These lovely rainy days...
1 These lovely rainy days...
Notas iniciais
[ Cinco anos depois ]
Ele assistia às nuvens se moverem enquanto escutava o fuurin preso ao teto da sacada agitar-se.
A brisa naquela tarde era fraca e agradável, fresca e reconfortante. Ainda faltavam horas para o anoitecer, mas o sol naquele dia não estava forte. Embaixo, um carro passou devagar pela rua enquanto duas estudantes do ensino médio conversavam na calçada. O bairro era residencial e calmo, composto basicamente por famílias, embora o centro comercial ficasse a menos de dez minutos. Nunca achei que poderia admirar a paisagem sem um cigarro entre meus lábios.
Ele, que acreditou que passaria a vida sendo um fumante compulsivo, surpreendia-se por não lembrar-se sequer do gosto da nicotina que por anos foi sua mais fiel companheira. Havia sim aqueles dias em que tudo o que passava por sua mente era uma boa e longa tragada, porém, existiam outras maneiras de acalmar seus nervos, como almofadas sendo jogadas, discussões acaloradas ou, seu favorito, explosões de dinamite. O único velho hábito que ele mantinha era o de beber café preto e sem açúcar pelo menos três vezes ao dia. No inverno a quantidade aumentava para quatro ou cinco, no entanto, comparada à nicotina a cafeína soava menos perigosa.
Gokudera mudou.
As mudanças não envolviam somente aquelas naturais e que vinham com a idade. Ainda que aos 23 anos ainda carregasse certos aspectos da adolescência, seu porte físico mudou um pouco, seus ombros e peitoral se tornaram mais largos e sua voz ganhou uma entonação mais masculina e rouca. Profissionalmente falando, deixar o ensino médio significou assumir oficialmente o posto de Guardião da Tempestade e Braço Direito do Décimo Vongola quando Tsuna tornou-se o Chefe. Recordar-se daquela noite sempre levava lágrimas aos seus olhos, pois, mesmo que a cerimônia houvesse sido simples e restrita, ver o melhor amigo tornar-se Chefe era uma lembrança inesquecível.
As outras mudanças foram pessoais e estavam literalmente ao seu redor. A sacada onde ele estava apoiado não existia há um ano, assim como aquela sala, aqueles corredores e cômodos. A localização do apartamento também não era a mesma e a nova moradia era a prova real da mudança ocorrida em sua vida. Do rapaz solitário que habitava quase um cubículo ele se transformara em um homem comprometido que morava em um apartamento parcialmente grande. Não havia esposas ou filhos, apesar de sua cama ser de casal e todos os objetos pessoais serem em pares.
Seu companheiro era outro homem.
O novo apartamento foi comprado no ano anterior, após anos de economias. Aquele foi um dos passos mais adultos que Gokudera já havia dado na vida e muitas vezes, ao acordar e encarar o teto, ele custava a acreditar que aquela fosse realmente sua vida. Muitas coisas aconteceram nesses anos. A ideia de morarem juntos aconteceu naturalmente, e ele não se lembrava quem fez a sugestão. Quando se deu conta, mais da metade de seu salário passou a ir para a poupança.
A mudança foi gradativa, principalmente por causa de Yamamoto, que precisou de algum tempo (desnecessário, diga-se de passagem) para preparar o pai. No final, Tsuyoshi apenas riu e disse que o filho poderia sair de casa sem nenhum problema e que ele sempre soube que esse dia chegaria. Mesmo fora de casa, ele continuava a ajudar o pai no restaurante todos os finais de semana.
Algumas coisas nunca mudavam.
Naquela tarde de primavera, contudo, o Guardião da Tempestade estava sozinho. Como ontem, anteontem e desde sexta-feira passada. O apartamento sempre parecia incrivelmente gigantesco quando sua companhia não estava. Ele passou mais da metade de sua vida sozinho, mas não conseguia se acostumar a estar sem Yamamoto. O silêncio, a calmaria e tranquilidade que sempre foram apreciadas tornaram-se inquietantes, a ponto de fazê-lo passar o dia fora de casa para manter-se ocupado. Como hoje.
A parte da manhã fora utilizada para lavar as roupas e ele descansava antes de realizar uma missão que estava sendo adiada desde a segunda-feira. O outro habitante da casa estava fora há dias a trabalho, mas retornaria no dia seguinte. Ele foi acompanhar o Juudaime em uma viagem à Itália e eu fiquei resolvendo alguns problemas. Geralmente era Gokudera quem escoltava o Chefe, entretanto, havia certos assuntos que requisitavam sua presença em Namimori, então ficou a cargo de Yamamoto ser a companhia de Tsuna.
A porta de vidro da varanda foi arrastada e fechada com um leve click. Ele espreguiçou-se, consultando o relógio que ficava ao lado da televisão e decidindo que havia adiado o suficiente a visita ao Templo Namimori. Na volta eu passarei no supermercado. As despensas não estavam vazias, mas Gokudera planejava fazer spaghetti, embora não fosse seu prato favorito. O idiota adora...
A motivação para ver Hibari era quase negativa, todavia, ele sabia que o Guardião da Nuvem não apareceria na reunião da próxima semana se não fosse avisado pessoalmente e com antecedência. Ele não atendia telefonemas e deixara claro que Kusakabe era seu Braço Direito e não um garoto de recados dos Vongola. Yamamoto era quem sempre o avisava das reuniões, por ser a única pessoa da Família que não se importava em lidar com Hibari. Mas ele não está aqui agora.
Gokudera tomou um rápido banho, o suficiente para motivá-lo a sair de casa. A troca de roupas já havia sido separada, e a calça social combinava perfeitamente com o terno italiano. A gravata foi colocada enquanto ele cruzava o corredor e a última parada foi pegar o envelope pardo de cima da mesa e colocar o aparelho celular em um dos bolsos. Os sapatos foram colocados e a chave girou com barulho. A claridade do dia o fez piscar e a temperatura amena da primavera o lembrou do calor insuportável que acompanharia o verão. Quando nos mudamos colocamos um ar condicionado na sala e no quarto ou teríamos derretido.
A lembrança foi seguida por outra, uma que envolvia fazer amor sobre o tapete da sala... a textura, o modo como aquela pessoa se movia entre suas pernas e seus próprios gemidos eróticos e necessitados. A frescura do ar-condicionado desapareceu totalmente e a única coisa que importou foi o calor do corpo de Yamamoto junto ao dele, tocando-o fundo e devorando-o a cada estocada.
Um meio sorriso cruzou seus lábios e ele ganhou o corredor, imaginando que na noite seguinte os toques do moreno não seriam meras recordações.
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A escadaria que levava ao Templo Namimori consistia em cem degraus feitos de pedra batida, sem intervalos, e cercados por uma das mais belas paisagens que Gokudera já vira na vida. Sua antipatia pessoal com o dono da propriedade não o impedia de admirar sua dedicação com o local e a gentileza com as árvores e flores. O Templo sempre foi um lugar bonito e bem cuidado, onde as pessoas visitavam pelos mais variados motivos em busca de paz, conforto e inspiração.
Havia um Sacerdote que cuidava do Templo principal e para todos os efeitos era ele quem administrava o local. Poucos sabiam que o verdadeiro dono vivia afastado do tumulto, em uma larga casa de madeira localizada literalmente no coração da pequena floresta que cercava o templo principal. Da escadaria à casa era necessário mais uma caminhada de cerca de dez minutos e, não importava quanto tempo passasse, Gokudera jamais se acostumaria à distância.
Ele parou no topo da escadaria e respirou fundo. O ar entrou cortando por seus pulmões e foi preciso alguns segundos de descanso antes de iniciar a caminhada. Ao contrário da época de estudante, o Braço Direito já não era fumante, porém, seu condicionamento físico nunca foi dos melhores e o relacionamento com Yamamoto foi sem dúvidas um dos motivos que o fez deixar de lado seu vício favorito.
O moreno nunca chegou a reclamar diretamente sobre seus cigarros, mas Gokudera conseguia ver em seus olhos que ele não gostava de vê-lo fumando. A pergunta direta foi feita depois de seis meses de namoro, no terraço do colégio. Ele retirou um cigarro do maço, no entanto, antes de levá-lo aos lábios sentiu–se observado. Eu perguntei se ele se importaria e Yamamoto deu de ombros e sorriu, mas suas sobrancelhas estavam juntas. Quando o questionei novamente ele coçou a nuca e disse que não gostava de me ver fumando.
O Guardião da Tempestade lembrava-se de ter guardado o maço, sentindo-se envergonhado. Ele sabia que o amante não tinha ligação com seus hábitos, contudo, foi impossível não colocar-se em seu lugar. Não deve ser muito agradável beijar alguém que cheira a cigarros. Eu não saberia dizer o que faria. Aquilo o incomodou durante dias e ele até tentou largar o vício, mas a falta de nicotina o deixava extremamente mal-humorado, a ponto de brigar por coisas irrelevantes. No final, Gokudera pediu desculpas e disse que não pararia de fumar e entenderia se Yamamoto não quisesse estar ao seu lado nesses momentos.
"Eu não me importo com o cigarro em si, Gokudera," ele tornou-se sério, "mas eu não vou mentir e dizer que não me deixa triste te ver fumando."
"Triste?" Gokudera não compreendia.
"Todas as vezes que te vejo com um cigarro nas mãos eu não posso deixar de pensar que estou te perdendo um pouco mais rápido." As palavras saíram baixas e era visível o modo como aquela pessoa se empenhava para explicar o que se passava por sua mente. "Eu sei que não somos imortais e que um dia morreremos, mas quando eu te vejo fumando é como se o nosso tempo fosse encurtado um pouco mais. Viver sem você me assusta."
Qualquer vontade que ele sentisse de fumar desapareceu ao ouvir aquela íntima confissão. Yamamoto riu e tentou se retratar, entretanto, palavra alguma teria sido capaz de fazê-lo esquecer do que acabara de ouvir. O cigarro foi jogado no cinzeiro portátil sem ser acesso e Gokudera demorou duas semanas até ter coragem de fumar novamente. Todavia, o prazer anterior nunca mais retornou e seu último cigarro foi fumado em uma tarde de outono. Ele entendeu o significado daquelas palavras e, ao pesar suas opções, estar ao lado do moreno era infinitamente mais importante do que aquele velho hábito.
A grande casa de madeira era cortada por um longo corredor externo.
Ao seu lado direito havia uma cerca de meio metro de altura, que separava o jardim do espaço para caminhadas. Se a pequena floresta já era bela aos olhos, seria impossível não admirar aquela parte em particular. A grama naquela primavera estava bem verde e havia flores das mais variadas cores. Pássaros cantavam nas árvores e o som de água o lembrou do riacho que corria paralelo ao outro lado da casa. Esse lugar é tão pacífico. Gokudera diminuiu a velocidade de seus passos e permitiu-se um breve momento de contemplação. Não havia barulhos de carros, sons de buzinas ou a conversa de pessoas. Naquele pequeno paraíso privado não havia nada além de tranquilidade, paz... ou quase isso.
O grito foi acompanhado pelo barulho de madeira quebrada e ele precisou somente virar o rosto para ver de onde vinha o som. As portas da casa eram feitas de um tom mais escuro de madeira, e algumas delas forradas com belos papéis decorados por pássaros. Uma dessas portas havia sido aberta, ou melhor, derrubada e se ele estivesse a três passos à direita teria ficado na trajetória daquele que fora arremessado de dentro do cômodo e que teria caído no jardim se não houvesse se agarrado graciosamente à cerca de madeira.
Dino pisou no corredor, passando as mãos pelos cabelos louros e lançando um olhar furioso na direção do interior da casa. Gokudera permaneceu imóvel, sem saber se deveria abrir a boca e mostrar-se presente.
"Kyouya, isso foi totalmente desnecessário!" O italiano deu um passo à frente e desviou o corpo antes que fosse atingido por um tonfa.
O outro tonfa voou em seguida, mas serviu apenas para fazê-lo bufar um pouco mais.
O dono da casa foi o próximo a aparecer e o Braço Direito de Tsuna não conseguiu esconder sua surpresa ao vê-lo. Hibari vestia seu habitual kimono negro e a expressão séria e desinteressada. No entanto, suas bochechas estavam parcialmente vermelhas e daquele ângulo foi fácil ver uma pequenina mancha vermelha em seu pescoço. Eu cheguei na hora errada.
"O que você faz aqui, Gokudera Hayato?" A voz soou baixa e fria. Os olhos pequeninos e ferinos o encararam e ele engoliu seco.
"Ah! Gokudera!" Dino se deu conta de sua presença e aproximou-se com um largo sorriso. Ele vestia calças pretas e uma camisa social creme, que estava parcialmente aberta. "Eu não te vi, como vai?"
"Bem..." A resposta soou incerta. Gokudera queria ir embora o quanto antes, certo de que presenciara muito mais do que gostaria. "Eu vim trazer um recado do Juudaime."
"Não estou interessado, vá embora." Hibari deu meia volta e adentrou à casa, deixando-os no corredor.
O Chefe dos Cavallone soltou um baixo suspirou e sorriu, desculpando-se pela antissociabilidade de seu pupilo. Gokudera meneou a cabeça em negativo, mostrando que entendia perfeitamente e que não era necessário um pedido de desculpas. Você é o Chefe de uma das mais poderosas Famílias da Itália, não deveria se desculpar tão facilmente. Aquele lado de Dino sempre o incomodou, principalmente porque na maioria das vezes envolvia as atitudes arrogantes de Hibari. Ele não conhecia limites e parecia não se importar em se humilhar, desde que o Guardião da Nuvem não fosse visto como o vilão da história.
"É sobre a reunião?" Dino passou a mão nos cabelos e começou a fechar os botões da camisa. Em seu peito havia uma corrente dourada, que segurava um anel de mesma cor. Hibari tem a mesma corrente e o mesmo anel. "Tsuna comentou que gostaria de se reunir com seus Guardiões quando retornasse."
"Sim. Hibari não comparece se o convite não for feito pessoalmente."
"Ele sabe por que você veio, então acredito que sua missão esteja cumprida," o louro riu, esticou a mão para receber o envelope pardo, e lançou um terno olhar na direção da porta quebrada, "de qualquer forma, eu garantirei que ele compareça à reunião."
Não havia nenhum sinal de certeza em sua voz, mas Gokudera sabia que poderia confiar naquelas palavras. Os dois ainda trocaram meia dúzia de palavras até se despedirem com um polido aperto de mão. Ele retomou seu caminho, ouvindo os sons de seus sapatos em contato com o chão de madeira.
O Guardião da Tempestade suspirou, sentindo-se cansado e não compreendendo como Yamamoto conseguia lidar com aquilo. Pensar no amante o fez lembrar-se da última vez que se viram, na sexta-feira antes da viagem. Ele o levou até a porta do apartamento e ajeitou a gravata, visto que o moreno conseguia ser extremamente relapso com suas roupas e se não fosse fiscalizado acabaria comparecendo a reuniões e eventos importantes vestindo conjuntos esportivos e camisetas de baseball. Ele riu e depositou um beijo na minha testa dizendo que voltaria em breve. Parte dele gostaria que o beijo houvesse sido em seus lábios, porém, talvez isso levasse à outra coisa e no final Yamamoto acabaria de atrasando, e fazer Tsuna esperar estava fora de cogitação.
Os pensamentos felizes o acompanharam até o fim do corredor de madeira e ele teria refeito o caminho perdido em lembranças se a realidade não o chamasse. O aparelho celular vibrou no bolso de seu terno e o toque não chegou a ser iniciado. Os olhos verdes fitaram o visor e seu estômago deu voltas ao ver o nome que o telefonava.
"Hayato?"
Os passos cessaram e Gokudera engoliu seco. Os dedos apertaram o aparelho com um pouco mais de força e naquele instante ele se deu conta de que havia subestimado sua saudade. Quando a voz de Yamamoto entrou por seu ouvido, todo seu ser reagiu, identificando o timbre e arrepiando-se ao recordar-se das muitas vezes que escutara seu nome ser chamado daquela forma naqueles últimos cinco anos. Eu realmente senti sua falta. Ele não percebeu que sorria ou que suas sobrancelhas — essas sempre juntas e que começavam a formar uma ruga permanente entre seus olhos — suavizaram-se e que sua face exibia uma tola expressão de tranquilidade e felicidade.
"Sim, sou eu." A resposta soou mais baixa do que ele gostaria.
"Onde você está? Eu cheguei em casa e não te encontrei."
"Você já está de volta?" As sobrancelhas voltaram a se juntar e ele retomou o passo. "Você disse que voltaria somente amanhã."
"Eu sei, mas a última reunião de Tsuna foi desmarcada porque a outra parte estava doente." A voz de Yamamoto soava pausada e ele conseguia escutar nitidamente o barulho do guarda-roupa sendo aberto e mesmo com os olhos abertos era capaz de vê-lo perambulando pelo quarto.
"E o Juudaime? Como ele está? Você n—"
"Eu o deixei em sua casa, não se preocupe hahaha." A gargalhada pareceu ecoar dentro dele e Gokudera mordeu o lábio inferior. Se eu não tivesse vindo para cá poderia tê-lo recebido. A vontade de encontrar-se com o Guardião da Chuva fazia seu peito doer e não lhe agradava estar tão dependente daquela pessoa. "Só vim para casa após vê-lo entrar, fechar a porta e acenar da janela."
"Ótimo..." Ele limpou a garganta. "Eu estou no Templo Namimori. Vim comunicar ao Guardião da Nuvem sobre a reunião."
"Eu desconfiei que fosse isso, mas você está bem?"
O tom tornou-se mais sério e Gokudera não sabia se deveria sentir raiva ou ficar lisonjeado pela inusitada superproteção. Aquela pergunta sempre surgia quando era sua responsabilidade lidar com Hibari. Naqueles últimos anos não foram poucas as vezes que eles se desentenderam e em várias ocasiões as diferenças foram resolvidas com explosões e golpes de tonfas.
Yamamoto decidiu que ficaria a cargo das visitas após precisar se intrometer em uma dessas brigas. Um dos golpes de Hibari acertou Gokudera e ele bateu as costas em uma das paredes de madeira, caindo sentado e pronto para ser mordido até a morte. O próximo golpe nunca aconteceu e quando seus olhos se ergueram havia alguém entre ele e o Guardião da Nuvem. Yamamoto sairá de lugar nenhum e empunhava a Shigure Kintoki com uma expressão séria e pesada. Ninguém disse nada, Hibari guardou os tonfas e nos enxotou do Templo. O idiota passou o restante do dia extremamente mal-humorado.
O Guardião da Tempestade detestava a sensação de impotência que acompanhava aquele tipo de momento, mas mentiria se dissesse que não havia uma parte dentro dele que se alegrava em saber que era o único capaz de fazê-lo esboçar aquele tipo de expressão. O sempre animado e bem humorado Yamamoto Takeshi tornava-se outra pessoa quando o assunto era seu pai, amigos e, claro, Gokudera. Naquela noite ele me fez jurar que eu não me aproximaria de Hibari novamente. Eu o chamei de idiota e acabamos discutindo por bobagem. A briga durou somente o tempo necessário para o preparo do jantar, uma vez que a refeição foi degustada com bom humor e sem vestígios do desentendimento.
A promessa de nunca mais visitar o Guardião da Nuvem não foi cumprida por motivos óbvios, contudo, Gokudera aprendeu sua lição e não permitiu que Hibari o provocasse. Parte daquela muda trégua recebia o nome de Dino Cavallone e ele procurava ir ao Templo quando sabia que o louro estava na cidade. Como hoje. Eu poderia ter vindo antes, mas sabia de antemão que o Haneuma chegaria a Namimori no meio da semana.
Hibari provavelmente não sabia (e era melhor que nunca soubesse) que se tornava um pouco (bem pouco!) maleável quando o italiano estava na cidade. Aquela realização já fez Gokudera perder as contas de quantas vezes desejou que Dino se mudasse para o Japão ou que levasse Hibari para a Itália. Eu não consigo sequer fantasiar como deve ser a vida do Haneuma. Você precisa gostar de sofrimento e apreciar dor para lidar com alguém como Hibari, ainda mais em um relacionamento amoroso. Talvez Dino seja masoquista...
"Eu estou bem." Gokudera chegou ao topo da escadaria e tentou não ficar desanimado ao avistar todos aqueles degraus. "Eu estou voltando para casa."
"Ah, sobre isso, eu já estou de saída." Yamamoto riu sem graça. "Eu vou tomar um banho e ir para o restaurante."
Eu me esqueci de que hoje é sábado. Ele segurou o primeiro passo e de repente a descida pareceu muito mais penosa.
"Precisa de ajuda?"
"Não, eu dormi a viagem inteira, então ficarei bem." O moreno riu, mas a voz soava um pouco cansada. "Eu trarei o jantar, está bem?"
"Certo."
A despedida resumiu-se a meia dúzia de gracejos e, quando a ligação foi encerrada, Gokudera demorou algum tempo até colocar o celular dentro do bolso novamente. Ele estava um pouco chateado por não poder vê-lo, mas saber que não dormiria sozinho naquela noite o fazia sentir-se infinitamente melhor.
O carro estava estacionado na calçada em frente à escadaria. Os planos de passar no supermercado não mudaram, ainda que o jantar naquela noite ficasse a cargo de Tsuyoshi. E eu preciso ver como o Juudaime está. Se aquele idiota fez alguma coisa errada durante a missão eu quero saber. O veículo deslizou pela rua e Gokudera tentava se convencer de que a visita ao Décimo não era desculpa para se manter ocupado e, assim, não ansiar o retorno de Yamamoto.
Por um breve instante ele quase acreditou.
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Era pouco mais de dez da noite quando ele ouviu a chave girar na porta de entrada.
Gokudera estava na sala, sentado no sofá de costas para o corredor e assistindo a um programa de variedades. Havia uma xícara de café em sua mão, que foi pousada na mesinha de centro quando ele se levantou. Ignorar as fortes batidas de seu coração foi fácil, o difícil ficou por conta da coloração vermelha que se alastrou por seu rosto, dedurando as emoções que ele fazia o impossível para omitir.
Yamamoto surgiu através do corredor como um raio de sol depois de uma tempestade. Ele não vestia roupa social, e o terno deu lugar a um dos muitos conjuntos esportivos preto e branco. Em sua mão havia uma sacola contendo o jantar, que fora colocada sobre uma peça de madeira que ficava rente à parede e onde eles deixavam as correspondências. O Guardião da Tempestade havia se aproximado da mesa de jantar e entreabriu os lábios para perguntar sobre Tsuyoshi quando se sentiu puxado. A mão o pegou pelo braço, puxando-o com força e juntando os corpos. O beijo, entretanto, foi responsável por fazer seus olhos se arregalarem. As mãos tentaram empurrá-lo, mas ele sabia que aquela era uma luta perdida. A língua invadiu sua boca e ele sentiu o gosto de chá verde.
O beijo foi longo, profundo e de tirar o fôlego, como todos os beijos de Yamamoto. Aquela pessoa não fazia nada pela metade, e dava seu melhor em tudo o que se propunha a realizar. No quesito relacionamento, não houve um dia, nesses cinco anos, que Gokudera não se sentiu amado. Os toques e carícias sempre eram profundos e os beijos cheios de significados. O moreno continuava sendo um idiota, porém, em seus braços ele aprendeu realmente o que significava amar e ser amado. Do garoto inconveniente que adorava baseball Yamamoto se transformou na pessoa mais importante de sua vida. Depois do Juudaime, claro!
Quando o beijo terminou Gokudera precisou de alguns segundos para conseguir retornar à realidade. Seus olhos se abriram lentamente e ele ainda sentiu mais alguns curtos beijos antes de finalmente conseguir focar-se. Yamamoto tinha um largo sorriso e suas feições estavam exatamente como ele se lembrava. Não é como se ele fosse mudar em uma semana, embora houvesse mudado bastante nesses anos.
O Guardião da Chuva havia deixado a adolescência para trás e se transformado em um belo homem, mesmo que o Braço Direito jamais assumisse tal coisa em voz alta. Ele parou de jogar baseball após deixar o ensino médio, no entanto, sua rotina de exercícios físicos não cessou e o moreno acordava cedo todos os dias para correr. Ele se tornou mais alto, embora eu não tenha crescido tanto. Antes nossa diferença de altura era de um palmo, agora eu preciso ficar nas pontas dos pés se quiser beijá-lo.
Seu rosto ganhou traços adultos, apesar de que os olhos castanhos e sonhadores permaneceram iguais, assim como seu sorriso. A única adição significativa era uma cicatriz próxima ao queixo, do lado direito, e que fora adquirida durante uma missão há dois anos. Eu nunca vou me esquecer desse dia. Seus dedos foram instintivamente para a cicatriz, tocando-a e recordando-se vivamente da missão que lhe rendeu aquela marca permanente. Ele se feriu para me proteger. Um idiota...
"Eu estou em casa..." Yamamoto sorriu de orelha a orelha.
"Bem-vindo." Gokudera deu um passo para trás, tentando retomar o controle sobre si. Suas mãos foram para a sacola do jantar e ele deu as costas às pressas para esconder sua timidez. "Como está seu pai? E o restaurante?"
"Ele está ótimo e agradeceu a ajuda do sábado passado."
"Não fiz nada que precisasse de agradecimentos." Ele seguia na direção da cozinha e sabia que o amante vinha atrás. Com Yamamoto na Itália desde a última sexta-feira, Gokudera não pensou duas vezes e foi ajudar Tsuyoshi no final de semana. Aquele lugar se tornou meu segundo lar.
Ele sabia que Tsuyoshi tinha conhecimento da relação entre os dois amigos, mas o assunto nunca foi, de fato, abordado. O pai também jamais teve qualquer atitude negativa ou preconceituosa e por isso ele seria grato para sempre. Tsuyoshi o acolheu em um momento de extrema necessidade e foram aquelas três semanas debaixo de seu teto que o fizeram realizar seus sentimentos. Se aquele acidente em meu apartamento nunca houvesse acontecido eu talvez não tivesse pensado com mais seriedade com relação à confissão. A simples ideia de não viver aquela realidade fez suas sobrancelhas se juntarem. Ele amava sua vida, as pequenas brigas, os desentendimentos tolos e todas as alegrias que passou naqueles anos. Aquela era a melhor realidade que ele poderia desejar.
"Fale sobre a viagem."
Nenhum deles precisou dar instruções ou fazer pedidos. Gokudera abriu um dos armários, pegando os pratos enquanto Yamamoto separava os hashis, copos e pegava o chá de dentro da geladeira. Todas as tarefas eram feitas em conjunto, da limpeza do banheiro ao preparado das refeições. Havia exceções, claro, e algumas vezes um deles precisava ficar responsável pelo jantar, ou seria impossível que o outro lavasse as roupas em determinado dia. Naquele ponto nunca houve divergências. O Braço Direito era metódico e gostava das coisas ordenadas, perfeitamente limpas e em seus devidos lugares. Antes de passar aquelas semanas com ele eu achei que Yamamoto fosse o tipo de pessoa que chegava em casa e tirava as roupas pelo caminho, jogando as peças pelos cantos. Eu estava errado, e ele é bastante organizado.
O Guardião da Tempestade não sabia se aquilo decorria do fato de o moreno ter perdido a mãe ainda criança, ou seu papel como ex-Capitão do time de baseball, mas Yamamoto era exatamente o oposto do que ele um dia imaginou. Por esse, entre vários outros motivos, o convívio entre eles era pacífico, com eventuais desentendimentos que não envolviam as regras básicas de convivência. Havia uma mesa de jantar na sala, contudo, ela era raramente utilizada para refeições e, verdade fosse dita, nos últimos meses os dois somente a usavam quando debatiam alguma missão. A mesinha de centro era geralmente a escolhida, por ser pequena, prática e capaz de deixá-los próximos. Na mansão de meu pai nós nos sentávamos na larga mesa de madeira. Os lugares eram tão distantes que era simplesmente impossível manter um diálogo. Ninguém ouvia ninguém.
Os sushis estavam perfeitamente arrumados em uma larga bandeja e os olhos verdes brilharam com o prospecto de um delicioso jantar. Os dois amantes agradeceram pela comida enquanto conversavam sobre aquela última semana. O moreno relatou a viagem e as reuniões de Tsuna, embora fosse sempre interrompido por um ávido Gokudera, que exigia que ele fosse mais detalhista e descrevesse minuciosamente tudo o que fizeram, inclusive as refeições, passeios e qualquer informação, por mais insignificante que parecesse. Yamamoto ria, retornando à narrativa e divertindo-se com suas reações.
A primeira vez que o Guardião da Chuva visitou a Itália foi aos 19 anos, para a celebração oficial de Tsuna.Ela foi organizada por Dino Cavallone, em uma mansão localizada no coração de Roma. Todos os Guardiões estavam presentes, incluindo Hibari Kyouya. O baile estava impecável, a comida deliciosa e o mais novo Chefe dos Vongola deu o melhor discurso que Gokudera já escutara. Nós tínhamos o discurso pronto. Eu fiquei semanas trabalhando no texto, mas o Juudaime começou a se atrapalhar e o papel foi dobrado e colocado no bolso. Ele usou seus sentimentos mais sinceros para se dirigir àquelas pessoas. O discurso foi recebido por aplausos e a partir daquele dia Tsuna assumiu seu papel como Chefe e os Vongola se tornaram aos poucos uma das mais influentes Famílias italianas.
Os novos poderes exigiram novas responsabilidades. A vida pacata que o jovem de cabelos castanhos tinha em Namimori precisou ser adaptada ao seu novo eu. Reuniões, viagens e jantares. De um mero aluno do ensino médio Tsuna passou a frequentar restaurantes caros e longos e enfadonhos encontros com mafiosos de todas as partes do mundo. Todavia, ele nunca esteve sozinho. Gokudera manteve-se fielmente ao lado do Décimo, guiando-o e aconselhando-o no que fosse necessário.
O peso da tarefa não recaia totalmente sobre suas costas e ele sentia-se afortunado em poder dividi-la com Yamamoto. Sua posição como Braço Direito às vezes exigia que ele precisasse viajar ou permanecer no Japão, mas nem sempre ao lado de Tsuna. Quando essas ocasiões surgiam, e eles precisavam estar em locais diferentes, o moreno assumia seu lugar e Gokudera sabia que poderia realizar seu trabalho tranquilamente.
Yamamoto havia conquistado totalmente sua confiança.
A troca de relatos terminou junto com os sushis. Ambos haviam compartilhado as experiências daquela última semana, ainda que a parte de Gokudera houvesse sido curta e sucinta. Meus dias foram passados no escritório da Família, lendo e relendo relatórios, sentindo sua falta, fazendo compras, assistindo televisão, sentindo sua falta, lidando com os demais Guardiões que são simplesmente inúteis, limpando a casa e eu já mencionei que senti sua falta? Que não houve um dia em que não desejasse que você estivesse ao meu lado ao acordar, assim eu não precisaria passar meus dias sozinho? Os lábios formaram um meio sorriso e ele riu internamente das coisas que jamais diria. Aquelas palavras e sentimentos eram somente seus.
O moreno ficou responsável pela louça, enquanto Gokudera a enxugou. Desde que retornara para casa, ele teve tempo livre para fazer tudo o que estava pendente: suas dinamites foram organizadas, a roupa de cama trocada e o restante da tarde passado entre cochilos e programas de televisão. Após a louça os dois caminharam até o quarto. Ele ligou a grande televisão com desinteresse, passando os canais até sentir-se obrigado a parar. Um dos canais de esportes comentava a final de baseball nacional e ele sabia que o idiota acabaria implorando para assistir.
O Guardião da Tempestade acomodou-se na cama, não deixando de admirar o tamanho do cômodo. É quase duas vezes maior do que meu antigo quarto. O quarto atual acomodava tranquilamente a cama de casal e o grande guarda-roupa. Em cada lado da cama havia uma cômoda pequena, apenas para uso pessoal. A televisão era presa à parede, e embaixo dela ainda havia uma cômoda maior. O guarda-roupa é dividido, mas sou eu quem cuida dos ternos de Yamamoto, porque se dependesse dele só haveria roupas informais e esportivas nas gavetas.
Yamamoto foi-lhe fazer companhia em seguida e ele sentiu os braços envolvê-lo. O moreno comentava sobre as jogadas e parecia extasiado com a possibilidade de voltar a treinar com as crianças do colégio Namimori. Mesmo que já formado, ele às vezes retornava à escola para se divertir com os jogadores. E eu sei que o diretor te convidou dezenas de vezes para assumir o time de baseball como treinador. E também sei que você não aceitou por causa da Família. Gokudera permaneceu encarando a televisão por cinco minutos, percebendo que estava totalmente entediado. Eu vou pegar alguma coisa para bebermos ou acabarei cochilando. Seu corpo projetou-se para o lado, mas ele não teve tempo de completar a ação. O pulso direito foi puxado e suas costas sentiram novamente o macio colchão. A tela da televisão desapareceu e uma grande sombra projetou-se sobre ele.
"Eu pensei que você estivesse concentrado no jogo idiota."
"Não há a mínima chance de eu me concentrar em outra coisa quando você está por perto," Yamamoto esboçou aquele travesso meio sorriso que ele adorava enquanto desligava a televisão. Os anos poderiam ter passado, porém, ele conservava as expressões juvenis, dando-lhe um toque levemente inocente.
Gokudera sentiu aquele interessante frio na barriga que sempre surgia quando eles estavam prestes a fazer amor. Seu corpo passou a se preparar para aquele momento e suas mãos seguraram o rosto do amante, embora não fosse preciso iniciar o beijo. Os lábios se encontraram e as línguas pediram passagem, tocando-se e esfregando-se. O moreno fez menção de deitar-se sobre ele, mas Gokudera o impediu ao tocar-lhe o peito e aproveitando a oportunidade para trocar de posição.
O Guardião da Chuva ergueu as sobrancelhas ao vê-lo sentar-se sobre seu colo e o Braço Direito não perdeu tempo, retirando a camiseta negra que vestia. A peça foi jogada para trás e ele posicionou-se melhor sobre o corpo que estava por baixo, sorrindo internamente ao sentir a ereção ao esfregar-se. Aquelas simples e naturais reações sempre o faziam imaginar que ele era o único capaz de consegui-las. Eu não acho que nenhum de nós conseguiria reagir dessa forma com outras pessoas.
Desejo nunca foi problema naquela relação e isso datava desde o princípio. Suas dúvidas e inseguranças começaram quando sua sexualidade aflorou e ele se deu conta de que estava atraído por Yamamoto. A partir dali, foi uma questão de tempo até que seu coração também pertencesse ao moreno. O beijo recomeçou, no entanto, dessa vez havia menos cerimônia e mais luxúria. As grandes mãos subiam e desciam por suas costas, segurando-o pela cintura e pressionando o corpo para baixo e, assim, tornando o contato inevitável.
Yamamoto venceria fácil uma competição de força física, logo, Gokudera não se surpreendeu ao vê-lo ficar por cima. A camiseta branca foi retirada e ele sentiu a respiração tornar-se mais longa ao encarar o peitoral e abdômen definidos. Suas mãos tocaram a pele naturalmente morena e o calor nas pontas de seus dedos levou um delicioso arrepio à sua nuca. É difícil de acreditar que ficamos uma semana separados. Os lábios do amante exigiram sua atenção e o beijo foi longo e profundo, do jeito que ele gostava, como se somente aquele gesto fosse capaz de transmitir todos os profundos sentimentos que um sentia pelo outro.
Os lábios tocaram seu pescoço sugando a pele enquanto uma das mãos descia por sua cintura. Seu corpo relaxou ao entender o que aconteceria e os olhos verdes fitaram o teto ao sentir a atenção que a língua dava ao mamilo esquerdo. Sua pele se arrepiava a cada toque, mesmo sabendo que a tortura havia apenas começado. Ele não irá me tirar desse sofrimento tão cedo. Yamamoto gosta de aproveitar cada momento.
Gokudera apreciava ter seu corpo mimado daquela maneira, contudo, precisaria confessar que a única coisa em sua mente era sentir o amante movendo-se dentro dele, tocando-o fundo e fazendo-o agir como uma pessoa completamente diferente. Os lábios pararam na perigosa divisa entre o abdômen e o baixo ventre. O Guardião da Tempestade não teve coragem de abaixar os olhos, sabendo que seria sua ruína.
Yamamoto era um amante zeloso, e não havia dúvidas sobre sua gentileza e dedicação em todos os quesitos da vida, inclusive na cama. As pontas dos dedos desceram a calça escura, mas não a roupa de baixo. Ao invés disso, ele deixou que sua língua subisse pela apertada ereção de Gokudera, da ponta à base, fazendo-o mover-se na cama. Não era segredo que o moreno gostava de apreciar as entradas com calma e paciência antes de degustar o prato principal, geralmente depois de longas viagens, então Gokudera sabia que precisaria tolerar mais alguns minutos antes de ter o que tanto queria... ou não.
"T-Tak... Takeshi." A voz normalmente rouca soou como um sussurro e ele sentiu a garganta arranhar. Seu corpo tremia em antecipação e ele se conhecia bem o suficiente para saber que acabaria implorando para ser devorado. "Pa... Pare de perder t-tempo..."
A resposta foram dois olhos castanhos que por um minuto pareceram sorrir com aquele pedido camuflado. Ele fez de propósito. Ele sabia que eu pediria para ir mais rápido. O Guardião da Chuva ergueu o corpo o suficiente para conseguir abrir a gaveta da cômoda localizada no seu lado da cama. Naquele local não havia nada além de lubrificantes, loções e preservativos e por isso na maioria das vezes, e quando havia visitas, ela permanecia fechada à chave. O tubo que dançou em seus dedos tinha uma coloração rosada e Gokudera inconscientemente passou a língua sobre os lábios, satisfeito com a escolha.
De todas as loções lubrificantes que eles já utilizaram aquela era de longe sua favorita. Seu frasco era pequeno e cabia perfeitamente na palma da mão, mas seu efeito extremamente potente. O produto relaxava seus músculos sem privá-lo das sensações e era também o que ele usava quando estava sozinho. A roupa de baixo azul foi retirada, descendo por suas longas e pálidas pernas. E, ao contrário da proposital demora anterior, dessa vez Yamamoto não o provocou, despejando um pouco de lubrificante nos dedos da mão direita antes de afastar as pernas.
O toque inicial foi frio, entretanto, não o suficiente para incomodá-lo. Gokudera fechou os olhos e procurou relaxar o máximo possível. Ele sentiu o primeiro dedo e o modo como ele o invadiu várias vezes antes de ser acompanhado por outro. A temperatura fria do lubrificante desapareceu e não havia local mais quente em seu corpo do que aquele que era tocado pelo moreno. O ritmo aumentou quando a resistência de sua entrada diminuiu e a boca do amante abocanhou a ereção. O duplo estímulo foi responsável por fazê-lo arquear as costas da cama, ouvindo os próprios gemidos e incrédulo de que aquela voz tão erótica e necessitada fosse realmente sua.
O sinal para que houvesse uma pausa aconteceu na forma de um trêmulo afago sobre os cabelos negros. Yamamoto ergueu o rosto e a visão daquela pessoa olhando-o enquanto tinha seu membro dentro da boca foi impagável. Gokudera o chamou para cima e foi obedecido de prontidão. O beijo trocado foi profundo e transbordando luxúria e serviu para que ele colocasse em prática seu plano de não deixá-lo tomar totalmente as rédeas da situação. Seu corpo projetou-se para cima e as mãos empurraram o largo peitoral, guiando-o para o lado.
O Braço Direito do Décimo Vongola ficou por cima, deixando que seus dedos tocassem o abdômen. Yamamoto nunca foi pálido como ele, sempre aparentando saúde e esbanjando uma vitalidade que Gokudera sabia que jamais teria. Os dedos desceram até a calça esportiva e a retiraram junto com a roupa de baixo negra. Os olhos verdes brilharam com a visão que se apresentava à sua frente e foi impossível não lembrar-se dos momentos íntimos e solitários passados sobre aquela cama durante a semana. Eu estava me cansando de precisar usar a imaginação e uma boa dose de lubrificante.
Ao contrário do amante, o Guardião da Tempestade preferia ir direto ao prato principal, já que isso o aproximava da sobremesa que era, sem sombra de dúvidas, sua parte preferida da refeição. Sua mão direita segurou a ereção, masturbando-a algumas vezes enquanto a esquerda colocava a franja atrás da orelha. O sexo entrou por sua boca, invadindo-a até atingir o fundo da garganta. Yamamoto tremeu e gemeu baixo, e foi impossível não erguer os olhos para admirá-lo.
O moreno sempre foi sincero com seus sentimentos e emoções. Para aquela pessoa, a vida precisava ser vivida ao máximo, deixando de lado medos e anseios, e buscando aproveitar cada oportunidade. Gokudera não compartilhava daquele estilo de vida, ainda que os anos de convivência deixaram-no menos rabugento e mais aberto às novidades que a vida pudesse oferecer. Ele ainda mantinha a personalidade explosiva, teimosia e falta de paciência, todavia, seria impossível negar a natural troca de entendimento e influências entre os dois.
Ele parou o que fazia ao perceber que o moreno estava aproveitando demais aquele serviço. O amante abriu os olhos, passando a língua entre os lábios e sorrindo. Seu corpo projetou-se à frente, mas Gokudera adiantou-se, inclinando-se e passando um joelho de cada lado. Yamamoto entendeu imediatamente o recado, pois voltou a acomodar-se melhor sobre a cama e seu sorriso tornou-se mais largo.
Gokudera precisou apenas esticar o braço, abrir novamente a gaveta da cômoda e retirar um punhado de preservativos. Um deles tocou os lábios e ele o abriu com os dentes, tentando esconder os dedos trêmulos de excitação. Seu coração batia rapidamente e seu corpo implorava alívio a ponto de ele quase errar ao colocar o preservativo sobre a ereção. Yamamoto, cuja atenção só parecia despertar em situações que colocassem Gokudera totalmente em evidência e, com isso, apontasse sua ansiedade e parcial timidez, riu baixo, ajudando-o com a tarefa e oferecendo um meio sorriso de consolo.
O Guardião da Tempestade guiou o sexo até sua entrada, fechando os olhos e lembrando-se da última vez que eles haviam feito amor, isso antes da viagem à Itália. Eu senti falta disso, um rouco gemido escapou por seus lábios ao sentir-se penetrado e, ao perceber que havia literalmente se sentado sobre o colo de Yamamoto, suas sobrancelhas se juntaram e se não fosse tão embaraçoso ele até mesmo sorriria. Gokudera amava tê-lo dentro dele.
Os segundos necessários para que seu corpo se acostumasse à invasão foram poucos. O Braço Direito pousou as mãos sobre o abdômen, erguendo o quadril e voltando a se sentar sem um pingo de hesitação. Seu corpo inteiro sentiu a investida, os pelos de seus braços se tornaram arrepiados e todos aqueles dias solitários desapareceram completamente. Sexo com o moreno tinha aquele efeito sobre ele, capaz de tirá-lo de órbita e fazendo-o esquecer-se do restante do mundo.
Duas mãos subiram por suas pernas a partir da quarta estocada, apalpando-as e atingindo sua cintura. Os olhos verdes se abriram e Gokudera passou a mover o quadril com mais frequência, sendo incentivado pelo de Yamamoto. Os gemidos, que inicialmente eram sussurrados e contidos, não demoraram a ecoar com menos pudor, contrastando com os sons da cama e do próprio ato.
Não demorou a que ele se rendesse aos desejos. Aquela era sua posição favorita, não somente porque o peso de seu corpo o fazia senti-lo totalmente, mas por ter a chance de vê-lo. Porém, a posição também o desfavorecia, visto que, em determinado momento, seus joelhos se cansavam e o moreno inevitavelmente precisava tomar as rédeas da situação.
O momento aconteceu, como sempre, sem que ele esperasse. Em um instante Gokudera estava por cima, sentindo o amante invadi-lo, para no outro ser virado sobre a cama. Pensamentos e análises viriam em segundo plano, uma vez que Yamamoto não perdeu um segundo, afastando suas pernas com pressa e voltando a penetrá-lo. O Guardião da Tempestade levou as costas da mão até os lábios, tentando abafar suas reações, mas sabendo que falhava. Ele nunca conseguia esconder o quanto gostava de fazer amor, principalmente após um período de ausência.
A mão direita desceu até a ereção, passando a masturbá-la no mesmo ritmo das estocadas. Gokudera poderia permanecer deitado e apenas aproveitando as investidas do amante, pois o orgasmo seria inevitável. No entanto, ele sabia que aquela noite não acabaria tão cedo e seu corpo implorava aquele primeiro alívio. O pré-orgasmo tornava os movimentos fáceis e não foi preciso muito para que o homem de cabelos prateados deixasse escapar um gemido mais alto enquanto assistia ao próprio sêmen pintar seu abdômen.
O Guardião da Chuva segurou seu quadril com mais força, inclinando-se à frente e o penetrando uma última vez. Gokudera fechou os olhos e deixou que seu corpo experimentasse todas aquelas sensações que, apesar de não serem inéditas, nunca se tornavam repetitivas. As costas arquearam sobre o colchão e ele soube que o amante chegara ao orgasmo, mesmo usando o preservativo. O ranger da cama cessou, mas as respirações evitavam que o silêncio reinasse no quarto. Ele umedeceu os lábios, ouvindo as batidas de seu coração e sentindo quando o membro deslizou para fora de sua entrada.
Seus olhos demoraram algum tempo para se abrirem e, quando o fizeram, a visão que lhe foi mostrada o fez arrepiar-se com os prospectos que aquela noite reservava. Yamamoto havia se deitado ao seu lado, a pele brilhando com suor e um largo sorriso nos lábios avermelhados. Gokudera virou-se para encará-lo, esticando a mão e tocando os cabelos negros e úmidos. Os dedos desceram até a nuca e não foi preciso chamá-lo para um beijo, já que aquele era um desejo compartilhado. A carícia foi longa e acompanhada pela mão que desceu por suas costas, contornou o quadril e o invadiu profundamente com três dedos, tocando seu ponto especial e fazendo-o quase cantar de puro deleite.
O Braço Direito gemeu entre o beijo, juntando os corpos e intensificando a carícia. Os lábios se moviam com fome, devorando um ao outro quase no mesmo ritmo em que os dedos o penetravam, fazendo com que sua ereção retornasse e esbarrasse constantemente na do amante. Os olhos se abriram e o brilho refletido fez suas pernas amolecerem. Quando foi que eu me tornei tão suscetível aos seus encantos?
Gokudera virou-se, oferecendo as costas, mas permanecendo na mesma posição. Elas encostaram-se ao largo peitoral e os lábios de Yamamoto foram imediatamente para o pálido pescoço, beijando-o e marcando-o. Ele sentiu sua perna direita ser levemente erguida e o membro o penetrar em um rápido movimento.
"Hayato..." Foi sussurrado em sua orelha ao mesmo tempo em que o moreno se retirava e voltava a invadi-lo. Gokudera arrepiou-se, jogando a cabeça para trás e sem omitir o gemido. Seu corpo sabia que só parariam quando não conseguissem mover um único músculo sequer. Quando um deles viajava era daquela forma que passavam a primeira noite após o reencontro e ele adorava aquelas horas incansáveis de sexo, as diferentes posições e a certeza de que estavam juntos novamente. Entretanto, intimamente Gokudera gostaria que as ausências se tornassem cada vez mais esporádicas, até o dia em que nenhum deles precisasse se afastar do outro.
Até o dia em que Yamamoto nunca deixasse o seu lado.
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O sol entrava por uma fresta da persiana, iluminando o quarto apenas por uma fenda. Os olhos verdes se abriram devagar, embaçados e incertos, encarando a persiana e se lembrando de que eles precisavam trocá-la por uma que omitisse totalmente os raios solares. Pesado... eu me sinto pesado... As sobrancelhas se juntaram e ele tentou mover-se, mas sem sucesso. Havia alguma coisa sobre suas costas que o impossibilitava de levantar-se.
Seu rosto virou-se devagar, esboçando um meio sorriso sonolento ao ver Yamamoto dormir como uma criança que havia brincado demais e que se rendera ao justo e necessário descanso. Gokudera arrastou-se para o lado devagar, movendo-se o mínimo possível para não acordá-lo. O braço foi erguido e colocado sobre o colchão, mas ele não conseguiu levantar-se, sentando-se na cama e respirando fundo. A dor em seu quadril o fez lembrar-se da noite anterior, embora as roupas jogadas e as embalagens de preservativos ao chão servissem também como lembrete.
Oito da manhã, muito cedo. Ele juntou o pouco de forças que possuía para abaixar a mão e pegar um dos travesseiros que havia caído ao chão. O amante tinha um sono pesado, então não foi difícil erguer sua cabeça e acomodá-la sobre o macio travesseiro. Os dois cobertores foram puxados dos pés da cama até a cintura do Guardião da Chuva, que dormia totalmente nu.
O Braço Direito espreguiçou-se, arrastando-se até o banheiro para atender a um chamado da natureza. Eu não dormi direito nesses dias e me sinto cansado. A convivência o havia mimado, ele precisaria reconhecer. O sempre autossuficiente Gokudera Hayato, que havia passado a maior parte de sua vida sobrevivendo sozinho, acostumou-se a ter companhia na larga cama de casal; ter braços fortes envolvendo-o nos dias de frio e acordar de manhã utilizando o largo peito do moreno como apoio para sua cabeça.
Quando precisava viajar ou ficar sozinho no apartamento, o Guardião da Tempestade sentia os efeitos que aquele relacionamento causou. Ele sabia que não era dependência, e sim um morno sentimento que o fazia sorrir quando acordava no meio da noite e encontrava-se nos braços daquela pessoa.
Para ele, a vida não era completa sem Yamamoto.
Gokudera retornou ao quarto e ergueu os cobertores, escondendo-se no corpo do moreno, que o abraçou automaticamente por reflexo. Ele ergueu os olhos, encarando a face tranquila daquele que dormia como se não tivesse preocupações na vida. Os anos foram gentis com o moreno, e ele havia se transformado em um belo homem. O idiota se tornou ainda mais popular. Eu vejo como as mulheres o olham quando saímos para fazer compras ou jantar fora. Admirar aquela pessoa era um de seus hobbies favoritos, por assim dizer. Gokudera muitas vezes era o último a dormir, e aproveitava aqueles momentos para observá-lo, chegando a passar quase uma hora somente admirando as belas feições. E ele não faz a menor ideia disso...
Yamamoto foi o "primeiro" em vários sentidos.
Ele foi, e continua sendo, meu primeiro amor. E junto com aquelas novas emoções veio também o ciúme, o que o surpreendeu totalmente a ponto de ele não se reconhecer quando percebeu que ficava incomodado com a atenção que o moreno recebia. Nós não tivemos muito tempo no colégio, mas depois que nos formamos eu entendi algumas coisa. Foi um comentário, contudo, que o fez ver a situação por outro ângulo. Os dois deixavam um restaurante familiar quando duas garotas comentaram entre si que o idiota era "um marido perfeito". Aquela expressão permaneceu em sua cabeça durante vários dias, fazendo-o sentir-se incrivelmente afortunado por ser a pessoa por quem Yamamoto havia se apaixonado.
O pensamento o fez suspirar ao pensar que há cinco anos, por exemplo, ele nunca se imaginaria em tal situação e tendo aquele tipo de devaneio. Há cinco anos eu o rejeitava no terraço do colégio, com palavras duras e uma superioridade que jamais tive. Se Yamamoto não fosse idiota nós provavelmente não estaríamos aqui hoje. Aquela realização já havia passado várias vezes por sua mente e parte dele achava que jamais seria capaz de desculpar-se totalmente por aquele dia. Imaginar uma vida que não fosse aquela parecia completamente absurdo, pois isso significaria que ele e Yamamoto não estariam juntos.
O moreno moveu-se um pouco, fazendo-o afastar aquelas ideias. Seu rosto afundou-se no peitoral e seus olhos se fecharam. Ele não sabia se existia uma realidade em que o moreno não fazia parte de sua vida, mas Gokudera achava impossível que, eventualmente, eles não se entendessem e tivessem seu final feliz. Eu tenho a impressão de que, independente de como nossas vidas seguissem, um dia acabaríamos na mesma linha de chegada. Porque naquela tarde de primavera no terraço, Yamamoto não abriu meus olhos e me mostrou algo novo. Ele apenas me lembrou de algo que eu até então não havia percebido: o quão importante ele é para mim.
- FIM.
Notas finais
Finalmente o primeiro especial de Spring, Summer, Fall, Winter... and Spring entregue! Eu o escrevi no meio do ano, mas o hiatus foi adiando e adiando, mas sabia que não poderia terminar 2015 sem postá-lo.
Já mencionei antes, mas eu amo escrever com esses personagens mais velhos. Não sei, temáticas adolescentes são boas e primeiros amores soam tão mágicos, mas reconheço que acho mais interessante os dramas que me permitem utilizar embates emocionais e psicológicos, o que eu não conseguiria com adolescentes, porque soaria meio forçado. Porém, parte de mim sempre voltará à juventude, quando tudo acontece.
Sem mais delongas, semana que vem postarei o especial D18 e com ele encerrarei o ano. Deixarei uma notinha de rodapé especial, então termino por aqui!
Obrigada por lerem~
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