No dia seguinte...
(...)
— Podemos pedir para viagem? — Brian perguntou.
Estávamos no drive-thru de meu fast food preferido.
Brian tinha ido me buscar em casa para jantar comigo essa noite. Eu não sabia explicar o que tinha acontecido entre a gente, mas durante o dia todo — até no colégio -, nós não nos desgrudamos. Eu não tinha do que reclamar.
Tudo calmo, como deveria ser.
— 'Tá. Eu quero um lanche de peru com porção extra de picles e maionese, mais um cheeseburger e uma Coca-Cola grande.
Brian me olhou um pouco assustado.
— Coca Zero, por favor. — adicionei.
— Verei o que posso fazer.
A fila entre os carros estava muito grande, então Brian preferiu estacionar o carro e entrar no próprio estabelecimento para comprar o lanche.Ele havia deixado as chaves na ignição e o motor ligado, seria rápido.
Nos primeiros minutos sozinho, revi nossa noite anterior até aquele momento. Lembrei dos vidros embaçados, dos gemidos e de todas as coisas que fui capaz de fazer a Brian. Então acordei e lembrei também que estava sozinho no carro dele. Seu espaço particular.
Se eu fosse Brian e quisesse esconder alguma coisa altamente secreta, não esconderia no quarto, no armário da escola e nem na mochila. Todos esses lugares poderiam ser revistados sem aviso. Eu, particularmente esconderia tudo em meu Range Rover preto com um sofisticado sistema de alarme.
Soltei o cinto de segurança e vistoriei a pilha de livros escolares que estava aos meus pés, a maioria havia sido usada hoje durante as aulas.
Eu queria descobrir algum de seus segredos e esperava encontrá-los ali dentro.
Abri o porta-luvas e vasculhei alguns manuais sobre o carro e alguns documentos do mesmo. Dentro do compartimento tinha também um CD do AC/DC — Highway To Hell e algumas notas fiscais, até que esbarrei meus dedos em algo metálico, era uma lanterna. Tentei ligá-la, mas não acendeu. Estava leve, provavelmente sem pilhas.
Então, foi quando meus olhos bateram em um líquido de cor ferrugem, que secou em umas pontas do objeto.
Sangue.
Cuidadosamente devolvi a lanterna ao porta-luvas e o fechei. Jurei para mim mesmo que havia um monte de situações em que se poderia manchar uma lanterna de sangue. Como segurá-la com uma mão machucada, usá-la para empurrar um animal morto no meio da estrada ou apenas... batê-la com força contra um crânio repetidamente, até ele sangrar.
Com o coração aos pulos, precipitei-me a concluir a primeira ideia que passou em minha mente. Brian havia atacado Mike Hranica. Ele tinha me deixado em casa na quarta à noite, indo procurá-lo, então ele o atacou, Mike deu queixa e tinha polícia no caso. Brian era culpado.
Racionalmente, eu sabia que se tratava de uma conclusão apressada e uma forçação de barra, mas não era por conta dos fatos anteriores que eu deveria acobertar suas palhaçadas. Ainda mais com a polícia envolvida.Além disso, eu sabia que Brian tem um passado assustador e muitos, muitos segredos. Ele nunca me escondeu essa hipótese. Agora, se violência e crime era um de seus mistérios, eu não estava pronto para sair por aí com ele.
O brilho de um relâmpago ousou rachar o céu, iluminando o horizonte. Brian deixou o restaurante segurando a sacola parda em suas mãos, atravessando o estacionamento para entrar no carro.
Ele me entregou a sacola, e eu havia perdido a fome.
— Um lanche de peru com porção extra de picles e maionese, um cheeseburger e uma coca Zero para ajudar a engoli-los.
— Você agrediu o Mike? — perguntei calmamente. — Quero a verdade.
Brian afastou seu refrigerante da boca. Os olhos se penetraram nos meus.
— O quê, Zachary?
— A lanterna no porta-luvas, me explica.
— Você foi fuxicar meu porta-luvas? — ele não parecia incomodado, mas também não pareceu gostar.
— Tem sangue seco na lanterna, eu vi. A polícia apareceu cedo na minha casa por conta disso. Acham que eu estou envolvido quando o problemático é você. Eu não pedi pra você ir atrás de Mike, Brian. Você não é nada meu para comprar minhas brigas.
Brian soltou uma gargalhada seca, sem humor algum.
— Você acha que eu sou o que? Um asno para usar uma lanterna para bater em alguém?
Ele tateou o banco de trás e retirou uma arma grande. Engoli um grito.
— Isso é uma arma de paintball. — disse ele.
Seu tom de voz tinha esfriado. Meu olhar ia e vinha entre Brian e a arma.
— Joguei paintball no início da semana e contei isso à você, Zachary.
— Não explica o sangue na lanterna.
— Porra, não é sangue. É tinta. Estávamos disputando a captura da bandeira.
Pensei. A lanterna era a bandeira.
Uma mistura de vazio, alívio, estupidez e culpa me invadiram por tê-lo acusado.
— Eu sabia que você não tinha feito nada. — eu disse me aproximando dele, avançando meu corpo, inclinando-o para o seu banco. — Me desculpa. — Minhas mãos foram até o seu rosto e acariciei-o por breves segundos. Brian desviou e olhou para o vidro.
Vi o seu peito subir e descer. Ele respirou fundo.
Fiquei pensando se estaria usando o silêncio para esfriar a cabeça um pouco. Afinal, eu havia acabado de acusá-lo de agressão, era muito sério.
Eu me sentia péssimo, mas minha cabeça estava mexida demais. Não foi uma coisa absurdamente impossível. Eu não pediria desculpas outra vez.
(...)
Brian se aproxima da entrada de minha casa e estaciona o carro lá. Automaticamente cenas da noite anterior passaram como um filme pela minha cabeça. E eu não poderia repetir nada do que eu fiz ontem com ele novamente. As luzes de minha casa estavam ligadas, mamãe havia chegado primeiro que eu, o que resultava numa despedida rápida, nada de recompensas.
E ainda bem, ele havia me desculpado.
— Precisamos repetir o que fizemos ontem, Vee.
— Eu sei.
Sorri envergonhado. Eu oscilava entre o relaxamento e o desapontamento. Eu gostei de ouvir aquilo de Brian.
— Eu tenho uma coisa pra você — disse Brian.
Ele procurou algum objeto debaixo do assento e retirou de lá um saco de papel branco com pimentas vermelhas impressas. Um saco do Borderline. Ele colocou o presente entre nós.
— O que é? — perguntei procurando olhar dentro do saco.
— Abra.
Retirei do saco uma caixa branca e levantei a tampa. Lá dentro havia um globo de vidro com uma miniatura de um dos monstros que Brian tinha tatuado no braço e ocasionalmente também era um dos monstros que estava presente na pintura dos vagões do Arcanjo. Uma criatura verde e deformada.
Brian levantou a manga da sua gola V preta e mostrou em seu braço, quase perto do ombro, a tatuagem que deu origem ao enfeite.
— É sobre isso. Para você não esquecer de mim.
Sorri. Maldito.
— Eu gostei, é interessante. Muito obrigado.
Ele tocou o vidro.
— Você sabe que é uma das pinturas do Arcanjo, não é? Eu tatuei depois de vê-la pela primeira vez.
Ignorei-o.
— O que realmente aconteceu naquela noite que fomos no Arcanjo?
— Você não quer saber.
— Se contar, vai ter que me matar? — eu disse meio jocosamente.
— Não, não estamos sozinhos.
Então ele levantou o olhar e viu minha mãe parada na porta.