Notas iniciais
Primeiro capítulo. Ele é mais focado em Eleanor e Ben, mas tá legal, juro. Boa leitura o/

Um pouco antes das onze eu estava no trem. Ben ainda estava lá fora com seus pais e pediu para eu guardar seu lugar, e era isso que eu desejava fazer. Procurava uma cabine vazia, o que era meio difícil, pois todos os alunos pareciam já estar a bordo. Muitos olhares estavam sobre mim, o que era realmente estranho, nunca tinham olhares sobre mim. Será que meu cabelo estava estranho? Ou eu estava suja, ou com algo nojento em meu rosto? Cheguei até a cheirar-me disfarçadamente para ver se o problema era esse, mas parecia tudo O.K. Será que eu estava extremamente bonita naquele ano? Afinal, com dezesseis anos alguém pode mudar um pouco não é? Para melhor... Esqueci-me até de procurar a cabine quando mais gente olhava para mim, tinha até aqueles que saíam de seus lugares para me enxergar melhor, era realmente muito estranho e desconfortável. Bem ao fim do trem tinha uma cabine vazia, finalmente! Quando entrei, guardei minha bagagem e fechei a porta bem fechada, talvez assim parassem de me olhar. Pensei em fechar a cortina, mas lembrei-me de que Ben ainda estava por vir. Sentei-me bem em um canto e abri meu exemplar de “Estudos Avançados em Poções” apenas para fingir que lia algo, vai que assim os olhares me erravam? Já não aguentava mais esperar quando a porta se abriu e por ela entrou um garoto um pouco alto, desengonçado, usando um óculos de armação quadrada, de pele clara e cabelo escuro. Era Ben.

– Até que enfim! – Exclamei enquanto jogava o livro dentro da bolsa. Quando ele entrou, levantei-me de pressa e fechei a cortina, assim não teria mais nenhum olhar sobre mim.

– Desculpa! – Disse ele guardando suas coisas no bagageiro. – Foi difícil te achar, sabia? Por que escolheu um lugar tão distante? Tinham cabines vazias mais ao início.

Ele estava um pouco mal humorado quando se sentou, abrindo uma embalagem que ele trouxe de casa cheia de feijõezinhos de todos os sabores. Peguei alguns, que julguei serem de bom sabor, e voltei-me a sentar, a sua frente.

– Desculpe! – Disse experimentando um sabor uva. – É que aconteceu uma coisa muito estranha... No trem... As pessoas me olhavam, curiosas, todas! – Tentei explicar mais ou menos o que tinha acontecido quando ele fez uma careta muito feia de quem comeu algo e não gostou. Segundos depois um feijãozinho mastigado estava para fora do trem, uma cena nojenta.

– Cera de ouvido. – Ele mexia sua boca pra lá e pra cá, como se aquilo fosse tirar o gosto ruim do feijãozinho. Ele começou a cutucar o pacote e eu comi mais um, dessa vez de caramelo. – Mas como assim? Quem te olhou? Não foi impressão sua?

– Garanto que não! Tinha gente que se levantava para me enxergar melhor. Parecia que... Que nunca tinham me visto antes.

– Desencana, talvez apenas... Te acharam bonita, não sei.

Ouvi o que ele disse e passei a examinar minhas vestes e pensar no que podia ter me transformado em uma pessoa que chamasse atenção em apenas alguns meses. Calça jeans, blusa de manga cumprida, e apenas uns centímetros a mais. AH! O rosto estava sem espinhas também, mas nada era suficiente para todo aquele alvoroço no corredor. É, definitivamente não me acharam bonita.

– Não, não foi isso...

Ele deu uma risada, como quem concordasse com o que disse, e de repente começou a engasgar.

– Pelas barbas de Merlin, que coisa! Quantos sabores existem aqui nessa embalagem? – Reclamando, ele deixou os feijões de lado e passou a me encarar. – Olha, seja lá o que esteja acontecendo, tente encarar como algo bom. Se isso acontecer de novo, sorria, pode espantar os olhares sem graça se eles souberem que você percebeu. – Ele sorriu e eu assenti com a cabeça. É... Por hora, era o melhor a fazer. – Agora... Cadê a moça do carrinho de doces? To morrendo de fome!

Foi só ele dizer essas palavras que ouvimos o carrinho se aproximar. Ele reuniu alguns poucos galeões e foi em busca de bolinhos em formato de caldeirões, sapos de chocolate e suco de abóbora. Assim ele dividiu comigo e começamos a conversar sobre nossas expectativas em Hogwarts, no nosso sexto ano. Seria um bom ano, podíamos saber. O Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas ainda não fora anunciado e teríamos aula de aparatação.

Percebemos que estávamos chegando quando o sol foi sumindo ao oeste. Estava ficando escuro e resolvemos pôr as vestes de Hogwarts. Os uniformes de todos os alunos eram iguais, a única diferença eram seus símbolos. O meu e o de Ben era o famoso texugo, em um fundo amarelo, da Lufa-Lufa, nossa casa na escola. Quando chegou a noite já não tinha mais sol algum, o trem parou e vimos que tínhamos chegado.

As bagagens seriam recolhidas depois, então apenas nos dirigimos à saída do trem. Éramos os últimos, então os olhares se aquietaram, mas eu bem percebi que os que estavam mais a frente olhavam com a famosa expressão de interrogação para mim e, agora, para o símbolo em meu uniforme.

– Ben, estão olhando de novo. – Disse para que apenas ele escutasse. Ele observou a cena e viu que era realmente verdade. Sua expressão ficou tão confusa quanto as deles, mas por fim olhou pra mim e disse apenas para que eu ignorasse. Sem saber o que fazer, passei a encarar o chão para que não percebesse que cada vez mais gente olhava.

Porém, a ideia não deu muito certo quando senti que tinha esbarrado em uma pessoa. Nos desculpamos em uníssono e eu reparei que era Hermione Granger, da Grifinória. Ela estava ao lado de Ronald Weasley e os dois me encararam tão surpresos quanto os outros. Sustentei meu olhar neles por alguns segundos enquanto era puxada por Ben, estava prestes a parar de olhá-los quando ouvi o ruivo dizer “Engraçado, não sabia que aceitavam alunos novos em Hogwarts que não fossem do primeiro ano!”. E então o choque. Não aguentava mais os olhares curiosos, então quer dizer que não se lembram de mim? E por que, depois de seis anos, só foram me olhar agora? Desprendi meu braço esquerdo da mão de Ben e aproximei-me dos dois amigos que continuavam na porta do trem.

– Como disse? – Perguntei a ele. Hermione deu um soco no braço do amigo, como quem o repreendesse, mas ele pareceu não se importar.

– Prazer, Ronald Weasley. – Ele estendeu sua mão e eu, meio que automaticamente, retribui o aperto. – Foi transferida pra cá? Não sabia que era possível... Veio de que escola? – Perguntou ele, animado.

– De Hogwarts. – Respondi obviamente. Já estava ficando com raiva da situação.

– Desculpe... – O garoto ficou sem graça. – Mas não me lembro de ter visto você antes.

– É, percebi. – Afastei minha mão na dele. Tentava parecer indiferente, mas parece que não deu certo, pois os dois só ficaram ainda mais sem graça.

– É claro que nós já vimos ela antes, Rony, da Lufa-Lufa. – Disse a garota, em uma maneira estúpida de tentar se desculpar. Era óbvio que, assim como ele e todos daquela escola, talvez, a menina não se lembrava de mim. Estava prestes a dar uma resposta qualquer quando ouvi Ben gritar, um pouco mais à frente.

– Vamos, Eleanor! Que enrolação.

Respirei fundo e virei às costas para os dois. É... Aquilo não podia estar acontecendo! É como se eu não existisse antes de hoje. Ben percebeu que eu estava encabulada com aquilo e disse para eu me desligar das outras pessoas e apenas prestar atenção no caminho. Tentou me animar falando sobre o banquete que teríamos hoje no jantar, mas nada adiantou. Por que ninguém sabia da minha existência? E por que não continuaram sem saber ao invés de ficarem me encarando assim, tão surpresos?

Subimos em uma das carruagens puxadas por testrálios, que apenas eu e algumas raras pessoas conseguiam ver, e ficamos apenas calados antes de chegar à porta da escola.

Professora McGonagall estava supervisionando a entrada, como sempre, e separando os alunos do primeiro ano do resto dos estudantes. Além dela, estava na entrada também Sr. Filch, o zelador da escola, que hoje parecia mais feliz do que sempre fora em sua vida. Mas é claro, ele tinha a função de examinar todos os alunos antes de entrarem no castelo, e estava doido para apreender algum espertinho com algum objeto proibido. É que esse ano as medidas de segurança em Hogwarts estava ainda mais rigorosa, tudo culpa de Daquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Filch ficou realmente estressado quando percebeu que eu e Ben não éramos Comensais da Morte.

– Boa noite senhor Starkey, boa noite senhorita Rigby. – Professora Minerva tinha um sorriso no rosto quando nos viu. Retribuímos o cumprimento e seguimos para o salão principal. Pelo menos alguém ainda lembrava de mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.