Notas iniciais
Oi gente! Desculpa a demora para postar o cap, mas aqui está! Espero que gostem :) Beijinhos.

–Katie, onde estamos? –Caleb me pergunta com certo divertimento. A verdade é, saímos de lá com tanta pressa (e no escuro) que há uma grande chance de estarmos um pouco perdidos.

Sinto o vento do final de outono em minha pele e começo a sentir umas gotículas de chuva caindo. Só então noto que ainda estou com o casaco de Caleb, mas está tão quentinho que finjo que não percebi. Amo usar roupas largas.

–Nós já estamos chegando. Eu acho. –Paro de pedalar e fito o horizonte, onde o sol já estava nascendo. É lindo, penso eu, mas minha mãe vai me matar, reflito, alcançando meu celular sem bateria em meu bolso.

–Katie, admita que estamos muito perdidos. –Leb diz, rindo.

–Vamos considerar isso como um caminho alterativo, oui? – Respondo. Realmente, não fazia ideia onde estávamos; nunca tinha estado aqui antes, parecia diferente. Mas pelo menos, a luz do sol ia ajudar a nos localizar.

–O que acha de na próxima vez pegarmos o carro?

–Que carro?

–Minha mãe, na realidade, tem. Ela usa para ir trabalhar cedo, por isso você não deve ter reparado. Eu dirigia nos EUA, desde o começo do ano. Lá dirigimos a partir dos 16 anos, mas aqui são aos 18.

–Ah. Não sabia; nunca pensei nisso. Não faço ideia como dirige, mas Nick usa o carro do pai dele direto. Você dirige aqui?

–Não, não gosto muito. Só ando a pé ou skate. Nós devíamos pegar o carro algum dia. Desde que cheguei aqui, não sai mais; nunca fui para Paris, e olha que moro na França agora.

–Essa é uma das muitas coisas boas de morar na Europa, você pode viajar para todos os cantos com apenas o trem, e é muito fácil e barato.- Falo.- Podemos ir em algum lugar para o recesso de inverno. Digo, nós quatro.

–Na verdade, é uma ideia ótima. –Ele sorri.- Onde gostaria de ir?

–Ah. Estava guardando dinheiro para ir em algum lugar. Sabe, qualquer lugar. Pegar o mapa e apontar para algum lugar e só ir. É estúpido, eu sei.

–Não é estúpido. É arriscado. –Ele me encara, e eu desvio.

–Sente falta de lá? Digo, os amigos, escola, etc. Nunca falou muito deles.

–Às vezes. Mas eu não me arrependo de ter vindo. Era muito diferente. –Depois disso, não fala mais nada, e decido não insistir.

A estradinha que começamos a seguir de repente também não é a mesma, sem mais as pedras, e sim terra rasa. Começo a notar que até a vegetação, que antes era mais densa, está um pouco menos agora. Fico perdida em meus pensamentos –como sempre-, até que ele me interrompe:

–Katie, você precisa ver isso. –Noto que está um pouco mais longe, e vou até ele. Achava que era o caminho de volta, mas muito pelo contrário; me deparo com uma cena incrivelmente linda.

Vejo um campo de lavandas preenchendo o chão em minha frente, com uma casinha de madeira ao fundo mesclando com o sol nascente no horizonte. Não acredito que nunca tinha visto aquilo antes, mesmo depois de ter passado tantas vezes por aquela área. Solto um suspiro e sinto uma paz dentro de mim ao observar aquela imensidão roxa e sentir seu perfume adocicado.

–É....É lindo. –Falo, boquiaberta, e ele concorda com a cabeça. Descemos das bicicletas e sentamos no chão. Apenas fito as flores se mexendo ao ritmo do vento, em silêncio. Com Caleb, parece que mesmo não falando nada, o silêncio constrangedor não existe, o que é realemente ótimo.

Ele me chama, e o vejo deitado entre as lavandas altas olhando para o céu, então deito-me ao seu lado, fazendo o mesmo. Não tenho certeza do que estou fazendo; normalmente estaria preocupada com a chuva, em acordar cedo, estudar para a prova de química. Mas não estou, e isso também me preocupa, de certo modo.

Perco a noção de tudo. De onde estou, das preocupações, do colégio, de meu pai, do trabalho. Agora só havia isso, e nada mais. Olho para ele, e vejo que inúmeras flores caíram em seus cabelos e não consigo me segurar.

–Licença, Leb, tenho que tirar. Está me dando agonia. –Sento e cruzo as pernas. Passo os dedos entre seus cabelos tirando cada folha de cada vez, cuidadosamente, enquanto ele ria. –Pelo menos seu cabelo está cheirando a lavanda agora. É bom. Ou não, sei lá.

–Bom, não? Katie, estamos estragando as flores. –Estávamos mesmo, então levantamos e ele para na nossa frente.

Caleb me encara, fazendo-me desviar o olhar- não consigo manter contato visual, independentemente da pessoa. Só não consigo. Ele estica a mão e tira uma flor pendurada em meu cabelo, colocando-a atrás de minha orelha.

–Pronto. Agora está bom. –Diz ele, mais baixinho, com a mão em minha bochecha. Certo, agora eu não sei o que falar. Não consigo nem me mexer. Quando vejo, ele se aproxima ainda de mim. –Hm, Katie. Eu..., só queria.... Fazer isso mais uma vez.

Ele chega mais perto e me beija delicadamente, com a mão ainda em minha bochecha e a outra em minha cintura por dentro do casaco, me puxando para perto. Simples assim. Ele me para e me olha, como se procurasse permissão para continuar. Não tenho certeza do que estou sentindo, mas é bom. Coloco os braços ao redor de seu pescoço e ele me puxa para ainda mais perto, deixando sem espaço entre nós. Sinto os pingos engrossarem até que se transformarem em uma chuva forte, mas não me importo. Não agora.

Simplesmente perco a noção de tudo. Não sabia a quanto tempo estávamos nos beijando, mas parecia que nenhum de nós queria parar, mesmo naquele horário e naquela chuva.

–Katie, eu... –Ele começa, mas nos viramos ao escutar alguém gritando. Vejo um homem de meia idade correndo em nossa direção, aparentemente irritado.

–Aí, merda. –Digo ao vê-lo se aproximar de nós. Óbvio, era o dono do lugar que nós, sem querer, invadimos. Caleb segura minha mão e me puxa, correndo, enquanto rimos. Alcançarmos nossas bicicletas e saímos de lá rapidamente, voltando até a estradinha de pedras após alguns minutos. Não estávamos tão perdidos, pelo jeito. –Acho que precisamos pensar duas vezes antes de invadir, hm, plantações de novo.

–Verdade. –Ele ri. Trocamos algumas palavras, mas é claro que nós dois estamos um pouco envergonhados com o que acabou de acontecer. Quando percebo, já estávamos de volta; pedalamos até mais perto da cidade do que imaginava.

Chegamos na praia e deixamos as bicicletas no lugar onde as alugamos – na Europa tem aqueles lugares do município onde você põe moedas e consegue alugar e devolver facilmente, ainda bem que não teríamos que voltar aqui mais tarde.

Caminhávamos rapidamente, debaixo de marquises. Devido à chuva, não conseguíamos conversar direito, mas ele ainda segurava minha mão enquanto andávamos. Algumas pessoas na rua nos observavam com certa curiosidade, mas escolhi ignorar o fato de que estava encharcada e que eram umas cinco e meia da manhã –acho eu.

Ele ficava me olhando de relance, fazendo-me ficar vermelha de vergonha- não sei porque, ele já havia me visto fazer coisas muito mais embaraçosas.

–Leb. O que você queria perguntar? Quando estávamos... lá no campo. –Pergunto, olhando para o chão quando chegamos na frente de nosso prédio. Vejo-o dar um sorrisinho e, de repente, ele para em frente de mim.

–Katie. Eu queria te perguntar uma coisa. – Aí, Deus, o que é isso? Ele segura meu queixo, fazendo-me olhar para ele. Merda. – E preciso de uma resposta sincera. Bem, quando eu cheguei na cidade, eu achava que ia ser uma merda. Foi muito, hm, difícil de deixar os EUA. –Ele pausa.- Mas eu conheci você, Katie. E ficou melhor. Bem melhor do que imaginaria. E desde aquele dia no terraço, eu tive certeza. E eu acho que você também. Então, hm, não era bem assim que eu queria perguntar. –Percebo que ele fica mexendo em seu anel na mão direita freneticamente por alguns segundos, exatamente o que ele faz quando ele está nervoso.- Mas, hm, quer ser minha namorada?

O que?!

Como assim? O que eu iria responder? E o que eu queria? Afinal, o que foi hoje? Minha cabeça está a mil, e não faço ideia do que fazer nem como reagir. Devia estar parecendo uma idiota.

Penso em tudo que tinha acontecido entre nós, em todos nossos momentos juntos, todas as risadas, a companhia, ou até mesmo todos os filmes que assistimos de madrugada e as pizzas compartilhadas. Já tinha minha resposta.

–Katie? –Ele diz. — Desculpe, eu não queria... –Ele começa, mas eu o interrompo.

–Sim. –Digo, baixinho. –Sim, sim, sim, sim! –Falo, abraçando-o. Vejo um sorriso se formar em seu rosto, e ele me abraça de volta, levantando-me do chão e girando.

–Sério? –Ele me pergunta, segurando minha face com as duas mãos, e os dedos entre os meus cabelos molhados.

–Sim, Leb, sim. –Digo, rindo.

–Graças a Deus. –Responde ele, beijando-me.

Ele só me encara sorrindo. Não sei o porquê, mas ele me faz sentir de um jeito totalmente diferente, como nunca me senti antes. Me faz sentir como se eu fosse extraordinária, mesmo sento totalmente comum. Não consigo parar de sorrir, que nem uma boba.

–Vamos entrar, Leb, estamos congelando aqui. –Digo, procurando minhas chaves e abrindo a porta do prédio. Sinto ele me envolver num abraço por trás e quase tropeçamos em nossos próprios pés.

–Ainda está com frio? –Ele pergunta, com a cabeça em meu ombro.

–Não mais. –Respondo. Subimos as escadas, que parecem não acabar, até que chegamos ao nosso piso. – Você sabe que horas são?

–São 6h agora. Uau. – Ele diz, pegando o celular no bolso.- Temos que ir ao colégio em umas duas horas.

–Seis horas? Meu Deus, é segunda-feira. Estaria acordando em meia hora.

–Ah, você sabe, dá para fazer muita coisa em meia hora. –Ele fala, dando de ombros, fazendo-me rir.

–Com certeza, tipo, tomar banho e trocar de roupa porque estamos uma bagunça. Então, te vejo em uma hora e meia?

–Ok, ok. –Diz ele, me segurando pela cintura e me beijando-me mais uma vez. –Te vejo daqui a pouco.

Entro em casa silenciosamente, evitando fazer barulho. Primeiramente não avisto ninguém, e vou subindo as escadas em direção ao meu quarto de fininho, até que vejo minha mãe parada na cozinha.

–Bom dia, filha. –Escuto-a dizer atrás de mim, então desço as escadas. –Onde a senhorita estava?

–Bonjour, mãe. Estava... Fora. –Digo, rápido.- Por acaso a senhora emagreceu? Está linda hoje.

–Filha, não estou brava com você. Só quero saber onde você estava até essas horas.

–Estava na casa de Lou. –Invento.- Estou molhada porque voltei a pé.

–Ah, sim. –Ela pausa. É óbvio que ela não acreditou. Nem eu acreditaria em mim mesma nesse momento. –E esse casaco é de Lou também?

–Casac... Sim, é de Lou. –Tenho que aprender a mentir direito. –Vou tomar banho, mãe.

–O que ficaram fazendo?

–Sei lá, mãe, conversando. –Gaguejo.

–Kate, impressão minha, ou Caleb estava usando o mesmo casaco ontem?

–Não sei, talvez tenham o mesmo, mãe. Vou subir, estou atrasada. –Nem espero uma resposta, e já subo, fechando a porta atrás de mim. Mas última coisa que escuto é a risada de minha mãe no piso de baixo.

–Até que horas vocês dois ficaram na praia? –Lou pergunta, durante o almoço. Troco olhares com Caleb procurando uma resposta. Não tínhamos conversado sobre contar para eles, mas acho que concordaríamos em esperar um pouco.

–Hm, saímos logo... Logo depois de... vocês. –Ele responde, gaguejando. Acho que ele mentia pior que eu.

–Ah, ok.- Ela diz.- Eu vou pegar algo para comer, já volto. Nicky, vem comigo? –Eles se levantam e vão, até ficarem fora de vista.

Leb me puxa num abraço e me dá um beijo, mesmo eu falando que eles iam voltar a qualquer momento.

E é bem o que acontece. Quer dizer, apenas Nick.

–Mas o que? –Ele diz, com os olhos arregalados. Desgrudo de Caleb, e fazemos gestos para ele falar mais baixo. –Sabia!

–Nick, não é nada demais.- Leb diz, e vejo se Lou não estava vindo. Nick só ficava olhando para nós, sorrindo.

–Vocês dois estão namorando? –Ele pergunta. Encaro o chão, que de repente se tornou interessante; Caleb também não diz nada. –É, vocês estão. Finalmente, vocês dois. Estava demorando.

–Por favor, não conte para Lou ainda. –Digo.

–Não contar o que? –Ela surge atrás de nós, arqueando as sobrancelhas. Merda.

–Que... Que... Alguém me ajuda aqui? –Falo.

–Não. –Nick diz, sorrindo.- Se vocês não falarem, eu vou.

–Hm, Katie e eu... –Caleb começa, mas é interrompido por Lou.

–Sabia! Sabia, sabia, sabia! Sério, gente, era óbvio. Demorou, viu?

–Não é nada demais, vai ser igual antes só que... um pouco diferente. –Falo explicando-me. Parte de mim se sente exposta, mas também me sinto aliviada por eles saberem. Esconder isso deles ia ser muito exaustivo. –Digo, eu conheci vocês dois antes de namorarem. É quase a mesma coisa. Eu acho.

–Sério, Kate, você levou 3 meses para descobrir que estávamos namorando. E Caleb mente pior que você. Nunca iriam conseguir esconder isso de nós. –Lou diz, rindo.

–Está me chamando de burra? –Falo, rindo também.

–Estou te chamando de lerda, é diferente. Vocês dois são, na verdade.

A conversa fica mais ou menos por isso, simplesmente fácil. Estava tudo bem.

Saio do trabalho e recebo uma mensagem de minha mãe dizendo que vai ficar com Jean hoje, e que tinha deixado dinheiro para pizza no imã de geladeira da cozinha. Não havia falado nada com Leb sobre se encontrar hoje de noite, então me planejo para ficar em casa, tentando estudar para a prova de quarta-feira.

Entro em meu apartamento e troco minhas roupas por um pijama e um cobertor. Sento-me em minha escrivaninha e abro os livros, mas sem sucesso. Releio aquelas páginas, mas nada faz sentido para mim. Fico pensando se todas essas coisas que aprendemos na escola vão servir para alguma coisa no futuro –provavelmente não.

Desperto-me ao escutar o barulho de alguém batendo na porta, então vou lá atender. Vejo Caleb parado na frente da porta com um buquê de flores azuis em mãos (que perfeitamente se destacam com seus olhos), olhando para a minha cara de surpresa.

–Gostou? -ele pergunta.

–São lindas, Leb. Não precisava de tudo isso. –Digo, dando um beijinho rápido em sua bochecha. – Obrigada.

–Claro que precisava. Quer ir no terraço? –Falo que sim, e subimos aquelas mesmas escadinhas enferrujadas de sempre. Todavia, ao subir tenho mais uma surpresa: vejo um cobertor no chão com dois travesseiros, um computador com a tela ligada no fundo, uma vela acesa fraquinha, e uma caixa de pizza, obviamente. –Não sabia como você ia querer nosso primeiro encontro, mas achei que, apesar de tudo, ainda somos amigos.

–Leb, isso é perfeito, sério! –Exclamo, honestamente. Não poderia imaginar algo melhor que isso. Óbvio que não é um primeiro encontro “normal”, não estava cheia de maquiagem, e estávamos ambos de pijama no terraço do nosso prédio. Acho que não éramos normais, afinal.

Notas finais
E aí, gostaram? Fiquei muito em dúvida nesse cap, então por favorzinho, deixem comentário para saber o que vocês acharam! Beijinhos, gente :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.