This Heart Is For The Wrecking
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Boa leitura.
O pior momento de sua vida ocorreu no melhor dia de sua vida.
Ela nunca foi tão feliz. Nem antes, nem depois. Especialmente depois.
Julieta pensa nisso bastante.
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Seu pai é administrador de uma fazenda de café e a colheita havia sido excelente. O pai está muito feliz, logo a família e todos os trabalhadores da fazenda também estão. Há uma festa com muita bebida, comida, música. Julieta dança até os pés ficarem dormentes e ri até não ter mais fôlego e brinca como uma criança.
Ela já tem 16 anos, para a mãe ela já é uma mulher feita. Julieta, no entanto, não se sente tão adulta assim.
Ele aparece no meio da festa. Talvez estivesse aí antes, mas Julieta não estava prestando atenção. Só o percebe ali quando o pai a chama, apresentando-lhe ao dono da fazenda. Osório Bittencourt.
Ele a olha de cima a baixo. Julieta não gosta daquele olhar, mas sorri para ele, como uma boa menina. Osório sorri de volta.
— Muito bonita. – Ele diz.
E estende um copo em sua direção. Julieta olha pra o pai, que parece não gostar, mas ele não diz nada quando Osório empurra o copo em sua direção mais uma vez. Julieta aceita, tomando um gole grande e tossindo quando sente a bebida queimando sua garganta.
Ela não deveria ter aceitado. Nem esse copo nem os que se seguem.
Mas será que era realmente uma escolha sua?
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Ele a embebeda o suficiente para que ela não consiga andar direito, mas não o suficiente para que ela esteja inconsciente. Não o suficiente para que ela pudesse esquecer depois.
Julieta lembra de tudo. Dos puxões, da rudeza da barba dele contra sua pele, a dureza de seus lábios, o hálito de bebida forte em seu rosto. O barulho do tecido do vestido rasgando. Seu desespero, o verdadeiro horror. Ela pede que ele pare, implora. Não consegue gritar, não consegue empurra-lo, não consegue correr. Seu corpo inteiro treme, sua mente está nublada, seu coração bate tão forte.
Julieta grita quando ele entra nela e ele logo a cala, a mão grande cobrindo sua boca e seu nariz. Ela não consegue respirar. Sente que vai desmaiar. Talvez tenha desmaiado de fato. Algumas coisas são confusas, nubladas, cortadas. Mas ela não esquece. Não consegue esquecer.
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Quando ela finalmente consegue voltar para casa, com as pernas bambas, sujas de sangue, é a mãe quem a recebe. Julieta não consegue dizer nada, o choro a sufocando, subindo por sua garganta e transbordando. Ela nem precisa dizer nada, pelos olhos da mãe, Julieta entende que ela sabe.
A mãe ajuda-a a se limpar e a se recompor e a fez prometer que não dirá nada a ninguém.
Um mês depois, quando suas regras não vêm, é a mãe quem a leva até o pai. Julieta não sabe o que esperar, mas com certeza não é o olhar de desapontamento que o pai lhe lança, de tristeza profunda, como se ela tivesse feito algo errado. É o momento que Julieta percebe que nenhuma ajuda virá dele.
Ainda assim, nada a prepara para o casamento que o pai a força a ter. Um casamento com Osório Bittencourt. O pai da criança que ela espera. Seu violador.
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Julieta chora o dia inteiro. Ela chora copiosamente até sua sogra a pegar pelos braços e exigir que ela se recomponha. Sua sogra parece uma bruxa e logo Julieta descobre que ela não só se parecia a uma. A Senhora Bittencourt a senta em uma penteadeira e escova seus cabelos com tanta força que logo Julieta tem novas lágrimas nos olhos. Aquilo deixa a bruxa ainda mais irritada.
Eles a levam para São Paulo, a colocam dentro de um vestido horrível e a fazem se casar com um homem a quem ela tem verdadeiro horror. Osório parece entediado a maior parte do tempo, como se ela fosse apenas uma inconveniência. Ele só a olha de verdade quando os dois ficam sozinhos no quarto. Julieta treme dos pés a cabeça.
Aquela noite não é nem um pouco pior do que a outra havia sido. Nem as noites que se seguem.
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As vezes, quando o bebê se mexe, Julieta se assusta. Ela não sente como se ele fosse realmente dela. Tudo o que ela tem, desde o teto sobre a sua cabeça até o vestido em seu corpo, pertence à Osório Bittencourt. As vezes, é quase como se ela própria também fosse um de seus pertences. Não, o bebê parece ser algo que Osório deixou dentro dela.
Julieta tem medo que, quando nasça, o bebê seja apenas mais um tormento na vida pavorosa que leva. Ela teme não conseguir amá-lo. Promete a si mesma que vai tentar.
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A única coisa boa em estar grávida é que qualquer mulher é mais interessante para Osório Bittencourt que Julieta.
Apesar de ainda ter que lidar com as reclamações e vontades constantes da bruxa, Julieta tem seu próprio quarto e pode passar suas noites sozinha e em paz.
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O bebê nasce durante a tarde.
Julieta fica em trabalho de parto durante quase três dias. O primeiro não é tão difícil, o segundo começa a drená-la. No terceiro, Julieta não sabe sequer se conseguirá sobreviver, que dirá ter forças o suficiente para ter a criança.
Osório e a bruxa a acompanham no primeiro dia, mas perdem o interesse logo. A bruxa volta quando Julieta está cansada demais para formar frases coerentes e as parteiras começam a apresentar semblantes preocupados. Ela está irritada, como sempre, querendo saber por que demora tanto. Provavelmente achando que Julieta era uma inútil até para ter o filho.
A parteira se volta para ela com fúria e diz:
— Ela é muito jovem. Muito pequena. Algumas mulheres conseguem ter filhos nessa idade, outras não. Reze para que ela consiga.
É a única vez que Julieta vê alguém dar uma resposta atravessada para a bruxa. Ela gostaria de estar em melhores condições para apreciar aquilo como deveria.
A bruxa sai do quarto indignada e a parteira volta-se para ela com olhos bondosos. Julieta queria que sua mãe estivesse ali. As outras mulheres a mudam de posição, quase sentada, sustentando o peso de seu corpo, enquanto a parteira fica entre suas pernas e segura uma de suas mãos.
— Vamos, meu bem. Vamos trazer esse bebê ao mundo.
A posição nova ajuda, talvez a gentileza da mulher também. O menino nasce como se a estivesse rasgando ao meio, berrando com desespero, um tanto azulado. A parteira coloca-o sobre seu peito e outra mulher segura seus braços ao redor dele. Ele funga e mexe o rostinho contra seu peito e Julieta sabe que não terá problema algum para amá-lo.
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Osório escolhe o nome, Camilo Bittencourt. Ele o pega no colo algumas vezes, mas logo decide que o recém-nascido não é muito interessante. Ele parece feliz, não exatamente por Camilo, apenas pelo fato de ter um herdeiro. A bruxa cai de amores pelo menino e o veste com roupas que Julieta não gosta.
Eles decidem tudo sobre a criança, planejam a vida toda do menino. Não há espaço para as vontades de Julieta. Para ser franca, ela não tem muitas vontades. A única coisa que quer é segurá-lo no colo, sentir o cheiro dele, olhá-lo nos olhos. Ela o ama, como jamais se imaginou capaz de amar alguém. Como nunca sonhou que poderia amar o filho de Osório Bittencourt.
Camilo enche seus dias com cor e vida e uma alegria que ela não sentia desde aquela noite. Camilo é dela. Nada mais naquela casa, naquela vida, lhe pertence, mas Camilo é dela.
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Camilo dá seu primeiro sorriso para ela. Sua primeira palavra é “mama”. Seus primeiros passos são em sua direção.
Osório o trata com indiferença, já a bruxa, tenta chamar sua atenção e roubar seu carinho. Mas ela não tem muito tato, nem sabe lidar com os choros de Camilo, com seu mau humor. Não como Julieta sabe. Seu mundo inteiro gira ao redor de Camilo.
Ela ignora a bruxa, ignora seu marido. Julieta só é feliz quando está com o filho.
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A bruxa morre de disenteria. Nos últimos dois dias de sua vida, ela fica confinada aos seus aposentos e ao banheiro. Osório se tranca no escritório quando recebe a notícia. Cabe a Julieta se tornar a senhora da casa que sua sogra nunca havia permitido que ela fosse. Com a ajuda das empregadas da casa e de um padre, ela organiza o funeral e o enterro.
Veste um vestido preto e coloca Camilo em seu terninho, mantendo distância de Osório.
Julieta vê a mulher ser enterrada, espera que Osório se tranque em seus aposentos novamente, coloca Camilo para dormir e se enfia em um banho relaxante. Ela tenta, realmente tenta, mas quando já está em sua cama, na escuridão de seu quarto, Julieta coloca uma mão sobre a boca e ri até lacrimejar. Ela se sente um pouco mau depois.
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Osório Bittencourt nunca foi um bom marido. Indiferença é o melhor que Julieta pode esperar dele. Mas depois que a bruxa morre, ele fica consideravelmente pior. Ele é mais bruto com ela, fazendo o possível para machuca-la. Os dias de indiferença são poucos, na maior parte do tempo, Osório parece determinado a fazer de sua vida um inferno.
Ele grita e a ofende, a trata com desprezo e a chama de nomes vulgares. Ele a força contra a cama e aperta seu pescoço. A esbofeteia quando fica irritado por qualquer besteira que ela tenha feito. A casa se transforma em uma prisão. Sua vida é uma tortura.
Ela finge que está tudo bem para Camilo. Não tem certeza do quanto ele entende, ainda é tão pequeno, mas finge mesmo assim. Sorrindo largo, abraçando-o, beijando-o, dizendo que o ama. Osório ainda o trata com indiferença. Julieta agradece a Deus por isso todos os dias. Não sabe do que seria capaz se ele tentasse qualquer coisa contra Camilo.
Se Osório ousar machucar seu menino, Julieta é capaz de matá-lo.
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Ela não precisa, no fim das contas.
Osório morre de um ataque cardíaco. Não surpreende Julieta em nada. Seria aquilo ou uma cirrose, ele era um velho beberrão. Camilo tem 4 anos. Quase 5 anos após o início de seu tormento, Julieta se vê livre. Ela não se sente tão livre. É como se algo dentro dela tivesse se rompido para sempre.
Camilo não chora, Osório nunca fora bom pai. Não fará falta alguma. Julieta tampouco. Ela organiza o funeral, coloca seu vestido de luto e a aliança de Osório junto a sua no dedo, mas não acha dentro de si nenhum sentimento além do alívio. Na última morte, Julieta havia rido. Ela acha aquilo um tanto preocupante. Que tipo de pessoa havia se tornado?
Procura um padre e confessa que se sente aliviada do marido ter morrido. O padre pergunta como ele era com ela. Julieta hesita.
— Pode confiar em mim, minha filha. – O padre diz.
Sua voz é gentil. Julieta não é tratada com gentileza há anos. Ela conta para ele. Conta tudo sobre o martírio que foi seu casamento. O padre lhe passa uma pequena penitência e a perdoa. Julieta vai para casa um tantinho mais leve, indo direto para o quarto de Camilo.
Ele está brincando com um trem e Julieta senta-se para brincar com ele. Ela passa os dedos pelos fios loiros do filho, sentindo tanto amor por ele que é capaz de explodir.
— Somos só nós dois agora, Camilo. – Ela diz e sorri quando ele a olha um tento preocupado. – Vai ficar tudo bem.
Julieta sente que é o início de uma vida feliz para ela e Camilo.
Ela estava errada, é claro.
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