Thief of Hearts
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
— Vai ser por uma boa causa, Sr. Porco. — murmurou para o porquinho de argila que funcionava como um pequeno cofre para moedas. — Me desculpe! — e num ato rápido a cabeça do martelo atingiu exatamente na fenda por onde as moedas entravam, acabando por fazer o porco se espatifar em vários pedaços e espalhar moedas pelo chão.
— Fergus, o que você tá fazendo?! — a menininha adentrou no cômodo e de imediato assumiu uma expressão de total espanto ao ver o porco todo quebrado. — Você não devia ter quebrado ele agora, Fer! Era para emergências, se esqueceu?
— E nós não estamos em caso de emergência? Não temos dinheiro para comprar comida e nem para pagar os meses de aluguel atrasados! Mamãe pode costurar quantas roupas conseguir, mas não vai arrumar o suficiente para pagar no prazo.
Brianna se calou e ficou cabisbaixa por alguns instantes, como se estivesse pensando em algo com que pudesse rebater ao argumento do irmão; não achou nada suficientemente bom. Desistiu. E então se pôs de joelhos em frente ao menino, ajudando-o a catar todas as moedas que haviam se espalhado pelo chão.
[...]
— Oh, minhas crianças... Por mais que seja admirável a atitude de vocês, o dinheiro que conseguiram não chega nem na metade de um mês de aluguel... Por que não usam esse dinheiro para comprar doces para vocês? Vá, Fergus, leve Brianna à doceria. — disse a mulher mantendo uma expressão impassível em sua face. Alaíde havia se tornado amarga, com o tempo, e nem mais os filhos foram poupados de toda sua amargura. Ainda fora gentil comparando ao que geralmente falava para os filhos, e fora toda essa postura diferente que intrigou a mente dos menores.
— Tem certeza, mamãe? Por que não compramos comida para todos? Pão? — questionou o menino.
— É, mamãe. E suco! — reforçou a menina.
— Só façam o que eu digo ou vão se arrepender. — sentenciou e então se levantou da poltrona. Sua expressão era dura e um muxoxo deixava claro sua desaprovação mediante a contestação de uma ordem. Ela deu as costas para os filhos e saiu do cômodo em que estavam.
Ele olhou para a irmã totalmente confuso e tudo que enxergou nos olhos dela fora medo. Ela tinha medo da própria mãe e esta não fazia nada para acabar com isso. Sem escolhas, segurou na mão esquerda dela e a guiou para fora de casa, rumo à qualquer outro lugar que não fosse a doceria.
[...]
Em vez de fazerem o que a mãe mandou, compraram pães, ovos e suco; não foi muito, mas era uma quantidade que poderia durar por uns três dias. Entraram sorrateiramente em casa e guardaram tudo para que Alaíde tivesse uma surpresa quando chegasse. Ela chegou, mas quem teve uma surpresa foram eles. Ela veio acompanhada de um casal, cuja a mulher sempre pedia para que algumas roupas fossem ajustadas, e isso deixou seus filhos, mais uma vez, intrigados.
— Fergus, Brianna, estes são o Sr. e a Sra. Donatti e eles irão nos ajudar a mudar de vida. — sorria de orelha a orelha, como se aquele casal fosse a solução para todos os problemas que passavam.
A mulher não media mais que 1,65. Tinha os cabelos muito bem tingidos de loiro e estes caíam-lhe sobre os ombros. Os olhos tão azuis quanto o céu focavam especialmente em Brianna. O marido era alto, provavelmente mais de 1,80. Tinha o cabelo negro e olhos tão azuis quanto os da esposa; também não tirava os olhos de Brianna. Ambos eram muito bem vestidos e era claro que eram cheios da grana.
— Como vocês vão nos ajudar? — a menininha foi a primeira a falar e a descer do sofá. Fergus desceu logo depois e se pôs ao lado dela.
— Ah, essa é a melhor parte! — exclamou Alaíde, batendo palminhas e exibindo um sorriso largo, chegando a ser psicótico ao fundi-lo com o brilho estranho em seus olhos verdes. — Eu contei nossa situação para eles e bem, a Sra. Donatti, infelizmente não pode gerar filhos e sempre quis ser mãe de uma menina... — ela fez um biquinho, como se estivesse com pena da mulher, mas logo voltou a sorrir. — Então eu disse que tinha uma filha e que estava difícil sustentar três bocas...
— Então ela permitiu que adotássemos você, Brianna! Claro... por um preço que ajude-a a manter-se bem de vida. — completou a Sra. Donatti com um entusiasmo doentio.
Fergus encarava a todos com uma expressão perplexa e totalmente enojado com que acabara ouvir. Brianna não entendeu muito bem, mas seu cenho se franziu e ela encarava a todos, atônita, e sem saber o que falar.
— VOCÊ VENDEU A SUA FILHA, SUA VADIA VICIADA! — berrou o menino para a mãe, totalmente transtornado, e partiu para cima da mesma. Tentava socar qualquer parte do corpo dela que seus punhos atingissem e ao mesmo tempo chorava incessantemente. — VOCÊ É UM MONSTRO!
O casal apenas arregalou os olhos e ficou boquiaberto diante daquilo. Brianna começou a chorar e a gritar junto com o irmão, porém, ela gritava para que este parasse de atacar a mãe. Alaíde ria enquanto tentava se defender dos socos do filho e em dado momento conseguiu segurar os braços dele, apertando seus pulsos. Com uma força que ele não sabia de onde vinha, ela o jogou no chão bruscamente e elevou o dedo indicador destro até os lábios, como se pedisse silêncio.
— Coloque-se no seu lugar, moleque.
Ela virou-se para o casal, como se nada tivesse acontecido, e passou as mãos sobre o cabelo, como se o penteasse. Apenas com o olhar fez com que a filha parasse de chorar e a segurou pelos pulsos, guiando-a até os braços dos Donatti.
— Podem levá-la. Como eu disse, o garoto era totalmente indisciplinado. Tentei fazê-lo parar de fumar... mas adquiriu muito cedo o hábito feio do avô. — proferia tudo com a voz calma e num tom melodioso, de modo que aos ouvidos do outros parecia ser algo normal; e que vestia qualquer mentira como uma verdade absoluta.
O casal apenas anuiu e sorriu com compaixão. Despediram-se e começaram a guiar a garota para fora de casa. Brianna estava em choque e isso fez com que perdesse, momentaneamente, a capacidade de falar e agir por conta própria. A merda havia sido feita e ela havia sido separada do irmão. Fergus ainda estava no chão e sentia uma dor forte na cabeça. Não tinha forças para se levantar, também estava em choque, mas tudo fazia sentido. Alaíde deixou que comprassem doces pensando que guloseimas os fariam esquecer a atrocidade que ela já havia tramado. A tola pensava que com doces podiam comprar a compaixão dos filhos. Na verdade, com tudo isso, ela só deixou o ódio vigorar em seus corações.
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