Depois de Johnny ter saído do hospital, fomos comemorar a sua recuperação no Borderline. Mas no fim, não iriamos comemorar de verdade, tínhamos outros fins naquele lugar.

Era terça, dia de folga de Brian. Johnny me convenceu de que seria um dia perfeito para fazer perguntas a um colega de trabalho dele. Precisava saber se ele tinha alguma ligação com o cara da máscara, precisava descobrir qual era a relação desse cara na minha vida.

Tateei os bolsos e peguei uma lista de perguntas que eu tinha preparado para fazer ao suposto colega de Brian.

- Então... – Disse Johnny enquanto entravámos no restaurante. — Eu meio que convidei umas pessoas, você sabe, quanto mais gente, melhor.

- Quem você convidou?
- Coby e Kevin.

Antes que eu pudesse surtar ou qualquer outra coisa, Johnny soltou:

- Hora da verdade. Andei saindo com Jacoby. Segredo.

- Quê?

- Você precisa ver a casa dele, é gigante, cara… Tem muita coisa pra se fazer lá dentro.

- Quando isso?

- Ah… Logo depois que a gente se conheceu.

- Tem uma coisa importante que eu deveria te contar…

- Já sei, já sei. Há uma mínima chance de Kevin ter me atacado no domingo. Mas bem, você confundiu Kevin com Brian. Fique longe dele. Por segurança.

- Eu já entendi, mas tem outra coisa. Encontrei uma matéria no jornal…

- Bem-vindos ao Borderline. – Saudou a recepcionista.

Johnny passou reto sem um pingo de educação e eu o apenas segui, encontrando a umas mesas da entrada Kevin, sozinho. Quando me viu, um sorriso falso iluminou seus lábios.

- Olá, senhoritas. – Kevin brincou fazendo todos rirem. Eu cinicamente. – Terão de se contentar comigo.

- Por quê? – Perguntei um pouco entediado.

- Coby está doente.

- O que ele tem? Que merda de desculpa é essa? – Johnny parecia um pouco surpreso.

(…)

Deixei Johnny e Kevin sozinhos enquanto eu ia fazer as tais perguntas ao amigo de Brian.

O próprio nunca tinha me falado dele, mas Johnny conhecia o cara e o mesmo lhe disse que era amigo de Brian no estabelecimento.

Bom, a única coisa que eu sabia até então era que o cara se chamava Matthew Sanders. Eu sabia também que ele era forte e bonito, mas não tão forte e nem tão bonito quanto o cara que Johnny me apontou dizendo que seria o tal Matthew.

Caminhei até ele, hoje ele estava na função de barman. Enquanto ele limpava o balcão com um pano surrado, eu me aproximava lentamente apreensivo. Eu mordia os meus lábios o tempo inteiro e eu não sabia que iria conseguir perguntar tudo de uma vez. Primeiro porque porra, o cara era lindo pra caralho.

Segundo, ele tinha quase o dobro do meu tamanho. E terceiro, eram perguntas sobre Brian. Se tudo desse errado, se eu falasse alguma coisa incerta, Brian ia saber daquilo de um jeito ou de outro. Afinal, eles eram amigos de trabalho.

Suponho que eles joguem conversa fora quando não tem movimento no restaurante.

Alguns minutos depois, me acomodei em uma banqueta no balcão, de frente para ele. Matthew me examinou.- O que você quer? – Ele me perguntou apreensivo.

- Me falaram que você tem algumas informações dais quais eu preciso. Se você me passá-las, eu juro que te pago ou qualquer outra coisa. Eu só preciso saber algumas coisas. – Tive que dizer um pouco baixo, para que ninguém em volta nos ouvisse.

- Ok, eu já me acostumei com isso. Sempre alguém me indica, então uma pessoa vem aqui e me faz uma lista de perguntas. – Sorriu solenemente, balançando a sua cabeça de um lado ao outro de uma forma negativa. Dentes brancos apareceram naquele sorriso, e covinhas foram cravadas perto de suas bochechas. Sorri junto por ver seu sorriso.

Depois de alguns minutos em silêncio, observando Matthew, decidi me focar e fazer as perguntas, já que agora, com o que ele tinha dito a pouco, seria fácil de ele responder.

- O que você sabe sobre Brian Haner?

- Bri? – Ele disse sorrindo mais ainda. E eu o quis matar por tê-lo chamado de “Bri”. – Ele trabalha aqui algumas noites e às vezes no fim de semana.- Ele trabalhou domingo à noite?

- Domingo? Sabe que eu não lembro? Pergunte a uma das recepcionistas depois. Elas sabem bem mais do que eu.

- Hm… Certo. – Fingi desapontamento. – Você teria acesso à ficha dele?

- A resposta seria não.

- É… — Levantei um pouco o meu corpo da banqueta, tentando pegar no meu bolso traseiro a lista de perguntas que eu tinha à fazer sobre Brian.

Quando a alcancei, sentei-me de novo e comecei a desdobra-la lentamente enquanto o próprio Matthew acompanhava meus movimentos. Li algumas das primeiras perguntas, memorizando-as e logo deixei a lista pousada no balcão.

- Você sabe se Brian já recebeu alguma ordem judicial? Se ele já esteve envolvido em alguma coisa com perseguição? – Sorri tentando descontrair a conversa, tentando ser casual. Matthew estava cismando comigo e eu percebi isso logo depois. – Ele tem namorada?

- Pergunte a ele. Mas eu diria que namorada, não.

- Eu vou te pagar se você me responder, não vai ser de graça. Diz…

- Caramba, só ele pode mesmo responder à essa pergunta.

- Mas ele não ‘tá trabalhando hoje, como eu vou perguntar?

Outro sorriso iluminou os lábios do barman. Outras covinhas e olhos extremamente brilhantes estreitados enquanto ele mostrava os dentes de uma forma irônica.

- Ele não ‘tá trabalhando hoje, certo? – Perguntei com a voz esganiçada, o que fez Matthew gargalhar da minha cara.

- Normalmente ele tem folga as terças. Mas ele ‘tá substituindo Brandon hoje. — Você quer dizer que o Brian ‘tá aqui? Agora? – olhei para trás, examinando o salão todo, procurando-o. Não vi nada.

- Ele acabou de entrar na cozinha.

- Acho que meu garçom ‘tá entregando alguma coisa na minha mesa. Foi ótimo conversar com você. – Deixei duas notas de cem dólares em cima do balcão, pegando a minha lista de perguntas depois. – E o teu sorriso é lindo.

Nem esperei uma resposta do barman e corri até o banheiro. Como não tinha ninguém no local, encostei a porta para que ninguém entrasse. E se por acaso, alguém o fizesse, provavelmente pediria licença.

Andei até o espelho gigante que tomava conta do banheiro e me aproximei do mesmo. Apoiei minhas mãos na pia molhada e por um instante fiquei me olhando no reflexo. Seriamente, o que eu estava fazendo ali? Por que eu precisava saber tanto da vida de Brian sendo que ele cinicamente se importa comigo? Eu fui até o restaurante, gastei duzentos dólares e metade das minhas questões não tinham sido respondidas. E por quê? Porque eu soube que por um milagre dos céus, Brian não tinha tido folga hoje. E eu tenho com o que mais me preocupar.

Se Brian descobrir que eu estou investigando a vida dele dessa forma? No fundo, algo me diz que Brian não tem culpa de nada, então por que eu tinha que ir lá e fazer tudo daquele jeito? Eu deveria aprender a confiar mais nas pessoas.

Como Brian tinha me dito uma vez, eu não sei confiar, eu só confio em pessoas erradas.

Queria espantar todos aqueles pensamentos ruins da minha cabeça. Então abri a torneira e abaixei o meu rosto perto da mesma. Com as mãos, recolhi a água e joguei-a no meu rosto. Fiz isso mais algumas vezes antes de fazer a água parar e me olhar no espelho outra vez. Enxuguei meu rosto na camisa mesmo, não faria diferença agora.

Mais um tempo olhando para o espelho e a porta se abriu sem alguém pedir licença. Virei o meu corpo apoiando-o na pia e vi Brian. Claro. Aquela seria a primeira vez que nos falaríamos depois do que tinha acontecido na minha casa.

- O que você ‘tá fazendo aqui? – Ele me perguntou.

- Lavando o rosto. Isso é um banheiro se você não viu. Não ‘tô fazendo nada de anormal.

- Eu sei, mas aqui é meu trabalho.

- Ok. Eu quis dar uma volta com Johnny. – Expliquei. – Ele esteve no hospital, então eu quis arejar a cabeça dele. Não imaginei que estaria aqui, já que terça é seu dia de folga.

- Quer explicar o motivo por estar lavando o rosto?

- Quer explicar por onde você andou? Perdeu os últimos dias de aula.

- Andei jogando paintball. E o que você andou fazendo no bar?

- Conversando com o Matt. É crime?Apoiei minhas mãos sobre a pia e me dei um salto, sentando na mesma molhada. Nesse momento a lista de perguntas pulou do meu bolso e Brian foi mais rápido, pegando-a do chão. Desci rapidamente do pedaço de mármore e fui até ele, tentando a todo custo pegar a lista.

- Vai, Brian Haner, pode me dando isso agora.
Ele começou a ler.

- Existem ordens judiciais contra Brian? – Leu ele. – Brian é um criminoso?

- Devolve isso agora.

- Brian tem namorada?

Ele colocou a lista no bolso traseiro. Eu estava profundamente tentado a recuperá-lo, apesar da localização.

Agora, foi sua vez de apoiar-se na pia e olhar em meus olhos.

- Se você ‘tá procurando informações eu prefiro que pergunte pra mim.- Essas perguntas eram uma piada. Johnny que escreveu.

- Conheço a sua letra, Zachary.

- Ok. – Disse baixo demais, me afastando dele.

Brian desencostou-se da pia, andando em minha direção. Ficou tão perto que eu podia ver os seus traços bem diante de meus olhos. Ele me encarou e tornou a falar com a voz baixa e lenta:

- Nenhuma ordem judicial. Nenhum crime.

Levantei o queixo e o olhei diretamente nos olhos.

- Namorada?

- Não é da sua conta. – Disse com raiva e se afastou indo em direção à porta.Fui mais rápido, indo até ele e o puxando pelo braço com força, fazendo-o me olhar novamente.

- Não é da minha conta o caralho. Você quase me comeu na minha casa e agora não é da minha conta? Passou a ser da minha conta.

O esboço de um sorriso travesso pairou no canto da boca dele. Tive a impressão de que ele estava se lembrando de todos os detalhes daquele quase beijo, inclusive dos gemidos e das ereções. Então soltei o braço dele e o mesmo ele usou para envolver a minha cintura e puxar-me para ele. Eu fiquei sem reação alguma, mas levei minhas mãos até o seus ombros, massageando-os enquanto eu levantava o meu rosto para o dele. Ele colou nossas testas, fechando os olhos depois, soltando um suspiro pesado e relaxado.

- Isso, relaxa. Você ‘tá nervoso demais.Parei de massagear seus ombros, ouvindo um gemido de reprovação logo depois. Escorreguei minhas mãos para o seu peito, descendo-as ainda mais até a sua barriga. De lá, levei cada uma de minhas mãos para cada lado de sua cintura e apertei-as contra a minha. Ele abriu os olhos instantaneamente, me olhando surpreso. Então, eu nem tive coragem de esperar alguma reação. Fechei os meus olhos e procurei os seus lábios com os meus. Ele me ajudou e pouco tempo depois estávamos nos beijando dentro do banheiro.

As mãos de Brian saíram rapidamente de minha cintura, subindo até a minha nuca. Ele acariciava os meus cabelos com tanta força e cuidado enquanto me beijava, que o meu maior desejo naquele momento, era estar em um lugar bem mais reservado.

Parei o beijo quando percebi que ele não tinha respondido a minha questão.

Afinal, ele tinha namorada ou não? Abri meus olhos e quando o olhei, ele já estava me olhando. Sorri, abaixando o meu rosto enquanto o seu carinho em minha nuca continuava. Minhas mãos deslizavam a sua cintura suavemente. Às vezes eu apertava, às vezes beliscava… Qualquer coisa que mantinha contato físico com ele.

- Me responde, ‘tá namorando?

- Não. Eu tinha um namorado. – Disse ele depois de um momento.

Senti um frio no estômago. Será que o cara que tinha atacado Johnny era o ex-namorado de Brian?
E então Brian falou:

- Mas ele não ‘tá aqui.

- O que você quer dizer com isso?

- Ele se foi. Nunca mais vai voltar. – E encerrou o assunto, selando meus lábios aos dele.

Eu me sentia estranho. Brian teve um namorado e ele estava morto agora.

A porta do banheiro estremeceu e alguém entrou.

- Preciso voltar ao trabalho. – Disse Brian se afastando, não antes de selar nossos lábios novamente.

Antes que eu pedisse para que ele ficasse mais ou qualquer outra coisa, ele já não estava mais no banheiro. O que me fez voltar à realidade e deixar a pessoa que estava no banheiro sozinha.