O sol fraco do entardecer entrava pelas cortinas semi-abertas da sala do apartamento em Manhattan, clareando os móveis velhos e gastos, cortando o piso de madeira em uma linha diagonal que se acabava centímetros antes de chegar à parede. Um gato persa de pêlos cinza atravessou a sala lentamente, se preparando para saltar assim que se aproximou do sofá, indo diretamente para o lado onde havia uma pena de almofadas braças – em contraste com o sofá preto – amontoadas, onde se embolou, ronronando preguiçoso ao observar o dono sentado na outra extremidade. A voz suave do dito dono do gato ecoava por todo o apartamento de aparência limpa, com poucos móveis, e poucos ocupantes.
Só o rapaz e o gato, no momento.
E os dedos de tal rapaz corriam lentos e habilidosos pelas cordas finas de um violão de madeira lascada, com alguns escritos, alguns adesivos, coisas que denunciavam o seu extenso tempo de uso.
Nem sua voz, nem o som do objeto que ele carregava com tanto zelo soavam altos. Eram vastos murmúrios pela tarde de verão que se extinguia com a chegada da noite, que aconteceria dentro de no máximo uma hora.
Ele ergueu os olhos castanhos do próprio colo, deixando-se lembrar que precisava fazer café, mas no entanto, também precisava fazer compras, dar ração pro gato, para os peixes no aquário do outro lado da sala, passar a pilha de roupas que estava há dias variando de lugar entre a cama e a cadeira do quarto, tanta coisa que ele preferia simplesmente esquecer.
Assim como preferia esquecer que ainda faltava algumas horas para as dez da noite, o horário que ele finalmente teria sono e dormiria, eliminando mais um dia de seu calendário, eliminando mais vinte e quatro horas desesperadoras de espera.
John não era muito do tipo que esperava pacientemente que as coisas acontecessem. Não fazia escândalo, não comia todos os doces da casa, não demonstrava ansiedade, mas a espera o matava, a expectativa de que a porta se abriria e, reclamando, a pessoa que ele amava entraria.
Suspirou, sentindo o pêlo macio da cabeça do gato se esfregando contra seu braço, em uma tentativa de chamar atenção, de receber carinho, comida...
- Oi, Sylar. – murmurou acariciando a cabeça do gato, os olhos azul-cinzentos do felino se fechando, ao que ele inclinava a cabeça por mais carinho. – Vou colocar sua comida.
Apoiou o violão com movimentos cuidadosos contra o sofá, se certificando de que estava seguro o bastante para que ele não ouvisse o som oco do objeto caindo na sala assim que pisasse na área de serviço. Esticou o braço magro, pegando em cima da geladeira o pote de comida, sentindo o gato se enroscar em suas pernas. Se dirigiu para debaixo do tanque, e puxou a tigela vazia, jogando a ração para dentro dela conforme o gato se aproximava para comer.
Ficou ainda algum tempo observando o felino, percebendo o apartamento cada vez mais escuro conforme o sol se encolhia atrás de prédios de puro concreto, e deixava as poucas estrelas que surgiam no céu, visíveis, mesmo por trás de toda a fumaça de carros, chaminés de docerias, lanchonetes. Enrolou o saco de ração, o pousou em cima da geladeira novamente, tomando em seu colo o violão, seus olhos recaindo sobre o porta-retrato na estante ao lado da televisão.
Era uma moldura barata de madeira, antiga, simples, igual ao relacionamento das duas pessoas do retrato. Podia ver a foto com precisão de onde estava, e lembrava onde havia sido tirada, e quando aconteceu, e isso só o deixava ainda mais nostálgico e sedento pelo sono, sedento pelo dia seguinte, quando poderia levar Sylar para seus pais, faria suas malas e sairia viajando pelo país, e não teria que pensar na pilha de roupas, nem na comida do gato, nem na despensa e geladeira vazias, porque quando voltasse, alguém teria tomado conta disso tudo, e então se dariam férias.
Olhar o porta-retrato o deixava com aquele sentimento ruim de saudades. Não era uma saudades gostosa, era ruim, porque sabia que demoraria para sanar esse seu problema, e sabia que essa vida acabaria o enlouquecendo.
Respirou fundo, dedilhando qualquer coisa no violão.
- And I\\\\\\\'ve got you on my mind. Seems like almost always, all the time. - fechou os olhos, parando a canção, ouvindo um barulhinho fraco na mesa de centro onde seu caderno repousava, cheio de cifras, erros, anotações e rabiscos de várias cores de caneta e várias espessuras de lápis.
Era melhores amigos.
Melhores amigos com benefícios, porque nunca ousaram se chamar de outra coisa, nem de namorados, nem de ficantes, nem de noivos. Nunca.
Nem quando trocaram alianças, nem quando foram morar juntos, e os vizinhos acreditavam piamente que Michelle e ele eram namorados, porque John não se importava que os dois ficassem no banco do jardim por horas conversando, nem que andassem de mãos dadas, nem que se abraçassem, porque John sabia que ela era para ele uma irmã tanto quanto era para John.
E enquanto eles pensassem isso, estava tudo bem.
Talvez não ousassem pensar diferente de duas pessoas que se viam apenas algumas semanas por ano, talvez não ousassem achar que um relacionamento assim desse certo.
Mas dava.
Dava tão certo que chegava a doer, porque dava tão certo que a ausência de um era completo martírio para o outro.
Mas era a vida que haviam escolhido, a vida que amavam levar, e infelizmente as escolhas feitas tinham algumas conseqüências. Para se ter aquilo que se quer, é preciso sacrificar algo que se ama.
E ele amava o tempo que passavam juntos. Amava cada detalhe do par de olhos azuis que ele encontrava quando acordava, amava o perfume que ele usava, amava quando ele saía do banho com o cabelo molhado, deixando os cachinhos definidos e escuros o bastante para que somente seus olhos se destacassem. Amava quando não estavam fazendo absolutamente nada, e ficavam só jogados no chão de madeira — um com a cabeça para a janela, outro com a cabeça para a porta – e o som tocava The Smiths enquanto suas mãos se tocavam despercebidas, as pontinhas dos dedos acariciando as pontinhas dos dedos.
Amava quando se dispunham a cozinhar, e acabavam com alguma coisa queimada no forno e ingredientes por toda a cozinha. Amava quando podia o acolher em seus braços à noite. Amava quando podia ouvir um “boa noite” ao vivo, e não pelo telefone, sem saber ao certo de quer lugar do planeta a ligação se originou.
Amava quando ele estava ali.
Não tinha idéia do quanto ainda poderia suportar a distância, do quanto conseguiria agüentar sabendo que com o tempo a tendência era piorar, e se perguntava por que não havia desistido de tudo e somente o seguia nas turnês.
E quando essas perguntas tomavam conta da sua mente de modo que ele não podia fugir delas, ele se dava ao trabalho de responder todas do mesmo jeito: Eu tenho que seguir a minha vida.
Mas não podia fingir que estava satisfeito.
Soltou o violão no chão mesmo, e se levantou, batendo os dedos longos no interruptor, perdendo completamente o clima para noites tocando violão. Se lembrar dele o fazia ficar melancólico. Cruzou o corredor, ouvindo Sylar miar alto na lavanderia, sem se importar realmente com o que o gato queria. Se jogou de bruço na cama de casal macia do quarto, puxando o travesseiro do lado esquerdo, adornado por uma fronha azul marinho como o acolchoado da cama, e o abraçou, podendo sentir nele ainda o cheiro vago do shampoo que ele usou da última vez que esteve em casa.
Fechou os olhos, deixando lágrimas grossas escorrerem pelo seu rosto.
Não havia percebido que estava a ponto de chorar até então.
Ficou esperando, enquanto a noite caía, invadindo escura pelo quarto, pelo apartamento escuro, onde a única luz acesa era a da sala, e se deixou levar quando percebeu seus pensamentos vagando por coisas absurdas, como a van perdida em um jardim cheio de gatos...
- John? – pensou ter ouvido ele o chamar. –Johnny, acorda. – sentiu então o colchão afundar, e a mão de dedos grossos correr por seu cabelo.
Abriu os olhos instantaneamente, e se sentiu na cama tão rápido que sua coluna chegou a estralar, mas ele não se importou: estava podendo ver de perto os olhos azuis do rapaz que ele tanto amava.
Podia sentir a respiração dele sobre seu rosto, de tão perto que estavam.
- O que você... – foi a única coisa que conseguiu perguntar antes que os lábios do outro cobrissem os seus, a barba por fazer pinicando um pouco em seu rosto.
Ele se afastou sorrindo.
- Estamos a caminho de Jersey. Eu tenho uma hora pra te ver, fazer essa barba e encontrar os outros lá em baixo. Vamos dirigir a noite toda, e eu sei que você viaja amanhã, então não consegui não pedir essa uma hora pra eles. – disse baixinho, os dedos correndo por seu rosto.
- Que horas são? Você está bem? Está com fome? – perguntou tudo de uma vez, se jogando logo nos braços dele.
Uma hora parecia tão pouco tempo...
- Quase duas. – ele apertou os braços em volta de seu corpo. –E sim, estou bem, e não, não estou com fome. – os afastou um pouco, sorrindo. –Só vim te ver.
John assentiu, pousando fraco os lábios sobre os dele, sentindo a mão do outro em sua nuca, começando a aprofundar o beijo, o deitando na cama. Entrelaçaram os dedos, continuando o beijo com calma, sem pressa, como se pudessem ter o tempo todo do mundo, como se o relógio estivesse parado para sempre.
Ficaram deitados, conversando sobre tudo, sobre nada.
Poderiam conversar por semanas a fio, por meses, sempre tinham algo a falar, e estar com ele era tão perfeito, tão bom que às vezes ele achava que não era real, que ele acordaria e perceberia que ainda estava dormindo em sua cama de solteiro em Baldwin.
Mas o tempo era um inimigo, e antes que pudesse relaxar e aproveitar, uma hora se passou.
Quando ele saiu do banheiro – barba feita, banho tomado, roupas limpas – John voltou a sentir aquela melancolia que o estava incomodando antes de pegar no sono. O observou brincar com o gato antes de se dirigir à porta.
- Vai passar rápido. – disse, a porta entreaberta, o olhar fixo em seus tênis coloridos demais, destoando de sua roupa de cores neutras. –É só fingirmos que essa é a última vez, que depois disso nunca mais vamos embora.
- Então eu vou acreditar, que depois disso nós nunca mais vamos embora, porque eu queria que fosse assim. – disse baixo. Ele sorriu, triste.
- Me promete que seus pais não vão deixar o Sylar beber água sanitária de novo. – pediu, olhando ternamente o gato.
- Está bem, está bem. Vou pedir pra tomarem mais cuidado. – girou os olhos, caminhando devagar até a porta, selou os lábios do outro, que sorriu e se adiantou para o elevador, desaparecendo assim que o mesmo chegou no andar.
Fechou a porta, voltando para o quarto, contemplando dormir o quanto antes.
Não sabia dizer se a ausência total doía mais do que a presença parcial, momentânea. Não sabia porque geralmente saber que ele não estava ali era bem incômodo, acordar, fazer mil coisas, voltar para casa e estar tudo no lugar, como ele havia deixado, sem o som ligado, ou a televisão esquecida em algum canal de entretenimento enquanto ele lia qualquer bobagem no quarto. Doía não ter mais tempo por perto a pessoa que fazia antes tudo que ele pensava em fazer, que completava suas frases e sempre sabia o que ele precisava.
Doía, mas ele suportava.
Suportava porque realmente acreditava que um dia aquilo ia passar, que um dia ficariam bem o bastante para só precisar sair em turnê por alguns poucos meses do ano, e não passar quase trezentos e vinte dias do ano fazendo shows.
E só vivia por isso.
Porque acreditava, de verdade, que um dia não iriam embora.
Se jogou na cama, fitando o teto escuro, a luz apagada, deixando a luz artificial da rua invadir as cortinas semi-abertas da janela do quarto...Notas finais
Sim, sou fã de Heroes. x)
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