— Eu pensei que eles estivessem mortos ou no mínimo longe de tudo isso, mas parece que o meu passado me encontrou.

Dragon pareceu avaliar minhas palavras.

— Você não precisa deixar o seu passado voltar e te quebrar de novo – ele disse e eu o encarei de cenho franzido – Dê água e comida a eles, um dos carros e deixe que eles encontrem um lugar seguro.

Eu me afastei, me enrolando em uma toalha e olhando para Dragon. Qualquer sensação de bem-estar pelo orgasmo sendo esquecido enquanto eu sentia raiva pelas suas palavras.

— Não é isso que fazemos. Nós salvamos pessoas – eu disse secamente, não acreditando no que ele disse – Pensei que soubesse disso.

Dragon começou a se vestir, pegando suas roupas do chão.

— E eu pensei que você gostasse mais do que construiu aqui do que deles.

— Lissa está grávida! – revelei – Eu não posso ser tão egoísta assim.

— Bem, você deveria avaliar – ele disse vestindo por fim sua camiseta – Eles não pensaram duas vezes antes de ser egoístas com você e te jogar para escanteio.

Dragon apanhou seus sapatos e saiu batendo a porta quando eu não respondi. Eu sabia que ele estava certo sobre a última parte – mas nem o fim do mundo havia mudado a essência de quem eu era.

Eu voltei para debaixo do chuveiro, tomando um banho enquanto as palavras de Dragon ainda retumbavam em meus ouvidos.

Quando terminei, eu me vesti, colocando uma camiseta branca e calça jeans e deixando meu cabelo solto para que secasse e caminhei para fora do meu quarto para ir até o salão que usávamos para as refeições. Estava na hora do jantar. No entanto, eu me detive antes de entrar completamente e ser notada no recinto. Lissa e os outros estavam sentados na mesa mais próxima a porta. Alguém havia lhes dado roupas novas e eles pareciam ter se lavado. Eu tentei prestar atenção no que falavam, mas o salão estava cheio demais de outras conversas paralelas, eu me voltei então, entrando na sala ao lado que usávamos como um depósito de alimentos e me sentando no chão, antes de baixar completamente a barreira mental que me separava de Lissa.

Foi atordoante depois de tanto tempo estar em sua mente novamente, desta vez de propósito. E eu sabia que não devia bisbilhotar, mas ainda sim, eu queria saber o que estavam conversando. Eu não fiquei surpresa quando vi que eu era o alvo da conversa.

— Ela está tão diferente – Lissa choramingou e em sua mente eu pude ver que ela estava me achando fria quando eu nem ao menos reagir com a sua gravidez – Como se eu não significasse mais nada para ela.

— Não é isso, Liss – Christian falou e ela repousou sua cabeça em seus ombros – Ela deve estar magoada ainda pela... Forma como tudo aconteceu. Mas tenho certeza de que você ainda importa para ela.

— Dê um tempo a Rose – Janine disse, alcançando sua mão e eu vi carinho se apossar de Lissa enquanto a olhava – Logo ela vai estar como antes.

— Ela deve estar tendo muito o que lidar – eu quis dizer a Lissa que não olhasse em sua direção, eu não queria olhá-lo, mas o nosso laço só funcionava em via única então eu me vi encarando Dimitri que olhava ao seu redor, vendo as pessoas saindo da fila com pratos e então se acomodando. Pelos olhos de Lissa, eu vi que Dragon encarava Dimitri mesmo do outro lado do salão, mas ela não notou – As pessoas aqui idolatram ela. Cada um tem sua história de como Rose trouxe esperança a eles e de como ela é boa.

Eu saí de sua cabeça quando Christian começou a falar sobre não esperar nada menos vindo de mim. Balancei a cabeça, massageando minhas têmporas e me arrependendo por ter quebrado minha barreira, no entanto, ainda sobressaltada pela forma como Lissa havia encarado minha atitude de me afastar.

Eu me levantei do chão, saindo da sala e entrando no salão, caminhando rapidamente até a fila e pegando um pouco da sopa e um pedaço de pão.

Eu suspirei, olhando para onde Dragon e os meus estavam sentados e então desviando, indo para a mesa de Lissa. Janine, Dimitri e Christian me viram chegando, mas Lissa deu um pulo em seu lugar quando eu passei meu braço por cima do seu ombro, colocando a bandeja à sua frente.

— Você precisa se alimentar bem – eu disse, me forçando a lhe dar um sorriso antes de sair e ir me sentar com Dragon, ignorando seu olhar cético.

— Como está sua perna Nick?

Nick começou a falar como havia se ferido e eu agradeci quando Joe se juntou a nós, falando sobre o ataque e demonstrando golpes que ele gostaria de tentar se os Erectus não fossem tão rápidos.

— Você gritou igual uma criança – eu escutei Dragon caçoar do Steele quando ele se juntou a nós.

A todo instante eu sentia os olhos de Dimitri em mim, mas eu me forçava a não olhar em sua direção. O olhar de Dragon também pesava em meus ombros, então quando Erin me chamou para ir com ela até as estufas, eu agradeci por não ter que entrar em um tópico desagradável com ele novamente.

Eu escutei Erin me falar sobre aumentarmos a temperatura da estufa para podermos colher mais rápido, já que tínhamos mais bocas para alimentar sem realmente prestar atenção no que ela estava me dizendo.

— Podemos falar sobre isso depois? – eu perguntei e ela concordou rapidamente, provavelmente percebendo que eu não estava no melhor dos meus dias.

— Claro, eu posso fazer um esboço e então te passar amanhã para você ter uma ideia melhor.

Assenti, concordando com Erin e então ela começou a caminhar para longe, mas eu a chamei quando me lembrei de um detalhe.

— Se lembra dos Moroi que vieram com a gente hoje? – eu perguntei e Erin assentiu – eu preciso que leve eles até os alimentadores e coloque seus nomes nas fichas. A loira, ela está grávida, então eu acho que isso requer uma atenção especial.

Erin concordou rapidamente.

— Sim, a garota Dragomir. Eu a conheci na corte há algum tempo. É uma pessoa muito gentil.

Eu não respondi o que Erin disse e ela pareceu entender o meu silêncio, já que saiu da estufa sem outras observações. Eu fiquei ali por um tempo.

Aquela tinha sido minha fortaleza por um tempo. Eu sabia o que tinha que fazer e a quem manter em segurança. Não havia tempo para pensar em meus próprios problemas, mas agora, com eles tão próximo a mim, parecia impossível não pensar naquilo.

— Você fez um bom trabalho aqui – eu não precisei erguer meus olhos para saber quem era, então eu apenas me encostei contra uma das prateleiras, levando meus braços para trás e me apoiando.

— Eu não tive que fazer muito – falei dando de ombros – Aqui era uma base militar antes disso tudo começar e foi abandonada quando a cidade entrou em quarentena.

— Sim, mas você deu um propósito – Dimitri disse, entrando em meu campo de visão e se encostando na bancada que estava a minha frente, onde a alface crescia – Quer dizer, você esteve lá fora salvando pessoas e dando um lugar seguro para elas.

Eu me calei, absorvendo suas palavras e então cruzando meus braços sob o peito, cansada de lutar contra o meu passado.

— Você também fez um bom trabalhando, mantendo Lissa e Christian a salvo – apontei – Os Erectus praticamente exterminaram os Strigoi, mas eles eram o verdadeiro perigo.

— Erectus… – ele soltou uma risada nasalada – Nós apenas os chamávamos de coisas. Não sabia que tinha um nome para eles.

— Oh, não tem – eu admiti e então me senti estúpida por ter que explicar – Na faculdade eu estudei sobre o Homo Erectus e quando a invasão começou eu só conseguia ver como aquelas coisas se pareciam com aquela espécie, sabe? Eles eram caçadores-coletores tal como essas coisas. Eles caçam, matam quem é considerado fraco, e capturam para sabe-se lá o quê os tidos como fortes.

Dimitri pareceu levar um tempo para absorver minhas palavras e então, finalmente concordou.

— Então, você foi para a faculdade – ele afirmou e eu dei de ombros. Aquilo não importava agora – Eu nunca esperei que você-

Eu o interrompi.

— Que eu tivesse sonhos? Que eu pudesse ter uma vida longe de Lissa ou que eu não tivesse capacidade de seguir com minhas próprias pernas?

— Você está na defensiva – sua expressão era a mesma que um caçador lidando com um animal selvagem.

— Eu devo ficar depois de tudo o que eu fiz por você e ainda sim você foi um maldito mal agradecido. – acusei

— Ah, com certeza soltar Victor Dashkov da prisão é algo que mereça importância – ele disse, tal como quando era meu professor e eu senti que ele iria começar com suas lições de moral a qualquer momento. Minha surpresa foi no fato dele saber que eu havia feito aquilo – Ou o fato de você abandonar a academia pra me perseguir pela Rússia. Ou você dizer a Lissa o que ela tinha que fazer para me trazer de volta.

Eu recuei, pois, conforme ele falava se aproximava de mim, e então me vi prensada contra a prateleira.

— Como... Como você soube?

— Lissa me disse quando foi embora – ele disse, colocando um braço de cada lado da minha cabeça e eu me vi presa em seus olhos – Eu tentei te encontrar, mas ninguém sabia onde estava. Ninguém que quisesse me dizer, pelo menos.

Havia uma pessoa que sabia onde eu estava. Afinal, esse era o trabalho de Abe; saber de tudo.

— Isso não importa agora.

— Não faça isso, Roza – ele disse, usando meu nome em russo como se fosse uma oração – Você sabe que importa.

Eu me perdi em seus olhos, mesmo não querendo. E então fui invadida por aquele sentimento que havia me destruído no passado.

Antes, uma pequena parte de mim, achou que aquilo havia acabado, secado até morrer. Mas estava ali. Sempre esteve. Todo o meu amor por ele.

Uma lágrima correu pela minha bochecha quando eu fechei meus olhos, me lembrando de suas palavras na igreja para mim. Senti sua mão quente em meu rosto, limpando as lágrimas teimosas em meu rosto. E então eu senti uma leve pressão em meus lábios. Algo bem no fundo da minha mente queria ser durona e dizer que eu ainda estava tão, tão magoada. Ainda queria dizer que ele não havia sido justo comigo e o quão egoísta ele foi, mas eu não consegui afastá-lo, me rendendo ao seu toque e passando meus braços ao redor dele, o puxando para mim.

Seus lábios eram tão macios como eu me lembrava, mas havia uma urgência ali como se pudéssemos fazer aquele beijo apagar todo o tempo que tivemos separados.

Eu sabia que não podia.

Sua mão apertou minha cintura, me puxando ainda mais para ele e então eu desci minhas mãos por seus braços sentindo seus músculos e subindo de volta para seu pescoço, puxando o cabelo em sua nuca. Dimitri me puxou para ele, me virando até minhas costas estarem contra a bancada que estava livre e então ele me ergueu, me deitando sobre ela. Eu podia sentir como se fogo se alastrasse pela minha pele quando ele desceu seus beijos por meu pescoço e então até meu colo descoberto e abrindo os botões da camiseta branca que eu usava.

Eu escutei algo atrás de mim se quebrar e inclinei minha cabeça, vendo Dragon de cabeça para baixo. Me sentei rapidamente, passando a mão pelo meu cabelo desgrenhado e tentando ajeitar minha blusa que tinha os primeiros botões abertos. Ele não me deu a chance de falar nada, de qualquer forma. Dragon se virou, em passos duros, saindo da estufa e batendo sua porta tão forte que eu pensei que o vidro fosse quebrar.

— Vocês estão juntos? – Dimitri perguntou quando eu fui até onde Dragon tinha estado e notei o que havia sido um copo de vidro estraçalhado no chão com um líquido marrom ao seu redor. Quando eu não respondi, começando a catar os cacos, Dimitri me pressionou – Quer dizer, não parece como se vocês tivessem algo, mas a forma como ele estava me encarando durante o caminho e então no jantar...

— Dragon é alguém que eu me importo – eu disse simplesmente, jogando os cacos no lixo e então puxando papel para secar o chão. Eu esperei que Dimitri partisse, mas ele ficou ali, me observando. Suspirando, eu me virei para ele – Isso – apontei entre nós – Foi um erro. E eu não vou errar novamente.

Eu saí dali o deixando sozinho e fui até o quarto que Dragon e Nick dividiram, batendo na porta mas não obtendo resposta.

— Droga – eu sussurrei, antes de marchar para o meu quarto.

Mesmo não tendo nada com Dragon, eu não queria magoá-lo. Ainda mais com Dimitri. Ele tinha tentado me juntar quando tudo estava uma bagunça. Eu não podia fazê-lo parecer como um joguete.

Notas finais
Se você estiver lendo e gostando, deixe seu comentário. Ficarei feliz com sua opinião. Grande beijo ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.