Thorns of Eternity

1 Capítulo único


Notas iniciais
Alerta de gatilho: essa fanfic contém descrições sensíveis de violência, sangue e acidentes automobilísticos. Crepúsculo não me pertence. Esta história é dedicada a minha amiga oculta AnaF, como parte do projeto One-Shot oculta 2024. Ana, não sei se ficou exatamente como você imaginava (provavelmente não kkkk) mas tentei dar meu melhor com seu combo 1, mesmo que eu tenha usado mais o título da música como inspiração do que a música em si mesmo que ela seja muito boa. Essa história nasceu como um arquivo e uma playlist chamados "vampiros trambiqueiros" e acabou dando um 360º e evoluindo para isso aqui de uma forma que me pegou de surpresa mas que se encaixou sozinha no meu cérebro. Essa fanfic, na verdade, reúne um monte de primeiras vezes pra mim pois foi meu primeiro POSO, a primeira vez que escrevi uma One-Shot e a primeira vez que escrevo uma história envolvendo vampiros/seres sobrenaturais. Quando me inscrevi pra participar na POSO eu apenas sabia que queria me desafiar em algo novo e recuperar a paixão que eu tinha por escrever e a experiência acabou sendo muito mais do que eu esperava, então eu gostaria de agradecer ao projeto, as ADM's, as outras participantes mas principalmente minha amiga oculta AnaF e meu Beta Dieguito pois sem ele nada disso teria saído kkkkkk Ana, é uma honra ter te tirado e eu espero que goste do seu presente <3 Boa leitura!

*flashback on*


Forks, 1830 – Edward’s POV


A noite estava densa, chuvosa e sombria conforme eu adentrava mais a fundo na floresta gélida e coberta de musgo. O ar pesado, influído de umidade, cheiro de vegetação molhada e aroma de animais silvestre invadiam meus pulmões e preenchiam o vazio oco que lhes restavam. Não estava nas minhas intenções sair em uma excursão de caça esta noite, porém algo havia me atraído para a floresta. Talvez a sede que eu considerava controlada estivesse as margens de se tornar insaciável novamente ou o tédio das atividades da alta sociedade humana estivessem me fazendo buscar por algo diferente, mesmo que caçar animais não fosse meu passatempo favorito ou o aperitivo mais saboroso de toda a minha longa e interminável vida, porém havia uma promessa que tentaria me tornar uma criatura melhor e menos egoísta e evitar me alimentar de seres humanos estava na lista de “como se tornar um vampiro bonzinho’’. Me tornar minimamente decente não fazia parte dos meus planos nesta cidade chuvosa e pacata e nunca havia sido uma ideia duradoura em minha mente desde que havia me conformado e abraçado minha natureza imortal, porém alguns meses atrás conheci talvez o único ser humano do universo capaz de me fazer ansiar por algo além da eterna sede por sangue. Minha doce Irina, com seus olhos azuis curiosos e sua presença inebriante haviam despertado em mim sentimentos aos quais nunca tivera a honra e temor de experimentar em meus dias humanos, afastando um pouco do monstro que eu carregava dentro do que restara da minha antiga alma perdida. Seu perfume delicado e suave, que me lembrava vagamente o sol fresco de uma manhã de primavera agora vivia preso em minha memória de forma tão palpável que era possível senti-lo no ar sereno da floresta escura.


Fechei os olhos apreciando o cheiro de lavanda, mel e primavera que estava enraizado em minha memória misturado ao aroma de terra molhada da floresta. Sorri, me esquecendo do predador faminto e me lembrando de sua forma delicada e inocente e seus lábios macios que contornavam os meus como se estivessem sido desenhados exatamente para mim. Tinha plena consciência que deveria me manter longe, mas minha natureza egoísta simplesmente não pode deixar de desejá-la para si e um dia eu esperava poder tornar ela imortal, assim como eu, para que vivêssemos pelo resto da eternidade juntos. A leve brisa de ar mudou, trazendo o vento gélido do oeste que carregava consigo um aroma novo misturado com o perfume que eu conhecia tão bem. Abri os olhos, sentindo meu coração morto se retorcer em meu peito, me virei em direção ao novo odor, franzindo o cenho e segui o rastro fresco.


Mal senti o terreno irregular sob meus pés enquanto avançava de forma silenciosa entre as árvores, que não passavam de borrões devido minha velocidade. O rastro ficava cada vez mais intenso conforme me aproximava e o segundo perfume desconhecido se revelava cada vez mais, almiscarado, com pequenos toques amadeirados – um homem. Senti o gosto amargo do ciúme invadir meu ser e o veneno começar a se acumular em minha boca. Desacelerei, me misturando nas sombras da floresta enquanto terminava de me aproximar do mirante, deixando minha presença oculta. Subi silenciosamente no galho da árvore mais próxima e me inclinei para observá-los.


Sob a luz do luar, o homem de aparência não tão desconhecida estava de costas para mim e segurava as mãos de Irina a encarando de forma intensa, eles não falavam uma palavra no momento, mas os olhares não negavam que algo estava acontecendo ali, algo que eu ainda não descobrira mas fez minha raiva aumentar um pouco mais. O que diabos ela fazia sozinha em uma floresta escura com um homem? Por que ela estava encontrando ele as escondidas? As perguntas rodeavam minha cabeça como urubus rodeando matéria orgânica em decomposição. A ideia que havia algo que ela escondia de mim ou que ela poderia estar me enganando fazia a ira se inflamar cada vez mais dentro do meu ser. Cerrei os punhos tentando me controlar enquanto o veneno continuava a subir e corroer meus pensamentos coerentes.


Irina, você não pode continuar se encontrando com ele assim… – A voz do homem disse em um sussurro alarmado, o que me fez reconhecer ele de imediato. Thomas Swan, claro. Revirei os olhos e me sentei no galho ainda observando. – Ele irá te destruir, não confie nele.


Irina abaixou o olhar, encarando o chão enquanto parecia carregar o peso do mundo em suas costas, como se estar comigo fosse um fardo tão grande que mal podia suportar. O pensamento fez o fogo abrasante que corroía minhas veias se tornar gélido e meu coração morto pela segunda vez no dia se retorceu. Então era isso que ela pensava de mim? Enquanto eu tentava me tornar melhor para ela, ela buscava um escape?


Eu sei… – Irina respondeu em um fio de voz, deixando transparecer suas inseguranças em relação a mim, o que doeu como um soco no estômago. – Mas você não entende, Tommy… Não posso simplesmente deixá-lo…


Sim, você pode! Irina… — Ele disse enquanto soltava as mãos dela e levava a mão esquerda até seu rosto – Não deixe ele te controlar. Eu sei que pensa que ele pode mudar mas ele é o que é, não tente transformar um monstro.


O fogo gélido agora crescia em meu coração e injetava cada vez mais veneno em meus pensamentos. As insinuações daquele humano insignificante sobre mim e minhas intenções faziam a fúria cega corroer como ácido a minha racionalidade e olhar dividido de Irina e sua falta de defesa ao meu caráter era agonizantemente dolorida como uma morte causada por mil cortes de papel.


Não sei o que fazer Tommy – Irina sussurrou cansada enquanto fechava os olhos e Thomas afagava sua bochecha com o polegar – Me sinto presa entre o que sou e ao que ele espera que eu seja…


Já bastava, era o suficiente. Suas palavras me atingiram no peito como um tiro de canhão e a fúria gélida que crescia furiosamente com o veneno corrosivo haviam encontrado seu caminho para meu coração morto. Me sentia traído, repulsivo, enojado, indigno e sentia ódio, um ódio gélido sem tamanho como nunca havia sentido antes. Era incrível como sua percepção sobre alguém poderia mudar de forma tão drástica em uma questão de minutos.


Desci silenciosamente do galho e pousei levemente na vegetação úmida da floresta me mantendo oculto nas sombras. Caminhei devagar até o ponto onde eu queria e pisei propositalmente em um galho, deixando-os saber que tinham companhia. O som do galho quebrando ecoou pela noite silenciosa fazendo Irina recuar alguns passos para longe de Thomas de forma instintiva e fazendo com que ficasse mais próxima do vazio do penhasco. Seus olhos azuis se arregalaram, visualmente assustada e surpresa enquanto seu acompanhante olhava ao redor procurando a origem do ruído. Senti um sorriso gélido começar a surgir em meus lábios enquanto observava as reações distintas dos dois. Thomas inclinou a cabeça na direção onde eu me encontrava tentando escutar atentamente com sua falha audição humana me fazendo mover para o lado oposto do limite que separa floresta de penhasco.


Quem está ai? – Ele perguntou, tentando soar firme porém falhando miseravelmente ao deixar a leve tremulação em sua voz ficar ligeiramente evidente. Meu sorriso se ampliou, apreciando sua tentativa falha de controle e a demonstração de seu medo.


Como se despertasse de um transe, Irina deu um passo a frente, alerta enquanto tentava vasculhar a escuridão na qual eu me escondia.


Por favor Tommy… Não faça nada – Ela sussurrou em um fio de voz, diminuindo a distância entre eles e tocando no braço dele – Apenas vá embora… Só vá!


Franzi o cenho, me esquecendo por um momento da minha fúria gélida e dos meus joguinhos de caça que a muito tempo não exercia. Ela sabia que era eu que estava prestes a confrontá-los, então estava tentando protegê-lo. Ou estava simplesmente envergonhada por ter sido flagrada em um momento de intimidade com outro homem em uma floresta vazia e escura? O gosto amargo do ciúmes e o sentimento de dominância me invadiram de novo, nublando meus pensamentos como uma grande cortina de fumaça.


Colocando minha melhor expressão neutra, dei um passo a frente fazendo minha presença já notada agora visível aos defeituosos olhos humanos, permitindo que a luz do luar iluminasse palidamente minha forma. Thomas arregalou os olhos ao me ver, mas tentou se manter firme se posicionando entre Irina e eu, porém seu coração acelerado fazia ecos altos nos meus ouvidos e o cheiro do seu medo inebriava o ar fazendo o sorriso irônico brotar novamente em meus lábios. Irina não me encarava mas seu coração também dava grandes saltos de pavor enquanto ela tentava esconder a forma de sua figura atrás de Thomas Swan.


Ora, ora, ora, mas se não temos uma cena surpreendente bem diante dos meus olhos – murmurei, a voz carregada de sarcasmo e acidez, encarando a humana que até poucos minutos atrás eu estava divagando sobre. – Achei que tivesse te avisado sobre perambular na floresta a noite, principalmente com companhias tão interessantes.


Ela não respondeu, apenas engoliu em seco deixando transparecer a culpa e a hesitação em seu rosto, porém nada conseguia apaziguar o sentimento de traição e o ódio que queimava gélido como veneno em minhas veias.


Thomas pigarrou alto, tentando inutilmente bloquear ainda mais minha visão dela, formando um escudo humano entre mim e Irina. O medo não deixava de transparecer em seu cheiro mas sua expressão era determinada e sua atitude era corajosa, precisava admitir, mesmo que fosse inútil.


Não sei quem você pensa que é mas… — Ele começou, pigarrando novamente enquanto tentava disfarçar a voz trêmula me fazendo arquear a sobrancelha em sua direção de forma debochada. Sua expressão mudou e a voz logo ficou firme, influída de confiança falsa – Não vou deixar que faça nada com ela. Se quiser alcançá-la terá que passar por mim.


Passar por você? – Repeti, rindo de forma debochada de seu desafio tosco enquanto dava mais um passo em direção a eles. Analisei a figura do humano parado na minha frente com desprezo encontrando seu olhar com sua corajosa determinação vacilante. – Não me parece um desafio tão grande.


Thomas cerrou os punhos, a raiva substituindo momentaneamente o medo em sua expressão vacilante. Sorri, de maneira ácida, deixando claro o quão ridículo sua coragem patética era e dei mais um passo a frente encurtando a distância entre nós, deixando que ele observasse e previsse meus movimentos.


Você não faz ideia do que está lidando, humano – Digo, deixando a acidez e o veneno gélido que se acumulava em minha boca desde o momento que percebi do que isso se tratava transparecerem pela primeira vez em minha voz. – Deixe a garota e fuja, antes que eu decida fazer você se arrepender de estar aqui.


Sei o suficiente – Ele respondeu, com a voz mais firme agora e os punhos ainda cerrados. – E por isso não vou deixar você machucar ela.


Ri novamente, lançando a cabeça para trás e fazendo com que o som ecoasse na floresta fria e úmida.


O funeral é seu, “Tommy” – Digo, em tom de zombaria, avançando mais dois passos e me preparando para dar o bote, porém antes eu avançasse mais Irina, que permanecia quieta até então atrás de Thomas, deu um passo à frente, seus olhos arregalados fixos em mim, exalando um misto de pavor e súplica.


Por favor, pare com isso! — ela implorou, sua voz quebrada enquanto se colocava entre Thomas e eu. — Ele não fez nada! Eu também não! Você está entendendo tudo errado! Por favor, Edward…


Lágrimas pesadas escorriam em seu rosto delicado ao qual eu havia me encantado desde a primeira vez e sua voz transmitia dor e pânico sem tamanho, porém sua dor não me despertava nada além de ódio, ciúme e traição fazendo queimar qualquer vestígio de humanidade e compaixão que ainda poderia existir em minha alma-perdida.


Errado? Eu estou entendendo errado? – Perguntei, deixando a fúria que eu sentia finalmente chegar a superfície e consequentemente fazendo Irina se encolher. – Me diga Irina, o que há de errado aqui? Talvez o fato de você estar se encontrando com ele aqui, neste horário, escondida de mim depois de me enganar? Ou talvez eu tenha atrapalhado algo mais íntimo, como a fuga romântica de vocês na calada da noite, certo?


Não é nada disso! Você não entende… — A voz dela falhou e ela se virou para encarar Thomas em busca de apoio. O gesto, por menor que fosse, fez meu coração já morto se retorcer pela terceira vez e a nuvem grossa de veneno embaralhar mais meus pensamentos racionais, me fazendo cerrar os punhos.


O que eu não entendendo, Irina? – Perguntei, de maneira ácida deixando a acusação preencher o espaço, junto com os sons noturnos da floresta. Irina se encolheu e não respondeu, recusando-se a me encarar de volta.


Que ela não te pertence, sanguessuga! -


A fúria e a traição consumiram-me por completo, corroendo qualquer resquício de sanidade que pudesse existir dentro de mim como um ácido potente e obliterando por inteiro minha racionalidade. Em um instante avancei com minha velocidade sobrenatural, agarrando Thomas pelo pescoço e erguendo-o do chão como se ele fosse nada mais que um boneco de pano. Minha visão estava turva, obscurecida pelo ódio e pela traição. Me sentia indigno do futuro que eu tanto almejava com Irina e isso despertava em mim um ódio sem fim. O monstro que habitava em mim, ao qual eu lutara tanto nos últimos meses para conter, estava livre.


Meus dedos se apertaram ao redor da garganta de Thomas, sentindo seu fôlego escapar lentamente sob minha força. Seus esforços para se libertar eram inúteis, meros gestos desesperados de um homem diante de sua própria mortalidade. O som abafado de seus protestos mal atravessava o caos que havia se instalado em minha mente. Eu sorri, de forma gélida e cruel, enquanto o observava debater-se, alimentando-me do desespero em seus olhos.

Então, algo tocou meu braço — um toque leve, hesitante, praticamente insignificante, como o de um pequeno inseto tentando pousar sobre uma pedra. A pressão suave parecia se esforçar para tentar afastar minha mão, mas ignorei. Minha mente estava focada no humano frágil diante de mim e em meu desejo de puni-lo pelo que ele havia ousado tentar roubar de mim. Eu não enxergava mais nada, o mundo ao nosso redor havia desaparecido, reduzido ao som irregular da respiração de Thomas e ao ritmo corrosivo e violento da minha própria fúria.

Dei dois passos firmes em direção ao penhasco, arrastando Thomas comigo como se ele não pesasse mais que uma pena enquanto ele ainda tentava inutilmente se desvencilhar de mim. Meu maior desejo naquele momento era silenciá-lo para sempre, eliminar sua presença insignificante do meu mundo.

Enquanto me aproximava da borda, senti novamente aquele toque leve e insistente em meu braço, tentando desesperadamente, de forma falha, impedir meus planos. Parecia tão frágil quanto uma brisa tentando mover uma rocha e tão insignificante quanto um mosquito, porém sua insistência em me impedir começava a me irritar. Decidi ignorar. Minha atenção estava focada inteiramente em Thomas, no penhasco e na curta distância que eu precisaria percorrer para eliminar aquela pertubação para sempre, me livrando dele de uma vez por todas.

Ela pode não ser minha, mas também não será sua — murmurei entre os dentes, minha voz carregada de desprezo.

Mas o toque não cessava. Tornou-se mais insistente, como se o intruso estivesse reunindo forças além do que sua fragilidade poderia suportar apenas para me deter. Finalmente, movido pela irritação, desvencilhei-me com um movimento brusco, empurrando com a minha força sobrenatural a figura que tentava me deter.

Houve um grito agudo e desesperado, e meus olhos, nublados pela fúria, se voltaram para trás, finalmente tomando consciência do que acontecia ao meu redor. O mundo finalmente parecia ter entrado em plano novamente e o tempo pareceu parar quando vi o que havia feito.

A figura que eu empurrara não era um intruso qualquer. Era Irina.

A cena diante dos meus olhos parecia se desenrolar devagar, o corpo dela caindo no abismo e seus olhos cheios de pânico e dor cravaram-se em meu cérebro e eu me sentia imponente assistindo tudo acontecer. Atordoado, larguei Thomas no chão, não me importando mais se ele ainda respirava ou se quer estava consciente.

Irina! — gritei, a fúria que antes me dominava era substituída por um desespero profundo e um sentimento de culpa que perfurava meu peito como uma lâmina.

Irina desapareceu no abismo, e o som do impacto ecoou na noite, espantando os morcegos que dormiam nas árvores, apagando qualquer vestígio de fúria e traição que ainda restava em mim e substituindo por dor, remorso e culpa. Eu realmente era o monstro que Irina tanto temia.

Me sentia paralisado, olhando para o vazio, incapaz de processar o que acabara de fazer. Eu havia acabado de destruir a única coisa que um dia eu amei e jurei proteger, era tudo culpa minha. Meu coração morto parecia ter sido cortado aberto e sangrava, a dor do corte era tão profunda e devastadora que me ajoelhei, segurando o peito em um luto silencioso e sem lágrimas pois meu corpo imortal era incapaz de produzi-las. Acho que hoje descobri que meu corpo imortal é incapaz de muitas coisas, inclusive ser racional.

As palavras dela, os sussurros que eu ignorara, ecoaram em minha mente como uma sentença cruel. “Edward, por favor, pare... Você está entendendo tudo errado!”

Um grito inumano escapou dos meus lábios. Era um som de perda, de arrependimento, mas nada poderia trazê-la de volta. Eu a havia matado. Eu havia matado o amor da minha vida.

De repente uma brisa gélida soprou, carregado de poder antigo agitando a floresta ao meu redor. As árvores balançavam violentamente, como se estivessem reagindo ao que eu acabara de fazer me acusando da tragédia que eu mesmo provocara. Me levantei com dificuldade, ainda imerso em minha dor e me virei, fixando meu olhar na escuridão densa da floresta, agora tomada pela energia desconhecida.

Uma figura começou a emergir, se apresentando primeiramente como uma luz pálida e etérea, quase como a névoa que cobria o chão da floresta úmida, porém conforme avançava foi se tornando mais forte, mais brilhante, iluminando os troncos das árvores e o chão coberto de musgo.

A figura que surgia parecia feita de luz e sombras, fluindo como um espírito tão antigo quanto o tempo que carregava consigo o peso de séculos. Sua forma era feminina, alta e imponente, mas indistinta, como se a própria floresta houvesse dado forma a essa entidade. Seu rosto era lindo e desconcertante ao mesmo tempo, porém seus olhos — brilhantes como estrelas, intensos e julgadores — estavam cravados em mim, penetrando cada fibra do meu ser enquanto ela avançava.

Edward... — A voz ecoou, profunda e ancestral, reverberando no fundo de minha mente enquanto a floresta pulsava ao nosso redor.

Dei um passo para trás, meu corpo rígido e paralisado pela presença daquele ser inumano. Desviei meu olhar dela e olhei ao redor esperando encontrar alguma rota de fuga para o que quer que estivesse prestes a acontecer, porém encontrei a figura de Thomas, ainda caído, inconsistente porém o martelar fraco de seu coração me dizia que ele ainda estava vivo. A criatura porém, seguia focada em mim.

Você colheu uma rosa a qual não era sua para colher e suas atitudes egoístas trouxeram destruição ao que era sagrado, — A voz continuou, fria e implacável, sussurrando em minha mente. — Seu amor tornou-se posse e sua paixão transformou-se em ódio, interferindo em planos que vão muito além do seu controle. Você destruiu aquilo que jurou silenciosamente proteger.

Minhas mãos tremiam enquanto a figura se aproximava lentamente. Cada palavra dita por ela ecoava em minha mente e abria uma nova ferida em meu coração já destruído.

Eu amava ela… Foi um acidente, eu não queria… — Repliquei, em um fio de voz me sentindo oco, arrependido e impotente na presença poderosa da figura em minha frente. Ela riu, levemente, dentro da minha mente.

Criança, você não conhece o significado deste sentimento… — Ela disse enquanto uma espécie de poeira dourada começava a circular ela vindo em minha direção. — O sangue dela está em suas mãos, e por isso você pagará. Você será condenado por toda sua arrogância, raiva e incapacidade de compreender o amor verdadeiro.

A dor em meu peito voltou, de forma intensa no lugar onde meu coração morto se residia enquanto a poeira dourada produzida pela criatura me alcançava. Fui tomado por uma dor intensa, era como se meu peito estivesse sendo marcado por um ferro em brasas. Gritando, caí de joelhos levando a mão até o coração, eu estava em chamas mas o que me queimava não era físico ou palpável. O que restava da minha alma imortal estava sendo marcada.

Você está condenado a viver para sempre com a culpa pela vida que destruiu e sua imortalidade será sua prisão, criatura da noite. A partir deste momento, este lugar será sua cripta e a casa em que um dia esperou residir com a jovem cuja a vida você ceifou irá ser seu lugar de angustia e tormento, onde a cada noite você verá a mancha eterna do sofrimento que causou a partir de seu egoísmo. — A voz ecoou com força, e a poeira ao meu redor tornou-se mais densa e brilhante, como faíscas, abraçando-me em um aperto insuportável enquanto cegava-me momentaneamente. – E disso, você nunca poderá escapar, somente quando encontrar alguém que o ame verdadeiramente e que lhe faça entender o real significado de amor poderá novamente conhecer a liberdade e esta maldição se quebrará.

A luz ao meu redor começou a desaparecer, e a figura me deu as costas, começando a se afastar na direção da escuridão da floresta. Arfando, abaixei a mão e olhei para meu peito que ardia como se estivesse sido aberto.

No lado esquerdo de meu peito, exatamente sobre o lugar onde um dia estivera meu coração, havia uma marca nova. Era vermelha, vibrante, e parecia recém-adquirida, como uma cicatriz ainda fresca que ardia de forma incessante. O seu formato era estranho, não se assemelhava a nenhuma cicatriz a qual eu já tivesse visto, não, a marca em meu peito se assemelhava a uma pequena rosa, detalhada e delicada, como se houvesse sido gravada em minha pele por mãos precisas e impiedosas. A marca pulsava suavemente, sincronizada com batidas inexistentes de meu coração morto, um lembrete cruel e vivo da maldição que agora me acompanharia para sempre.

O que você fez? – Cuspi, engasgando levemente. A criatura reluzente se deteve ao som fraco da minha voz e virou-se novamente para mim, encarando-me com seus olhos desconcertantes. Não havia piedade neles ou sequer irritação, apenas uma calma implacável.

O que eu fiz? — sua voz ecoou, fria e carregada de poder, reverberando novamente pela minha cabeça. — Você ainda não compreende, filho da noite? Seu destino foi traçado por você. Sua fúria, sua possessividade, seu egoísmo e sua incapacidade de amar algo além de si mesmo que trouxeram esta condenação. Eu sou apenas a responsável por dar forma ao peso de suas escolhas.

Sua maldição é inútil, não vou viver muito mais tempo – repliquei, arfando, enquanto tentava me apoiar para levantar novamente – O humano virá atrás de mim, em busca de vingança e eu deixarei que ele me elimine.

Apontei com um leve movimento de cabeça para o corpo inerte de Thomas, ainda desmaiado no chão, enquanto me levantava com esforço fazendo a feiticeira ou qualquer que fosse a criatura diante de mim rir, sua risada era gélida e carregada de desdém.

Isso não acontecerá, pois ao acordar aquele humano não irá ter a menor recordação sobre o que aconteceu esta noite – Sua voz ecoou em minha mente, com uma certeza cruel – Ele não saberá quem você é ou o que você fez, sua identidade será apagada da mente dele e de qualquer pessoa desta pequena cidade com quem você tenha cruzado o caminho. Será como se nunca tivesse existido.

Com um gesto rápido das mãos dela o corpo de Thomas desaparecera, como se nunca estivesse estado ali. Restávamos apenas eu e a criatura misteriosa no cenário que ficaria pra sempre marcado em mim, cercados pela floresta e pelo penhasco.

Por que está fazendo isso? – murmurei, em um fio de voz sentindo o peso da maldição sobre mim.

Porque precisa aprender uma lição sobre a imortalidade e seus limites, criança – A voz sussurrou em minha mente, autoritária, gélida e quase maternal – Lição essa que você deveria ter aprendido em seus séculos de vida, porém como não aprendeu aprenderá agora.

Suas palavras me desarmaram por completo, cada uma delas penetrava meu ser como uma faca afiada sendo retorcida diretamente em meu coração e consciência, não restava mais nada em mim além da dor e da culpa e agora da pulsação constante da cicatriz em meu peito.

A imortalidade realmente é um dom, Edward, mas apenas para aqueles que sabem usufruir dela com parcimônia – Ela continuou, sua voz ecoando o poder de suas palavras e marcando-as em minha mente – Espero que finalmente entenda isso, rapaz.

E com essa última frase ela desapareceu, deixando-me sozinho em minha própria confusão e dor, eu havia matado Irina e havia sido amaldiçoado por isso. Me levantei, sentindo a pulsação da marca e tentei correr, fugir, mas cada passo que dava uma força invisível me trazia de volta ao mesmo lugar. A floresta não me deixaria partir. Eu estava preso, condenado a vagar sozinho pelo lugar onde eu havia destruído aquilo que um dia amei.

Olhei novamente de relance para o penhasco, para o vazio que agora me assombraria por toda a eternidade. E ali, naquele momento, compreendi a profundidade de minhas ações e o que havia acontecido.

Sacudindo a cabeça, me virei, partindo para a casa que seria pelo resto da eternidade minha companheira no tormento ao qual eu mesmo havia causado.

Eu estava sozinho.

*flashback off*


Quase duzentos anos haviam se passado desde o dia fatídico em que eu havia perdido tudo o que me era mais precioso e meu encontro com a criatura da floresta. Ainda sim, os acontecimentos daquela noite me assombram até hoje, além da pequena rosa pulsante localizada em meu peito esquerdo que não me deixa esquecer. O lembrete eterno dos meus atos e do vazio que se tornara minha existência. Era estranho como a maldição me impedia de sair de Forks mas não me impedia de vagar pela floresta e terminar sempre no mesmo ponto, o penhasco onde tudo mudara.


Me sentei na rocha mais próxima do vazio que existia além dele, como costumava fazer quase todas as noites. A chuva caía, na sua forma torrencial habitual encharcando minhas roupas e escorrendo pelo meu rosto. Gostava de me sentar aqui, á beira da imensidão enquanto esperava outro dia amanhecer na minha prisão interminável. Pelo menos aqui eu conseguia respirar ar puro e imaginar se havia algo no mundo além do meu tormento interminável. Fechei os olhos, apreciando os sons da floresta na chuva e sentindo suas gotas me chicotearem com o vento gélido enquanto permitia que o silêncio preenchesse meus pensamentos repletos de melancolia. Havia algo cru e honesto nos elementos que nenhum lugar daquela casa decadente podia oferecer. Aquele pedaço de rocha à beira do penhasco havia se tornado meu único refúgio, o único lugar onde eu conseguia fingir, por mais breve que fosse o instante, que não estava completamente preso.


Deixei minha audição sobrenatural vagar, para o mais longe possível na floresta escutando e apreciando sons diversos como pequenos roedores, pequenos pássaros abrigados sob as folhas das árvores e um pequeno rosnado distante de um predador buscando sua presa. Ajustei meu foco para descobrir qual era a presa e captei os passos de um cervo, seguido do farfalhar de arbustos, era provavelmente uma caça em curso. O pensamento fez com que a ardência familiar começasse a se instalar na parte de trás da minha garganta, outro lembrete incomodo que estava ficando difícil de ignorar, pois haviam tempos desde minha última excursão de caça. Suspirei e abri os olhos, voltando a encarar o vazio do penhasco diante de mim, talvez eu devesse caçar algo antes de retornar à casa.


Porém meus pensamentos foram interrompidos quando o som metálico cortante rasgou a monotonia da floresta junto com o eco de vidro sendo estilhaçado e o cheiro de sangue humano fresco atraindo minha atenção. Levantei-me em um sobressalto da pedra, com os músculos tensos e me pus a correr em minha velocidade habitual em direção ao rastro fresco, sentindo o ardor na minha garganta aumentar conforme o cheiro ficava mais forte, porém, para a minha surpresa não era o caçador sedento que me guiava até aquela cena, era algo desconhecido e estranho, quase como uma força invisível me puxando até lá.


Balancei a cabeça, expulsando o pensamento absurdo. “Força invisível”, revirei os olhos. Céus, o isolamento forçado estava deteriorando, definitivamente, cada vez mais minha sanidade. Poderia eu ser o primeiro vampiro da história a precisar de ajuda psiquiátrica? Talvez…


Ri levemente da minha própria piada irônica, talvez fosse hora de ligar para Alice atrás de uma indicação de ajuda profissional, mas não acho que ela seria capaz de me ajudar nesse assunto, era uma ideia absurda demais e pelo que eu sabia não são muitos psiquiatras que aceitam consultar um vampiro. O quantitativo de psiquiatras dispostos a atender um vampiro amaldiçoado deve ser menor ainda. Meu breve humor, entretanto, não durou muito pois o vento mudou de direção, trazendo consigo a intensidade e nitidez do cheiro de sangue misturado com a chuva e o combustível desconcertando qualquer outro pensamento tolo que pudesse surgir em minha mente e me fazendo focar em meu objetivo inicial, de localizar o acidente.


Acelerei meu ritmo, percorrendo o terreno irregular com mais rapidez em meio a copa das árvores já tão conhecidas até a rodovia, que agora cortava a floresta até a altura do rio. Podia sentir a chuva, agora com sua força diminuída devido as folhas e galhos encharcando ainda mais minhas roupas, mas não atrapalhava meu trajeto ou minha velocidade. Logo, a rodovia começou a surgir abaixo de mim. A faixa cinza continua e mal iluminada destoava e contrastava fortemente com o verde-escuro sobressaltante da floresta. O cheiro, porém, estava mais intenso e agora conseguia ouvir um som fraco de um coração hesitante lutando para permanecer batendo, então meus olhos se fixaram ao que parecia ser o caminho até o acidente – as marcas firmes e recém-adquiridas de pneu na estrada que atravessavam o asfalto e invadiam o acostamento pareciam novas, então aterrissei suavemente no chão e segui o rastro onde a vegetação estava marcada e amassada e o odor familiar de sangue, finalmente encontrando o carro.


O veículo parecia ter capotado várias e várias vezes antes de ser parado e levemente esmagado por duas árvores e acabar (felizmente, ou não – devido as circunstâncias) de cabeça para cima, havia fumaça saindo do motor e cacos de vidro espalhados por toda parte além do brilho intenso das luzes dos faróis e pisca alerta que piscavam sem intervalo. O aroma fresco e quente de sangue agora queimava minha garganta, como ferro líquido estivesse sendo derramado por ela então prendi minha respiração instintivamente me aproximando com cautela do veículo, duvidava que quem quer que estivesse no veículo ainda estivesse consciente mas se estivesse não queria que se assustasse com a minha presença. Em passos curtos me aproximei devagar da porta do motorista, desviando dos cacos de vidro, foi então que eu a vi pela primeira vez e congelei por uma fração de segundos.


Havia algo nela que me paralisou, algo indefinível que mexeu comigo de uma forma que eu não compreendia e me desconcertava. Seu rosto, mesmo ferido e imóvel, parecia vagamente familiar. Não era uma lembrança clara — talvez nem fosse uma lembrança de fato, pois não havia como eu ter conhecido ou se quer encontrado com ela —, mas despertava em mim uma estranha sensação de déjà vu, como se uma parte esquecida de mim a reconhecesse. Algo em seu estado vulnerável despertou em mim um impulso primitivo e incontrolável de protegê-la., como se algo me atraísse involuntariamente a ela e eu podia jurar que a cicatriz no lado esquerdo do meu peito pulsava com mais força. Meu Deus, eu realmente estava me tornando um ser insano.


Ela estava no banco do motorista, como eu havia imaginado, imóvel e inconsciente, mas presa ao cinto de segurança, o que provavelmente havia evitado algo pior. Sua respiração era fraca, mas presente, cada inspiração irregular ainda lutando contra o inevitável. Seu rosto, que eu podia imaginar delicado em circunstâncias normais, estava coberto de cortes. Sua pele era pálida demais, quase translúcida, contrastando com o sangue que escorria de um corte profundo em sua têmpora, ensopando seus cabelos escuros, brilhantes como mogno molhado. Havia escoriações em seus braços, provavelmente causadas pelos estilhaços de vidro que cobriam o painel e o chão ao redor.

Minha mente estava inquieta e eu não tinha a mais vaga ideia do que estava fazendo, mas minha hesitação durou apenas um instante quando avancei sobre a moldura da bagunça de metal retorcido da porta e a arranquei com força sentindo o metal protestar em minha mão e o carro balançar levemente sob o impacto do meu movimento. Joguei a porta no chão e me afastei um pouco sacudindo a cabeça me sentindo confuso. O que diabos eu estava fazendo? Eu não deveria estar aqui, não havia como salvá-la, não mantendo ela como humana e teoricamente eu não deveria intervir, já fui punido o suficiente por minhas ações impulsivas, porém olhando novamente para o rosto desacordado dela não consegui me conter. Eu não entendia o motivo de me sentir tão desconcertado por ela mas pouco me importava no momento.


Aproximei-me novamente soltando o cinto de segurança dela e erguendo-a em meus braços cuidadosamente enquanto a chuva ao nosso redor apenas aumentava e seus ferimentos manchavam minhas roupas encharcadas. Eu sabia o que precisava ser feito, mas também sabia o que isso significava. Salvar sua vida seria condená-la à eternidade e assim eu o faria, agindo da mesma forma que levou a minha primeira condenação.


Me afastei do carro com ela nos braços até estarmos a uma distância segura e coloquei ela levemente na grama molhada enquanto a chuva enxaguava seus ferimentos, destacando ainda mais o contraste entre sua pele pálida e seus cabelos escuros. Sem perder mais tempo, ajoelhei-me perto dela e passei a mão por seu rosto até chegar ao pescoço onde afastei cuidadosamente seu cabelo expondo a curva delicada de sua garganta. Pela primeira vez desde que a encontrara me permiti respirar sentindo o aroma de seu sangue me invadir novamente e consequentemente a ferramenta a qual eu necessitava no momento se acumular em minha boca. Meu veneno.


— Eu realmente espero que você fique bem – sussurrei levemente abaixando minha cabeça até seu pescoço, tentando controlar minha sede. Seria irônico se eu matasse ela no meio da minha tentativa de bancar o herói – E quando ficar, por favor, não me odeie.


Minhas pressas então perfuraram sua pele macia e seu sangue invadiu minha boca da mesma forma que meu veneno invadia a pequena ferida criada por mim. Havia anos desde a última vez que eu tivera contato com sangue humano e o gosto me atingiu de forma avassaladora, tornando quase impossível controlar meu desejo primordial porém me forcei a focar no objetivo. Sentia meu veneno fluir entre mim e ela, infiltrando seu corpo de maneira sorrateira e implacável e o fazendo enrijecer momentaneamente e antes que fosse tarde demais e eu tomasse mais que o necessário, me afastei dela limpando os lábios improvisadamente no dorso da mão. Estava feito e eu já conseguia observar minimamente as mudanças da transformação acontecendo.


— Vamos embora, donzela – Disse, erguendo-a nos braços novamente sem esforço algum – Espero que não se importe com casas decrépitas no meio da floresta, porque é pra lá que nós vamos. Sou Edward, a propósito, seu anfitrião.


Sorri ironicamente, sem esperar resposta da minha companhia recém-adquirida enquanto começava a andar com ela na chuva pesada me movendo com agilidade em direção a casa que eu havia construído tantos anos atrás ao decidir firmar residência neste lugar por causa de Irina.


É, agora eu definitivamente preciso ligar para Alice…


₊‧⁺


Escutei os passos irritados de Alice antes que ela entrasse na casa e sorri, faziam anos desde a última vez que ela havia aparecido para me ver, mesmo que naquela época a situação fosse outra e ela não quisesse me esfolar vivo.


— Edward Anthony Masen Cullen, acho bom que tenha uma excelente explicação para isso! – Ela sibilou em voz baixa pulando na varanda do quarto no segundo andar onde eu observava minha nova companhia se transformar nas últimas 48 horas. Alice carregava consigo duas malas imensas de roupas, conforme eu havia solicitado – Imagine minha surpresa em receber uma ligação sua durante a madrugada me pedindo para arrumar roupas femininas as pressas porque você simplesmente decidiu transformar uma humana aleatória que você encontrou na floresta!


Ela gritou a última parte, indignada e eu ri baixinho, me levantando da cadeira ao fundo do quarto tão antigo quanto a casa, ao qual permanecia observando a transformação lenta acontecer. Pelos meus cálculos, pela aparência serena e ritmo acelerado do coração em mudança sentia que o processo se aproximava do fim, logo minha nova companhia estaria desperta e provavelmente confusa.


— Em minha defesa eu estava tentando fazer uma boa ação e salvar uma vida – Respondi, sorrindo enquanto abraçava Alice rapidamente antes que ela decidisse que seria uma boa ideia me bater com as malas. Ela se afastou do abraço cruzando os braços enquanto lançava um olhar desconfiado de desaprovação em minha direção.


— Desde quando você se preocupa em fazer boas ações? – Ela perguntou desconfiada, me fazendo bufar e revirar os olhos. – Sinceramente Edward, você não aprendeu nada da última vez que você agiu por impulso? O que aconteceu com “não interferir em coisas que não te dizem respeito”?!


— Não é como na última vez – Disse, revirando os olhos e dando as costas para Alice – Além disso, ela estava morrendo, não havia nada que eu pudesse fazer.


— Você é um idiota. – Ela murmurou, desistindo de discutir comigo e eu sorri levemente me virando para ela.


— Pensei que isso fosse um fato já conhecido – retruquei sorrindo fazendo Alice revirar os olhos e sorrir também. – Mas agora estamos aqui. E você trouxe as roupas, então suponho que no fundo você sabe que eu tenho razão.


Alice bufou, jogando as malas sobre a cômoda mais próxima com um gesto exagerado, quase teatral.

— Não me venha com essa! Eu trouxe porque, ao contrário de você, eu sei que ninguém quer acordar em uma nova vida usando roupas ensanguentadas e rasgadas, pós acidente “fatal”. — Ela disse, fazendo aspas grandes com os dedos enquanto olhava para a mulher desconhecida, ainda deitada inconsciente e imóvel na grande cama condenada pelo tempo no outro canto do quarto, o rosto suavizando por um instante. — Quem é ela, afinal?

— Não faço a menor ideia – respondi dando de ombros, voltando a me acomodar confortavelmente na cadeira onde eu passara os últimos dois dias. Alice virou-se para me encarar boquiaberta.

— Como assim não faz ideia? Você não pegou o nome dela ou algo do tipo? – Ela me perguntou surpresa. Apenas dei de ombros.

— Nós meio que não tivemos tempos para apresentações, sabe? Entre o momento em que eu encontrei ela morrendo e a transformação. – retruquei ironicamente, esperando Alice revirar os olhos e me bater mas ela apenas bufou, cruzando os braços

— Não era disso que eu estava falando, idiota – Ela replicou, vindo se sentar na poltrona obsoleta ao meu lado – Eu me referia a documentos, celulares, qualquer coisa que pudesse dar qualquer dica da vida prévia dela. Imagina se ela acorda com amnésia??

Me encolhi com o pensamento que a garota imóvel pudesse acordar na nova vida que eu havia lhe dado sem a menor lembrança sobre seu passado e sua história, mesmo que esquecer o passado para mim fosse mais como uma benção ao invés de um castigo. Porém, perder a memória no meu caso não era uma opção.

Quase como se concordasse comigo, a cicatriz de rosa pulsou com mais força no lado esquerdo do meu peito, fazendo questão de impor sua presença.

— Isso não vai acontecer, Alice – Respondi brevemente, me recusando a fazer contato visual com minha irmã para todos os efeitos, porém pude ver ela balançando a cabeça negativamente em discordância.

— Existe um risco, você sabe né? Já que você fez tudo na base do improviso. — Ela murmurou, lançando-me um olhar crítico. — É tão típico de você, Edward.

— Me desculpe, mas eu estava mais preocupado em salvar uma vida. – Retruquei, cruzando os braços como uma criança birrenta enquanto observava a garota imóvel na cama, mas cujo o corpo começava a dar sinais de que o processo estava próximo do fim.

— Ah, claro, porque transformar alguém em uma vampira é uma forma tão gentil de salvar a vida de alguém — ela rebateu sarcasticamente revirando os olhos. — Tenho certeza de que ela vai te agradecer profundamente por isso.

Não respondi de imediato, sentindo a irritação pelo sermão de Alice começar a querer crescer em mim me fazendo travar a mandíbula. Sim, eu tinha plena consciência do quão imprudente e impulsivo meus atos foram mas, a última coisa que eu quero no momento é alguém apontando isso na minha cara.

— Não importa mais, Alice, o que está feito, está feito — falei finalmente, deixando transparecer minha irritação na voz baixa mas firme. — Eu assumo a responsabilidade por ela.

— É verdade… — Alice soltou um suspiro longo, levantando da poltrona ao meu lado – Só te desejo sorte na hora de explicar para ela o que aconteceu…

— Como assim sorte? Você não vai ficar? – Indaguei, desviando o olhar da garota e encarando ela interrogativamente.

— Infelizmente não… Mesmo que seja uma ideia tentadora ver você sendo responsável por alguém além de você mesmo – Ela disse, sorrindo de forma debochada para mim, apenas revirei os olhos – Eu tenho outros planos.

Arqueei a sobrancelha na direção dela, porém ela apenas deu de ombros sem querer prolongar mais o assunto e começou a ajeitar o casaco que trajava.

— Eu fiz minha parte, trouxe as roupas, dei meu sermão e já fiz mais do que o necessário. O resto, querido irmão, é todo seu. — Ela lançou um olhar divertido para mim enquanto dava as costas e ia em direção a janela.

— Alice… — Comecei, mas ela levantou uma mão, interrompendo qualquer tentativa de convencê-la a ficar.

— Não, não! Você mesmo disse, sua responsabilidade, então boa sorte Eddie — Alice cortou, erguendo a mão em um gesto dramático enquanto sorria com um ar de triunfo. – Aliás, deixei alguns pacotes de sangue na geladeira desse mausoléu, caso precise. E eu realmente espero que ela quebre a maldição.

Revirei os olhos para o sorriso travesso de Alice, mas ela já havia desaparecido pela varanda, movimentando-se graciosamente como uma sombra ágil que agora desaparecia na floresta. Me levantei e fechei as portas de vidro que davam a varanda com um pouco mais de força que o necessário fazendo com que elas tremessem sutilmente. Me virei novamente para o quarto encarando a figura não tão imóvel mais da garota e soltei um suspiro cansado, eu realmente era um especialista em criar problemas para mim mesmo… As mudanças em seu corpo já eram perceptíveis para olhos sensíveis como os da nossa espécie: a pele estava mais clara, quase um marfim, com um brilho sutil que só os recém-transformados possuíam e seu rosto, antes coberto de hematomas, agora revelava seus traços definidos e angulares, misturando força e delicadeza ao mesmo tempo. Ela era linda, era inegável, mas espero que não seja boa de luta se não eu teria mais problemas do que eu imaginava…

Um arquejo escapou de seus lábios, como se seus pulmões buscassem o ar, mesmo que ele não lhe fosse mais necessário, seus cílios tremulavam brevemente, eu sabia que a transição estava acabada e ela abriria os olhos a qualquer momento. Senti um nó se formar em minha garganta acompanhado pela apreensão, como diabos eu ia explicar isso para ela? “Ei, estava dando uma volta pela floresta aí te vi morrendo e decidi transformar você em um monstro, te trazer pra minha casa decrépita e quase caindo aos pedaços no meio da floresta mas eu prometo que eu sou legal! Aliás, sou Edward, seu guia turístico pessoal pela jornada da eternidade.”

Balancei a cabeça, tentando afastar o sarcasmo. Precisava ser cuidadoso, direto, mas também compreensivo. Se ela acordasse e entrasse em pânico — o que, honestamente, era a reação mais plausível de todas — teria que estar preparado para acalmá-la e impedir que fizesse algo impulsivo, como sair correndo pela floresta recém-transformada. A cicatriz em meu peito queimou um pouco, quase como se tentasse me reconfortar mas eu não me sentia nada reconfortado.

Ela emitiu um leve som, quase inaudível, quebrando minha linha de pensamentos e fazendo a cicatriz em meu peito pulsar com mais força. Meu corpo ficou tenso, cada instinto em alerta. Me afastei das portas duplas e parei no meio do quarto aguardando até que seus olhos finalmente se abriram.

Em um primeiro momento ela não olhou para mim ou para o quarto, simplesmente encarou o teto com seus olhos carmesim parecendo confusa sobre sua localização.

— Onde… o que… — Sua voz saiu rouca, trêmula, mas com uma força crescente. – Que lugar é esse? E o que eu estou fazendo aqui?

— É uma longa história — respondi, tentando parecer o mais casual possível em meio a minha tensão enquanto cruzava os braços. Meu tom transmitia leveza e um toque nada sutil de ironia. Ela se sentou abruptamente na cama ao som da minha voz, se assustando por não estar sozinha. É, essa coisa toda estava indo muito bem. — Resumidamente? Você capotou o carro na floresta, eu apareci, salvei sua vida e, bem… agora você é uma vampira.

Ela me encarou, com suas novas íris vermelhas brilhantes como se eu fosse alguma espécie de lunático foragido do manicômio (ela não estava totalmente errada nisso, apenas a parte do foragido e a motivação da minha loucura não estavam corretas, mas enfim, não importa) e começou a rir. Seu riso foi crescendo até se transformar em uma gargalhada alta que causava ecos na casa, continuei encarando ela sem compreender exatamente o motivo da sua histeria repentina mas continuei lá parado, esperando passar.

Ela finalmente parou de rir, segurando a barriga enquanto ofegava, como se a histeria tivesse consumido toda sua energia. Seus olhos vermelhos brilhavam mais intensamente agora, mas ainda carregavam uma expressão confusa, como se o que eu dissera fosse tão ridículo que nem valia a pena considerar como verdade.

— Onde estão as câmeras? Isso é uma pegadinha né? — Ela perguntou, ainda rindo um pouco enquanto tentava retomar o fôlego.

Descruzando os braços, passei as mãos pelos cabelos me sentindo nervoso. É claro que ela ia achar que era uma piada de mau gosto. O problema era como eu explicaria pra ela que não existiam piadas e que o que eu acabara de falar era bem real? A cicatriz pulsou. Ela continuou me encarando, esperando que eu confirmasse a brincadeira.

— É uma piada né? – Ela indagou novamente, quando não respondi da primeira vez, agora sem rir.

— Não, não é… Na verdade é bem real – Respondi com firmeza engolindo em seco enquanto observava sua expressão mudar de descrença, confusão e choque em questão de segundos. Ela levantou da cama em um sobressalto sem realmente enxergar o cômodo, como se tentasse encaixar as peças do quebra-cabeça que eu havia acabado de lhe apresentar

— Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus, eu morri?? – Ela disse, em choque, andando de um lado para o outro passando as mãos nervosamente nos cabelos cor de mogno, eu não havia reparado antes mas eles eram levemente ondulados – MEU DEUS, MINHA MÃE VAI ME MATAR! Espera… Não vai não porque eu já estou morta, há! Mas eu não estou completamente morta, eu não sou um zumbi né? Não, eu sou uma vampira… Mas como diabos isso aconteceu? Você me transformou?

— Eu salvei sua vida – Respondi, tentando amaciar minha culpa em meio ao turbilhão de palavras que ela soltava.

— Me transformando em um monstro? – Ela indagou exasperada, eu me encolhi levemente. Espírito da floresta, agora é uma ótima hora de surgir do além para me punir de novo, viu? Só uma dica…

— Você estava morrendo! Era a única forma de te salvar! Você deveria me agradecer – Eu retruquei, tentando apresentar o contexto da melhor forma possível mas ela não parecia interessada em ouvir minhas explicações.

— Não era não, você poderia ter ligado para a emergência – Ela disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e eu fosse um idiota (eu era mesmo, mas ela não precisava saber disso no momento).

— O socorro não chegaria a tempo, existiam danos demais! Então usei a alternativa rápida que iria, com certeza, salvar sua vida e salvou. – Repliquei de forma firme, tentando manter a calma enquanto as palavras se desenrolavam. Eu entendia o motivo do surto dela e achava completamente razoável sua reação, porém suas acusações estavam começando a me irritar.

— Sem o meu consentimento! – Ela disse, mais uma vez exasperada com os olhos carmesim brilhando com confusão e raiva ao mesmo tempo, tentando processar tudo que acontecia ao seu redor.

— Ah, claro, eu ia perguntar se você concordava em ser transformada ou não via tabuleiro ouija enquanto você vagava lentamente em direção a luz né? – Eu disse, com a voz carregada de sarcasmo enquanto observava ela cruzar os braços e fazer uma careta em minha direção. Podia ver a raiva ainda presente na sua expressão mas minha provocação havia pegado ela desprevenida, o que era bom – Sou Edward, aliás. Edward Cullen.

Ela não me respondeu de imediato, cruzando os braços na altura dos seios como se tentasse criar um escudo em volta de si enquanto franzia o cenho.

— Sou Isabella, mas a maioria das pessoas me chama de Bella – Ela disse, de forma relutante parando pela primeira vez para analisar seus arredores – Bella Swan.

Congelei com a menção de seu sobrenome, o choque me atingindo como uma onda brutal. Isabella Swan. Como Thomas Swan? O homem que a duzentos anos atrás tinha sido o catalisador da noite mais trágica de toda a minha existência, o corresponsável pela marca que eu carregava e me prendia a tanto tempo? Eu havia salvado a vida da descendente do meu inimigo? O sobrenome que me fez recordar de uma época distante, uma época em que o homem com quem Bella dividia o sobrenome e o sangue havia feito parte de uma história sangrenta que me perseguiu por mais de um século. O corresponsável pela marca pulsante que eu carregava no peito, aquele erro que me prendeu a um ciclo interminável de arrependimento e dor, o erro que me prendia a esse lugar.

E agora, ironicamente, eu havia salvado a vida de uma Swan. Bella. A ideia de estar envolvido com a família Swan de novo, depois de tudo o que havia acontecido, parecia quase irreal, um cruel jogo do destino e eu podia jurar que a responsável por isso estava rindo de mim nesse exato momento enquanto minha mente girava em uma espiral. Era assim que ela estava se sentindo quando contei o que havia acontecido?

— O que é esse lugar? – Ela perguntou, absolutamente do nada, me tirando dos meus devaneios confusos sobre sua árvore genealógica. Pigarrei, tentando encontrar minha voz novamente em meio ao choque da situação e voltando ao meu objetivo de auxiliar a vampira que eu mesmo havia criado (e não deveria).

— Meu pequeno mausoléu – respondi de forma irônica, disfarçando o misto de sentimentos confusos que corrompiam minha mente depois da descoberta da relação dela com Thomas. – É uma construção muito antiga, por isso não está nas melhores condições. As folhagens e os galhos invasores são o charme principal.

Bella olhou ao redor do quarto com uma expressão cética examinando as paredes revestidas com papel de parede descascado e os móveis gastos e deteriorados pelo tempo arqueando a sobrancelha na minha direção.

— Combina com você – Ela respondeu acidamente, fazendo o fantasma de um sorriso torto brotar no canto da minha boca. Mesmo com seu tom áspero, pudia perceber que ela ainda tentava assimilar tudo que estava acontecendo e tudo que havia mudado. Seus olhos rubi analisavam cada detalhe do quarto, desde as cortinas desbotadas e pesadas até as marcas de umidade e as raízes que serpenteavam o teto.

— Não sei se devo encarar isso como uma ofensa ou um elogio. — respondi, igualando a acidez em minha voz com a sua enquanto observava sua inspeção minuciosa do ambiente.

— Oh, definitivamente uma ofensa! – Ela retrucou de forma afiada, caminhando a passos cautelosos pelo quarto.

Eu sorri de leve, mais para mim mesmo do que para ela. Aquele humor afiado e sagaz, mesmo em meio ao caos, era algo que eu não esperava dela neste momento. Era estranho e admirável como o ambiente parecia ondular de acordo com a emoção que ela escolhia externar e como isso me afetava de alguma forma, fazendo minha cicatriz pulsar como nunca antes.

Ela suspirou, finalmente parando de examinar o quarto, voltando seus olhos para os meus, o sarcasmo desaparecendo, dando lugar a algo mais vulnerável, uma preocupação que trazia consigo uma pequena ruguinha em sua testa.

— Então… é isso? — perguntou, a voz mais baixa agora. — Eu quase morri em um acidente de carro e agora eu sou… sei lá, uma aberração sanguinária?

— Poderia ser pior, sabe? – eu disse, dando de ombros enquanto me apoiava na parede mais próxima – Você poderia estar morta de verdade, entre duas árvores em um carro capotado na floresta.

— Ou eu poderia estar viva, me recuperando em uma cama de hospital – Ela retrucou novamente, cruzando os braços. Sua voz ainda carregada de raiva.

— Não posso mudar o que aconteceu ou a decisão que eu tomei quando te encontrei naquele carro – respondi, deixando qualquer gota de sarcasmo de lado e mantendo meu tom firme. – Pode me culpar se quiser, mais ainda sim salvei sua vida.

— Eu não pedi para você fazer isso. – Ela rebateu, seus olhos faiscando com raiva na minha direção registrando a sua indignação com toda a situação.

— Eu também não peço por um monte de coisas e mesmo assim elas acabam acontecendo – Dei de ombros mais uma vez – Como agora, eu não pedi para te encontrar na floresta mas aqui estou eu tendo uma discussão em círculos que não vai adiantar nada, enquanto eu poderia muito bem estar te ajudando a se adaptar a sua nova vida.

Ela abriu a boca para rebater meu comentário mas a fechou rapidamente, parecendo um peixe, sem ter argumentos para usar contra isso. Teimosa ou não, ela sabia que eu estava certo, não havia mais nada que pudesse fazer para rever o passado então que começasse a trabalhar para se adaptar ao futuro.

— Por que você quer me ajudar? – Ela indagou, mantendo sua postura na defensiva.

— Porque fui eu que fiz isso com você, então nada mais justo que eu te ajude a se adaptar – Respondi, de forma simples e honesta. Ela era minha responsabilidade, não podia simplesmente transformá-la e soltar ela no mundo sem com que lhe ensinasse ao menos o básico para a sobrevivência – E eu estou entediado, então é uma situação vantajosa para ambos os lados.

Ela me olhou com uma expressão cética, como se ainda estivesse tentando calcular minhas intenções e eu não a julgava por isso, eu ainda era o monstro desconhecido que havia roubado sua humanidade.

— Digamos que eu aceite sua ajuda… — Ela começou a dizer.

— Não é como você tivesse muita escolha – Eu interrompi ela, lembrando-a que teoricamente eu ainda era o único vampiro que ela conhecia fazendo com que revirasse os olhos na minha direção.

— Como eu ia dizendo antes de ser interrompida, suponha que eu aceite toda essa coisa de tentar me adaptar a minha nova realidade – Ela continuou – O que exatamente acontece agora?

— Agora sua sede deve estar te incomodando bastante, então eu sugiro que a gente vá resolver isso logo antes que você resolva ver se eu sou apetitoso ou não – Eu disse, estampando um sorriso irônico no rosto mas voltando o assunto para a parte que realmente importava.

Bella fez uma careta ao ouvir isso, mas eu podia ver o desconforto da sede nas suas feições, ela não conseguiria ignorar isso por muito mais tempo mesmo que estivesse controlando o instinto maravilhosamente bem considerando o sangue que Alice havia deixado para ela na geladeira.

— Eu me recuso a machucar outro ser humano para saciar uma necessidade minha – Ela disse, voltando a mostrar a teimosia que estava tão incrustada em seu ser, antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa e apresentar alternativas para ajudá-la nisso, ela me deu as costas e correu com sua nova habilidade sobrenatural para outro cômodo, não muito distante dali.

Cansado, soltei um suspiro alto deixando minha frustração transparecer um pouco antes de me virar e ir atrás dela.

Espero que o estoque de bolsas de sangue que Alice havia trazido fossem o suficiente.

₊‧⁺


Haviam se passado semanas desde aquele meu primeiro momento inicial de confusão com Bella e da minha descoberta da relação dela com Thomas, porém pouca coisa havia mudado em nosso “relacionamento” guia turístico vampírico e turista, já que ela ainda se recusava a aprender a caçar e a desenvolver suas habilidades, se alimentando apenas dos sacos de sangue deixados por Alice na geladeira que estavam acabando rapidamente. A situação estava começando a se arrastar de uma maneira desconfortável (e ridícula, na minha opinião) para nós dois pois ela se via presa em quem ela costumava ser, seu código moral e a nova realidade de sua natureza, eu me sentia completamente inútil pois não sabia como ajudá-la.


Algumas noites eu a via perambulando pela casa, perdida em seus próprios pensamentos, a indignação ainda presente em seus olhos rubis que refletiam sua nova vida, mas agora misturada com uma tristeza profunda. Ela não queria ser o monstro que temia, mas estava se afundando cada vez mais em um ciclo de negação que só a estava mantendo presa em um lugar que não a ajudava, deixava nós dois de mãos atadas e frustrados. Eu não queria confrontá-la, nem obrigar ela a fazer nada que não quisesse, então passava meu tempo vagando na floresta em vez de ficar na mansão ensinando qualquer que fosse a sabedoria que eu possuísse, mas, ao mesmo tempo, era difícil me manter afastado, algo em mim se recusava a deixar ela sozinha por muito tempo, não sabia exatamente o que mas era parecido com o puxão que senti na noite que a encontrei morrendo e havia decidido salvar sua vida da forma mais torta possível.


Suspirando, adentrei nos portões do que um dia foi o jardim da mansão, agora transformado em uma extensão selvagem da floresta com suas flores esquecidas e segui em direção a casa. A luz do luar iluminava o caminho, destacando as linhas decadentes da mansão. Realmente, tinha uma aparência de casa de filme de terror de procedência duvidosa porém era imponente e refletia diretamente a maldição que eu carregava. Minha prisão e meu refúgio ao mesmo tempo, agora eu havia condenado outra pessoa a ela.


Porém meus devaneios foram interrompidos pela imagem de Bella saindo pelas portas duplas carregando uma tesoura de jardinagem e uma pá. Arqueei a sobrancelha na direção dela ao mesmo tempo que ela levantou o rosto, fazendo com que nossos olhares se cruzassem.


— O que você está fazendo? — Perguntei, cruzando os braços enquanto parava no meio do caminho. Meu tom estava mais curioso do que acusador, mas a expressão dela se fechou como se eu tivesse feito a pergunta mais inconveniente do mundo.

— O que parece? — Respondeu com uma ponta de sarcasmo, levantando a tesoura como prova me lançando um olhar irritado. — Estou tentando consertar esse jardim. Ou pelo menos torná-lo um pouco menos… abandonado.

Não consegui evitar que um pequeno sorriso surgisse levemente nos cantos da minha boca. Não era surpreendente que tentasse usar algo banal para ocupar sua mente e evitar lidar com todas as partes que ela se recusava a gostar de sua nova vida. Bella parecia determinada a se concentrar em algo mais mundano, algo que provavelmente a fazia sentir um pouco mais humana e que a lembrasse de sua antiga vida.

— É assim que você está lidando com tudo isso? — Perguntei, me aproximando devagar. — Reformando meu jardim?

Ela bufou, ignorando completamente a minha pergunta enquanto se ajoelhava no chão e cravava a pá no solo endurecido. Cruzei meus braços e esperei minha resposta que nunca veio.


— Não que você mereça mas temos O- para o jantar hoje – Ela disse, fingindo estar concentrada na tarefa que fazia fazendo meu sorriso ampliar.

— Que gentil da sua parte guardar uma bolsa de sangue para mim – Respondi, ainda sorrindo com um toque de sarcasmo na voz que fez ela revirar os olhos mais uma vez. – Porém não é necessário, cruzei com um cervo hoje na floresta e ele foi meu jantar.

Bella subitamente parou de mexer com a terra e se levantou, como se eu tivesse acabado de falar a coisa mais intrigante do universo, podia ver em seus olhos carmesim um brilho de interesse que não havia ali antes.


— Você se alimenta de animais silvestres? – Ela indagou curiosa, podia quase ver as engrenagens do cérebro teimoso dela girando e sorri novamente.

— As vezes… É uma ótima alternativa para quem não quer machucar mortais para se alimentar. – Disse, jogando a isca no ar na esperança que ela mordesse – É quase como comer carne animal para um humano.

Funcionou! Bella inclinou a cabeça ligeiramente, considerando minhas palavras com uma expressão de curiosidade, como se estivesse mais do que inclinada a tentar.

— Então… você está me dizendo que eu poderia sobreviver só me alimentando de animais? — perguntou, cruzando os braços enquanto me encarava.

— É uma possibilidade — respondi, mantendo o tom casual, mas com cuidado para não deixar transparecer meu próprio entusiasmo com a ideia de finalmente ajudar ela em alguma coisa. — Não é exatamente a mesma coisa que o sangue humano em termos de sabor, mas funciona. E, mais importante, é uma escolha sua viver ou não desse modo.

Ela franziu a testa, desviando os olhos dos meus e fixando-o no chão por um momento, como se estivesse pesando as opções em sua mente.

— E você acha que isso seria suficiente? — murmurou, mais para si mesma do que para mim, mas eu ouvi mesmo assim.

— Para mim, tem sido suficiente no último século — respondi honestamente, dando de ombros. — Não é perfeito, mas é uma alternativa.

Bella ergueu os olhos para mim, parecendo pela primeira vez em algum tempo animada com a ideia.

— Você pode me ensinar? Como caçar? – Ela perguntou, com um brilho de determinação nos olhos, finalmente disposta a tentar se adaptar.

Meu sorriso se alargou e dei as costas para ela, voltando exatamente ao ponto de onde eu tinha vindo.

₊‧⁺

A floresta ao redor de Forks parecia mais vibrante do que nunca esta noite, quase como se a magia estivesse mesmo no ar. As árvores, altas e majestosas, balançavam-se serenas e a constante umidade preenchia o ar. Bella estava visivelmente nervosa com nosso pequeno passeio noturno pela floresta, sua expressão parecida com a personagem do conto infantil da chapeuzinho vermelho indo encontrar a vovó. Ri de meus pensamentos estúpidos atraindo seus olhos carmesim para as minhas costas.

Como tinha mais experiência e conhecia todos os cantos deste lugar, caminhava à frente, mantendo a postura relaxada e a expressão neutra, porém meus sentidos estavam em alerta, como sempre. Quando finalmente encontrei um ponto ao qual seria seguro para Bella me virei para ela, esboçando um pequeno sorriso.

— Certo, Bella. A primeira coisa que você precisa aprender é a ouvir. O silêncio da floresta não é realmente silencioso. Preste atenção. — Inclinei a cabeça, fechando os olhos por um instante. — Consegue ouvir isso? Há outro cervo a algumas centenas de metros daqui. Respiração irregular. Ele está alerta, mas não sabe que estamos aqui.

Bella franziu o cenho, claramente desconfortável.

— Edward, eu não sei se consigo fazer isso. Não me parece… natural. — Sua voz tinha uma mistura de incerteza e teimosia.

Aproximei-me dela, parando a alguns centímetros de distância. Meus olhos, estranhamente cheios de paciência, encontraram os dela.

— Nada disso será natural no início, Bella. Você é mais forte, mais rápida e mais alerta do que qualquer predador desta floresta. A questão é aprender a controlar essa força e usá-la de forma consciente. — Dei um passo para trás gesticulando em direção a floresta. — Além disso, pare de ouvir sua mente, aja conforme seus instintos.

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Corremos juntos enquanto eu a guiava com passos silenciosos até sua primeira presa. Bella tentava replicar a graça de meus movimentos, mas ocasionalmente tropeçava em galhos ou folhas secas o que me fazia prender o riso mas também ajudar corrigindo ocasionalmente sua postura e explicando os detalhes.

Finalmente chegamos a clareira onde um cervo pastava, alheio à nossa presença. Fiz um gesto para que Bella parasse e observasse o animal, cuidadosamente.

— É a sua vez, Bella. Lembre-se do que eu disse: observe, antecipe o movimento e seja rápida. E, acima de tudo, controle sua força. – Dei um passo para trás, deixando que ela assumisse a retaguarda.

— E se eu fizer errado? – Ela hesitou, olhando para mim repleta de inseguranças.

— Então você tenta novamente, sua primeira caçada não precisa necessariamente ser perfeita – sorri, tentando parecer o mais encorajador possível. — Você só precisa se alimentar e além do mais, eu estou aqui. Nada vai dar errado.

Respirando fundo, Bella deu alguns passos cautelosos em direção ao animal. Seus movimentos ainda eram incertos e silenciosos, porém o cheiro do sangue quente do animal a invadiu por completo e seus instintos finalmente tomaram as rédeas da situação. Em um movimento rápido, quase instintivo, ela avançou, pegando o cervo de surpresa. A luta foi breve, mas eficiente.

Eu a observava de perto, me sentindo orgulhoso desta primeira pequena conquista dela, era o primeiro passo para que ela se adaptasse. Hoje um cervo, amanhã quem sabe um criminoso.

— Muito bem. — Caminhei até ela, enquanto Bella se levantava, limpando as mãos de forma quase reflexiva. — Foi um bom começo. Com o tempo, isso se tornará tão natural quanto respirar e você nem vai precisar da minha ajuda para encontrar as presas. Quem sabe um dia você não vai beber O- direto da fonte? Isso sim é um pensamento interessante

Bella revirou os olhos, mas havia um leve sorriso em seus lábios, o que fez automaticamente meus lábios se curvarem levemente para cima.

— Isso foi… estranho. Mas não tão ruim quanto eu imaginava. – Ela disse, parecendo minimamente satisfeita consigo mesma.

— Quem sabe talvez você até goste disso um dia. – Respondi, meu sorriso se alargando.

— É, talvez... – Ela replicou, rindo levemente.

₊‧⁺


— Você viu isso? Eu espantei um lobo!! – Bella exclamava entusiasmada segurando desnecessariamente um pedaço de tronco nas mãos. Mais algumas semanas haviam se passado desde a primeira caçada dela na floresta e as coisas pareciam começar a se encaixar. Ela agora não se lamentava tanto sobre a imortalidade, parecia um tanto quanto entusiasmada para testar todas as facetas do vampirismo e eu me sentia orgulhoso em ver ela progredindo

Era um sentimento estranho, algo que nunca havia sentindo antes mas eu queria que ela se adaptasse a essa nova vida e estranhamente queria que ela se adaptasse a essa vida comigo ao seu lado… Eu estava me acostumando em ter ela por perto e me desconcertava pensar que um dia quando ela não precisasse mais da minha ajuda apelidada carinhosamente por ela como “Manual de como ser um vampiro prudente com Edward Cullen” ela iria embora, eu ficaria novamente contido pela maldição e minha eterna melancolia, me sentindo preso novamente. Franzi o cenho, um pouco alarmado com o pensamento inesperado, porém a pequena cicatriz de rosa localizada no lado esquerdo do meu peito, bem acima de onde meu coração morto se encontrava, pulsou fracamente, demonstrando que o pensamento não deveria ser tão surpreendente assim. Eu a queria, mas mesmo que ela não correspondesse meu desejo eu queria que ela gostasse da nova vida forçada que eu a havia dado e que a aproveitasse, preferencialmente do meu lado.

Olhei para ela e para o mar que se estendia bem abaixo do penhasco que eu costumava assombrar por anos a finco e esperei até que entrasse em seu campo de visão. Então, abrindo os braços, me lancei para trás caindo no vazio até aterrissar na água gélida.

— Edward! – Ela gritou alarmada, correndo até a beirada do penhasco me fazendo rir alto o suficiente para que alcançasse sua audição sobrenatural e então me deixei afundar.

Soube o exato momento que seu corpo entrou em contato com a água. A agitação da água, misturado com o sussurro do vento, foi o suficiente para eu identificar a rapidez com que ela havia me seguido até ali, sem ao menos hesitar. Bella tinha uma determinação férrea e uma ousadia admirável, embora eu soubesse que ela não tinha experimentado a mesma sensação de liberdade que eu ao cair, não pude deixar de sorrir ao perceber que ela me seguira sem pensar duas vezes.

A sensação da água fria me envolvia com força, mas eu ainda podia ouvir o som da respiração desnecessária dela, agora acelerada pela descarga de adrenalina que provavelmente corria por seu corpo. Eu me virei debaixo d’água, circulando brevemente como um tubarão, aproveitando a sensação da pressão da água e, ao emergir, pude ver o reflexo de seu rosto, preocupado e incrédulo.

— Você enlouqueceu? Como você salta assim? — A voz dela foi abafada pelo som das ondas, mas, ainda assim, conseguia ouvi-la perfeitamente. Deus abençoe a audição dos vampiros. Ela já estava começando a nadar na minha direção, com um movimento gracioso, mas claramente hesitante, como se estar na água lhe causasse alguma insegurança. — O que estava pensando?

Deixei minha ponderação sobre a insegurança de Bella na água e sorri amplamente, de forma travessa antecipando seu revirar de olhos, que eu havia descoberto ser uma mania inconsciente dela quando pensava algo que não queria dizer. Ela estava mais solta ao meu redor, como se também estivesse se acostumando comigo e eu não podia negar que gostava disso.

— Em como um mergulho cairia bem – Respondi, ainda sorrindo de forma travessa, vendo os olhos de Bella se estreitarem em uma expressão de ceticismo.

Ela nadava em minha direção, seus movimentos mais hesitantes do que graciosos, como se a água fosse algo desconhecido para ela. Seu cabelo flutuava ao redor de seu rosto, criando o contraste perfeito entre sua pele translúcida brilhante por causa da água e seus cabelos escuros como mogno, ela era, de uma forma inquietante, etérea. Mesmo na imensidão do oceano seu olhar carregava uma intensidade única, era fascinante e desconcertante ao mesmo tempo.

— Agora que deu seu mergulho e eu me certifiquei que está bem, podemos ir? – Ela me perguntou apreensiva e olhei para ela de forma interrogativa.

— Não gosta de nadar? – Indaguei, ainda curioso notando a leve tensão presente em seus ombros, como se a água a deixasse desconfortável. Bella desviou o olhar, como se estivesse envergonhada ou algo do tipo. Ela parecia pensar por um momento antes de responder.

— Eu não sei exatamente nadar, então meio que estou esperando começar a me afogar a qualquer minuto… — Ela disse, em um sussurro tão baixo que mesmo para nossos ouvidos ficavam difícil de escutar. Não queria agir como um babaca nem dada do tipo, porém não me aguentei e soltei uma gargalhada alta.

Bella me olhou com uma surpresa indignada que pude ver seus olhos brilharem com uma mistura de confusão e leve frustração, mas eu podia ver a tentativa de esconder o desconforto por trás da expressão que rapidamente se tornava uma careta.

— Não é engraçado, Edward! — Ela disse revoltada, o que apenas me fez rir mais do absurdo que era seu medo.

— O medo realmente não mas seu pensamento que vai se afogar é hilário – Repliquei, rindo novamente e ela me encarou sem entender – Você não precisa respirar, esqueceu? Então não tem como se afogar.

Ela fez a mesma expressão do dia em que conversamos pela primeira vez, de peixe fora da água (irônico, considerando que estávamos exatamente na água) o que me fez rir mais ainda da situação. Era bom rir deste jeito, haviam anos desde a última vez que eu me divertia dessa forma que mal conseguia me recordar exatamente quando foi.

Eu olhei para ela, sentindo a marca da maldição pulsar com mais força, naquele momento descontraído eu sentia que não fora o acaso que havia me levado até ela naquela noite e havia me feito salvá-la, existia algo mais, quase místico, porém de qualquer forma eu era grato. Grato por aquele momento e grato por ter ela ali, mesmo que momentaneamente.

— Eu sei que parece estranho, mas você vai se acostumar com isso. — Disse, mais suavemente agora, a gargalhada desaparecendo aos poucos enquanto me aproximava mais, de forma suave, dela.

Ela levantou uma sobrancelha, mas sua expressão estava mais tranquila agora, como se, talvez, começasse a acreditar nas minhas palavras.

— Você diz isso como se eu já tivesse me acostumado com todas as outras coisas. — Bella resmungou, mas de uma maneira descontraída, como se a irritação inicial tivesse se dissipado me encarando.

Devolvi seu olhar de forma intensa e todo o ar de brincadeira pareceu evaporar ao nosso redor quase como se a eletricidade pulsasse agora ao nosso redor, junto com a minha cicatriz. Me aproximei mais dela, como se estivesse sendo atraído pela órbita que gravitava ao seu redor.

Cada movimento dela, cada respiração — mesmo que desnecessária — parecia se sincronizar com a eletricidade do momento, como se ela fosse o único lugar onde eu poderia finalmente me encontrar. Nada importava mais além daquele momento, influído de tensão e coberto de algo que nenhum de nós era capaz de nomear. Mas eu sentia. E eu sabia que ela também sentia.

— Bella... — Sussurrei em voz baixa e a maneira como ela olhou para mim, com os olhos cheios de algo indefinido, fez a rosa em meu peito pulsar com uma força que nunca havia encontrado antes. Porém, antes que algo acontecesse ela pigarrou, desviando o olhar do meu e se afastando para longe.

— Você tem razão, eu vou me acostumar – Ela disse, com a voz ainda recheada de tensão porém tentando voltar para o tom descontraído de antes enquanto se afastava ainda mais. – Acho que já tive o suficiente de mergulhos por hoje, vamos?

Assenti, deixando que ela se afastasse primeiro sentindo a eletricidade do momento a acompanhar conforme ela se aproximava da costa. Soltando um suspiro longo, a segui, não sabendo o significado do que tinha quase acontecido ali no meio das águas.

₊‧⁺


Algumas horas depois, a brisa gélida do crepúsculo acariciava a pele de Bella enquanto ela olhava para o horizonte, onde o sol desaparecia lentamente no oceano. O som das ondas quebrando contra as rochas lá embaixo preenchia o silêncio confortável instaurado entre nós dois após o mergulho, acompanhado pelo farfalhar das folhas movidas pelo vento. Ela estava sentada à beira do penhasco, com os cabelos e as roupas praticamente secas, balançando os pés despreocupadamente.

Eu estava ao seu lado, tão imóvel quanto uma estátua porém com a cabeça farfalhando de pensamentos inquietantes e com uma cicatriz mais pulsante que nunca. Tentava a todo custo manter minha expressão serena, porém meu olhar se desviava para ela a todo momento, observando cada movimento, cada mudança mínima em sua postura.

— Você parece tão familiarizado com esse lugar em específico, fico me perguntando se vem aqui com frequência. — Ela indagou, inclinando levemente a cabeça enquanto voltava seu olhar para mim. Em resposta lhe dei um sorriso torto, desviando meu olhar do dela e encarando o horizonte.

— É um lugar que me traz... perspectiva. Aqui, tudo parece menor, mais simples. — Ele fez uma pausa, inspirando profundamente. — É um lugar que me permite lembrar também dos meus erros do passado, quase como um refúgio.

— E agora? – Ela perguntou, arqueando uma sobrancelha em minha direção.

— Não mais, não me sinto mais tão preso quanto antes. – Respondi, voltando meu olhar para ela que sorriu.

Ela passou a mão pelos cabelos, um ato ao qual eu ainda não havia aprendido a decifrar.

— Às vezes, isso tudo ainda parece surreal… — murmurou ela, olhando para o vazio. – Mas não me sinto mais tão incomodada com a transformação, é como se eu estivesse tendo a chance de recomeçar que eu tanto quis, sem ter que me preocupar com a pressão das outras pessoas.

Senti algo aquecer dentro de mim, algo que queimava de forma lenta assim como o pulso inquietante da cicatriz de rosa, não sabia exatamente se deveria permitir, mas que era impossível ignorar e uma parte de mim queria muito permitir. "Fique comigo para sempre." A frase se formou em em minha mente antes que pudesse sequer pensar em evitá-la. A ideia era tão simples mas tão complicada ao mesmo tempo. Bella, ali, bem ao meu alcance, não apenas agora, mas por toda a eternidade era uma ideia tentadora e assustadora ao mesmo tempo, eu me lembrava muito bem da última vez. A cicatriz em seu peito pulsou levemente, como se reforçasse a inevitabilidade do meu desejo e da lembrança.

O espírito da floresta sempre estivera certo, eu era egoísta e aparentemente sempre continuaria sendo pois mesmo tendo tomado tanto de Bella ao transformá-la eu ainda me atrevia a querer mais, a desejar ela, era um ataque pessoal ao bom senso e o comprovante fatal de todas as palavras proferidas por aquela criatura sobre ele, quase duzentos anos atrás.

— Você está muito quieto — observou Bella, virando-se completamente para mim. Seus olhos analisaram meu rosto com cuidado, como se procurasse algo. — Em que está pensando?

— Só em como você parece… em paz agora. – Disse, forçando um sorriso.

Bella sorriu, sincera.

— Acho que é porque estou. Pela primeira vez em muito tempo, sinto que estou exatamente onde deveria estar. – Ela replicou sorrindo de forma sincera.

Não proferi mais nenhuma palavra e Bella voltou seu olhar para o horizonte, sem o menor conhecimento do meu conflito interno.

Eu a queria, mas eu não iria me atrever a destruir ela como destruí Irina.

₊‧⁺


Desde aquele dia no penhasco Bella e eu havíamos nos aproximado muito, porém ela nunca se permitia se aproximar demais mantendo uma distância segura de mim, emocionalmente falando. E eu, sinceramente, não a julgava, afinal de constas quem quer se amarrar a uma bomba-relógio amaldiçoada? Eu era uma rua sem saída em forma de vampiro, o equivalente imortal de um quebra-cabeça com peças faltando e que ainda assim insiste em se montar mesmo sabendo que uma parte de si havia sido perdida naquela noite trágica duzentos anos atrás. Porém, desde aquele momento no penhasco algo havia mudado em mim, não sabia se havia mudado nela mas cada conversa, cada troca de olhares e cada comentário sarcástico que jogávamos um para o outro parecia nos atrair para o outro de forma involuntária, como ímãs, de uma forma tão forte que desafiava até mesmo a maldição. Contudo, mesmo com a eletricidade crescente entre nós, havia algo que ela mantinha firmemente intacto: a barreira invisível que existia ao seu redor e me mantinha afastado, impedindo que eu chegasse muito perto. Era como se ela tentasse proteger algo, um segredo, ou talvez o próprio coração, e isso me deixava inquieto.

Ela continuava a se comportar como sempre, curiosa, teimosa, irritante e sagaz mas havia momentos em que eu sentia que algo tinha mudado nela. Era sutil, quase imperceptível, mas estava o peso em seu olhar quando achava que eu não estava prestando a atenção, um silêncio carregado demais para ser apenas casual, como se houvesse uma tensão entre nós que antes não existia. Me deixava minimamente aflito e curioso pois eu nunca consegui desvendar seus pensamentos antes, agora sua mente parecia um mistério ainda maior para mim.

Minha mente se perguntava o que havia provocado essa mudança, se ela tinha tido a mesma revelação que eu naquele dia do mergulho, mas não ousava e não iria pressioná-la. No fundo, uma parte de mim temia a resposta.

Eu me encontrava concentrado organizando os livros da biblioteca antiga da mansão, a única parte da casa ao qual eu tinha me preocupado em conservar daquele lugar quando escutei os passos leves de Bella ecoando enquanto se aproximava da porta da biblioteca no corredor, cautelosos mas determinados ao mesmo tempo. Me virei para a porta, para esperá-la entrar deixando minha tarefa completamente de lado.

Foi então que aconteceu.

Bella adentrou a biblioteca, com passos decididos e a postura tensa carregando um pequeno caderninho de couro preto surrado nos braços, com as páginas amareladas pelo tempo e a capa desgastada. Congelei, reconhecendo muito bem aquele caderno e o conteúdo que ali continha.

Meu diário.

O lugar onde eu havia derramado todos meus tormentos, devaneios, arrependimentos e atitudes deploráveis de todo o último século e onde eu contava com detalhes precisos os acontecimentos daquela noite desastrosa, que havia custado muito para os três protagonistas daquele cenário sangrento. Senti a cicatriz pulsar e arder em meu peito enquanto Bella se aproximava de mim carregando aquele objeto tão amaldiçoado quanto eu.

Aqueles escritos eram sombrios e carregavam toda minha dor de perder Irina e minha tão preciosa liberdade, revelava todo o sentimento de traição que eu sentira quando a encontrei com Thomas. Meu Deus, Thomas. Bella finalmente conectaria os pontos do seu parentesco com aquele humano infeliz que havia dado o azar de cruzar meu caminho no momento errado e eu ficava cada vez mais apreensivo com isso. Será que ela assumiria que eu a condenei a eternidade por vingança? Para tirar da família dela o que seu antepassado havia tirado de mim? Uma liberdade por outra. De repente o sofrimento causado pela prisão da casa e a rosa pulsante não eram nada comparados ao pensamento de que talvez ela estivesse questionando cada ato meu para com ela até ali. Minha armadilha para prender ela. Hades dando a Perséfone seus romãs. De repente a maldição não tinha mais relação com Irinia, Thomas, a casa, o espírito da floresta ou eu, não, naquele momento eram os pensamentos de Bella que me assombravam.

— Você nunca mencionou nada sobre uma maldição — disse ela de forma acusatória, tensa, parando na minha frente, ainda segurando o diário de forma firme nos braços.

— Você leu—Minha voz saiu baixa, apreensiva, quase um sussurro no ar pesado que nos cercava. Não era uma pergunta, era uma constatação amarga.

— Claro que li! O que mais você esperava que eu fizesse? – Ela retrucou irritada, ainda segurando o diário com força. Eu podia ver as perguntas inundando seus olhos e a indignação pelo segredo que eu mantive desde o dia que nos conhecemos.

Suspirando, passei a mão pelos cabelos sem saber exatamente o que fazer e como explicar tudo para ela.

— Quem era Irina? – Ela disse sem esperar que eu abrisse a boca para começar a contar toda a história. – E qual é a sua relação com a minha família? Você sabia quem eu era antes de me “salvar” do acidente?

Eu fechei os olhos por um momento, tentando organizar os pensamentos, mas as palavras de Bella continuavam perfurando minha mente como vidro. Quem era Irina? Qual é a sua relação com a minha família?Você sabia quem eu era antes de me “salvar” do acidente? Perguntas diretas, simples e que eu não sabia como responder pois sabia que não seriam respostas fáceis.

— Irina foi alguém importante para mim, há muito tempo… — Respondi de forma vaga, minha voz carregada de um peso que nem mesmo eu sabia que ainda carregava porém não era suficiente para Bella, que agora me encarava com uma sobrancelha arqueada. — Me siga.

Sai em disparada pela porta, correndo em minha velocidade sobrenatural com Bella em meu enlaço porém não fomos muito longe, parando de frente a lareira que iluminava brevemente o que era meu quarto, tão decrepito quanto o resto da casa. Olhei para a pintura emoldurada logo ali em cima, a jovem mulher loira de olhos azuis radiantes por quem um dia me encantei, tantos anos atrás, com seu inebriante perfume de lavanda, mel e primavera que nunca havia se apagado da minha memória.

Bella olhou para a pintura também e logo desviou seus olhos para mim, ainda aguardando as explicações.

— Esta era Irina — comecei a dizer, em um fio de voz carregada de arrependimento e pesar. — Ela era humana. Assim como você era quando te encontrei naquele acidente. Mas ao contrário de você, eu não a salvei. Eu fui o responsável pela sua ruína.

— O que aconteceu? – Bella perguntou franzindo o cenho enquanto cruzava os braços.

Hesitei. Eu odiava aquele assunto e tudo que o envolvia, porém a rosa agora queimava e eu sabia que Bella merecia uma explicação então era isso que eu daria a ela.

— Eu a amava. Ou pelo menos pensei que amava. Mas como o grande egoísta ganancioso que sou eu a queria para mim, como uma propriedade, queria ela presa ao meu lado. No final, ela me temia no mesmo nível que dizia me amar. E ela estava certa em temer pois quando tentou se afastar de mim eu deixei com que a raiva me cegasse.

Desviei o olhar, sentindo a lembrança vivida invadir minha cabeça como sempre fazia. Os gritos, as acusações e a tragédia sempre me assombrariam.

— Uma noite, ela estava com outra pessoa, alguém que eu achava que queria afastá-la de mim pois eu sabia que ele a amava. Fiquei cego pelo ciúme, pela raiva e ataquei os dois em uma emboscada. Houve um confronto, e… — Minha voz falhou antes que eu concluísse a frase, porém respirei fundo e continuei. — Ela morreu por minha causa.

Bella ficou em silêncio por um momento, absorvendo as minhas palavras dele, o relato breve do que ela havia lido naquele livro.

— E esse homem era meu antepassado. – Não era uma pergunta mas sim uma conclusão, então apenas assenti.

— Não sei em qual grau você e Thomas são parentes, mas sim, ele faz parte da sua família —acrescentei em um quase sussurro enquanto desviava meu olhar da imagem de Irina.

Bella voltou a ficar em silêncio. Seus olhos ainda estavam fixos em mim, mas não me enxergavam realmente, ela estava conectando as peças, reorganizando todas as informações em sua mente de modo que fizessem sentindo.

— Então, deixe-me ver se entendi direito. — Ela finalmente quebrou o silêncio, sua voz controlada, mas com um leve toque de desconfiança. — Você matou meu antepassado em um ataque de ciúmes e raiva por causa da mulher no quadro. Mas por que foi amaldiçoado por isso?

- Eu não matei Thomas, mas cheguei perto disso… — Admiti, um pouco envergonhado – Irina interveio antes que eu o matasse e isso causou a morte dela. Fui amaldiçoado por roubar uma vida que não era meu direito destruir.

Bella piscou, processando minhas palavras por um longo momento e então a confusão no seu rosto se transformou em indignação.

—Você sabia que eu era parente de Thomas? Eu faço parte de algum plano sórdido de vingança ou algo do tipo? É por isso que me transformou? – Ela indagou de forma acusatória, deixando claro toda a sua indignação e eu apenas sacudi a cabeça me virando completamente para ela.

— Eu não tinha ideia de quem você era quando te salvei aquela noite, eu juro – Disse, deixando toda minha honestidade transparecer em minhas palavras – Eu apenas sabia que eu não podia te deixar morrer.

Vi sua indignação vacilar momentaneamente enquanto seus olhos intensos penetravam da forma mais profunda qualquer resquício de alma que ainda existia em mim. A rosa no meu peito parecia palpitar, ardendo como fogo em brasa como nunca antes.

— E por que eu? — Ela perguntou, em um fio de voz, confusa, mas ainda firme, como se a bagunça que eu havia revelado não fizesse sentido nenhum, e sejamos honestos, não fazia muito sentido mesmo. Sua pergunta ainda pairava no ar elétrico e tenso entre nós, pesada, exigindo uma resposta que eu nem sabia se conseguiria dar.

Meus olhos a estudaram por um instante, tomando cada detalhe de sua expressão — as sobrancelhas ligeiramente franzidas, expressando confusão, os lábios entreabertos, os olhos ardendo com uma intensidade que parecia quase impossível. Eu precisava lhe dar uma resposta, mesmo que eu também não a conhecesse.

— Eu também não sei, Bella. — Admiti voz saiu baixa, quase um sussurro. — Tudo que sei é que, no momento em que te vi naquela noite, algo mudou. Eu senti que não podia simplesmente te deixar lá — Respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas. — Como se algo me puxasse até você.

Ela piscou, parecendo surpresa com minha resposta de lunático, mas não desviou o olhar.

— Então, foi isso? Você me transformou porque algo do além te falava que você não deveria me deixar morrer? — Sua voz carregava um tom de incredulidade e sarcasmo ao mesmo tempo, minha explicação era sem sentido mesmo mas dei de ombros e assenti.

— Foi uma atitude egoísta e bancar o herói não é exatamente meu forte. — Admiti. — Mas, naquela noite, eu não conseguia pensar em outra coisa além de salvar você. Eu não sabia quem você era. Não sabia o que significava para mim. Apenas sabia que tinha que te salvar e a cicatriz concordava.

— Você nem me conhecia, Edward. Como minha morte poderia te impactar? — Ela indagou, completamente confusa.

— Eu também não sei — Repliquei, vendo a ruguinha de preocupação surgir novamente em sua testa. — Mas, de alguma forma, eu sentia que você era importante. Que você era… diferente. Talvez fosse a maldição. Talvez seja algo maior que isso. Eu não sei. Mas quando vi você à beira da morte, nada mais importava. Não o passado. Não o futuro. Apenas salvar você.

O silêncio que se seguiu foi quase insuportável. Bella me olhava como se estivesse tentando decidir se podia acreditar em mim. O silêncio tenso me perturbava porém eu entenderia se ela não quisesse mais olhar para a minha cara e fosse embora.

— É tudo tão confuso, tantas informações. — Ela finalmente disse, desviando o olhar do meu e encarando o chão. — Toda a minha vida mudou por causa de uma decisão sua. Eu… eu não sei como processar isso.

— Eu não espero que você me entenda agora. — Respondi, dando um passo em sua direção, mas parando quando percebi que ela recuava instintivamente. — Tudo que eu posso fazer é te dizer a verdade. E a verdade é que, mesmo com tudo isso, eu não me arrependo de ter salvado você.

— Eu sei que não se arrepende. — Ela disse — E eu gosto que não se arrependa, durante essas semanas eu realmente aprendi a me importar com você, é só que tudo isso é tão complexo.

— Não precisa ser, podemos ainda ser apenas nós dois. — Eu disse, me aproximando novamente dela que dessa vez não recuou. — Eu cometi vários e vários erros e não sou nem um pouco perfeito, longe disso, na maior parte do tempo eu sou um idiota completo mas eu continuo sendo o mesmo lunático obcecado por mergulhos noturnos e piadas inapropriadas que você conhece. Por muito tempo eu achei que a maldição e esse maldito símbolo dela que eu carrego no peito me definissem como pessoa, exatamente como um leitão marcado para abate mas você me mostrou que não precisa ser assim, com você eu sinto que eu posso ser melhor.

Bella me olhava surpresa e confusa, porém eu sentia que ela sentia o mesmo que eu e que nossa conexão era maior que tudo que eu já havia feito na vida. Peguei seu rosto entre as mãos e encostei minha testa na dela fechando os olhos.

— Edward… — Disse finalmente, sua voz tão suave que saiu mais como um sussurro.

Ela fechou os olhos, respirando fundo, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos enquanto eu mantinha minha testa encostada na dela, sentindo o calor de sua pele contra a minha.

- Por favor… — Eu supliquei e escutei a respiração dela se interromper por um momento.

E então nossos lábios estavam se tocando, não como algo sensual ou algo do tipo, mas algo puro, carregado de sentimentos que nós dois não conseguíamos externar no momento, era como uma confissão silenciosa. Com medo de que ela fosse desaparecer a qualquer momento segurei-a com mais força contra meu corpo, aprofundando levemente o beijo e então senti algo explodir dentro de mim, como grandes faíscas verdes e a cicatriz palpitava como nunca antes. Bem ali não havia mais espaço para dúvidas ou arrependimentos.

Eu podia sentir sua respiração irregular contra mim, o calor de sua presença contrastando com a frieza que eu havia me acostumado tão bem nos últimos séculos. Não era o tipo de beijo que inflamava o corpo e acendia a grande chama do desejo (não que o desejo não existisse, ele existia e como existia...) — era o tipo que acendia algo muito mais profundo, algo que para mim era desconhecido e inexplorado mas que ao mesmo tempo era a melhor coisa ao qual eu havia experimentado na vida. Naquele momento eu percebi que ela era a minha âncora e eu me tornava um ser melhor por causa dela.

Bella se afastou alguns milímetros, seus olhos procurando os meus, e quando finalmente eles se encontraram, por um momento, nenhum de nós disse nada. Nossas ações falavam mais alto que qualquer coisa que pudesse ser dita.

— Eu não sei como funciona essa maldição, ou pra onde vamos a partir deste momento, mas eu não me importo mais. – Ela finalmente sussurrou, a voz suave e carregada de honestidade. — Mas, por algum motivo, parece certo.

Sorri para ela, sentindo a cicatriz pulsar levemente, como se respondesse às palavras dela. E, bem ali, neste momento senti que havia esperança e que todas as feridas do passado se curariam.

₊‧⁺


O céu sobre Forks estava carregado de nuvens escuras, mas nenhuma chuva caía. Apenas o som do vento entre as árvores preenchia a noite. Eu e Bella estávamos novamente no penhasco, o mesmo lugar que eu passei os últimos anos me sentindo o mais desafortunado dos monstros era agora o lugar onde eu havia feito novas memórias, memórias felizes. Depois do dia que Bella descobriu sobre a maldição as coisas mudaram drasticamente entre nós, havíamos nos rendido a atração que sentíamos um pelo outro e Bella agora havia finalmente concordado em aperfeiçoar suas habilidades vampíricas.

Estávamos sentados juntos na beira do penhasco e eu sentia seus olhos escarlates buscarem os meus, porém continuei encarando o vazio pensando em tudo que havia mudado em mim desde que ela chegara como um cometa em minha vida. Eu me sentia grato e não mais indigno ou culpado por tudo que havia acontecido. Sim, eu sempre me arrependeria de ter tirado a vida de Irina naquela noite porém foi graças a isso e a maldição que eu havia encontrado Bella.

— No que está pensando? – Bella disse, finalmente quebrando o silêncio.

Ele virou-se para ela, surpreso pela intensidade de suas palavras.

— Na origem do universo. — Respondi ironicamente, fazendo ela arquear a sobrancelha na minha direção me fazendo rir levemente. — Na verdade, estava pensando em como o destino trabalha de forma estranha.

— Como assim? — Ela indagou, curiosa e eu dei de ombros.

— Já parou para pensar que se não fosse pela sucessão de tragédias provavelmente nós nunca teríamos nos encontrado? — Perguntei, virando para encará-la.

Ela franziu o cenho, analisando minhas palavras cautelosamente enquanto procurava palavras para responder e então sorriu para mim.

— Nós realmente parecemos os protagonistas de um filme de terror de procedência duvidosa – Ela disse me fazendo rir.

— Sim, mas eu não mudaria nada – Repliquei sorrindo para ela que arqueou a sobrancelha na minha direção – Ok, talvez eu mudasse algumas coisinhas…

Ela riu e eu acompanhei, me sentindo extremamente leve como nunca antes.

— Eu também não mudaria nada — Ela repetiu, com um sorriso tão luminoso quanto a noite ao nosso redor. Mas, enquanto dizia isso, havia algo nos seus olhos, uma mistura de nostalgia e aceitação, como se estivesse pesando todas as decisões, os sacrifícios e as perdas que nos haviam trazido até ali. — Meu tempo como humana acabou, mas eu nunca me senti tão viva.

Sorri novamente para ela enquanto entrelaçava nossos dedos e voltava a encarar a noite.

— Também faz tempo que não me sinto tão vivo. — Respondi, minha voz suave, mas carregada de um significado mais profundo. Nunca pensei que pudesse vivenciar algo tão poderoso, intenso e puro quanto vivia com Bella. Tudo parecia diferente. Como se, por mais que a eternidade tivesse me marcado, eu ainda tivesse algo de vital em mim. Pela primeira vez em muito tempo eu me sentia em paz.

Ela sorriu, apertando suavemente minha mão. Podia sentir o calor dela, e por um momento, parecia que a noite, com sua quietude, estava apenas esperando que nós dois encontrássemos uma maneira de simplesmente existir naquele espaço.

Quanto a maldição, não sei exatamente como ou quando aconteceu mas parecia ter sido quebrada pois a rosa que eu carregava no peito já não pulsava mais e desbotava fracamente. Decepcionante se quer saber minha opinião, sempre pensei que quando finalmente me livrasse da minha sentença a magia que senti ao meu redor no dia que a ganhei voltaria a me serpentear e haveriam fogos, luz e toda aquela parafernália que era descrita em livros de contos de fadas mas nada disso aconteceu, a flor apenas parou de pulsar.

Um ótimo lembrete da relevância que eu não possuía para a minha condenadora (não estou reclamando, ó poderosa criatura… então não me amaldiçoe de novo tá? Mas é que dava para ter investido mais né…)

Mas eu me sentia satisfeito e mal podia esperar para começar o resto da minha eternidade com Isabella.


Notas finais
E é isso kkkk eu espero que você tenha gostado da história e foi uma honra ter você como amiga oculta no meu primeiro POSO da vida (mas não será o último!) Obrigada por ler até aqui e desculpa qualquer coisa! Beijos, Thá <3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.