This Is War

2 Capítulo 2 - Stranger in a strange land


Eu os julgava monstros, mas havia me tornado um deles, um mercenário, eu poderia simplesmente sobreviver como meus semelhantes, mas não era capaz de engolir meu próprio orgulho e aceitar que o meu lado havia fracassado, estava lutando do lado inimigo para manter a ilusão de glória, porém eu era tão ruim quanto os que eu odiava.
— Hora da limpeza. — Disse Martin apoiando uma HK416 nos ombros.
— Como você se sente matando essas pessoas?
— Cara, você já viu aquelas coisas? Não são pessoas... Quer dizer, deixaram de ser como nós!
— Nós sabemos quem são os culpados disso.
— Irmão, nunca diga isso na frente da Dorotheya. Temos que proteger os sobreviventes, aqui fora não resta mais nada.
Talvez Martin tivesse razão, aquelas pessoas...ou seja lá o que haviam se tornado, eram um risco para a população sobrevivente, mas um dia todos aqueles que matamos tiveram uma vida normal, na medida do possível, era terrível saber que eu estava do lado culpado por tudo aquilo.
Caminhamos pelos arredores do muro, estava tudo calmo demais. Bom sinal? Talvez, maa o fato era que aquelas criaturas poderiam nos sentir há quilômetros. Estavamos mais distantes da cidade, éramos apenas dois, estaríamos condenados à morte se fôssemos atacados.
— Dorotheya é um monstro. — Disse Martin pesaroso e eu sabia exatamente ao que ele se referia.
Nos conhecemos no fim da guerra. Eu não tinha mais nada, apenas uma identidade falsa e a esperança de sobreviver um pouco mais, mas Martin tinha uma família, a família que Dorotheya destruiu quando o condenou a abandonar Pauline, sua esposa, se quisesse ter a chance de sobreviver com sua filha de apenas um ano.
— Sinto muito.
O tempo estava desagradável, o ar era rarefeito, sempre seco e o clima estava quente, o que não era normal para aquela região, isso antes de todo o mal que causaram ao nosso planeta, agora aquela era a realidade, pouco oxigênio, não haviam mais árvores para absorver CO2 e liberar oxigênio, não ali fora.
— Aonde pensam que vão sem nós? Temos cabeças para explodir. — Disse Viktor, sádico, com sua turma de assassinos por diversão.
Respirei fundo, passei minha mão pelo revólver, contei mentalmente até dez e me livrei daquela ideia.
Subimos no jeep pegando carona com os sádicos russos de Chistyy. Aquele nome era tão patético quanto seus governantes. A cidade poderia ser "Limpa" de contaminados, mas seus governates eram mais sujos que o mundo lá fora. A vida atrás do muro era dividida em pequenas cidades, em sua maioria pertencentes à Rússia, o restante do território russo havia sido comprado e divido entre a França e os Estados Unidos.
Agora éramos 6 homens, prontos para fazer a "limpeza" do dia.
— Toma, uma arma decente. Essa coisa que você chama de arma não serve para nada. — Disse Viktor me entregando uma submetralhadora, era bem melhor, mas tive vontade de mostrar para ele o quanto meu revólver era inútil. Mesmo com uma arma melhor mantive o revólver em meu cinto, nunca se sabe quando vamos precisar.
Logo identificamos um grupo de contaminados, estavam numa zona radiotiva, mas não pareciam os mesmos, agressivos e acéfalos, simplesmente nos encaravam curiosamente. Viktor nem mesmo hesitou em atirar, com uma metralhadora os exterminou em um piscar de olhos.
— Será que só eu fico com o trabalho pesado? — Perguntou ele com um sorriso sádico após limpar o suor de suas têmporas.
Atrás de nós então surgiu um grupo daquelas coisas, corriam numa velocidade absurda para o seu estado deplorável, o carro estava a 40 km/h e eles pareciam correr a 30, era assustador. Me perguntava o que havia acontecido com a consciência daquelas pessoas, mas não havia explicação coerente, eu jamais vi uma vítima de radiação se tornar uma criatura desequilibrada e atacar seus semelhantes. Talvez houvesse sofrimento por trás de tudo aquilo, afinal o resto do mundo era um deserto de cinzas e ruínas, sem água, sem comida e eu estava encarregado de acabar com aquele sofrimento. Apontei minha arma e disparei sem pensar duas vezes, eu já havia perdido as contas de quantas vidas havia tirado, desde a guerra até aquele momento.
Estavamos cada vez mais distantes do território seguro, mas ainda podia-se ver o grande muro que separava dois lados totalmente distintos. Passamos próximos à grandes áreas radioativas, mas uma delas intrigou a todos nós, era cercada por grades altas e arame farpado, lá dentro o lugar era florido, limpo, como uma cidade limpa, sem riscos, havia uma casa e ao redor algo raro ali fora: árvores cheias, com folhas e flores prontas para dar frutos. O lugar era maior do que podíamos ver, logo estávamos passando em uma estrada que cortava um bosque, a maioria de suas árvores estavam secas, provavelmente devido à falta de chuva e o sol forte, muito diferente do que víamos do outro lado daquelas grades, mas aquilo não fazia sentido, como poderia ser possível se o clima era o mesmo em todo aquele lugar? Havia algo a mais sobre aquele lugar, algo muito maior do que eu poderíamos imaginar. Martin e eu trocamos olhares confusos.
— Que lugar é esse? — Perguntou Viktor e demos de ombros, nenhum de nós tínhamos ideia.
— Dorotheya nos deu essas coordenadas, disse que deveriamos limpar os arredores, mas nem sequer olhar para dentro. — Disse Dylan, um jovem recém-recrutado para o novo exército unificado.
— Tem algo por trás disso. — Disse Viktor intrigado.
— Certamente, mas estamos aqui para cumprir as ordens e não para questioná-las. — Disse Martin com certo incomodo, eu desconhecia o motivo, mas todos sabíamos do que Dorotheya era capaz se fosse contrariada.
Era estranho não haver uma criatura sequer ao redor ou dentro daquele lugar.
Alguns minutos de viagem depois avistamos um abrigo feito da maneira mais primitiva. O que vi a seguir era ainda mais inacreditável, haviam pessoas, poucas, mas pareciam conscientes. Um enorme sorriso se formou em meu rosto, eram humanos saudáveis

— São dos nossos? — Perguntou Dylan.

— De jeito nenhum, Dorotheya não permitiria pessoas saudáveis aqui fora, para isso existe o abrigo, as cidades dentro do muro. — Disse Viktor enganado.

— Precisamos exterminá-los. — Disse Jared preparando a mira de sua arma. Eu não poderia permitir que pessoas inocentes fossem sacrificadas mais uma vez diante de mim.
— Eles são saudáveis! — Disse Martin indignado.
— Não temos certeza, como vamos poder confiar no que desconhecemos? Nunca nos disseram sobre pessoas saudáveis fora do muro.
— Vou atirar em 3... 2... — Contava Jared lentamente enquanto eu pensava desesperadamente em uma maneira de impedi-los. Saquei o revólver sem que ninguém esperasse e apontei para a cabeça de Jared que sorriu com sarcasmo. Todos mantiveram-se estáticos após a surpresa, mas logo Viktor tratou de mostrar seu sadismo atirando em uma criança que brincava em um canto, ele riu após seu feito, como um doente, aquilo era o absurdo. Martin apontou seu rifle e pressionou contra a nuca de Viktor, Dylan e Mike estavam sem reação alguma, era a primeira missão de ambos e poderia terminar de uma forma trágica para um dos lados.
Uma cena se repetia mais uma vez diante dos meus olhos, uma mãe em desespero carregava sua criança sem vida nos braços, foi o suficiente para me fazer vacilar por alguns segundos e recebi um tiro no braço, o que me fez largar a arma e gritar de dor, havia sido um dos recrutas, olhei para Mike que tremia segurando seu revolver e chorava feito uma mulherzinha, mal tive tempo de lembrar que Jared agora estava livre de minha mira, senti apenas o primeiro soco e as coisas se apagaram.
— DISPERSAR! VOCÊS SOBREVIVENTES, DISPERSAR! — Foi tudo o que ouvi antes de apagar complemente.