Theres a Hell...
34 Capítulo 33- Praying for Better Days
- Quem era? — perguntou Brian mesmo já sabendo a resposta.
Meu corpo eletrizado andou até o dele, parando em sua frente.
— Johnny invadiu a escola com Kevin e Jacoby. Querem que eu encontre eles. Acho que Kevin vai machucar Johnny se eu não for. — olhei para Brian. — Eles vão machucar o Johnny de qualquer jeito.
Ele cruza os braços com o semblante fechado.
— Kevin?
— Um tempo atrás eu tinha ido na biblioteca, encontrei uma reportagem que dizia que ele foi submetido a inquérito por uma morte. Ele passou no laboratório e viu que eu 'tava lendo. Desde aquilo, eu nunca mais senti nada de saudável vindo dele.
— Devo saber de mais alguma coisa?
— A garota assassinada era namorada de Kevin. Foi enforcada em uma árvore. Agora ele disse no telefone: "Se você não vier, tem uma árvore no pátio esperando pelo pescoço do Johnny."
— Eu vou até lá e vejo o que 'tá acontecendo. Não vou demorar. — Ele desviou rapidamente de mim, saindo do quarto de minha mãe e indo até o meu. O segui.
Lá Brian começou a se vestir e eu fiz o mesmo. Quando ele terminou de colocar suas calças, enfiou a mão no bolso e tirou a chave de seu carro.
— Devemos chamar a polícia.
— Não! Nunca. — ele balançou a cabeça. — Mas me tire uma grande dúvida... quem é Jacoby? Quem é esse cara?
— Ele é amigo de Kevin. Ele 'tava lá no parque do Arcanjo, no fliperama quando você me flertou.
Ele franziu a testa.
— Se houvesse outro cara, eu me lembraria dele.
Ele abriu a porta de casa e eu continuei seguindo-o.
— Kevin 'tá esperando por mim, não por você.
— Se eu deixar que você venha, você vai me obedecer como geralmente obedece sua mãe, Zachary?
— Vou!
— Se eu disser para você pular?
— Vou pular!
— Se eu disser pra ficar no carro?
— Vou ficar no carro.
Brian sorriu. Atravessamos o jardim e entramos no carro sem pressa. Brian dirigiu nas ruas escuras e silenciosas pela cidade. Não demorou muito para chegar à escola. Estacionou o carro em alguma parte leste do estacionamento e desligou o motor. O terreno da escola era como o de qualquer outro, muitas árvores e muito verde. Percorri meus olhos por todas os galhos presentes, certificando-me de que Johnny não se pendurava em nenhuma delas.
— Não 'tô sentindo algo bom com tudo isso.
— Fique no carro e se mantenha escondido. — disse Brian entregando-me as chaves. — Se alguém sair do prédio, fuja!
Ele saiu, dando um selinho em mim antes. Estava usando uma gola V preta de manga comprida e calças escuras, como sempre. O andar dele era bonito. Suas pernas eram firmes e eu nem devia pensar em Brian naquele momento. Porém, ele atravessou a rua e momentos depois se fundiu completamente com a noite.
(...)
Cinco minutos passaram. Dez se tornaram vinte. Lutei para ignorar a sensação aterrorizante de estar sendo vigiado. Observei a escuridão e vi que não havia nenhum sinal de Brian. Por que ele demorava tanto?
O celular de Brian tocou dentro do console do carro. Tomei-o em minhas mãos e o número era desconhecido. Atendi do mesmo jeito.
— 'Tô te vendo. — disse Kevin quando atendi. — 'Tá sentado no carro do namoradinho?
— Apareça então!
— Tô vendo você de uma das janelas do segundo andar. Estamos brincando aqui.
— Foda-se, eu não quero brincar.
Ele desligou.
Com o coração na garganta, saí do carro, passando por cima de todas as ordens de Brian. Olhei para as janelas da escola. Não achava que Kevin sabia da presença de Brian, a voz dele parecia impaciente precisando da minha presença.
Sob a sombra do medo, caminhei para a porta principal da escola.
Mergulhei na escuridão. Meus olhos levaram vários segundos para distinguir uma faixa de luz vindo da rua, que atravessava o vidro na metade superior da porta. A cerâmica do piso refletia um brilho fosco. Os armários estavam alinhados nos dois lados do corredor como se fossem dois robôs gigantes. Em vez de tranquilizar quem passava por ali, os corredores só sabiam ameaçar.
As luzes externas iluminavam alguns metros da passagem, mas depois disso, eu não conseguia ver mais nada. Perto da porta havia uma série de interruptores. Liguei todos, mas as luzes não acenderam.Havia energia do lado de fora, então fizeram aquilo de propósito. Eu não podia ver nada e nem ninguém, tinha que seguir minha intuição e tato até encontrar Brian, Kevin, Johnny ou Jacoby.
Guiei-me pela parede, me arrastando. Em qualquer dia de aula eu saberia o caminho perfeitamente, mas estava tudo escuro e eu não podia ver nem um palmo a minha frente. No primeiro cruzamento, fiz o reconhecimento mental da área. Para a esquerda era a sala da banda da escola, e para a direita eram as salas. Me arrastei nessa direção, indo até as salas de aula.
Meu pé esbarrou em algo e antes que pudesse reagir, caí de carra no chão. Quando a lua saiu detrás das nuvens, uma luz cinzenta atravessou o meu caminho e iluminou o objeto no qual eu tinha tropeçado. Jacoby estava deitado de barriga para cima com a expressão congelada e um olhar vazio. Ele morreu de olhos abertos. O cabelo negro estava emaranhado e jogado no rosto, as mãos descançavam molengas as suas laterais.
Apoiei-me em meus joelhos e arregalei os olhos. Aproximei meu corpo do dele e pousei minha mão em seu peito. Ele não respirava. Tinha morrido.
Levantei, abafando um grito de socorro. Queria chamar Brian, mas Kevin me ouviria.
Gelei pensando que Kevin poderia saber onde eu estava. Ele poderia estar observando-me o tempo todo, deixando o seu jogo ainda mais prazeroso. A luz que vinha do alto diminuiu, e olhei ao redor. Vários corredores sem fim me cercavam. Decidi ir para a biblioteca, abandonando o corpo de Jacoby sozinho. Por que ele 'tá morto? Johnny também estaria? Corri em passos largos até a biblioteca, aproveitando-me da pouca luz que se estabelecia ainda no lugar. As portas da biblioteca estavam destrancadas. Fui em frente, apalpando o caminho algumas vezes. Depois de uma três prateleiras de livros, havia uma sala escondida na biblioteca que era a prova de som. Se Kevin queria alguma coisa, ele provavelmente o faria ali. Estava a ponto de seguir nessa direção quando ouvi um chiado masculino. Fiquei parado, imóvel. As luzes do corredor ganharam vida e iluminaram a escuridão de tudo. O corpo de Jacboy estava a poucos metros de distância, a boca entreaberta, a pele sem cor. Os olhos dele se reviraram e ele estendeu um de seus braços para mim.
Olhei-o dentro dos olhos e pensei em voar no pescoço dele. Por que ele 'tava me enganando? Fazia parte do jogo?
Comecei a me incomodar quando senti uma voz não familiar em minha cabeça.
Corra, Zachary, era Jacoby. Vou te matar se não o fizer.
Então virei-me e corri, corri o mais rápido que pude, tropeçando e me desequilibrando sempre. Estava indo em direção a saída, mas ela parecia longe, muito longe. E de fato estava longe mesmo, vários corredores longos me separavam do lugar.
Tropecei mais algumas vezes, porém continuei correndo. Quando isso aconteceu, as luzes se apagaram novamente e logo eu teria menos chances de conseguir fugir.
— Brian! — tentei gritar, mas minha voz não saiu e eu engasguei.
Senti um puxão por trás de mim e perdi o equilíbrio. Outro puxão me fez voar para o lado. Minha cabeça bateu em um dos armários, deixando-me atordoado.
Um estreito facho de luz varreu minha visão e imaginei que aquilo era uma armadilha de Brian. Mas não era, era uma armadilha de Jacoby e Kevin da qual eu nem sonhava sequer o motivo. Quando tentei enxergar através da escuridão, um par de olhos claros se tornara negro atrás de uma grande e assustadora mascára de esquiador. A luz na verdade, vinha de uma lanterna de mineiro presa à máscara. Meu corpo quase que falhou.
Levantei-me o mais rápido que pude e tentei correr. Um dos braços veio à frente, impedindo minha fuga. Ele levantou o outro braço, predendo-me contra o armário.
— Você achou que eu estivesse morrido, seu idiota? — Eu podia sentir o sorriso gelado cheio de desprezo. — Não pude perder a última chance de brincar com você. Foi divertido. Quem você pensava que fosse o sujeito malvado? Kevin? Ou passou pela sua cabeça que seu melhor amigo poderia ter feito isso? 'Tá ficando quente, né? O medo é assim. Faz surgir o que há de pior na gente.
— É você, seu bastardo desgraçado! — Minha voz vacilava e eu me sacudia.
— Em carne e osso!
— Como fez isso? — perguntei quase gritando. — Eu vi você morto, seu filho da puta.
— Você 'tá me enchendo demais. Foi você o tempo inteiro, Zacky. Se sua mente não fosse tão fraca, eu não poderia ter feito nada. Estou fazendo você sentir medo? Então aguente essa: a sua mente de todas que eu já invadi é de longe, a mais fácil. E a mais divertida.
Passei a língua nos lábios, cerrando os punhos.
— Cadê o Johnny?
— Não mude de assunto, você realmente deveria aprender a controlar o medo.
Era um jeito de Jacoby que eu não conhecia. Sempre foi tão silencioso e misterioso, tão mal-humorado, irradiando a própria falta de interesse em todos que o cercavam...
Em um ato rápido ele agarrou meu braço e me jogou para trás dele. Cravei as unhas curtas nele e me contorci, tentando fugir. Ele me deu um soco no estômago que não fora tão forte ao ponto de eu conseguir acertá-lo no queixo, deixando-o caído. Lutei para recuperar o fôlego, o ar parecia odiar meus pulmões.
De longe vi Jacoby sentado se recompondo. Massageava as marcas que minhas unhas roídas tinham deixado em seu braço.
— Você vai pagar por isso.
— O que você quer, desgraçado? — Minha voz soou mais grave do que eu permitira.
Ele andou até mim e me puxou pelo braço, me arrastando pelo corredor enquanto eu tentava fazer ele me largar. Abriu um porta com um chute e me jogou lá dentro. Caí, e minhas mãos encostaram o chão duro. A porta bateu e a única luz era a do capacete.
Eu estava na sala do professor Portnoy. Sala de Biologia, onde eu tinha as aulas mais chatas na companhia de Brian.
Analisei a sala e algo muito brilhante me chamou atenção. Um bisturi metálico estava jogado ao chão, perto da lixeira. Desviei o olhar, tentando não me equivocar e deixar aquela chance fugir de mim. Engatinhando com o olhar de Jacoby sobre mim, sentei-me em cima do bisturi e peguei-o rapidamente, sem ele nem perceber. Guardei na cintura do jeans instantes antes de Jacoby me puxar de novo e me colocar em pé.
— Cortei a eletricidade. Não tem graça brincar de esconde-esconde com luz.
Ele me soltou, pegando duas cadeiras e colocando-as frente a frente.
— Sente.
Não parecia uma ordem.
Eu resisti por um momento, mas Jacoby me pegou pelos ombros, me forçando a sentar. Senti a frieza do metal atravessar minha pele na cintura.
— Entregue-me seu celular.
— Esqueci no carro.
Ele soltou uma gargalhada.
— Você quer brincar comigo? Seu melhor amigo 'tá trancado em algum lugar desse prédio que você nem sabe qual é.
— Agora estamos sozinhos. — Ele afundou na cadeira diante da minha e esticou as pernas. Um dos braços pendia atrás do banco. — Vamos conversar, baby.
Pulei da cadeira. Jacoby me agarrou quando dei quatro passos. Me sentou outra vez.
— Eu tinha uma banda, sabe, faz tempo. Mas você sabe, briga de integrantes quase sempre dava problemas para todos. Comecei a me irritar com o pessoal da minha banda. Sabe o que fiz com um deles?
Estremeci.
— Não precisa ter medo. — ele sorriu docemente.
— O Kevin me ligou! Você o feriu?
Ele curvou-se para frente como se quisesse dividir um segredo.
— Se você quer cometer um crime perfeito, o legal é não deixar provas. Kevin foi parte da história toda, você sabe. Ele sabia demais sobre tudo.
— E é por isso que eu 'tô aqui? Por que eu apenas sei demais?
Jacoby riu.
— Kevin esqueceu de mencionar que você sabe sobre Amanda Hendrick.
— Foi ele quem a matou ou você?
— Eu precisava provar a lealdade de Kevin. Tomei o que era mais importante para ele. Kevin estava lá graças a uma bolsa, e todos passavam por cima dele por isso. Eu o ajudei quando cheguei. Fui seu benfeitor. No final, era uma questão de escolher entre mim e Amanda. Objetivamente, entre o dinheiro e o amor. Aparentemente não há graça em ser um duro entre os mais ricos da escola, então o comprei. E foi então que eu soube que poderia contar com ele quase eu quisesse chegar em você.
— Eu?
— Ainda não entendeu? Brinquei esse tempo todo com você, como uma marionete, Baker. Como um boneco, sabe? A pessoa que eu realmente quero ferir, não pode ser ferida. Você sabe quem é essa pessoa?
Todas as sinapses do meu corpo pareciam ter se desfeito. Meus olhos perderam o foco. O rosto de Jacoby parecia uma pintura impressionista, toda manchada e sem detalhes. O sangue deixou minha cabeça e senti que podia desmaiar ali. Eram os meus comprimidos para emagrecer, eu precisava deles, era quase que uma droga para o bem-estar do meu próprio corpo.
Jacoby me acordou com um tapa forte na cara. Senti minha pele queimando em brasa.
— Se concentra, gordo idiota! Sobre o que estamos falando?
— Não sei. — Não consegui elevar a voz além de um sussurro.
— Você sabe por que ele não pode ser ferido? Porque não tem um corpo humano. É desprovido de sensações físicas. Se eu o trancasse e o torturasse, de nada adiantaria. Ele não pode sentir a mínima dor. Com toda certeza, agora você já deve imaginar. Você anda passando tempo demais com essa pessoa. Mas 'tá quieto por...? Não consegue imaginar?
Uma gota de suor escorreu em minhas costas.
— Todos os anos, no início do Cheshvan, ele assume o controle do meu corpo. Durante das semanas. É a época em que perco o controle. Não tenho liberdade e muito menos opção. Não tenho o luxo de escapar porque ele é de fato, mais forte que eu. Você imagina o que é isso? Imagina? — berrou.
Mantive a boca fechada, sabendo que seria perigoso falar. Jacoby soltou uma gargalhada, uma corrente de ar passava pelo seus dentes. Era o som mais sinistro que eu hamais ouvira.
— Fiz um juramento em que permiti que ele assumisse meu copro durante o Cheshvan. Eu tinha 16 anos. Ele me torturou e me obrigou. Quando acabou, disse que eu não era mais humano. Você acredita nisso? Contou que minha mãe havia se deitado com um anjo caído. — Então ele abriu um sorriso cheio de ódio, o suor caindo de sua testa. — Por acaso mencionei que herdei algumas coisas de meu pai? Como o Brian, eu sou um enganador. Faço você ver mentiras. Faço você ouvir vozes.
Bem assim, 'tá me ouvindo, Zachary?
- Mas não se preocupe, Zacky querido. O que Brian sente por você é realmente verdadeiro. Você é a última pessoa para qual ele faria algo e é por isso que você está comigo aqui hoje.
Ele bateu outra vez em meu rosto.
— O que 'tá acontecendo? Você 'tá muito quieto.
Jacoby era Dakota. Era um nefilim. Lembrei-me da marca de nascença que Rev havia me contado. Jacoby e eu tínhamos o mesmo sangue. Em minhas veias corria sangue de um monstro. Fechei os olhos e a raiva começou a correr dentro de mim.
— Lembra da noite que eu te encontrei pela primeira vez? Pulei na frente do carro. Gostei de assustá-lo, gostei de vencer. Peguei o gostinho naquela primeira noite.
Senti uma alívio, era mesmo Jacoby por trás daquilo tudo, eu não 'tava louco.
— Você não revirou meu quarto. Só me fez pensar que isso tinha acontecido. Foi por isso que a polícia achou que eu era doente e louco.
Ele aplaudiu lenta e deliberadamente.
— Quer saber a melhor parte? Você poderia ter me bloqueado. Você nunca resistiu. Era tudo muito novo para você, né? Eu entendo...
Tudo fazia sentido e eu deveria me sentir aliviado, mas foi o contrário. Eu não tinha vantagem nenhuma naquele jogo tão bem regrado de Jacoby. Eu só tinha de aprender a bloqueá-lo.
— Imagine-se no meu lugar. Com o corpo violado ano após ano. Imagina um ódio tão intenso que não pode ser curado por nada além de vingança. Imagine gastar grandes doses de energia e recursos para acompanhar de perto o objeto de sua vingança, aguardando pacientemente o momento em que o destino lhe apresenteasse a oportunidade não de apenas um acerto de contas, mas de mudar o equilíbrio da balança a seu favor. — Seus olhos se fixaram nos meus. — Você é a oportunidade. Ferindo você, firo Brian.
— Você superestima o meu valor para Brian.
— Acompanho Brian há séculos. Quando você ainda morava na Califórnia, ele fez a primeira visita à sua casa, embora você nem saiba. Ele o seguiu nas compras algumas vezes. De vez em quando, dava-se ao trabalho de parar o que 'tava fazendo apenas para vigiar você, Zachary. E o passo mais importante dele foi se matricular na escola. Eu não conseguia entender o que havia de tão especial em você fora a beleza. Fiz um esforço para descobrir e venho observando-o durante um tempo.
Um horror absoluto tomou conta de mim. Naquele momento eu soube que não era a presença do meu pai que eu sentia, seguindo-me como um possível guardião. Era Jacoby. Ou Brian. Era a mesma presença gelada e quente, tudo mesclado.
— Eu não queria chamar a atenção de Brian e recuei. Foi quando Kevin entrou em cena e deixou Brian mordido de ciúmes. Não levou muito tempo até que ele me contasse o que eu já imaginava. Brian 'tá apaixonado por você.
Todas as peças estavam no lugar. Jacoby não tinha ficado doente no dia do Borderline. Os desaparecimentos dele do Delphic, no parque do Arcanjo. Ele simplesmente precisava permanecer longe das vistas de Brian para não enfrentá-lo.
— O plano era te matar durante o passeio na praia, no feriadão, lembra? Mas Kevin fracassou em tentar convencer você. Outro dia segui você na saída do Blind Joe's e atirei. Imagine minha surpresa quando descobri que tinha matado uma mulher com sacos de lixo, vestida com as suas roupas?! Mas tudo funcionou, aqui estamos nós.
Mudei de posição no assento, e o bisturi entrou mais em minha calça jeans. Se não fosse cuidadoso, ficaria fora do meu alcance. Se Jacoby me forçasse a ficar de pé, talvez a ferramenta escorregasse. E tudo estaria perdido.
— Deixe-me adivinhar no que você 'tá pensando. — disse Jacoby se levantando e andando pela sala. — Você 'tá começando a desejar nunca ter encontrado Brian Haner, certo? Preferiria que ele nunca tivesse caído de amores por você. Vá em frente. Ria da situação em que ele o colocou, Baker. Ria das próprias escolhas que você sempre soube que eram erradas.
Ao ouvir Jacoby falar sobre o "possível" amor de Brian, fui tomado por algo que eu nem sabia o que era. Algo totalmente novo e quente que aquecia meu interior.
Ponderei por um tempo e decidi que era a hora certa de tomar alguma atitude. Apalpei a calça e retirei o bisturi, levantando rapidamente.
— Não se aproxime de mim ou eu vou te rasgar, eu juro que vou.
Jacoby soltou um som gutural e lançou um braço contra a bancada na frente da sala.
Tubos de ensaio se espatifaram contra o quadro-negro, papéis voaram. Ele avançou na minha direção. Em total pânico, segurei o bisturi com toda força ainda que ele tentasse escorregar de minha mão suada. A ponta do objeto encontrou a palma da mão de Jacoby, rasgando o lugar. Afinal, ele não era totalmente anjo.
Jacoby gemeu altamente e deu um passo para trás. Sem esperar, enfiei o bisturi em sua coxa, puxando-o com toda força para baixo, rasgando uma boa parte de sua pele, deixando-o cravado lá. Shaddix espantou-se com a dor que o metal projetara em sua perna, puxando-o com as duas mãos. A agonia contraia seu corpo em dor. Abriu as mãos e o bisturi caiu todo melado de sangue com estardalhaço.
Ele deu um passo vacilante em minha direção. A vantagem era minha.
Desviei e tentei correr no escuro, quando meu quadril bateu na quina de uma das mesas. Porra, como doeu. Perdi o equilíbrio e caí outra vez, vi o bisturi a poucos metros de distância novamente.
Jacoby me alcançou e me pegou, virando-me de barriga para baixo, prendendo minhas pernas com as dele. Apertou meu rosto contra o chão, esmagando esmagando meu nariz, abafando meus gritos e forçando meus piercings em minha gengiva inferior.
— Boa tentativa! Mas não vai conseguir me matar. Sou um nefilim. Sou imortal.
Tentei alcançar o bisturi com uma das mãos, me arrastando no chão mesmo com Jacoby por cima de mim. Tateei o chão e toquei o objeto quando Jacoby me arrastou.
Virei-me de frente quando ele saiu de cima de mim e dei um chute com toda a força em sua perna machucada. Ele gemeu, cambaleou e caiu. Consegui me levantar, ganhando tempo. Jacoby era rápido como Brian, e arrastou-se até a porta entre mim e o pedaço de madeira.
O cabelo negro pendia diante dos olhos. Suor corria pelo seu rosto. A boca estava torta, contraída em dor.
Todos os músculos do meu corpo estavam tensos, e eu além de mole estava exercitando muito meu físico esses dias. Seria impossível eu entrar "em ação" cansado como eu estava.
— Boa tentativa de fuga, também! Mas corra, Zacky. Não sabe o quanto isso me parece divertido.
Riu cínico e deitou no chão, como se fosse exatamente para eu correr. E eu corri no escuro, rezando mentalmente por dias melhores.
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