No dia seguinte, acordei cedo e fui pra aula. Fui o primeiro aluno a chegar na sala. O professor Portnoy estava diante do quadro-negro, de pé e quieto, lendo um livro sobre qualquer coisa que eu não me lembro agora.

Eu estava ocupado em reunir motivos que fizessem o professor desistir da ideia de que eu e Brian temos de ficar juntos na aula dele. Comecei a anotar tudo isso no verso da folha do questionário. Assim que que a aula acabasse, eu apresentaria meus argumentos ao professor.

Não coopera nos deveres. Demonstra pouco interesse nas atividades. Só conta mentiras. Isso foi tudo o que consegui escrever mas na verdade, as coisas que eu não escrevi eram as que mais me incomodavam. Achei o local da marca de Brian assustador e estava apavorado com o incidente na janela na noite que passou. Lógico que eu sabia que não era Brian, ele não parece um vampiro ou qualquer outra coisa que possa ficar voando em janelas, mas não podia deixar de achar coincidência.

Ao pensar nisso, tirei dois comprimidos da minha dieta de um frasco de dentro do bolso da minha calça e os engoli a seco. Eles ficaram presos na garganta por um momento mas logo foram descendo.

Os alunos começaram a entrar na sala. Johnny se sentou com seu parceiro e Brian ocupou o lugar ao meu lado. Pelo canto do olho, percebi que Brian me observava. Eu perdi tanto tempo prestando atenção nos olhos de Brian que acabei me distraindo.

- Zachary?

O professor estava na frente da sala, com a mão estendida e o rosto confuso. Ele estava esperando a minha resposta.

- Poderia repetir a pergunta?

A sala inteira começou a rir.

- Que qualidades atraem você em uma possível parceira?

- Possível parceira?

- Vamos logo. Ninguém aqui tem a tarde toda.

- O senhor quer que eu faça uma lista de características de um… Uma parceira?

- Se for possível, sim, ajudaria muito.

Sem querer, olhei para o lado na direção de Brian. Ele estava recostado na cadeira, quase jogado, estudando-me com ar de satisfação, abriu aquele sorriso de cafajeste e balbuciou: “Estamos todos esperando.”

Coloquei as mãos sobre a mesa, na esperança de parecer mais sob controle do que realmente estava.

- Olha, nunca parei para pensar no assunto.

— Então pense rápido.

— Acho que o senhor poderia ouvir outra pessoa antes de mim, né Brian?

— Boa idéia. Você, Brian.

Eu quis ferrar o Brian, mas tudo o que eu consegui foi que ele falasse com mais confiança do que eu. Na posição em que ele estava, seu corpo ficava ligeiramente virado na minha direção, nossos joelhos estavam separados por apenas alguns centímetros.

— Viciante. Gorda. Vulnerável.

O professor marcou os adjetivos no quadro. Depois que Brian falou “gorda”, a sala inteira olhou pra mim. Primeiro, na minha classe tinham poucas garotas. E nenhuma delas eram gordas. A maioria dos garotos eram sarados e magros… Eu era o único 'cheinho' da classe. Chubby era meu apelido. Eu poderia matar Brian agora?

— Muito bem, Brian. Digamos que você está numa festa. O lugar está cheio de garotas de todas formas e tamanhos. Você encontra loiras, morenas, ruivas, meninas de cabelo colorido… Umas são tagarelas, outras parecem ser quietinhas. Você encontrou uma garota que se encaixa em seu perfil: Viciante, gorda e vulnerável. Como mostra a ela que está interessado?

— Eu a escolho e vou falar com ela.

- Muito bem. Agora é a hora da pergunta importante: Como é que você sabe se ela está a fim ou se quer que você dê o fora?

- Eu a observo – Disse Brian olhando pra mim. – Descubro o que está pensando e sentindo. Ela não vai ser direta e me dizer, por isso preciso prestar atenção. Ela vira o corpo na minha direção? Olha nos meus olhos e então desvia o olhar? Morde o lábio prestando atenção nos meus, como Zacky está fazendo bem agora?

A gargalhada tomou conta da sala. Deixei minhas mão caírem no colo. Eu estava cansado de Brian.

- Se é assim – Brian apontou para mim -, não tem saída.

- Muito bom, muito bom! – Disse o professor com a voz animada.

A aula prosseguiu até que o professor pediu para a próxima aula, um resumo do próximo capítulo do nosso livro. É claro que eu não faria, mas fiz ao menos questão de marcar as páginas.

Quando a sala foi esvaziando, eu fui falar com o professor.

- Fala, Zacky.

- Só vim dizer que a mudança de lugares e seu plano de aulas ‘tão me constrangendo.

O professor inclinou-se para trás e cruzou as mãos atrás de sua cabeça.

- Escute, Zacky. Eu não tenho nada a ver com a suas briguinhas com Brian ou qualquer coisa do tipo. Eu sou o seu professor. Se eu quiser colocar você sentado do lado do aluno mais irritante do mundo, eu vou colocar…

- Isso o senhor já fez.

- Ok. Encerrado o assunto?! Eu não vou trocar Brian de lugar. Ele precisa de um reforço. Eu sei que você pode ajudá-lo.

Eu juro que tentei não ficar irritado. Então saí da sala de aula como se eu realmente não estivesse falando com ninguém.

(…)

— Você não vai me levar para casa? – perguntei a Johnny.

- Ah não cara, muita neblina. Mas pegue meu carro. – Me estendeu as chaves. – Amanhã quero você cedo em minha casa, certo?

- Valeu John! – Respondi, pegando as chaves.

Fiquei em frente a casa de Johnny por algum tempo. Estávamos conversando sobre o que fazer no final de semana. Não era um assunto interessante já que nós dois sempre fazíamos as mesmas coisas.

Depois de muita conversa, decidi ir embora. Se mamãe ligasse e eu não estivesse em casa, talvez ela ficaria preocupada. Fazia tempo que eu não carrego o meu celular.