Theres a Hell...
35 Capítulo 34- What if the Devil was a lie?
Eu não tinha ideia de onde Johnny estava. Pensei em algo óbvio como onde Jacoby o levaria?
Em minha cabeça, procurei pensar na planta do prédio, concentrando a atenção nos andares superiores, aqueles que eu ainda não tinha passado. Johnny estava no terceiro andar, no mais alto. Ele provavelmente se esconderia lá, era o laboratório onde faziam o informativo da escola que Johnny sempre comentara. Ele estava lá.
Movimentei-me na escuridão o mais rápido, vendo um fio de luz iluminar uma escada. Eu poderia usar o elevador, mas Jacoby mesmo dissera que a energia estava cortada. No fim da escada vi a porta do laboratório; empurrei-a.
— Johnny?
Ele deixou escapar um gemido suave.
— Sou eu. Você 'tá ferido? Precisamos sair daqui agora, cara. — gritei.
Passos depois encontrei Johnny encolhido embaixo de uma das mesas. As pequenas pernas apertadas contra o peito.
— Jacoby me bateu com a cabeça em algum lugar. Acho que desmaiei, agora não consigo ver nada.
— Escura, Jonathan! O Jacoby desligou a energia, é só o escuro, eu também não consigo enxergar. Agora, vamos sair daqui porque ele tá querendo me matar. Precisamos descer.
Peguei um de seus braços e enlacei em meu pescoço, segurando em sua mão. Meu outro braço, envoltei em sua cintura e o levantei cambaleando até a saída.
— Todas as portas estão com correntes.
Houve um silêncio e uma pausa na caminhada. Agora lembrei da última frase de Jacoby. Não havia como escapar da escola. Mas me lembrei que ele não tinha acorrentado a porta pela qual eu entrei, então era por lá de onde iríamos sair. Todos juntos e bem.
— Ok! Agora presta atenção: quando sairmos, devemos nos separar. Se Jacoby nos perseguir, precisará escolher a quem seguir. O outro vai buscar ajuda. — Eu já sabia quem Shaddix escolheria. — Corra o mais rápido que puder, não pense no seu limite. Encontre um telefone, chame a polícia e salve a gente de tudo isso. Chama a emergência e diga que Kevin 'tá ferido na biblioteca.
— Vivo?
— Não sei...
(...)
Johnny e eu nos arrastamos escada abaixo, mantendo-nos próximos as paredes até chegarmos ao temido primeiro andar.
Não andamos muito, apenas tínhamos dobrado um corredor quando uma voz se fez presente seguida de uma gargalhada gutural.
— Muito bem, o que temos aqui?
Jacoby!
— Corra! — Apertei a mão de Johnny e o soltei. — Ele só quer a mim, não sinta medo. Eu sei do que eu 'tô falando, Johnny! Chame a polícia, tente achar Brian e corra.
Johnny soltou-se de meu corpo e soltou um gemido de reprovação, eu sabia que ele não queria me deixar sozinho ali. Em um ato rápido, abraçou-me desajeitadamente e sumiu mais rápido do que eu o encontrei. Os passos dele desapareceram rapidamente.
— Vai levar mais de vinte minutos para a polícia chegar. E eu vou acabar com você em apenas segundos.
Dei meia-volta e corri. Jacoby correu atrás de mim.
Passando as mãos pelas paredes na escuridão, virei à direita no primeiro cruzamento e corri por outro corredor. Eu era quase que obrigado a acreditar nas paredes como um guia, as mãos esbarravam nas quinas vazias e eu sabia que era só dobrar as curvas. Entrei novamente à direita, correndo o máximo que pude até chegar perto das portas do ginásio coberto onde eu e Kevin jogamos baseball juntos.
Pensei em me trancar em um dos vestiários até ele me encontrar. De lá, eu poderia sumir por alguma das janelas e pedir ajuda.
Corri para o vestiário. Assim que coloquei a mão na maçaneta, me odiei. A porta estava trancada. Forcei-a, mas não adiantou. Dei algum chutes, mas ainda assim não foi encorajador. Olhei em volta, mas não havia outra saída. Só haviam dois vestiários na quadra, se eu tentasse o outro, teria de passar pela porta principal e poderia ser uma prova para Jacoby. Fechei os olhos, tentando lembrar de algum lugar para escapar.
Quando reabri minhas orbes, Jacoby estava caminhando para a névoa do luar que penetrava pelas entradas de ar, no teto inalcançável do ginásio. Ele amarrou sua camisa em volta da coxa. Com o peito nu, notei algo no cós de sua calça: um revólver.
— Johnny me contou que você tem medo de altura. Por que andou no Arcanjo justo com Brian? — Ele levantou o rosto para olhar as vigas no alto do ginásio, as únicas saídas do imenso lugar.
Sombras se estendiam atrás de Jacoby, no piso polido, enquanto o luar desapontava atrás das nuvens. Jacoby estava de costas para a lua e arquibancada. Vi Brian se movimentar atrás dele.
— Você atacou Mike Hranica? — perguntei para Jacoby, histericamente, quase que denunciando Brian atrás dele.
— Kevin me disse que vocês dois tinham problemas. Não gostei de dividir com outra pessoa o prazer de atormentar meu garoto.
— E a janela do meu quarto? Você andou me espionando?
— Nada pesso...
Jacoby enrijeceu. Eu não soube ajudar Brian. Subitamente deu um passo para frente e puxou meu punho, fazendo-me girar na frente dele. Senti o revólver apertado contra minha nuca, Jacoby o sacara.
— Abra bem os olhos, Synyster. Quero ver a expressão em seu rosto quando eu o matar. Você não pode fazer nada para salvá-lo. Está tão impotente em relação a isso quanto eu em relação ao juramento que fiz. Ou melhor, você 'tá na mesma situação que seu pai, né?
Pobre Papa Gates...
Brian deu um passo adiante. Movimentava-se com tranquilidade, mas o semblante estava conturbado. Nunca ouvira falar sobre o pai de Brian e tudo que eu sabia era que ele era um anjo também. Óbvio! De onde "Brian Elwin Haner Jr." teria saído, então?
O revólver afundou-se mais em minha nuca e soltei um gemido alto, que parecia cortar o peito de Brian pela expressão que ele me devolveu.
— Mais um passo e ele morre.
Brian observou a distância entre nós, calcuando em quanto tempo poderia vencê-la. Eu não fui o único a perceber.
— Não tente, seu filho da pu...
— Cala essa merda de boca, Jacoby Dakota Shaddix! Você não vai matar ele de jeito algum.
— Modos Gates! Modos! — Jacoby destravou a arma. Ela estalou e eu arregalei os olhos. — Arma! E 'tá carregada.
Espero que esteja pronto para me mostrar o que sabe fazer. Lembra daquela aposta dos golpes de boxe no estacionamento?, Brian falou em minha mente. Vai ter que colocá-los em prática agora!.
- O quê? — gaguejei.
Subitamente, uma força me atravessou. Uma força totalmente desconhecida expandiu-se até tomar conta de mim. Meu corpo era completamente vulnerável a Brian. Toda minha força e liberdade foram deixados de lado no momento em que ele me possuiu.
Antes que eu tivesse tempo para perceber qualquer coisa, uma dor alucinante iradiou-se pela minha mão. Percebi que Brian estava usando meu punho para golpear Jacoby. O revólver se soltou e tombou. Deslizou pelo piso do ginásio, fora do alcance de qualquer um.
Brian ordenou às minhas mãos que jogassem Jacoby de costas contra as arquibancadas. Ele tropeçou e caiu sobre elas. Minha próxima visão foi das minhas mãos se fechando em torno da garganta de Jacoby, lançando sua cabeça para trás, contra os assentos, com um estalo horrível. Mantive-o ali, apertando os dedos contra seu pescoço. Os olhos se arregalaram, então se esbugalharam. Ele tentou falar, mexeu os lábios, mas Brian não parava.
Não posso ficar dentro de seu corpo mais tempo. Não é Cheshvan, e não tenho permissão, disse Brian em minha mente. Assim que sentir a força indo embora, é para você correr, Zachary. Me obedeça! Corra. Jacoby 'tá fraco e atordoado demais pra comandar sua cabeça. Corra e não pare.
Um zumbido alto correu por dentro demim, senti meu corpo se desprendendo de toda força de Brian. As veias do pescoço de Jacoby saltavam, os olhos azuis estavam de um tom marinho opaco, ficando cada vez mais cinza pela falta de oxigênio no cérebro. Ele não morreria com isso, óbvio. Mas era uma forma de fugir e acabar com ele de outra forma. Continuei apertando o pescoço dele, até que sua cabeça pendeu para o lado. Desviei os olhos e vi Brian ao meu lado, olhando para Jacoby.
- Desmaie! Desmaie!
Mas era tarde demais, eu não tinha força o suficiente quando Brian soltou-se de meu corpo por completo. Foi uma ida tão rápida que me senti tonto. Minhas mãos estavam sob meu controle outra vez e deixei o pescoço de Shaddix. Ele lutava para respirar, os olhos voltando a cor normal enquanto ele piscava para mim. Brian havia se afastado, e estava imóvel. Era a pena dele por invadir um corpo fora do Cheshvan. Ele ficara fraco.
Lembrei-me do que Brian disse e saí correndo pelo ginásio. Joguei-me contra a porta mas quase voei com o impacto. Estava fechada.
Puxei a maçaneta mais de uma vez, sabendo que a porta estava destrancada. Mas não estava, Jacoby passara por ela e trancara... ou era coisa da minha mente? Joguei todo o meu peso contra a porta e nada da maldita abrir.
Virei-me sentindo meu corpo exausto. Algo me dominou outra vez e eu quase caí no chão.
— Some da minha cabeça agora, seu desgraçado! — berrei para Jacoby.
Levantando-se com uma força incrível, ele se sentou em um dos assentos da arquibancada e massageou a garganta.
— Não! — disse ele com a voz perfeitamente limpa.
Tentei a porta mais uma vez. Levantei a perna e chutei-a mais de uma vez. Bati com a palma das mãos e esmurrei com os punhos. Nada.
— Porra! Desgraça. Caralho. Tem alguém aí?!
Olhei para trás e vi que Jacoby mancada em minha direção, a perna machucada e o pescoço marcado. Fechei os olhos com força e tentei me concentrar. A porta abriria assim que eu encontrasse a voz dele e tirasse-a da minha cabeça. Procurei em cada canto da minha mente, mas não consegui. Eu precisa saber como fazer aquilo. Abri os olhos e ele estava perto. Eu precisava descobrir outra saída.
Presa na parede sobre a arquibancada havia uma escada gigante de ferro. Subia até o conjunto de vigas no alto do ginásio. Na extremidade das vigas, na parede oposta, existia um canal de ventilação. Se eu conseguisse chegar até lá, poderia atravessá-lo e encontrar outro caminho.
Era a única saída.
Saí correndo a toda velocidade, esbarrei em Jacoby que caiu e subi as arquibancadas. Meus tênis faziam barulhos na madeira, ecoando pelo ginásio vazio. Coloquei o pé no primeiro degrau da escada de ferro e comecei a subir. Ela era presa a cantoneiras de ferro que foram soldadas a parede, eu estaria seguro se a escada tentasse cair com o meu peso. Então comecei a escalar, com o meu máximo de força e vontade. Olhei para trás e vi que as portas se tornaram pequenas, era um sinal de que eu já estava bem, bem alto.
Não olhe para baixo, Zacky, ordenei a mim mesmo. Arrisquei-me e subi mais alguns degraus. A escada chacoalhou e vi que ela não estava devidadamente soldada a parede.
A gargalhada de Dakota chegou até mim e perdi o foco. Imagens sobre uma possível queda passavam pela minha cabeça. Logicamente, eu sabia que estavam sendo plantadas por ele e pele meu medo, não tinha como ignorar. Então minha cabeça vacilou e eu não conseguia lembrar como subia ou como descia. Jacoby estava confundindo todos meus sentimentos.
O medo era tão intenso que turvou minha visão. Eu não sabia onde eu estava. Meus pés estavam certos nos degraus? Eu estava escorregando? Eu não sabia. Mas agarrei ainda mais a escada em minhas mãos e subi. Respire, respire.
Então ouvi um barulho.
O lento e torturante som de metal rangindo. Fechei os olhos para interromper uma crise pior.
As cantoneiras, antes mencionadas presas as paredes, soltaram-se. O gemido metálico se transformou em um choramingo agudo enquanto o próximo conjunto de cantoneiras também se soltava da parede. Observei com um grito preso na garganta enquanto a metade de cima da escada ia se soltando. Agarrei-me com força, lutando para cair de costas. A escada vacilou por um momento no ar e pacientemente bateu contra a parede de novo.
Então, no meio da escuridão, do medo, do pânico, ouvi a voz de Brian. Mantenha-o bloqueado! Continue subindo. A escada 'tá normal, intacta. E 'tá presa! É só ele.
— Não consigo. — gemi. — Vou cair!
Feche os olhos! Ouça e siga minha voz, o desespero era perceptível na voz de Brian.
Engolindo em seco e tomando coragem, obriguei meus olhos a se fecharem. Agarrei-me à voz em minha cabeça e senti uma força confortante tomando conta de mim. Meus pés já subiam degrau por degrau.
No último degrau, transferi-me perigosamente para a viga mais próxima. Agarrei-a comos braços, então passei a perna direita por cima dela. Estava de frente para a parede e de costas para a saída de ventilação.
De repente, olhei para baixo e vi Jacoby subindo a escada rapidamente. E agora estava a menos de quatro metros de mim. Escalou a viga e sentou-se como eu, enquanto ia se arrastando em minha direção. Uma marca escura em seu pulso me chamou atenção. Cortava as veias, fazendo um ângulo de 90 graus e era quase negra. Para qualquer outra pessoa, pareceria uma tatuagem. Para mim, significava muito mais que isso. A relação familiar era óbvia. A marca dele era forte e a minha quase invisível. Tínhamos o mesmo sangue e as marcas deixavam isso evidente.
Estávamos agarrados à viga, sentados frente a frente, a poucos metros de distância.
— Quer dizer suas últimas palavras? — perguntou Dakota.
Olhei para baixo, mesmo sabendo que tinha medo. Brian estava lá, no mesmo lugar. Preocupado e imóvel como a morte. Naquele momento, quis voltar ao passado e viver tudo com ele de uma forma melhor. Sem brigas, chantagem, brincadeiras e indiretas.
Encontrar Brian foi como achar alguém que eu não sabia que estava procurando.
A gargalhada patética de Jacoby chegou como um sussurro dentro de meus ouvidos e só havia um jeito de acabar com aquilo.
— Sabe, Zachary... para mim não vai fazer diferença se você morrer de um tiro ou despencar daqui. — Ele sorriu para mim e olhou para baixo. — E você, Gates, estique os braços.
— Faz diferença sim, bastardo. — afirmei com a voz baixa, porém confiante. — Temos o mesmo sangue! — Levantei minha mão rapidamente, revelando a marca alta em meu pulso. — Sou seu descendente, Dakota. Se eu me sacrificar, Brian se tornará humano e é o único jeito de você morrer. 'Tá escrito no Livro de Enoque.
Os olhos de Shaddix perderam a luz, o brilho da vingança. Examinavam-me atentamente, absorvendo cada palavra que eu dizia. Eu conseguia ver pela sua expressão que ele estava pensando em minhas palavras.
Ele realmente não sabia. Um rubor tomou conta de seu rosto, e ele aproximou-se, arrastando as pernas até o meu corpo. Piscou os olhos e levou uma mão até o meu rosto. Acariciou minha bochecha até eu me desvencilhar, em repulsa. Ele acreditava. E era verdade.
— Você... — balbuciou.
Ele escorregou em minha direção, sabendo o que eu faria.
Algo tomou conta de meu corpo. Mas não era Jacoby nem Brian. Era apenas a consciência de uma escolha certa, por fim.
Levantei-me, ficando em pé na viga. Não precisei pensar duas vezes: joguei-me de lá de cima.
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