Ela teme que sua rudeza com Camilo quando o deixou no internato o tenha afastado para sempre. Sua parte racional lhe diz que é bobagem, ele é apenas uma criança. Crianças perdoam. Outra parte de si a lembra que ele é filho de seu pai. Julieta teme que ele seja mais parecido com ao falecido do que ela imaginara. Reza todas as noites que não. Promete criá-lo para ser um príncipe.

Julieta vai busca-lo logo no primeiro fim de semana, como prometera. Outros pais também fazem o mesmo, mas algumas crianças ficam no internato, saindo apenas nas férias ou em datas comemorativas. Ela observa as famílias enquanto espera por Camilo, ansiosa, com o coração na mão; temerosa que ele tenha guardado qualquer rancor de seu último encontro.

Camilo aparece nos jardins, carregando sua mala, bem vestido, mas ligeiramente despenteado. Julieta acha que seus cabelos estão alcançando os olhos. Estavam tão compridos assim quando ela o deixou? Seu coração está acelerado.

Camilo olha ao redor, procurando-a e, quando a encontra, sorri de orelha a orelha. Ele corre em sua direção e Julieta se abaixa para recebê-lo, carregando-o no colo como não fazia há um tempo. Ela o abraça apertado e Camilo ri, mexendo o rostinho contra o seu e Julieta beija seu cabelo.

— Senti sua falta, mamãe.

Ela sente lágrimas em seus olhos e um sorriso que não consegue controlar.

— Não mais do que senti a sua, meu amor.

—***-***-***-

Camilo tem 8 anos de idade quando a dívida, finalmente, começa a acabar. Já não é um perigo, não fica no fundo de sua mente, lhe dando dor de cabeça. É um capítulo que está chegando ao seu fim. Julieta começa a expandir seus negócios. Há uma fazenda perto de São Paulo, com uma boa área, mas não tão produtiva quanto costumava ser. Julieta acha que pode consegui-la por um bom preço e coloca-la nos rumos certos.

O dono da fazenda está em São Paulo e aceita se encontrar com ela na casa de chá que ele escolhe. Julieta leva se advogado e coloca sua proposta na mesa. O fazendeiro primeiro a olha com desconfiança, depois com desdém, então declara que a fazenda vale mais do que ela está oferecendo. Não vale. Julieta deixa isso bem claro. O senhor se enfurece. Os dois começam uma discussão, os advogados de ambos tentando controlar os ânimos.

— Minha fazenda vale muito mais do que isso. A senhora é que não tem a menor ideia do que está falando.

— Mas isso é um absurdo! Minha proposta é justa. Sua fazenda não é tão boa quanto costumava ser e o senhor sabe disso.

— Mulherzinha arrogante. – O fazendeiro declara entredentes.

Ele se levanta e deixa o restaurante pisando forte. Como se aquilo intimidasse Julieta. Seu advogado suspira longamente e comenta que ela deveria ter controlado seu temperamento. Julieta comenta que ele deveria ir embora.

Ela respira fundo quando está finalmente sozinha. Um pouco de paz!

— Isso não foi muito bem.

Julieta vira-se em direção a voz. Na mesa ao lado, não muito distante, está uma mulher. Ela segura uma xícara e sorri para Julieta. Seus olhos esverdeados têm um brilho que lembram Julieta a Camilo quando apronta alguma.

— Desculpe? – Julieta indaga, um pouco desconfortável com a intromissão da estranha.

— Seu negócio, digo. – A mulher fala despreocupada, como se conhecesse Julieta. – A fazenda vale tanto quanto ele diz?

Julieta suspira irritada.

— Se valesse tanto quanto ele diz, eu teria oferecido essa quantia.

A outra ri.

— Homens. – Ela comenta. – Sempre tentando levar vantagem.

— Porque sou mulher.

Julieta comenta para si mesma, mas a estranha parece ouvir.

— Sim. – Ela concorda. – Mas também pela sua atitude. Não aja como uma compradora. Aja como se já fosse a dona da fazenda e só resta a ele aceitar seu dinheiro. Atitude e dinheiro. Homens gostam disso.

Julieta sorri amarelo, lembrando-se da atitude dos homens com ela, especialmente aqueles. Qualquer negócio que poderia ser simples, eles faziam três vezes mais complicado, apenas por se tratar dela.

— Você não conhece esse tipo de homem.

— Minha querida, se você conhecer um homem, conhece a todos. – Ela olha longamente para Julieta, sorri e acrescenta: — Acredite, eles são péssimos tomadores de decisões. Adoram que alguém lhes diga o que fazer. Especialmente se esse alguém for mais rico e mais poderoso. Só não deixe que eles percebam. São muito sentimentais.

Julieta ri e a estranha a acompanha.

— Seria ótimo. – Ela diz. – Mas infelizmente eu não sou nem mais rica, nem mais poderosa que a maioria dos homens com quem trato.

A mulher estranha parece até surpresa.

— Ah, mas minha querida, você não precisa ser. Finja. Aja, seja, como uma rainha.

Como uma rainha. Aquilo gera ecos na cabeça de Julieta. A estranha volta ao seu café, mas, de repente, ela parece uma companhia interessantíssima aos olhos de Julieta.

— Têm experiência com isso? É negociante? – Julieta pergunta.

A mulher levanta os olhos para ela.

— Ah, não. Eu tento. Mas não. Eu só venho aqui pelo café. – Ela sorri, levantando sua xícara.

Julieta não entende, mas sorri.

— Eu só vim aqui pelo negócio. Que não aconteceu.

— Sim. Ah, não. Isso requer algo muito mais forte que café. Aceita uma bebida?

Julieta não é dada a conversar com estranhos, a fazer amizades, ela não é o tipo de pessoa aberta que outras pessoas costumam gostar. Mas ela aceita e a estranha se senta a mesa com ela, estendendo uma mão na sua direção.

— Susana.

Ela aceita a mão da outra, apertando-a levemente.

— Julieta.

—***-***-***-

Susana se torna uma amiga. Julieta não tinha uma amiga desde que deixara a casa dos pais.

Susana é inteligente e perspicaz e um tanto maldosa. Ela é atrevida e alegre e, em vários sentidos, o oposto de Julieta. Ela flerta sem pudores e se veste em cores alegres e não tem absolutamente nenhum problema com sua aparência. Susana é um par de anos mais velha que Julieta, mas cheia de uma juventude que Julieta não sabe mais como carregar.

Susana tenta comprar um vestido novo para ela, no estilo que ela própria usa, mas Julieta não se sente confortável, nem consegue se imaginar lidando com outros empresários naquele vestido leve, claro. Susana parece desapontada.

— Já faz anos que seu marido morreu, Julieta. Não precisa ficar de luto para sempre. Além do mais, você ficaria tão linda.

Linda. Julieta havia se sentido bonita um dia, já havia usado vestidos bonitos e o cabelo solto. Já tinha flertado com rapazes e tentado atrair os olhares deles. Mas aquilo havia sido em outra vida. Sua vida com o falecido havia mudado muito coisa para ela. Havia mudado Julieta de uma maneira que ela acredita ser irreversível.

Às vezes, Julieta pensa a respeito daquela noite. Talvez se não tivesse usado aquele vestido, se não tivesse penteado seu cabelo daquela maneira, se tivesse dançado menos, se não tivesse sorrido tanto. Talvez ele não tivesse posto seus olhos nela. Talvez sua vida fosse outra. Mas é inútil pensar assim. O que está feito, está feito. Não há como voltar atrás.

Julieta continua em seu preto, com seu cabelo bem preso, com seus negócios. Ela sente que envelhece duas vezes mais rápido que Susana. Talvez um dia isso seja aparente.

—***-***-***-

Camilo conhece Susana nas férias de fim de ano. Julieta a convida para o jantar de Natal uma vez que nenhuma das duas tem família. Ela chega com um embrulho enorme debaixo do braço e os olhos de Camilo brilham no mesmo instante. Ela entrega o presente com um sorriso de orelha a orelha.

Julieta não tem certeza se o sorriso de Susana é verdadeiro, mas o de Camilo é e aquece seu coração.

—***-***-***-

Ela paga a dívida do falecido e compra sua primeira fazenda. A primeira que não pertenceu a ele antes de ser dela. Julieta começa um verdadeiro império. Ela compra fazendas, expande seus negócios, conquista inimigos e aliados. Susana passa de amiga para sócia e finalmente começa a colocar em ação seus talentos para negociações. Seus companheiros de ramo começam a trata-la de maneira diferente. A rudeza descarada é substituída por uma hostilidade sutil. Eles não podem mais se dar ao luxo de destrata-la, não quando Julieta já provou que não apenas entende de negócios, ela é excelente neles.

Ela sente um crescente orgulho de si mesma e por suas conquistas, apesar de que começa a perceber que as pessoas acreditam que sua fortuna se deve a sorte de saber manter um império que seu marido supostamente a deixou. Ela acha engraçado como homens preferem inventar histórias a acreditar que uma mulher seja melhor que eles em qualquer coisa.

Camilo acaba acreditando nessas histórias, acredita que o pai era um grande homem. Julieta não sabe onde ele escuta essas coisas, ela mesma não costuma falar sobre o falecido, nem bem, nem mal, mas não consegue sentar com ele e lhe contar o tipo de monstro que o pai era. Em parte porque ela não quer partir o coração dele, em parte porque Julieta não quer que ele descubra pelo o que ela passou em seu casamento.

Ela deixa as pessoas falarem, deixa acreditarem no que quiserem. Ela se preocupa mais com seu filho, com seus negócios. Incomoda-a é claro, mais do que ela gostaria. As únicas pessoas que sabem a verdade sobre seu passado são o padre e Susana. Julieta convida Susana para morar com ela e logo percebe que a amiga tem a mesma visão que os outros. Ela não suporta por muito tempo e, em uma noite após algumas taças de vinho, cega pela raiva de ver Susana acreditar naquelas baboseiras, Julieta conta tudo. Susana fica chocada, para logo depois olhar para ela com ainda mais admiração.

Julieta se lembra da primeira vez que a chamaram de Rainha do Café e do quanto achou o título ridículo. Achou que não ouviria novamente, mas logo todos a chamavam assim. Ela deixou. Susana uma vez lhe dissera que ela deveria agir como uma rainha, não faria mal ser conhecida como uma.

Ela manda Camilo para estudar na Europa, porque quer a melhor educação para ele. Ela quer que Camilo seja um príncipe. Ele chora quando se despede dela, mas aceita a mudança sem brigar. Ele já não é mais o mesmo menino do primeiro dia do internato. Camilo é doce e gentil e não tem medo de expor seus sentimentos. Ela gosta que ele seja assim, o apoia. Susana comenta, logo nas primeiras semanas em que começa a morar com eles, que ele não tem medo de chorar na frente dos outros e Julieta, irritada por achar que Susana estivesse fazendo uma crítica, responde:

— Estou criando uma pessoa sensível, um homem gentil. Não um brutamontes.

Mas Susana sorri satisfeita e diz:

— O mundo já está abarrotado de brutamontes.

Julieta cria um menino gentil, mas ela própria se sente endurecer mais a cada dia. Ela se torna fria, pois os negócios assim o exigem, amarga e, francamente, um tanto infeliz. Ela sente raiva. Raiva do falecido. Julieta passou tanto tempo com medo dele, quando era vivo, que não havia realmente sentido raiva. Ela leva rosas para ele toda semana no cemitério, sem falta, corta as flores e deixa apenas os espinhos; alimentando aquele ódio que parece cada vez mais enraizado em sua alma. Ela lhe diz tudo o que estivera preso em sua garganta quando ele estava vivo. Agora é livre para falar o que quiser, ele já não pode dizer nada, não pode ofender ou machucar.

A raiva e o trabalho e a distância de Camilo parecem sugar suas energias, sua vida. Quando Julieta percebe, há fios brancos em seu cabelo e marcas em seu rosto. Ela olha para Susana. Susana que é linda e cheia de vida e alegre. Ela se ressente um pouco com a amiga. Não por ela gradativamente começar a parecer mais jovem, não. Julieta gostaria de ser livre como Susana, despreocupada como Susana.

No fundo, Julieta gostaria de ter outra vida, de ser outra pessoa, mas já não sabe como fazer isso.

—***-***-***-

Os anos passam. Para Julieta, eles parecem ser todos iguais. A única coisa que muda é Camilo.

Camilo que um dia havia sido um bebê em seus braços cansados; um menino para quem ela forçava um sorriso, com quem tinha que dar uns puxões de orelha. Camilo que encostara a cabeça em seu peito para um último abraço antes de entrar no navio para Europa e está mais alto a cada vez que Julieta o vê. Ela vai para Inglaterra sempre que pode. Não quer que ele passe uma única data importante sem a ter ao seu lado. Não quer que ele pense que ela não se importa com ele, apesar de sua crescente distância e dificuldade de ser tão carinhosa quanto era antes.

Em uma de suas viagens ela conhece Lorde Williamson e seus filhos. Ela se torna parceira dele, que estava buscando expandir seus negócios para o Brasil. Camilo e o filho mais velho do Lorde, Darcy, tornam-se amigos rapidamente, apesar da diferença de idade. Julieta gosta da amizade, Darcy é um bom rapaz, uma boa influência para seu filho.

Antes que Julieta perceba, Camilo está indo para faculdade, bebendo com amigos, falando sobre mulheres.

— Seja respeitoso. – Ela adverte sempre.

Camilo sorri de lado, plantando um beijo rápido em sua bochecha enquanto pega o chapéu, Darcy o espera na porta para saírem, prometendo que ele será.

Quando já não falta tanto para Camilo se formar, ela fecha um bom negócio com um produtor de café. Ele a olha longamente e Julieta espera para seja lá que besteira esteja passando pela cabeça dele. Por fim, ele pergunta:

— A senhora já ouviu falar no Vale do Café?

Já ouvira falar, é claro, ela estava no ramo há anos. Quis saber aonde o homem pretendia chegar.

— Tem uma fazenda lá, muito boa. Ouro Verde. Ouvi dizer que o dono está endividado até o pescoço.

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