após algum tempo, ambos se encontravam sentados frente a frente, Afrodite irritado pela audácia do grego em ir até ali de novo, isso, porque sabia que ele já havia tentado inúmeras vezes, o próprio Saga o advertiu. — Agora me explique.

— Explicar o quê? Ele quem começou! Eu só disse que queria ver o Camus e o sujeito meteu a mão na minha cara. — Rebateu inconformado. — Esse tal de Amamiya é um psicopata! Não deveria ficar perto dos pacientes, vai que ele resolve agredir geral de uma hora para a outra.

— Milo francamente, Ikki não é nenhum pouco violento, tenho acompanhado a forma com que ele vem tratando o Camus e eu nunca vi pessoa mais calma e atenciosa, não sei o que você disse a ele, mas eu duvido que tenha feito isso de graça. — Embora Afrodite gostasse do modelo, era justo e sabia que o médico não era violento, bem, ao menos não demonstrava isso. Ao contrário, tinha muita paciência e lidava com os pacientes com muito respeito e atenção. Era visível que a profissão fora escolhida por gosto e não por dinheiro.

— Eu disse que ele era um velho rechonchudo de óculos que possivelmente me deixaria ver o Camus se eu jogasse um charminho. — O modelo sorriu de lado, mas se arrependeu ao sentir o lábio dolorido. — Esse infeliz. — Resmungou. — Eu preciso do meu rosto inteiro, sabe? Como vou sair nas fotos assim? — Tocou o machucado e fez uma careta.

— Se eu fosse ele teria chutado você nas partes baixas. — Afrodite volveu inconformado, mas acabou rindo. — Eu queria ao menos ter visto a cara dele quando você disse isso.

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— Deixa ver se eu entendi direito. — Dohko massageou as têmporas e mirou o médico com uma expressão de incredulidade. — Você bateu em um visitante e fez um escândalo na recepção, é isso?

— Visitante onde? É um perseguidor! Esse cara tem rondado o hospital faz um bom tempo, está perseguindo um dos meus pacientes. — Ikki acusou inconformado.

— O seu paciente fez queixa disso? Por que não chamou a polícia então? — O mais velho quis realmente saber, nunca havia visto Ikki Amamiya perder o controle, que dirá agredir alguém.

— Não fez queixa, mas eu sei, porque sou médico dele, ora. O sujeito vem praticamente todos os dias, eu digo que ele não pode receber visitas e ele continua voltando. Hoje estava fazendo chacota na recepção e veio colocar a mão em mim enquanto exigia ver o meu paciente, eu achei um absurdo, perdi a cabeça. — Confessou irritado. — Dohko, eu juro que não sei o porquê reagi assim, você sabe, nunca reclamaram sobre meu comportamento, eu... olha, pode me punir, quer me demitir? Demite! — Deu de ombros. — Mas esse cara é problema, meu paciente está passando por um período de adaptação, não acho que seja prudente deixa-lo receber visitas que possam perturbar o estado de espírito dele. Camus deixou bem claro que as únicas visitas que desejaria receber eram do amigo Afrodite Laursen e o do irmão, Hyoga. — Achou por bem ocultar a parte do ‘filho’ já que o francês ainda não tinha revelado ao público. — Temos feito um lento progresso, mas ainda assim um progresso, quando me pediu para cuidar do caso, me disse que deixaria que eu decidisse o que fosse melhor. Eu decidi que seria melhor isolar ele de eventuais problemas e esse cara é problema!

— Ikki, você não conhece o rapaz, talvez fosse melhor avisar ao seu paciente sobre a visita e deixar ele decidir por si mesmo. E se não quiser fazer isso, certo, não posso te obrigar, mas não pode sair agredindo as pessoas simplesmente porque não gostou delas. — Dohko tentou ser paciente, pois o rapaz nunca tinha dado problemas, talvez apenas estivesse tendo um péssimo dia, aliás, parte disso era sua culpa. Afinal, tinham discutido ainda pouco a respeito de outro paciente que ele defendia de maneira ferrenha. — Eu entendo que queira ajudar seus pacientes, mas não pode tratar dos casos baseando-se em conclusões pessoais. Isso é antiético, não creio que Camus deseje que você saia batendo nos amigos dele, mesmo que não tenha solicitado permissão para visitas vinda por parte desse em particular.

— Eu já disse que passei dos limites, isso não irá se repetir, volto a salientar, se achar melhor me demitir, não vou fazer represálias, compreendo que agi por impulso e que minha atitude é imperdoável. Isso é um hospital e desordem não será tolerada. — O rapaz abaixou a cabeça e aguardou pacientemente. Não iria discutir mais, sabia que estava errado, que não devia levar as coisas para o lado pessoal, mas naquele momento o sangue ferveu e lá estava o resultado. Sabia que precisava e muito daquele emprego e que certamente se fosse demitido por justa causa custaria a encontrar outro lugar para trabalhar o que destruiria sua condição naquele país e certamente o forçaria a voltar para casa. Casa? Não havia mais nada no Japão, a única propriedade que tinha fora vendida e fora justamente ela que permitiu pagar os estudos e conseguir a mudança que tanto almejava e agora mandaria tudo por terra por causa de uma atitude mal pensada. Era ridículo, teve vontade de rir, mas se manteve em silêncio.

— Não vou te demitir. — Dohko disse finalmente após ponderar. — Já vi muitos tipos de profissionais em minha vida, Ikki. Antes de tudo, eu já atuei na área e conheço bem um talento nato quando vejo um. Você faz o que faz por amor e não por dinheiro, perder alguém como você seria lamentável, mas eu peço que pense bem nas suas atitudes e reflita. O que você fez foi errado e por mais que eu simpatize com você e admita que seja um ótimo profissional, não vou mais tolerar esse tipo de atitude. Pode ir, já fez mais do que devia por hoje, caso o rapaz entre em contato e queira processar o hospital tentarei entrar em um acordo, se for necessário você irá se desculpar, ouviu?

— Eu não... — Ikki tentou, mas ao ver o olhar severo do mais velho anuiu simplesmente. Odiaria ter que pedir desculpas para aquele cara, mas se fosse o caso, se fosse para resguardar o nome do hospital o faria. Não queria causar problemas para Dohko que o acolhera tão gentilmente, ainda mais depois daquele voto de confiança.

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— Loiro, vista suas roupas. — Ikki adentrou o quarto feito um furacão, pegou os pertences do rapaz que se encontravam dentro de um armário e atirou em cima da cama. — Você vai receber alta agora.

— Mas disse que não poderia me deixar sair sem nenhuma responsável ou familiar. — Shaka franziu o cenho sem entender, pegou os objetos e mirou o médico um pouco assustado. — Está tudo bem?

— Sim, tudo ótimo, eu disse isso e volto a repetir, é impossível você deixar esse hospital sem um responsável. — O médico puxou a cadeira que estava próxima a cama e praticamente jogou-se ali, ainda estava irritado por causa do que aconteceu e demoraria um bom tempo para se acalmar.

— Então? — Shaka olhou apreensivo para o outro.

— Então você veste as roupas e vem comigo, eu vou te lavar para minha casa. — Disse após uma longa pausa.

— Como é? — Shaka estava assustado com a novidade. — Como assim para sua casa? Esse tipo de coisa, eu nem o conheço, não diga tolices.

— Eu devo ter perdido o juízo mesmo, mas vou te dizer apenas uma vez. Nesse momento você não tem muita escolha, não tem para onde ir, não tem amigos e nem um responsável e seu namoradinho está lá fora. — Tornou com um sorriso irônico.

— Como assim? Eu disse que não queria que ele fosse comunicado, o senhor me traiu! — Se ergueu da cama revoltado.

— Eu te trai? Não, loiro, ele te traiu, aliás, quer te trair, mas não vou deixar ele se sair bem nessa. Esse cara vai ver só. — O médico cerrou os punhos irritado. — Ele veio até aqui atrás do meu outro paciente, está como louco atrás dele faz quase um mês, nem ao menos pensou em te procurar eu acho. — Rebateu sem pensar e se arrependeu ao ver a expressão dolorida na face do loiro. — Olha, me desculpa, mas é a verdade. Você disse que queria se sustentar, não é? Então ok, eu vou te dar um lugar para morar, você cuida da casa na minha ausência, enquanto isso vai procurando emprego, quando se estabilizar pode ir embora. Não se preocupe, não sou nenhum psicopata, eu nem moro sozinho, não é como se eu fosse te atacar.

— Seu paciente é o Camus não é? — Shaka agarrou as próprias roupas e mirou o outro com curiosidade, estava realmente chateado em saber que Milo apesar dos pesares nem havia esperado para ir correndo atrás do tal Camus, nem devia ter notado que saiu, sorriu triste.

— Você o conhece? — Ikki pareceu surpreso.

— Não, mas ele trabalha, aliás, trabalhava, bem, eu não sei direito. Milo e ele tinham um contrato, era de se supor que fossem apenas companheiros de trabalho, mas ao que parece Milo fez dele seu próximo alvo. Tenho pena desse Camus, eu não odeio ele, nunca me fez nada, mas se o Milo está visando ele é bom tomar cuidado, porque ele não desiste até ter o que quer. Seu paciente é que vai acabar machucado. — Advertiu com mágoa.

— Não vai, não vou deixar que ele faça nada, enquanto ele estiver aqui vou manter esse traste bem longe dele. E você, se quiser se vingar dele, vista as roupas, vamos sair daqui de cabeça erguida. Amanhã é um novo dia, vamos mostrar para ele o que perdeu. — Se ergueu e estendeu a mão para o loiro. — Temos um acordo.

Shaka titubeou, mas agarrou a mão do outro e assentiu. — Eu não quero me vingar dele, mas eu quero seguir em frente, por enquanto vou aceitar sua ajuda, mas saiba que vou pagar por tudo quando tiver condições. Mas doutor, me diga, por que está fazendo isso? Nem me conhece, acha que sou um maníaco suicida, por que iria se responsabilizar por um completo estranho? — Quis saber, na verdade, sentia o coração palpitar no próprio peito. Talvez fosse um erro ainda pior do que confiar em Milo, mas de alguma maneira aquele era o momento mais emocionante que já vivenciara em seus dezoito anos de vida.

— Você me lembrou o meu irmão, só de pensar que algum imbecil que nem esse Milo possa machucar meu Shun, me sinto profundamente irritado! Não vou permitir que ele pise em você e saia por aí contando vantagens, decidi te ajudar, porque você parece uma pessoa de bom coração, uma pessoa sensata, então eu vou te dar os meios, agora o resto é com você. Tudo depende da sua força de vontade e garra, temos um acordo? — Apertou a mão do outro com firmeza.

O loiro pareceu um tanto sem graça ao ser considerado o irmão menor do médico, quer dizer, não havia nada de errado nisso, mas no fundo sentiu uma pitada de decepção, mas era bom saber que teria chance de recomeçar e não seria naquela espelunca horrível onde estava anteriormente. — Sim. — Shaka apertou de volta e logo depois foi se trocar no banheiro.

Notas finais
É isso aí pessoal, até a próxima! Beijos. ;*