Thinking Of You

1 Sobre o Sofrimento de Matthew Williams


Alfred,

Olá, como vai você? Eu sei que vai muito bem... sem mim. Da mesma forma como eu tento fingir estar muito bem sem você todos os dias.

Eu vi você com ela hoje, no elevador do prédio. Você estava feliz e sorria, como vem fazendo há muito tempo. Sabe como me senti quando vi isso? Não... você não sabe, não tem como você saber. Há muito você sabe de mim somente o que eu deixo que você saiba... e há muito eu não te conheço como costumava ser.

Alfred, você se lembra do nosso primeiro beijo? Ou melhor, você lembra do nosso último beijo? Aquele beijo desesperado que eu roubei? Acho que não, você não costuma lembrar das coisas relacionadas a mim. Mas eu lembro, e isso me atormenta todos os dias.

Alfred, o que eu sinto? Não consigo mais entender, eu estou perdido em meus pensamentos, tudo é confuso e eu me sinto muito próximo ao desespero. Quando olho para você, todos os dias, sinto uma vontade desesperada de te sacudir e gritar “OLHE PARA MIM!”, e então eu começo a chorar como uma criança. Alfred, não sei mais o que sinto por você. Não sei mais se é o amor que costumávamos ter, ou se é a obsessão de uma alma atormentada. Não sei nem mesmo se é tristeza e ressentimento, com uma pontadinha de “e se”.

Sabe, machuca demais pensar em você e constatar que nem mais um amigo eu pareço ser, quando você me trata com a indiferença relegada a todos que não são importantes para você. Isso me mata aos pouquinhos, porque, Alfred, eu não sou perfeito como ela. Não sou bonito nem inteligente, e não faço nada certo, como você sabe.

Uma vez você perguntou se aquela música era para você. Não era, não era para ninguém, na verdade. Mas isso não faz diferença, porque eu menti. Menti e venho mentindo todos os dias dizendo que não me importo. É, parece que eu sei mentir muito bem, não é?

Parece ridículo, não é? Dois anos depois do nosso adeus eu ainda não consegui esquecer. Ah, mas eu queria ter conseguido. Sim, como eu queria. Francis diz que já é tempo suficiente para conseguir, pelo menos, seguir em frente, mas eu não consigo. Não tendo que conviver todos os dias com você, Alfred. Por que isso precisa machucar tanto? Hein? Por que eu simplesmente não consigo me desprender como você fez? Alfred, você não me vê mais. Eu sou invisível a você assim como sou às outras pessoas.

E você era o único que conseguia me ver.

Ironico, não? Eu costumava ser a primeira pessoa a saber de tudo que acontecia na sua vida, mas agora sou a ultima. É, é minha culpa, eu sei.

Eu sou um maldito manipulável e influenciável, e por ser assim eu te machuquei mais do que seria aceitável, e nem a desculpa do “você fez primeiro” eu posso usar. Porque daquela primeira vez você não me largou para cair nas mãos de quem somente te usou. De quem te traiu na primeira oportunidade.

Isso é algo que me machuca, é algo que causa o maior ressentimento do mundo, Alfred. Eu fui burro, eu fui idiota, eu não tive nem mesmo decência de terminar tudo de uma maneira digna. Me odeie por isso. A culpa é toda minha. De todas as vezes a culpa foi minha. Primeiro do meu ciúme, em segundo pela minha natureza fraca. Não, eu não mereço seu perdão.

Alfred, não existem terceiras chances, você me faz ver isso da pior forma. Sabe, eu posso entender, todos precisam pagar por seus pecados, e os meus estão sendo pagos agora, então... por favor, eu já sofri demais e já estou ciente. Por favor Alfred... me liberte. Me tire desse castigo, porque já não aguento mais. Me deixe ir embora, não me machuque mais. Não me machuque sem saber que está fazendo isso.

Por favor, me deixe terminar de matar as esperanças que teimam em nascer no meu coração todas as madrugadas insones em que o meu pensamento, inconscientemente, viaja até você, tão perto e tão longe para mim.

Do outro lado do mundo, impossível de ser alcançado.

Meus sentimentos sempre foram apenas motivo de desprezo, não foram? Então, dessa vez, novamente, me despreze e mostre que nunca chegará a ler esta carta, repleta com os sentimentos de uma pessoa que não aguenta mais viver em tristeza.

Me ignore, mais uma vez não me veja, ignore minha alegria e tristeza, tratando-os como nada. Me trate como quem trata a um desconhecido. E então, talvez, eu possa viver em paz.

Não me force a quer sua felicidade, porque eu temo chegar a desejar somente sua desgraça, Alfred, e isso eu jamais suportaria. Não deixe que chegue a esse ponto.

E, por favor, não me deixe mais acreditar que existe para nós uma terceira chance.

Da pessoa que não consegue te esquecer,

Matthew.

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