This Modern Love
1 Baby, you've got to be more demanding...
As gotículas de água escorriam pelos vidros da janela, se juntando com gotículas paradas em alguns pontos até desaparecerem em pequenas poças que se formavam na base do parapeito. O clima cinzento do outro lado, acompanhado dos trovões e vento forte não o deixavam se sentindo nem um pouco melhor. Correu o indicador e o dedo médio pelo vidro, deixando uma trilha mais clara por onde eles passaram, o fazendo enxergar quase com perfeição a cafeteria do outro lado da rua, lotada de clientes se aquecendo, comendo, ou somente se protegendo da chuva pesada. Do outro lado da sala, exatamente atrás dele, o relógio batia quatro da tarde, os ponteiros dos segundos anunciando a cada vez que mudavam de posição.
Tic... tac… tic… tac… tic…
Não o resto, era um silêncio inigualável.
Se ele não estivesse em horário de trabalho, estaria deitado em seu divã de camurça preto, dormindo. O clima não estava bom para se fazer outra coisa, e ele não estava se sentindo bem para fazer outra coisa. Já fazia quase sete meses e ele ainda não havia superado. Era fácil para ele, achar que seus sentimentos não interfeririam no trabalho, mas estavam interferindo.
Sete meses...
E ele não conseguia esquecer.
Quatro horas.
Ele poderia esperar mais dez minutos, desejando que houvesse um atraso, e então ele poderia alegar que ele próprio tinha um compromisso, e poderia sair. Poderia cancelar, não poderia? Era só apertar o botão do interfone e sua secretária faria uma ligação e pronto, estaria tudo acabado, pelo menos naquela semana. Ele não estava bem o bastante para lidar com aquela situação, ele não estava bem para ficar acordado, aliás. Precisava de remédios, ele próprio.
Era isso que faria, então. Pediria a sua secretária que fizesse a tal da ligação e ele iriam embora, a dispensaria pelo dia, poderia até lhe dar uma carona até em casa, por conta da chuva.
Mas se era isso que faria, então por que não se mexia?
Por que ainda estava olhando a calçada encharcada de gente correndo com suas sombrinhas coloridas de um lado para outro? Porque ainda estava ali, contando mentalmente os segundos conforme os carros passavam e os táxis paravam no meio fio embaixo de sua janela?
Se não queria o encontrar hoje, então por que sentiu aquele frio na barriga acompanhado dos batimentos cardíacos acelerados quando ele desceu do táxi amarelo?
Estava perdido.
Fechou a cortina, olhando apavorado ao redor de sua sala, como se uma porta fosse se abrir naquele instante para que ele pudesse fugir – mas se tal porta se abrisse, será que ele fugiria? Se sentou em sua poltrona, alinhando a caneta, a lapiseira, o relógio e a placa com seu nome simetricamente em cima da mesa cara de mogno. Respirou fundo, seu receptor tocando em seguida.
- Sim? – perguntou casual, apertando o botão vermelho. Sua voz não demonstrava que estava trêmulo, que estava ansioso, que estava com o coração quase rasgando o próprio peito para sair pulando pela sala aconchegante.
- Dr.Lacey, seu paciente das quatro horas acabou de chegar. – a garota anunciou.
- Pode mandar entrar. – selou seu destino com aquelas palavras, tentando fixar seus olhos azuis em alguma coisa que não fosse a porta, ajeitando novamente a plaquinha metálica em cima de sua mesa, onde em letras douradas podia ser lido: “Dr.Lacey – psiquiatra”. Era só se manter calmo...
Olhos castanhos por trás de lentes encontraram os seus azuis, desprotegidos, o corpo esguio se estreitou pela fresta da porta, a fechando assim que estava lá dentro. Se aproximou em passos lentos, o moletom cinza cheio de marcas escuras da água da chuva, as mãos de dedos finos e longos escondidas nos bolsos do jeans surrado, cuja barra cobri metade do converse azul desbotado. Se sentou na cadeira confortável à sua frente, a sobra de um sorriso surgindo sobre os lábios finos, de onde ele não conseguia tirar os olhos.
- Olá, John. Que chuva, não? – começou, juntando alguns papéis nas mãos, os batendo na mesa para os alinhar, e depois os deitando novamente, aguardando alguma resposta da parte do outro.
- Eu fui demitido. – o paciente sorriu largo, formando pequenas covinhas em suas bochechas quando ele o fazia. Jesse teria rido junto com ele, sabia que era um emprego horrível, mas ele estava doente, ele precisava de uma ocupação.
-Por que? – perguntou, tentando ganhar tempo para analisar melhor a situação, e saber o que falar.
Decidir o que um profissional – de preferência que não estava apaixonado pelo paciente – deveria falar.
- Eles... – e fez uma pausa, fixando os olhos na plaquinha de metal sobre a mesa. – Lá é frio. E, eu não gostava das pessoas. – o encarou, sorrindo. –Quer ouvir o que eu fiz ontem?
Jesse anotou que John havia sido demitido, e assentiu.
- Conte. – disse, retribuindo o sorriso, tragando todos os movimentos que John fazia enquanto falava, as mãos subindo e descendo enquanto ele tentava ilustrar os acontecimentos do dia anterior, parando de gesticular para formular mais alguma frase sem sentido, voltando no assunto, emendando em outro.
Ele não estava prestando muita atenção, o que era totalmente errado, visto que ele deveria se interessar pelo que seu paciente contava, mas ingerir toda aquela aparente inocência que John transbordava o acalmava. O sorriso torto, o óculos que escorregava para a ponta do nariz fino, as covinhas que se formavam nas bochechas magras, os ombros miúdos que se encolhiam desajeitadamente quando ele fazia um movimento aqui e ali...
- ...então te comprei um livro. – disse corando. Baixou o olhar para o colo, onde estava segurando fixamente a bolsa carteiro de couro cru que usava diariamente. –Ergueu novamente os olhos para os seus, esperando alguma reação, mas Jesse também havia corado.
Tanto que sentia suas bochechas queimando, os lábios de esticando em um sorriso tímido.
Queria entender quando foi que deixou a ética de lado e passou a flertar com esse rapaz, mais velho que ele, tão cheio de problemas, incapaz de se afeiçoar a alguém de verdade, dono de abominar relacionamentos, e que o encantou. John Nolan o havia fisgado de tal forma que ele se via trancado em um labirinto, e estava tão envenenado pela essência do rapaz, que já não sabia se queria encontrar uma saída.
- Que livro? – perguntou, voltando a se dar conta do coração acelerado. John enfiou a mão dentro da bolsa, entregando um livro grosso, de capa dura, em sua maior parte vermelha com tons azuis e amarelados.
- “Uma Comovente Obra de Espantoso Talento”, do Dave Eggers. É meu livro favorito, e eu achei que talvez você fosse gostar também. – fechou a bolsa, o olhando por cima dos óculos, esperando aprovação.
- Obrigado! – Jesse respondeu, fitando o livro. – Eu começarei a ler hoje mesmo. Muito obrigado, John. – disse, pousando o livro ao lado, disfarçadamente olhando o relógio por cima do ombro de John.
- Você está olhando o relógio. – John constatou. – Vai perguntar dos meus remédios, e depois vai encerrar a consulta.
Suspirou.
John, nesses sete meses de tratamento, já havia aprendido a ler cada um de seus movimentos, por mais discretos que fossem, ele sabia exatamente o que Jesse fazia a cada segundo.
- Como estão os medicamentos? – perguntou, forçando um sorriso, tentando ignorar o olhar desolado de John.
- Estou tomando todos. As vozes sumiram. – disse. –Foi um alívio, sabe?
- Que bom! E a insônia? – perguntou, anotando qualquer coisa em seu bloco. Nem ele sabia o que estava anotando. O rapaz na sua frente o deixava nervoso, inseguro, querendo que aquilo acabasse logo, querendo o abraçar e dizer que ficaria tudo bem...
- Não mudou nada. – disse. –Eu ainda vejo aquela pessoa me espionando na porta. – acrescentou baixinho, olhando ao redor.
- Continue tomando o remédio essa semana, e na semana que vem vamos ver o que aconteceu, tudo bem? – disse, apoiando os cotovelos sobre a mesa, entrelaçando os dedos.
- Mas e se tentarem me machucar? – perguntou, parecendo um pouco preocupado.
-Ninguém vai tentar te machucar, John. – sorriu, seguro do que estava dizendo. Ninguém ousaria machucar John.
- Tudo bem. – disse conformado.
- Então, até semana que vem, esse mesmo horário, certo? – ele se levantou, estendendo a mão para o paciente, esperando que o toque fosse breve, o bastante para que ele ainda conseguisse manter a própria sanidade, mas o toque nunca veio.
- Vamos. – chamou, se adiantando para a porta, sorrindo. –Seu próximo paciente só chega em uma hora, eu vi sem querer lá na secretaria. – deu de ombros. –Temos tempo para um café do outro lado da rua.
Ele podia recusar.
Ele precisava recusar.
- Eu não acho que seja uma boa idéia, John.
- Por favor, Dr.Lacey. Por minha conta. – piscou, meneando a cabeça para a porta com aquele sorriso meigo que ele sabia que conseguia controlar todo mundo.
Entraram na cafeteria, ensopados pelo simples trajeto de atravessar a rua até lá, o líquido quente servido em seguida trazendo de volta um pouco da vida aos seus corpos.
-Pensei em comprar um cachorro. – meneou a cabeça para a vitrine, onde na calçada um carro acabava de se estacionado, cachorro e crianças no banco de trás, tomando nas mãos a xícara de café, fixando o olhar no rapaz à sua frente, os olhos chocolate fixos nas crianças.
- Melhor que crianças. – disse, dando de ombros. –Eu nunca terei filhos, sabe?
Ele sabia.
Logo no primeiro dia de análise John Nolan o contou que tinha horror aos sobrinhos, que não podia ficar perto de crianças por muito tempo, porque sentia aflição. Agora, sete meses depois, as crianças estavam maiores, ele havia se adaptado, e já não pensava em os jogar de uma ponte a cada vez que eles vinham visitar. John Nolan também o contou que não conseguia se afeiçoar a ninguém que não fosse um membro da família, podia chutar e pisar em qualquer pessoa sem sentir sequer um pingo de remorso, as usava e jogava fora. Mencionou que se envolvia com homens.
E que ouvia vozes que ninguém mais ouvia, e que via vultos que ninguém mais via, e que alguém o estava perseguindo.
Não foi difícil diagnosticar que o rapaz sofria de esquizofrenia.
Mas então, ele vinha, e contava sobre seu dia, o fazia rir nos seus piores momentos, gostava de falar, falar, falar... e contava que não conseguia falar assim com outras pessoas, mas que com ele era fácil.
E não demorou para que ele percebesse que não conseguia tirar os olhos dos de John, nem que fazia tudo para encostar no rapaz, e que quando apertavam as mãos no fim da consulta, eles se demoravam um pouco mais, se olhando, marcando em suas mentes o rosto do outro, para que pudessem passar o resto da semana com o outro na memória.
E era errado!
Era tão errado! Ele era um psiquiatra, e John um doente. E não deveria estar flertando com John, nem aceitando presentes de John, e nem rezando a cada segundo que passava para que John o chamasse para sair.
Se John pedisse, ele não hesitaria nem por um segundo.
Mas havia o medo, em ambos. John não concluía as frases, e Jesse não as formulava, ficava tudo no ar, nos olhares, nos toques das mãos, no desespero subentendido entre eles.
- Jesse? – a voz de John soou, o fazendo despertar de seus devaneios.
- Dr.Lacey, John. Por favor. – pediu, olhando ao redor, mas o outro sacudiu negativamente a cabeça.
- Por que não pode ser Jesse? Nós não estamos no consultório... – disse, a xícara pousada sobre o pires na mesa. O olhava por cima das lentes, o ar confuso tomando conta do rosto inocente, trovoadas do lado de fora.
- Achei que fosse uma extensão da consulta. – respondeu, sem pensar. Conseguia ser um idiota de vez em quando, e só percebia isso quando já era tarde. No caso, só percebeu quando John pousou pegou a bolsa, passando a alça por cima dos ombros, se levantou e começou a andar na direção da porta da cafeteria.
Medo.
Jesse achava que nunca havia sentido tanto medo.
E não era medo de perder um cliente, porque clientes ele tinha aos montes, era medo de nunca mais ver John. Como conseguia ser tão estúpido?
Se levantou, correndo para a porta, ignorando que os pingos grossos de chuva estavam encharcando toda sua roupa, que não teria tempo para se trocar, que ficaria doente, precisava se desculpar. Avistou a forma magra do outro em passos rápidos pela rua e correu.
Correu o quanto suas pernas o permitiam, trombando em pessoas, pulando poças, desviando de postes, até conseguir agarrar o ante-braço magrela, o virando para ele.
Não tinha nunca reparado na diferença de altura dos dois, que não chegava a ser muito grande, apenas alguns centímetros de vantagem para John.
- Desculpa? – pediu, ofegante pela corrida. Não sabia prever a reação do outro, não sabia se era raiva ou só irritação que via naqueles olhos castanhos.
- Se eu quisesse estender a consulta, eu poderia. Eu posso pagar por você a qualquer hora, eu posso te pagar pra fazer o que eu quero, eu não preciso ficar te pedindo pra sair comigo e te agradando com presentes. Você disse que iria me ajudar se eu quisesse ser ajudado, e eu quero ser ajudado... – despejou, as gotas de água grudando os fios castanhos em sua cabeça, escorrendo por seu rosto, molhando as lentes dos óculos. Jesse soltou o braço do rapaz, sentindo a camisa branca grudar em seu corpo como uma segunda pele.
- Eu quero te ajudar, como psiquiatra. – disse, as gotas de água escorrendo por seu rosto.
- Eu quero mais. – John disse, as bochechas corando. –E você também quer, não quer? – hesitou.
O que ele poderia dizer?
Estava perdido mesmo, não conseguiria voltar atrás.
- Quero, mas não posso. Você é meu paciente. – murmurou.
- Eu não me importo. – John respondeu. As pessoas que passavam, os carros que buzinavam, os trovões e relâmpagos que iluminavam o começo de noite, nada disso ele estava vendo, não quando os lábios frios e molhados de John tocaram os seus. Não quando suas mãos se renderam ao que seu corpo pedia e se fixaram no moletom cinza, encharcado, do seu paciente.
- Como assim? – John perguntou, olhando a guia em sua mão, confuso. –Você disse que iria me ajudar!
Ele disse. Ele prometeu naquela noite em que ele cancelou a consulta do próximo paciente e foi com John para casa. Prometeu durante toda a noite, prometeu no dia seguinte quando acordou, mas quando se sentou novamente em seu consultório, ele viu que não podia.
Não conseguiria ajudar John, porque estava apaixonado.
Não poderia o medicar, não poderia o mandar para o hospital quando ele tivesse crises, não poderia deixar que ele continuasse sendo seu paciente enquanto dormia com ele, porque ele deveria ser imparcial, certo?
- Estou te enviando para esse médico, meu amigo. O nome dele é Dr.Reilly, ele é especialista no seu caso, e vai te atender muito bem. Já o avisei que você estará indo lá, e...
- Eu não quero. – John jogou a guia do outro lado do consultório, amassada em uma bola. –Eu quero você, Jesse!
- Dr.Lacey...
- Jesse! – exclamou, irritado. –Por que você está me mandando embora?
- Porque ele é melhor que eu... – começou, mas vendo o olhar descrente do outro, parou.
- Fale a verdade! – John pediu, apoiando as duas mãos no tampo da mesa, se inclinando para frente.
- Eu não posso lidar com isso, okay? – disse, finalmente, jogando as mãos para o alto. Se levantou, caminhando de um lado para o outro, os dedos correndo pelos cachos claros sobre a cabeça, os olhos azuis desfocados, sem conseguir se fixar em um único ponto. –Eu te amo, John Nolan. Eu me apaixonei por você, e você nunca vai se apaixonar por mim. Eu estou sendo útil agora, mas quando você ficar bom, você vai embora. E sabe o que eu vou fazer se continuar cuidando de você? Eu não vou te medicar direito, porque eu sei que se te medicar direito, eu vou te perder, e vou acabar te fazendo piorar só pra ter você comigo. – parou de andar, encarando John, que agora estava de pé, caminhando na direção da bolinha de papel. Jesse observou enquanto ele se abaixava, pegava a bolinha, e a abria, tentando deixar a guia em estado aceitável.
Sem olhar pra trás, ele saiu do consultório.
Dois meses.
Já fazia dois meses e a chuva ainda continuava descendo sobre a janela do seu consultório. Nem fazia tanto tempo, oito semanas, seriam oito consultas, oitos dias sem olhar para o rosto de John, ouvir sua voz, seus lamentos e reclamações.
Oito semanas sem tocar sua mão, sem sentir o perfume da colônia que ele usava, sem reparar que seus tênis estavam cada vez mais surrados. Ele sabia que John estava vendo Brandon, ele sabia que Brandon estava fazendo o possível para cuidar do rapaz direito, e sabia que Brandon estava há um mês tentando falar com ele, mas ele simplesmente não podia atender.
Se soubesse de John, seria pior, teria vontade de voltar atrás, pediria que Brandon cessasse o uso de medicamentos no rapaz.
Não era certo.
O interfone tocou.
Jesse apertou o botão, pronto para ouvir o nome do próximo paciente, aquele do qual ele sempre se esquecia.
- Sim?
- O Dr.Reilly está aqui. – a voz da secretária parecia apreensiva, afinal, Jesse perdeu a conta de quantas vezes já havia pedido que ela dissesse que ele não estava, mas agora...
- Mande ele entrar. – disse, desligando. Não estava surpreso, e nem confortável com a visita do outro. A porta se abriu e se fechou em um estrondo, Brandon marchando furioso para dentro da sala.
- Jesse, o que é que você pensa que você está fazendo? – perguntou, o segurando com força pelos ombros, o sacudindo.
- Se você me disser a respeito do que está falando... – disse, calmo. Não se sentia ameaçado pelo rapaz de cabelos pretos e olhos verdes, nem um pouco. Brandon podia ser mandão e grosseiro, mas nunca o machucaria, mesmo que no momento ele parecesse fora de controle.
- John Thomas Nolan, aquele rapaz que você me mandou. Jesse, pelo amor de Deus, eu sou um psiquiatra, não um consultor sentimental! Aquele cara vai morrer e a culpa é toda sua! – o soltou. – Ele te ama.
- Impossível. – respondeu de cara. –Eu te passei a ficha dele, ele é...
- Eu sei que o que ele é, Jesse! E eu sei também quando eu posso curar alguém e quando eu não posso, e nesse caso, eu não posso. – suspirou, se jogando na poltrona. – Ele fala de você o tempo todo, e como você mentiu pra ele. Sabe o que ele me disse esses dias? Que ele não fazia idéia de como as pessoas que ele usava e jogava fora se sentiam, até que você o jogou pra mim. – sorriu.
Jesse não conseguia se mexer.
Precisava ver John, explicar que não foi isso que ele fez, explicar que era pro seu próprio bem, explicar que...
- Jesse, pare de pensar. – Brandon disse sério. –Pegue ele de volta.
- Brandon... – disse, franzindo a testa.
- Ele te ama, e eu te conheço o bastante pra dizer que você sente o mesmo. Pegue ele de volta, aceite que, poxa, aconteceu. Não é todo dia que a pessoa perfeita pra você vai sentar no seu consultório. – se levantou.
Pessoa perfeita?
- Brandon, ele é louco! – exclamou. Não fazia sentido, ele sabia que não, mas precisava encontrar um argumento válido para que ele negasse a volta de John à sua vida, porque ele podia não saber o que era bom pra ele, mas sabia bem o que não era.
- E você é tão normal... – abriu a porta, olhou por cima do ombro e sorriu. –Vou avisar que a Lucy marque a consulta dele para amanhã, okay? – saiu, deixando Jesse com um leve sorriso nos lábios, ele tinha uma idéia melhor.
Olhou ao redor do apartamento, vendo que estava tudo na mais perfeita ordem, as coisas alinhadas, os quadros em linha reta, tapetes e toalhas combinando nos banheiros, o acolchoado na cama em uma dobra fora do lugar, tudo perfeito. Pegou o telefone, discando o número que estava na ficha que Brandon o devolveu, se sentou no braço do sofá, esperando a voz soar do outro lado.
- Alô?
- John? – perguntou, o coração quase saindo pela boca. –É o Jesse.
Houve um longo silêncio.
- Oi! – a voz soou esperançosa. – Está tudo bem?
- Tudo ótimo. Hey, quer... uh... quer vir aqui em casa? Matar o tempo... – fitou o céu escuro, cheio de nuvens. Não era nem uma noite bonita e poética, cheia de estrelas e lua cheia...
- Agora? – perguntou, o tom de ansiedade na voz aumentando.
- Agora. Eu estou com saudades... – começou, mas John o interrompeu.
- Chego em dez minutos. – concluiu, desligando o telefone.
Quando Jesse abriu a porta, todas as frases feitas que ensaiou para pedir desculpas haviam desaparecido, John sorria, e ver aquele sorriso para ele bastava.
- Foram dois meses sem te ver. – Jesse mencionou. – Eu estava errado.
- Eu sei que estava, mas foi bom, não foi? – John disse, dando de ombros. –Eu me esforcei mais pra melhorar, pra você não precisar me ter como cliente, e eu poder te procurar depois e dizer que estava bem, mas o Dr.Reilly disse que eu nunca vou ficar completamente bom. – foi falando enquanto entrava, e Jesse fechava a porta.
- Eu não ligo. – disse, sentindo que pela primeira vez estava sendo sincero consigo mesmo. – Eu não me importo que você seja assim, porque eu me apaixonei por você assim.
John riu, assentindo.
- E você conseguiu fazer com que eu me prendesse a você. – deu de ombros. –Eu acho que algumas coisas são destinadas a acontecer.
Jesse tinha a resposta perfeita, que se esvaiu quando o céu se iluminou do lado de fora, um trovão soando forte logo em seguida. John se encolheu um pouco com o susto, olhando para a janela como se ralhasse mentalmente com a natureza pela chuva que não parava.
- Sabe? – Jesse o puxou pela cintura, vendo o olhar curioso do outro se voltar para ele. – O Brandon te devolveu pra mim.
- Ninguém me agüenta... – fez uma careta.
- Nah... ele é só um pouco ciumento. – ergueu um pouco o rosto, tocando os lábios nos dele, de leve...
Do you wanna come over and kill some time?
Throw your arms around me…
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