This Must Be Love
31 Great Expectations!
Notas iniciais
Estávamos na época de final de Outono em Paris — ou Automne, como diziam os franceses —, e a temperatura começava a cair progressivamente, da mesma forma que as folhas das árvores, formando tapetes marrons nos parques da cidade parisiense, assim como o mês de dezembro costuma exigir nessas estações específicas. E o que nos separava oficialmente do inverno e, consequentemente, do Natal, eram algumas semanas.
Era uma noite de quinta-feira agitada e considerada a mais fria do ano em toda a França, e Alison, pela primeira vez desde que começamos a nos relacionar, resolveu me convidar para jantar numa das regiões mais bucólicas e charmosas da cidade, onde havia pintores de ruas, cafés e até cabarés, e que se localizava no alto de uma colina, ao norte de Paris. Além disso, era perfeitamente adequado considerar a vista oferecida, uma das mais lindas da cidade, visto que a iluminação a essa hora da noite era muito mais intensa e cheia de vivacidade, principalmente por conta dos inúmeros pisca-piscas por todo o bairro de Montmartre.
— Em, vamos! — Ali me chamou, colocando-se na minha frente e me despertando dos meus pensamentos de forma brusca. Em seguida, de maneira mais suave, colocou sua câmera Polaroid em frente ao seu rosto e tirou uma foto minha. — Eu quero que façamos uma caricatura nossa. — Ela sorriu amorosamente, tocando minha mão e se aproximando com um cuidado irretocável de mim.
Alison estava ainda mais afetuosa do que quando estávamos em Luxemburgo e Amsterdã. Sua atenção e romantismo cresciam com uma intensidade quase tão gloriosa quanto a minha felicidade com os momentos únicos que estávamos vivendo — embora eu ainda sentisse que havia alguma coisa de diferente entre nós duas, e eu só não sabia o quê.
— Eu pensei que fôssemos jantar. — Pensei alto, andando distraída ao seu lado.
— Nós vamos. — Ali parou instantaneamente, analisando-me. — Eu só quero levá-la em alguns lugares antes, posso? — Ela sorriu, fazendo uma leve reverência de brincadeira.
— Você sabe que pode qualquer coisa. — Suspirei apaixonadamente, aproximando-me dela e a puxando para mais perto de mim.
— Isso, definitivamente, é uma verdade universalmente reconhecida. — Assentiu com um sorriso não tão simplório. Mas, então, seu sorriso se desmanchou tão rápido quanto surgiu, como se houvesse se dado conta de que algo estava errado.
— O que houve? — Perguntei suavemente, balançando nossas mãos entrelaçadas.
De repente, Ali parecia muito pensativa e concentrada em seu próprio mundo. Aquilo deveria significar alguma coisa. Por mais felizes que nós duas estivéssemos, a estranha sensação de que ainda faltava algo mexia terrivelmente com os meus pensamentos.
— Desculpe, eu só estou calculando o nosso tempo. — Argumentou depois de um instante. — Já está com fome? — Ela perguntou, livrando-se do meu questionamento sobre o que havia acabado de dizer.
— Ainda não. — Respondi simplesmente, observando o grande fluxo de pessoas subindo as ruas que seguiam ao pico da colina.
Alison acompanhou meu olhar e pude ver pela minha visão periférica que ela ergueu os cantos dos lábios num sorriso sutil e inteligível. Logo em seguida, me puxou para o outro lado, me levando a algum lugar que não tinha tanta gente. Suas intenções ainda me eram desconhecidas, mas não por muito tempo.
Com um movimento muito ágil, ela me encostou a um muro e passou a me beijar calorosamente enquanto pressionava seu corpo contra o meu com firmeza. Eu já desconfiava que Ali estivesse querendo fazer isso desde que saímos do carro, mas o fator surpresa tornou o ato muito melhor do que eu podia imaginar.
Envolvi seu pescoço com os meus braços, correspondendo-a na mesma intensidade que se seguia o nosso leve e pequeno amasso. Muito lentamente, ela foi parando o beijo, mas sem desgrudar o seu delicado corpo do meu por um só instante. Seus belos olhos azuis estavam profundos e escuros, lascívia e candura irradiavam deles.
— Eu amo você. — Ela disse com sua voz rouca e melódica, entonando um sotaque francês suave e agradável aos ouvidos de qualquer um que escutasse, em especial os meus.
Nesse mesmo instante, ela recuou alguns passos e me puxou pelas mãos para que eu a acompanhasse. Em seus lábios rosados, ela mantinha um leve sorriso de canto, e ele continuou quando ela ergueu seus olhos cintilantes para algo além da minha cabeça. Segui seu olhar de forma instintiva, e eu mal pude acreditar no que havia bem atrás de mim.
O muro, onde Ali há pouco me beijara, tratava-se de uma parede que possuía a frase “eu te amo” em mais de trezentos idiomas. Eu sempre quis conhecer pessoalmente incontáveis lugares de toda a França, mas o Muro do Eu Te Amo era especial por se tratar de algo romântico e o qual eu só sonhava em conhecer com Ali.
— Isso é tão... — Tentei colocar em palavras o quão grandioso era o momento, mas falhei com a falta de engenho.
Apoiei minha mão direita sobre o meu peito, me sentindo afetada e, ao mesmo tempo, invadida por um imenso júbilo. Senti os braços de Alison entornarem minha cintura delicadamente, descansando sua cabeça rente à minha enquanto observava comigo o muro bem à nossa frente. Era perfeitamente possível escutar os batimentos acelerados do meu coração, batendo forte com a emoção que o momento me causava.
— Perfeito? — Ela arriscou depois de um segundo, deslizando suas mãos pelas minhas coxas. — Será que agora eu consigo arrancar sua roupa? — Sussurrou calidamente próxima ao meu ouvido, puxando meu corpo ainda mais contra o seu.
Um suspiro deleitoso escapou dentre seus lábios, provocando-me arrepios aprazíveis por todo o meu corpo. Levei minhas mãos até onde as suas estavam e as repousei de maneira delicada, mas não por muito tempo. Em seguida, puxei-as para longe das minhas pernas e as coloquei sobre o meu abdômen, onde entrelacei nossos dedos afetuosamente.
— Só quando estivermos num lugar aconchegante e restrito a somente nós duas. — Apontei com os olhos para algumas pessoas que passavam para lá e para cá, distraídas com suas próprias coisas.
— Ora, Em... — Ali protestou, mordendo meu lóbulo com o intento de me provocar. — Por que se importa tanto? Vamos a um cantinho estratégico, quero fazer algumas memórias aqui.
Eu sabia perfeitamente que ela era capaz de tal coisa, visto que fizemos muitas memórias em todos os lugares pelos quais nós passamos em Luxemburgo e Amsterdã. No entanto, eu gostaria de fazer diferente na cidade onde marcava a importância de todo o romance em si.
— Ali, não se esqueça de que ainda temos uma reserva para comparecer. — Lembrei, virando-me para ela rapidamente. — Nós vamos ter a noite toda para fazer amor gostoso, intenso, vigoroso e tudo o que você quiser. — Prometi com um riso preso na minha garganta.
Muito a contragosto, ela assentiu e então fomos até o restaurante que teríamos um jantar romântico. O lugar era irretocavelmente bem localizado numa das ruas menos movimentadas de Montmartre, e a música ambiente era uma mistura divertida de violino com suaves toques de bateria.
O restaurante tinha como especialidade aves com pedigree, como frangos e patos. Eu não era uma grande fã de carnes vermelhas e Alison tomava sempre o cuidado ao escolher os lugares em que comíamos. Ela dizia que desde que fosse importante para mim, seria para ela também, embora ela não abrisse mão de comer sempre quando podia, o que era muito compreensível.
— Deveríamos ter tido um primeiro encontro antes. — Comentei vagamente depois que havíamos nos acomodado em uma mesa confortável no canto da sala.
Ali havia feito os nossos pedidos com um perfeito e irretocável francês fluente, que eu sabia que, desde que tínhamos treze anos, ela o praticava sempre. Ela costumava competir com Spencer sobre quem tinha o melhor sotaque, e Ali sempre se sobressaía por ter um interesse genuíno e resoluto.
— Eu odeio encontros. — Ali resmungou, mexendo em seu celular, concentrada e, ao mesmo tempo, distraída. — Costumam ser terríveis e muito embaraçosos! — Exasperou de maneira afetada.
Ainda dispersa, ela ergueu sua taça de água e tomou um gole enquanto eu a observava sem dizer nada. Ao mesmo tempo em que Alison parecia diferente, ela permanecia a mesma. Talvez esse fosse o grande charme de toda a loucura que era amá-la.
— Você está se sentindo assim agora? — Perguntei depois de um segundo, me sentindo hesitante assim que o garçom se aproximou de onde nós estávamos e depositou os nossos respectivos pratos à mesa. — Porque, caso a resposta seja positiva, é um bom motivo para você estar dando mais atenção ao seu celular do que a mim.
Como se houvesse acabado de ter uma súbita conscientização de que estava sendo descuidada, ela empurrou seu celular para dentro do bolso do seu casaco e dedicou sua atenção com exclusividade para mim.
— Eu não estou. — Garantiu, parecendo incrivelmente sincera. — Nós nos conhecemos há muito tempo, Em. Pensei que já tínhamos passado dessa fase.
Ela riu silenciosamente, pegando os seus talheres e começando a comer. Ali havia pedido frango assado acompanhado por batatas fritas e macarrão gratinado para nós duas, minha combinação favorita desde a época em que comíamos no King James junto das meninas.
— Está bem. — Concordei com empatia, dando de ombros logo em seguida.
Depois que terminamos de comer, Ali pagou a conta e me levou de volta ao topo estratégico da colina, onde tinha uma perfeita visão da Torre Eiffel toda iluminada com luzes coloridas. A cidade inteira era irretocavelmente iluminada daqui de cima e, na época de natal, parecia ainda mais incrível.
— Aproveitando que estamos aqui, o que você me diria se este fosse o nosso último dia como namoradas? — Alison perguntou de repente, olhando-me de vez em quando para apurar minha reação de quem havia sido completamente pega de surpresa.
— Bem, esperando que essa seja uma pergunta hipotética... Não, eu não acho que conseguiria dizer alguma coisa. Eu não diria nada, porque estaria muito devastada para pensar em qualquer coisa que fosse. — Concluí de forma desajeitada e, ao mesmo tempo, profusa.
Somente a ideia de perdê-la já era o suficiente para fazer meu peito apertar de forma miserável. Eu já havia me acostumado a tê-la só para mim, e a chance de Ali acordar no dia seguinte e decidir que não sou quem ela realmente quer me parecia terrivelmente assustadora. E eu, definitivamente, não ousaria pensar nisso.
— Em... — Sua voz falhou, e isso não soava uma boa coisa.
— Não me entristeça outra vez com a formação de um pensamento que só me causa pavor e destruição. — Implorei baixinho, não me atrevendo a olhá-la nem por um segundo sequer. Meus olhos encaravam minhas mãos sobre meu colo, que juntas mexiam-se nervosamente.
— Eu fiz uma coisa terrível. — Ela disse, virando seu rosto para mim. — Mas eu preciso que confie em mim.
Virei meu rosto para poder encará-la, mas Alison não olhava para mim. Seu olhar se concentrava nos botões do meu casaco, enquanto alguns fios dos seus cabelos irretocavelmente claros esvoaçavam na direção oposta em que eu a fitava. A ponta do seu nariz estava avermelhada, o que talvez se devesse ao ar úmido e pueril.
Por um instante, senti como se o vento gélido e quebradiço houvesse congelado todos os meus órgãos fundamentais, o que me impediu de respirar por alguns infinitos segundos.
— Eu tenho até medo de questioná-la sobre isso. — Murmurei com um tom amargo, desviando meus olhos para a Torre Eiffel que se distanciava de forma significativa a cada vez que eu piscava. — E, francamente, eu não tenho certeza se quero. — De repente, eu me sentia muito fatigada.
Por conseguinte, num movimento articulado e decidido, Alison se levantou e limpou suas mãos da provável poeira que havia nelas, e logo as estendeu para mim. Deixei com que meus olhos caíssem sobre elas enquanto tentava decidir se aceitava ou não, e foi nesse meio tempo que percebi: eu seria capaz de soltar o universo inteiro se isso significasse que eu seguraria sua mão. Então foi o que eu fiz, mesmo que isso me deixasse no escuro.
— Não voltemos mais nisso, está bem? — Alison sussurrou, puxando-me para muito mais perto dela. — Eu juro que meu propósito não era chateá-la. Eu só... Desculpe, me sinto um pouco nervosa. — Ela inclinou a cabeça quando eu desviei minha atenção dela, no intento de encontrar os meus olhos.
Nossos rostos estavam a centímetros de distância, e o seu cheiro de baunilha, agora, pesava em meus pulmões. Suas mãos deslizaram até a minha cintura, e então ela apertou o meu corpo trêmulo, tanto pelo frio cortante quanto pelo assombro que corria por cada veia ligada ao meu coração contra o seu.
Eu assenti em silêncio, suspirando profundamente quando senti seus lábios deslizarem pelo meu pescoço e, então, sugarem a pele devagar e com ternura. Sua intenção, eu sabia, era fazer com que eu me desfocasse e, em seguida, esquecesse o que ela havia começado.
— O que você está me escondendo, Alison? — Perguntei com a voz firme, virando meu rosto lentamente para que eu pudesse olhá-la nos olhos.
Sua expressão parecia ansiosa e, ao mesmo tempo, fria e vazia. Havia algo de muito errado com ela, e eu sentia como se tudo estivesse prestes a desmoronar. Seus olhos estavam profundos e bem mais escuros do que o habitual, mas não era um escuro apaixonante, era algo que me lembrava dos seus momentos de fúria e angústia. Então, por instinto, eu me afastei rapidamente, sentindo meu coração acelerar de forma perigosíssima.
— Eu não sei do que está falando. — Ela começou, ignorando meu sobressalto diante de sua súbita mudança de atitude. — Mas, tenha certeza, se eu estivesse, seria apenas para poupá-la de coisas realmente chatas. — Deu de ombros, sorrindo como se dissesse “Vamos lá, Em! Agora me abrace”.
Havia uma parte de mim que gostaria de ficar enraivecida com Ali por saber que ela me escondia coisas que não deveria, mas, em contrapeso, outra parte anulava qualquer vestígio de bravura que viesse a se manifestar com insistência em mim. E, quando acontecia, não durava muito tempo; ela sempre me derretia com seu inegável charme de menina malvada.
Seus profundos olhos azuis e costumeiro sorriso encantador que, além de me roubar o ar, acertava em cheio o meu ponto fraco... E esse era o cerne da questão: eu a amava de uma forma tão irremediável, tão sem volta, que essa sempre seria a minha maior fraqueza.
— Agora, será que mereço um beijo francês? — Perguntou ela, com um tom divertido e sedutor ao mesmo tempo, arrancando-me dos meus pensamentos e se aproximando devagar.
Ela não esperou por uma resposta, uma vez que colou seus lábios nos meus assim que encurtou a distância entre nossos corpos o máximo que pôde. Seus lábios estavam gélidos e rígidos, todo o seu corpo tremia e o primeiro instinto que recebi foi o de abraçá-la forte enquanto eu deslizava minha língua para o interior de sua boca.
— Você está especialmente gostosa hoje. — Sussurrei contra sua boca, contraindo seu riso no instante em que mordi seu lábio inferior delicadamente. — Até mesmo depois de um momento particularmente sombrio. — Acrescentei um pouco temerosa com sua reação, apertando ainda mais seu corpo contra o meu.
— Desculpe por isso. — Sua voz soou tão sincera e envergonhada que me pegou de surpresa. — Eu só me lembrei de algo realmente estressante. — Resmungou amargamente, afastando seus lábios frios dos meus e os aproximando do meu ouvido: — Agora, vamos sair daqui. Eu tenho muitos planos para o fim da noite, e para amanhã também.
Alison pegou minha mão e a entrelaçou na sua de forma carinhosa e extremamente cuidadosa. Eu sentia como se meu peito fosse explodir, e o seu toque só aumentava a minha euforia. Ela me levou até o carro em silêncio, e com as mãos trêmulas e inquietas dirigiu até o hotel em que estávamos.
Assim que entramos no quarto, Ali fez questão de preparar a banheira especialmente para nós duas, onde dedicou algum tempo escolhendo os sais ideais para despejar na água quente. Em seguida, começou a tirar toda a minha roupa enquanto me contava histórias aleatórias que, aos poucos, inacreditavelmente, pareciam se encaixar uma na outra de uma forma simples e natural. Seus dedos roçavam em cada pedaço de pele exposta com muita estima e lascívia, vez ou outra, me olhando com pura diversão.
— O que você espera para o futuro? — Perguntei depois que já estávamos na banheira espaçosa, sentadas uma de frente para a outra. — Nunca conversamos sobre isso, e agora estou curiosa sobre o que será de nós duas depois que nos formarmos. — Ali largou sua revista francesa sobre as possíveis tendências para o inverno e olhou para mim. Ela era tão ligada em moda quanto Hanna.
— Eu não sei. — Murmurou vagamente. — Talvez cada uma de nós decida seguir caminhos diferentes. — Ela deu de ombros, refazendo seu coque de forma mais perfeita do estava antes.
— Bem, eu não sei o que você quer fazer, mas eu penso muito sobre Biologia... Talvez algo como Ciências Biológicas ou Biomedicina, eu ainda não tenho certeza. — Alison sorriu abertamente quando eu terminei minha pequena e quase falha linha de raciocínio.
— Então estamos quase no mesmo caminho. — Ela disse, pegando um punhado de espuma com as palmas das duas mãos e as soprando em minha direção. — Eu quero fazer Medicina. — Sorriu torto, arqueando as sobrancelhas orgulhosamente e recostando-se de maneira que a tornasse ainda mais confortável na banheira.
Fui preenchida instantaneamente por uma mistura de júbilo com surpresa positiva. Eu sempre soubera que Alison possuía um inegável abismo por Ciências, desde a sétima série, mas nunca havia imaginado que algum dia ela levaria isso a sério. Ela nunca chegou a dizer a alguém sobre o que ela realmente gostava, por vergonha e medo de que a julgassem como uma nerd.
— Ali... Isso é perfeito! — Exclamei com contida animação. — Eu estou verdadeiramente orgulhosa por você querer algo tão promissor. — Sorri contentíssima, fitando seus olhos ternamente.
Ela não quebrou o nosso contato visual nem por um simples momento e, depois do que foram algumas batidas aceleradas do meu coração eufórico, ela fez um gesto com as mãos sobre a água quente e cheia de espuma, chamando-me para que eu fosse até ela. Conforme eu me movia, meu coque desajeitado se desfazia e, então, quando eu já me encontrava sentada de costas para ela, senti meus cabelos caírem levemente sobre os ombros, que se seguiu pelas mãos macias e suaves de Ali. Ela os juntou com engenho e delicadeza, enchendo sua mão com meu cabelo, refazendo o coque de maneira simples e confortável, mas sem deixar de ser firme.
— Assim está melhor? — Ali sussurrou contra o meu ouvido, envolvendo meu corpo com seus braços.
Seu hálito quente escorregou lentamente pelo meu pescoço, entornando minha nuca e descendo pelas minhas costas em forma de arrepios. Sua voz soou especialmente rouca, o que provocou um leve tremor dos meus ombros para baixo. Nesse mesmo instante, aproveitei para me aconchegar ainda mais no seu corpo extremamente liso e convidativo.
— Agora vamos, conte-me mais sobre as possibilidades de um futuro não tão distante. — Incentivou com o tom de voz ameno e complacente, deslizando suas mãos pela minha barriga de maneira perigosa.
— Você sabe, minhas ideias são comuns e... Bobas. — Tentei dizer com firmeza, sem deixar com que minha voz saísse carregada de receio.
— O que você realmente quer, meu amor? — Alison perguntou baixinho, umedecendo algumas partes expostas do meu corpo como uma forma de distração.
Ela começou a beijar meus ombros, que agora estavam rígidos, e tocar meus braços cuidadosamente, sem pressa alguma em cada movimento circular que seus dedos faziam sobre a minha pele. Seus beijos progrediam de modo significativo, passando em seguida a leves sucções e, então, delicadas mordidas. E, cada vez mais, meu foco se dispersava e vidrava-se somente em suas carícias, que me arrancavam alguns tortuosos e deleitosos suspiros.
— Eu quero você, de corpo e alma. — Apertei os olhos com força, tentando me concentrar nas minhas possíveis sentenças. — Eu não quero uma casa, mas um lar, onde eu possa viver em paz com você. — Continuei devagar, arrastando a palma da minha mão sobre a superfície da água, bastante pensativa.
— Você sabe, nós podemos trabalhar nisso. — Ela decidiu, apoiando seu queixo sobre o meu ombro com serena seriedade. — O que mais? — Agora eu podia sentir os seus olhos em mim, pacientes e complacentes.
Apenas com isso eu me senti feliz o suficiente para balançar a cabeça, num gesto de que aquilo não vinha ao caso agora, e virar o meu rosto para que eu pudesse selar seus lábios demoradamente. Então, quando eu fiz menção de me afastar, Ali segurou meu rosto com a sua mão direita, aprofundando aos poucos o beijo que antes era suave e sem contato íntimo. Ela puxou meu lábio inferior com os dentes, devagar, somente para me provocar e eu não pude deixar de rir.
— A água está quase esfriando. — Sussurrei ainda em contato com seus olhos claros e lábios rosados.
Ali arqueou suas sobrancelhas claras, como se soubesse o que eu estava prestes a sugerir, e, então, fez que sim com a cabeça. Em seguida, eu me coloquei de frente para ela, firmando meus joelhos em cada lado das suas pernas. Seu rosto em formato de coração estava à altura do meu peito, o que a fez inclinar sua cabeça para trás para que pudesse me fitar. Observei atentamente quando suas pupilas encolheram, por conta do punhado de luz fraca que atingiu seu rosto, acentuando ainda mais suas íris azuladas.
— Isso é tão divertido! — Exclamei com um sorriso, ainda ligeiramente distraída com a atividade de segundos atrás.
— O quê? — Ali piscou confusa.
De repente, eu percebi o quão bobo aquilo poderia soar quando eu o dissesse em voz alta. Era extremamente divertido quando seus olhos mudavam de cor, principalmente quando estávamos fazendo amor de forma intensa e ardente, mas era, também, algo que eu deveria guardar apenas para mim. Dessa forma, eu aproveitaria muito mais e sem o receio de que ela fosse me zombar a cada vez que me pegasse a observando.
— Eu amo tudo em você, cada pequeno detalhe. — Disse por fim, erguendo meus ombros e os soltando rapidamente.
Em seguida, coloquei minhas mãos em volta do seu pescoço e me inclinei, beijando sua boca profundamente enquanto sentia seus dedos descerem e subirem pelas minhas pernas lentamente. Seu toque delicado e, ao mesmo tempo, ousado, provocava faíscas na forma como nos beijávamos.
Rapidamente, Ali me puxou para mais perto do seu corpo e começou a explorar cada pedaço da minha pele com mais ânimo, em especial os meus seios rígidos bem diante dela. Era imensamente prazeroso tê-la tão perto, de forma tão íntima, e saber que ela é somente minha.
— Eu pensei que você estivesse muito cansada e quisesse apenas relaxar. — Seus lábios desceram pelo meu pescoço, sugando a pele com força e desejo.
Deixei um gemido rouco e ansioso escapar quando ela finalmente chegou ao meu seio, tomando-o com a boca e se dedicando nas carícias famintas. Ali puxou minhas pernas para frente, fazendo com que meus joelhos deslizassem e eu sentasse em seu colo. Ela ergueu seus olhos e me lançou um olhar divertido e lascivo ao mesmo tempo. Seu lábio inferior roçava preguiçosamente contra o meu mamilo entumecido, enquanto meu braço estava apoiado em seu ombro e minhas unhas arranhavam sua nuca intensamente.
— Eu ainda estou, mas agora eu quero tanto você! — Sussurrei, acariciando seu rosto devagar enquanto ela sugava meu seio e apertava meu quadril contra o seu corpo em brasa.
Ao escutar isso, Ali imediatamente levou sua mão às minhas pernas, descendo devagar até chegar ao meio delas. Meu corpo inteiro enviava sinais de que ansiava pelo seu toque, e eu fazia questão de que ela os entendesse. Com a sua mão livre, ela puxou meu rosto para o seu, beijando-me cheia de paixão. Seus dedos passeavam lentamente pela minha virilha, e, às misérias, foi inserindo-os devagar dentro de mim.
— Ali... — Implorei baixinho, tentando manter o ritmo com que nosso beijo prosseguia.
Ela deslizou sua mão até às minhas costas, arranhando as costelas conforme a intensidade com que eu friccionava nossos corpos ganhava força. Mais um pouquinho e eu já podia senti-la movimentar seus dedos de forma mais profunda e necessitada, ao tempo em que eu deixei de corresponder ao seu beijo e passei a sugar seu pescoço com urgência, vez ou outra, deixando arranhados gemidos escaparem dentre meus lábios contra a sua pele claramente avermelhada.
Era um pouco difícil se movimentar sob a água, mas, conforme Ali aprofundava seus dedos e investia com muito mais força, meu quadril parecia agir por conta própria, querendo sempre mais. Ela deixava gemidos roucos e aprazíveis escaparem contra o meu ouvido em resposta às minhas mordidas e chupões onde meus lábios pudessem alcançar.
Afastei meu rosto lentamente, passando a encarar seus olhos escuros de pura luxúria. Seus lábios estavam inchados e chamativos, o que me levou a sugá-los deleitosamente enquanto ela apertava e arranhava meu quadril com contida violência. Eu estava tão próxima do ápice que suplicava com ligeira dificuldade para que ela forçasse ainda mais seus dedos em mim.
Afrouxei minhas unhas em sua nuca ao sentir seus lábios descerem ao meu seio novamente, sugando e contornando a pele, ao tempo em que Ali inseriu outro dedo na minha intimidade, estimulando meu sexo enquanto continuava me penetrando. Um gemido rouco, porém agudo, ecoou dos meus lábios e eu logo senti meu corpo inteiro vibrar quando pressionei meu quadril contra os seus dedos. E, aos poucos, os movimentos contínuos e fora de ritmo foram cessando.
Minhas pupilas, eu sentia, estavam dilatadas, assim como as de Ali. Meu coração palpitava freneticamente, ecoando em cada ponto sensível do meu corpo, em especial meu ventre. Nossas respirações estavam aceleradas e difíceis, e Ali tentava a todo custo se estabilizar novamente. Mas, por fim, ela segurou minha cintura com firmeza e cheia de propriedade, tomando meus lábios delicadamente e dando início a um novo e afetuoso beijo. Sua língua tocava a minha com cuidado, vez ou outra, contornando meu lábio inferior e, então, puxando-o com os dentes para o seu próprio prazer.
— Eu posso continuar? — Ela perguntou baixinho quando percebeu minhas pálpebras pesadas, seguido de um sorriso cansado que se formou em meus lábios.
Ali assentiu de forma compreensiva e nem esperou que eu a respondesse, e logo apertou seus dedos contra as minhas costas com delicadeza, selando meus lábios breve e suavemente. Em seguida, ela se afastou devagar, e seus olhos encontraram os meus repletos de doçura e satisfação. Meu peito subia e descia sem ritmo, como sempre acontecia quando ela sorria daquela maneira para mim.
— Vamos terminar o nosso banho... — Ela se interrompeu, depositando inúmeros beijos pelo meu rosto, em especial lábios e mandíbula. — E, então, nós vamos dormir de conchinha. — Terminou, mordendo meu queixo de leve e deixando um riso confortável escapar dos seus lábios muito convidativos.
— Eu amo dormir de conchinha! — Exclamei empolgada, agarrando seu pescoço fortemente e a beijando com carinho logo em seguida. — E eu também amo você.
***
Na manhã seguinte, quando eu acordei e olhei para o lado, Ali não estava onde deveria estar. O lado da cama que ela sempre dormia estava frio, o que me levou a acreditar que já tinha algum tempo que ela havia saído. Peguei meu celular debaixo do travesseiro e vi que já se passavam das oito horas da manhã, e hoje era sexta-feira treze. Talvez ela quisesse assistir a algum filme de terror, como sempre fazíamos desde que nos conhecemos e, pensando nisso, resolvi tomar banho e esperá-la para quais fossem seus planos para hoje.
— Emily... — A voz de Ali soou depois de pouco mais de trinta minutos esperando, junto ao barulho da porta do quarto se abrindo ruidosamente.
Sentei na cama imediatamente com o susto que levei, encarando-a com a mão no peito. Analisei Ali por um instante e notei na mesma hora que suas roupas estavam completamente encharcadas, enquanto alguns pingos grossos caíam ao seu redor. Ela vestia um casaco vermelho cremoso, cobrindo mais da metade do seu corpo, e calça jeans escura, bem apertada em suas pernas. Seus cabelos se encontravam no mesmo estado das suas roupas, e aquele rosto bonito que tanto fazia meu coração disparar parecia melancólico.
— Alison, onde você estava? — Levantei da cama rapidamente, aproximando-me dela. Com isso, não pude deixar de reparar que ela escondia alguma coisa dentro do seu casaco ensopado. Claramente, lá fora estava chovendo muito.
— Eu fui comprar o nosso café da manhã e... Bem, você não vai acreditar no que eu encontrei. — Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, como “por que você insiste em não pedir o serviço de quarto?”, escutei um barulho abafado e muito angustiante ao mesmo tempo e logo deduzi que vinha de dentro do seu casaco.
— Ali, o que é... — Mal tive tempo de prosseguir com o que eu estava prestes a perguntar, quando Ali tira o que estava escondendo com um cuidado extremamente especial.
Meus olhos se arregalaram quando concluí que o que ela segurava era um filhotinho de gato, molhado e de olhos fechados. Ele parecia minúsculo e se encaixava perfeitamente nas mãos de Alison. Ela o trouxe para perto do seu peito, analisando algo no bichinho que inicialmente não soube identificar. Aquilo me parecia tão humano que jamais imaginei que pudesse presenciar Ali numa situação como essa.
— Onde você pegou isso? — Deixei escapar, soando um pouco cruel e enojada.
Seu olhar severamente repreensivo fez com que eu me arrependesse no mesmo instante em que terminei de sentenciá-la. Ali parecia realmente tocada com o estado lastimável do filhotinho, o que a fez seguir diretamente ao banheiro e encher a banheira com água morna.
— Ali, você sabe que animais não são permitidos aqui, não é? — Tratei logo de me certificar, sentando-me no degrau superior ao chão, que logo dava à banheira.
— E você sabe que eu não dou a mínima, não é? — Alison retrucou, virando-se brevemente para poder me encarar com um sorriso moldando os seus lábios.
Assim que a banheira possuía o tanto de água que era necessário para que ela pudesse dar banho no filhotinho que, vez ou outra, deixava alguns miados arranhados e sofridos escapar, tratou logo de colocá-lo com o máximo de cuidado dentro da água em temperatura ambiente. E, em suas mãos, ele se debatia e a arranhava com certo desespero, miando de forma cada vez mais aguda.
— Por que ele está fazendo isso? — Perguntei de repente, me aproximando ainda mais para que eu pudesse acompanhar o que ela fazia com mais precisão.
— Olhe para isto. — Ali mostrou a patinha, tomando o cuidado para não apertar de maneira brusca. — Está machucada, vê? — Ela olhou para mim, e seus olhos eram brandos e cheios de complacência verdadeira.
— Tudo bem. — Decidi depois de um momento. — Deixe que eu faça isso. — Voltei minha atenção ao gatinho, que ainda permanecia de olhos fechados, tirando-o de forma delicada de suas mãos. Afinal, eu tinha muito mais eficiência com animais do que ela.
Depois que finalmente terminei de lavá-lo, enrolei sua patinha machucada com uma faixa, graças a um kit de primeiros socorros que se podia achar numa das cômodas de mármore do banheiro, e aproveitei para secá-lo com o secador enquanto Alison tomava banho. O filhotinho era realmente muito pequeno e frágil, mal conseguia manter-se em pé, o que me levava a acreditar que ele tinha apenas algumas semanas de vida. Além disso, parecia, também, faminto.
— Ali, não é assim que se faz. — Alertei, deitada de lado na cama, enquanto eu a observava atentamente.
Agora, depois de todo o trabalho que tivemos em somente limpar o gatinho, estávamos tentando alimentá-lo e, por mais que houvesse interesse natural, Ali não conseguia fazê-lo. Com isso, sua irritação começava a crescer conforme o filhote rejeitava o que ela oferecia.
— Por que diabos ele não quer comer? — Exasperou, largando a vasilha de leite no chão e voltando com ele até a cama novamente.
— Porque, Alison, ele é um filhote. — Tentei dizer sem soar repreensiva. — Nós temos que alimentá-lo com leite numa seringa, ou numa mamadeira. — Expliquei, inclinando-me em sua direção e depositando um beijo suave, porém demorado, em seus lábios, que formavam um biquinho pensativo.
— Entendo. — Assentiu ligeiramente distraída. — Por enquanto, nós temos que cuidar dele como se fosse um bebê. — Ela disse, colocando-o entre nós duas e acariciando seu ventre preguiçosamente vez ou outra, rindo dos sons que o bichinho fazia.
Foi então que eu percebi que Ali gostaria de ficar com ele. Ela o queria desde o começo, mas só agora eu havia me dado conta. E aquele interesse — e carinho — que pareciam apenas aumentar, era tão bonito e genuíno de se observar, que eu não pude fazer nada além de sorrir e dizer:
— Nós temos.
***
O céu já estava começando a ficar escuro quando Ali finalmente conseguiu fazer com que o nosso gatinho adormecesse. Havia sido horas tortuosas, mas ela, incrivelmente, não perdera sua paciência em momento algum. E o mais importante de todo o decorrer do dia havia sido quando ela pareceu ter se desarmado quase que por completo e, assim, me mostrado partes dela que eu ainda não conhecia.
— Você sabe, hoje eu tinha preparado algo especial... — Ali confessou enquanto eu me trocava.
Ela estava sentada na beirada da cama me observando com um brilho modificado nos olhos, do mesmo modo que também parecia especialmente diferente, muito mais do que eu já estava acostumada, e isso me deixava com um espanto quase embaraçoso. Hoje havia sido a prova que eu precisava para ter a certeza absoluta de que eu não conheço todas as partes que a moldavam, o que, digamos, parecia como um novo aspecto para nossa muito provável vida que teríamos futuramente. Trazia-me grandes e renovadas expectativas.
— E então? — Ali pressionou, fazendo com que eu me desvencilhasse dos meus pensamentos e olhasse confusamente para ela.
— Desculpe, o quê? — Eu estava apenas de calcinha e sutiã, e Ali não tirava os seus grandes e encantadores olhos azuis de mim.
— Arrume-se, Em. — Ela orientou, rindo confortavelmente enquanto levantava-se para fazer o mesmo. — Nós vamos sair.
— Aonde nós vamos? — Perguntei, acompanhando seus movimentos articulados por todo o quarto.
As luzes estavam apagadas e a porta dupla que dava à sacada estava aberta, o que possibilitava a brisa fresca soprar contra as cortinas e a lua iluminar alguns pontos específicos do quarto.
— É segredo. — Ali se virou para mim. Em suas mãos havia um par de sapatos de salto alto preto e uma jaqueta meio acinzentada, meio azul escuro.
— Ali, nós não podemos deixá-lo sozinho. — Apontei com os olhos para o filhotinho que dormia profundamente em nossa cama. — E, você sabe, se ele acordar e começar a miar do jeito que fez hoje mais cedo, nós podemos ser expulsas do hotel.
— Não se preocupe, Em. — Sorriu confiante, logo terminando de se arrumar. — Eu tenho tudo sob o meu controle. — Ela garantiu, dando grande ênfase nas últimas palavras.
Suspirei profundamente me sentindo vencida, enquanto Ali apenas sorriu e se encaminhou em direção à cama, onde ela, com muito cuidado, pegou o gatinho e o colocou sobre seu peito. Alguns sons de miado manhoso ecoaram pelo cômodo, mas logo cessaram e ele rapidamente voltou a ronronar.
— Ótimo! Você vai levá-lo conosco, algo a menos para se preocupar. — Concluí por fim, sentindo-me um pouco aliviada e, ao mesmo tempo, aflita.
Alison assentiu, esboçando um sorriso de quem possuía o poder de mudar o mundo. Em seguida, pegou as coisas que havíamos comprado no pet shop mais próximo que encontramos e as colocou na sua bolsa creme da Chanel que ela ganhou de Hanna e que, também, tanto amava.
— Vamos, Em. — Ela me apressou, caminhando até a porta e a abrindo cuidadosamente para que seu corpo não fizesse movimentos bruscos.
Não pude deixar de reparar no grande salto que meu coração deu com o que meus olhos tão alegremente observavam. Então, rapidamente, coloquei minha habitual calça jeans escura e um casaco de moletom cinza que Ali sempre dizia amar, calcei minhas botas rasas e marrons e segui Ali pelo corredor de paredes claras e cheias de quadros.
Estávamos no meio do caminho de onde Ali nos levava, segundo ela, quando eu comecei a questioná-lo sobre todos os acontecimentos que envolviam o dia de hoje. Eu estava especialmente curiosa sobre a forma como ela havia encontrado o pequeno filhote que dormia todo enrolado em meu colo, com as patas sobre as minhas mãos.
— Eu não sabia que você gostava de gatos. — Comentei vagamente, acariciando a ponta gelada do nariz dele com um pouco de diversão e cheia de admiração.
Parando para observá-lo mais atentamente, notei que sua cor era uma mistura fascinante de cinza claro com branco, tendo, no entanto, alguns tons mais escuros de cinza em algumas linhas que desenhavam seu pelo fino, os quais eu o assemelhava a um tigre. E, vendo dessa forma, era notório e também embaraçoso que eu não tenha tido tempo de analisá-lo com tanta clareza.
— Você sabe, tem muita coisa que você ainda não sabe sobre mim. — Alison decidiu depois de um considerável tempo em silêncio. E, antes que eu pudesse questioná-la sobre isso, ela prosseguiu: — Como já ter tido um hamster, por exemplo. — Ela riu, parecendo genuinamente envergonhada.
— Mesmo? — Não pude conter um sorriso com isso, então logo desviei meus olhos para a janela, observando os inúmeros carros e casas passarem por nós como borrões.
— Bem, isso foi há personalidades atrás. — Ela deu de ombros, apertando as mãos nervosamente contra o volante ao parar no farol vermelho. — Além disso, o meu passado não importa mais. Agora, daqui em diante, você vai passar a conhecer cada vez mais a minha real natureza, não a que eu fui obrigada a me adequar, mas a verdadeira. — Prometeu solenemente, sorrindo de canto enquanto mantinha seus olhos à nossa frente.
Às vezes, quase sempre, eu não sabia como me sentir diante das coisas que Ali tão confusamente me revelava. Eu sabia que ela nutria algumas personalidades incomuns dentro de si, mas não era algo que realmente me incomodava, além do fato de eu não conseguir decifrá-la tão bem quanto eu gostaria. E, quando queria, ela tornava essa tarefa quase impossível e, por vezes, cansativa.
— Bem, aqui estamos! — Ali anunciou, estacionando no meio fio de uma das típicas ruas de Paris, com casas iluminadas por pisca-piscas e adornadas com o espírito natalino.
— E onde seria? — Perguntei com curiosidade, esperando que ela me desse alguma luz de onde estávamos.
— Estamos a alguns saudáveis quarteirões do bairro de Saint Germain Des Pres. — Ela riu confortavelmente, provavelmente se recordando das vezes em que viemos aqui.
— Aria amaria esse lugar! — Decidi depois de um instante, saindo do carro ao mesmo tempo em que Ali.
— Nós podemos ligar para ela quando voltarmos? — Olhei para ela esperançosa, que já estava ao meu lado, observando-me com um sorriso gentil moldando seu rosto em formato de coração.
Ali me conduziu pela calçada, de onde provinham fileiras de casas com jardins bem cuidados e que eram semelhantes às casas da Filadélfia, num estilo muito mais sofisticado e vitoriano. Em uma delas, onde Alison parou de repente, havia árvores inteiramente decoradas e estratégicas na grama, como, também, pisca-piscas coloridos ao redor de toda a bonita e elegante estrutura da casa. À frente do gramado da casa havia um boneco de Papai Noel sentado, segurando um saco, com um sorriso de quem sabia se você se comportara adequadamente no decorrer do ano — ou, simplesmente, não.
— Não será necessário. — Ela respondeu tardiamente, lançando-me um olhar astuto e malicioso. — Ela provavelmente está ocupada com as decorações. — Ali tomou minha mão na sua e entrelaçou nossos dedos de uma forma compromissada e afetuosa, que havia sido capaz de criar borboletas pesadas no meu estômago e causar arrepios admiráveis por todo o meu corpo.
Então, me puxou em direção à casa do Papai Noel, onde estávamos paradas há pouco. A porta estava destrancada, e Ali parecia saber disso, já que não tocou a campainha.
Quando entramos, pude rapidamente sentir que o interior da casa era aquecido e confortável, cortinas grossas e de cores neutras cobriam as janelas da sala de estar que davam para a rua. Havia uma lareira inusitada no meio da estante de alvenaria branca, que mais ao canto abrigava uma enorme árvore de natal com uma estrela branca na ponta.
Um extenso sofá cinza em formato de “L” com almofadas soltas por todo o estofado ficava de frente para a TV, e as duas poltronas giratórias e de cor nude que por pouco não fechavam um círculo estavam um pouco afastadas do sofá e mais perto da lareira, contrastando com todo o resto da mobília um tanto clássica e contemporânea e, também, do gatinho que eu acolhia em meu peito.
— Ali, o que estamos...? — Antes que eu pudesse terminar, alguns barulhos de passos e sussurros tiraram minha atenção. Então, rapidamente, uma figura esguia e pálida surgiu do corredor, que deduzi ser de alguns dos quartos.
— Olá, estranha! — Essa era... Spencer.
Minhas sobrancelhas arquearam com surpresa quase espantosa, mas, ao mesmo tempo, eu estava eufórica por dentro. Meus batimentos cardíacos aceleraram inevitavelmente e, quando eu olhei Ali, ela estava sorrindo abertamente, enquanto Spencer mantinha seu costumeiro sorriso zombeteiro e, por vezes, superior em seus lábios de maneira impecável. Logo atrás dela, apareceu Hanna e, então, Aria. Todas sorriam com alegria contida, apenas Spencer parecia ligeiramente emocionada.
Hanna correu para me abraçar, seguida por Aria, que parecia contentíssima em me ver. E, então, veio Spencer inteiramente eufórica em minha direção, esbanjando empolgação e contentamento ao me abraçar fortemente. Ela, sem dúvidas, era quem eu mais havia sentido falta.
— Spence! — Consegui dizer, retribuindo o abraço cheio de afeto que provinha dela, o que era possível de realizar com apenas um braço.
— Deus! Eu senti tanto sua falta! — Ela confessou, como se houvesse acabado de ler a minha mente, me apertando com ainda mais força no seu abraço. Isso, no entanto, gerou um som estridente e agudo vindo do filhotinho enrolado no meu braço direito. — O que é isso? — Spencer se afastou rapidamente, notando pela primeira vez o que eu carregava em meus braços.
— Mas, olhe, que gracinha! — Aria o pegou dos meus braços cuidadosamente, sorrindo quando ele abriu os olhos com dificuldade, enquanto Hanna e Spencer apenas reviraram os olhos em desgosto. Elas não gostavam de gatos, na verdade, tinham horror a felinos. Mas, ao contrário de Spencer, Hanna permaneceu calada sobre isso.
— Isso era para ser um gato? Parece mais um rato... Onde vocês acharam essa coisa? — Ela enrugou o nariz, soando terrivelmente desdenhosa.
Ela logo tratou de se afastar quando Aria se aproximou de nós duas e me devolveu o gatinho, aparentemente a contragosto, uma vez que ela era alérgica a gatos e corria o risco de começar a espirrar sem hora para parar.
— Ora, não fale assim. — Alison se intrometeu, aproximando-se de mim protetoramente. — Em e eu o adotamos essa manhã. — Ela sorriu de forma convencida e orgulhosa, o que me causou certo contentamento.
— Tudo bem. — Spencer decidiu, piscando confusamente. — Então, qual é o nome... Disso? — Perguntou, cruzando os braços sobre o peito com o mesmo olhar insolente de sempre. Mas, no fundo, aquilo era apenas para provocar Alison.
— Eu já disse, não fale assim. — Ali, agora, parecia realmente incomodada e irritada com a maneira que Spencer se referia ao nosso pequeno e frágil gatinho.
— Nós ainda não decidimos o nome dele. — Me manifestei rapidamente, fitando Spencer diretamente nos olhos e, também, com um sorriso amistoso, na tentativa de aliviar o clima que as duas sempre geravam quando dividiam o mesmo ambiente. — Eu pensei em Nathaniel. — Dessa vez, eu me dirigi a Ali, sorrindo esperançosa.
— Eu pensei em Eros. — Ela se inclinou, devolvendo o meu sorriso, porém de forma mais preguiçosa e encantadora.
— Eros? — Dissemos todas juntas, encarando-a.
— Sim! — Ela assentiu audivelmente, aproximando-se ainda mais de mim, e encostando seus lábios no meu ouvido. — Significa Deus do Amor. — Sussurrou docemente apenas para que eu a escutasse. Isso, claramente, causou um ligeiro burburinho entre Spencer e Hanna, enquanto em mim, apenas um frio gostoso no estômago junto dos batimentos acelerados que Ali tão facilmente me provocava.
— Vocês estão fazendo isso de maneira muito errada. — Hanna interpôs depois de um momento. — Aproveitem que os dois nomes combinam e os juntem. Eros Nathaniel parece bem adequado. — Ela se deslocou de onde estava e se aproximou do sofá, deixando seu corpo cair de costas contra o estofado, com um sorriso de quem havia acabado de resolver uma grande questão.
— Muito justo. — Ali olhou para mim, balançando a cabeça em concordância.
Então, já que havíamos entrado em um acordo, eu não via problemas em chamá-lo de Eros, uma vez que o argumento de Ali havia sido muito mais do que válido. E, com isso, ela voltou sua atenção às meninas com um ar exaurido.
— Agora, Hanna, dê o fora do meu sofá.
— Você me convida para vir até aqui e, então, me expulsa? — Ela piscou espantada, erguendo suas costas do sofá com assombro.
Minha atenção, de repente, estava tão voltada ao meu gatinho, que agora possuía um nome, que levou alguns longos instantes até que eu finalmente me situasse do que Ali havia acabado de dizer.
— Espere um segundo, o que você disse? — Virei meu rosto de maneira brusca para ela, sustentando seu olhar misterioso e divertido por alguns embaraçosos segundos.
— Desculpe, eu me equivoquei. Na verdade, é o nosso sofá. — Alison se corrigiu, como se aquilo fosse algo do qual eu estava completamente a par — o que eu definitivamente não estava.
— Eu estou indo agora. — Hanna levantou-se rapidamente, apontando para a porta em que havíamos entrado. — Aquelas fabulosas botas da nova coleção Burberry e eu temos um encontro. — Depois dela, Aria e Spencer fizeram o mesmo, dizendo que Paris as esperavam.
Alison revirou os olhos e, então, jogou-se no sofá em que Hanna acabara de estar. Ela parecia cansada e muito indisposta para qualquer coisa que viesse agora. Com isso, olhei ao redor e passei a notar que as cores e os móveis que compunham a sala, como alguns tons fortes e turbulentos de cinza, eram igualmente semelhantes à sua personalidade inconstante e, por vezes, apaziguadora.
Coloquei Eros numa das poltronas giratórias devagar, cuidando para que ele não acordasse e começasse a miar chorosamente. Ali estava tão certa em sua comparação mais cedo... Era como se, agora, tivéssemos um bebê.
— Eu fiz Spencer vir até aqui só para decorar a nossa casa enquanto eu estava com você. — Ali começou, olhando vagamente para o vazio e tomando um grande punhado de fôlego para que pudesse continuar. — Aria e Hanna chegaram quarta-feira pela manhã para ajudá-la. E, hoje mais cedo, quando você acordou e eu não estava, eu tinha vindo para cá. Eu queria surpreendê-la, porque, depois daquela nossa conversa de ontem, eu me tornei ainda mais ansiosa e confiante para finalmente mostrá-la que eu quero construir uma vida com você, longe de Rosewood, como eu havia prometido anos atrás. — Agora, ela me fitava diretamente nos olhos e, a cada pequeno progresso de sua sincera sentença, mostrava-me que todas as notáveis diferenças que eu vinha reparando nela se davam a isso.
— Ali, o que você está dizendo? — Perguntei com o coração quase saindo pela boca diante da possibilidade. — Desculpe, mas eu não tenho certeza se eu realmente ouvi tudo isso. — As palavras saíram leves e hesitantes. Então, ela se levantou do sofá agilmente e veio até mim.
Eu não queria, de forma alguma, interpretar o que parecia óbvio de modo equivocado, sobretudo por Ali possuir inúmeras maneiras de se expressar. No entanto, eu já havia formulado as probabilidades e não queria estar errada sobre aquilo. Eu gostaria que estivéssemos, nós duas, apontando e apostando na mesma direção.
— Eu estou dizendo... — Ela parou por um instante, olhando para o lado e inspirando profundamente, talvez um pouco de coragem. — Emily, eu comprei uma casa para nós duas. E, com a ajuda de Spencer, eu entrei com um pedido de emancipação para que eu possa viver em paz com você. Longe das pessoas que só me causam raiva e me trazem tristeza. — Suspirou melancolicamente, tomando minhas mãos na sua e as entrelaçando.
Pensei seriamente em cada palavra que saiu de sua boca, tentando colocar um pouco de sentido no fato de ela querer deixar sua vida perfeita em Rosewood para viver algo completamente novo e desconhecido. E, nesse meio tempo, eu também tentava entender o porquê de Ali se queixar tanto de tudo o que a rodeava na cidade em que nos manteríamos distantes daqui por diante. Mas, nas duas tentativas, eu fracassava, porque, mais uma vez, eu estava no escuro.
— Você realmente quer fazer isso? — Perguntei, sustentando seu olhar amoroso e cheio de expectativa. — Ali, você quer mesmo deixar tudo o que você conhece e construiu para trás, sem arrependimentos depois? — Aproximei-me ainda mais dela, levando minha mão esquerda ao seu rosto.
Um sorriso de canto surgiu nos seus lábios rosados quando ela desviou seus olhos dos meus e virou seu rosto para poltrona onde estava Eros, dormindo com a cabeça sobre as patinhas.
— Nada do que vivi antes será capaz de se igualar, nem de longe, ao que vamos viver daqui para frente. — Aquilo soou como uma promessa, talvez por estar com os olhos fixos e bem abertos, como se estivesse olhando para o futuro. — Para sempre, lembra, Emmy? — Ali olhou para mim de repente, sorrindo cheia de charme e com grandes expectativas, enquanto eu tentava conter toda a euforia que crescia dentro de mim e queria se dispersar por todos os lados.
Portanto, com um longo e profundo suspiro, deixei escapar com a voz embargada de emoção:
— Para sempre, Ali.
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