Moro com a minha mãe em uma casa antiga, cheia de correntes de ar, afastada do centro de Coldwater.

Naquele momento, a casa estava envolta em sombras que faziam lembrar espíritos fugitivos perambulando.

Passei a noite plantado em uma banqueta da cozinha, comendo lasanha sem parar. Eu estava também com Gena Paulhus, nossa empregada. Mamãe trabalha para uma empresa muito importante de leilões, ela os gerencia e por isso nunca está em casa. Naquela semana, ela estava no norte de New York. O trabalho exigia que ela viajasse muito, então ela pagava Gena para cozinhar e limpar, mas eu tinha certeza de que ela contratou Gena para mais que isso. Às vezes eu sentia Gena manter um olhar vigilante e maternal sobre mim.

- Como foi a escola?

Ela estava diante da pia, tentando raspar os pedaços de lasanha grudados no fundo da travessa que eu acabei de comer.

- Tenho um novo parceiro em biologia.

- Isso é bom ou ruim?

- Meu parceiro costumava ser Johnny.

- Hum. Então é ruim?!

Concordei com um suspiro pesado. Logo após arrotei um pouco alto.

- Fale sobre seu novo parceiro. Como ele é?

- Ele é alto, moreno e desagradável.

E assustadoramente impenetrável. Os olhos de Brian eram como órbitas negras, que absorviam tudo e não devolviam nada. Não que eu quisesse saber mais sobre ele. Se não gostei do que vi por fora, duvidava que fosse gostar do que ele guardava lá no fundo.

O único porém era que isso não era bem verdade. Eu adorei o que vi. Músculos não tão definidos, ombros largos, mas relaxados e um sorriso que era meio debochado, meio sedutor. Estava difícil convencer a mim mesmo de que deveria ignorar algo que já começava a parecer irresistível.

Às nove da noite, Gena terminou o trabalho e trancou a porta ao sair. Pisquei duas vezes as luzes da varanda para lhe dar um adeus. A claridade deve ter atravessado a neblina, pois ela tocou a buzina de seu carro em resposta. Fiquei sozinho.

Comecei a examinar as sensações que tomavam conta de mim. Não estava com fome. Não estava cansado. Nem estava tão solitário. Mas estava um pouco ansioso por conta do dever de biologia. Mas não pelo dever em si e sim por Brian. Tinha dito a ele que não ligaria, e seis horas antes era essa mesmo a intenção. Mas agora, tudo em que eu conseguia pensar era na minha nota no final do ano. Biologia pra mim era a matéria mais difícil. Minhas notas variavam problematicamente entre C e E.

Fui para a cozinha, mas não foi para comer. Peguei o telefone, olhei para o que havia sobrado dos sete dígitos ainda marcados em minha mão. Secretamente, tinha esperanças de que Brian não atendesse minha chamada. Eu disse se eu tivesse sorte, e isso foi o que eu não tive. Disquei o número e depois de três toques Brian atendeu.

- Qual é?

- ‘Tô ligando para ver se a gente poderia se encontrar hoje. Sei que você comentou que estaria ocupado mas…

- Zacky? – Brian pronunciou meu nome como se ele fosse parte de uma piada -, achei que você não ligaria. Nunca.

Odiei ter de engolir minhas palavras. Odiei Brian por esfregar aquilo na minha cara. Odiei o professor por ter trocado Johnny de lugar e odiei a minha mão por não ter apagado aquele número filho de uma puta.

- Olha, vai dar pra gente se encontrar ou não?

- Pelo jeito, não.

- Não vai dar ou você não quer?

- Zacky, estou no meio de um jogo de sinuca. – Ouvi o sorriso implícito na voz dele — Um jogo de sinuca muito importante.

Pelo barulho ao fundo da ligação, achei que ele dizia a verdade. Sobre o jogo, pelo menos.

- Onde você ‘tá?

- No Bo’s Arcade. Não é o tipo de lugar que você costuma frequentar.

- Como você sabe de tudo, vamos fazer a entrevista pelo telefone. Tenho uma lista de perguntas já…

Ele desligou na minha cara.

Fiquei olhando o telefone completamente atônito, então rasguei uma folha em branco do caderno e rabisquei Babaca na primeira linha. Na segunda, acrescentei: Fuma Marlboro. Vai morrer de câncer no pulmão. De preferência logo. Excelente forma física.

Escrevi mais algumas coisas até que olhei para o micro-ondas e ele indicava 21h05. Eu tinha duas opções. Ou inventava a entrevista com Brian e ficava com nota vermelha em Biologia, ou ia até o Bo’s Arcade. Eu pensei um pouco e conclui que não sabia o suficiente de Brian para inventar alguma coisa. E a segunda opção?

Pensei mais um pouco, enquanto meus olhos corriam toda a cozinha. Encontrei uma moeda em uma das gavetas, peguei-a e decidi deixar as decisões por conta do destino.

- Cara, eu vou. Coroa, eu fico.

Joguei a moeda no ar. Ela caiu na palma da minha mão novamente e eu dei uma olhada nela. Senti raiva por ter feito aquela brincadeira. Tinha dado Cara e agora eu teria de encarar e situação.

Boa, seu gordo.

Na mesma gaveta, peguei a chave do carro de mamãe. Um New Civic azul marinho. Logo depois peguei meu caderno, uma caneta e fui até a garagem, destravando o carro e entrando logo depois.

O Bo’s Arcade era bem mais longe do que eu gostaria, próximo à costa, a trinta minutos da minha casa. Com o som ligado, ao som de AC/DC, fiz o caminho reclamando o tempo inteiro.

Entrei com o carro em um estacionamento atrás do prédio com um letreiro luminoso que piscava. “Bo’s Arcade, Mad Black Paintball e Ozz’s Pool Hall”. As paredes eram tomadas por pichações e pontas de cigarros pelo chão. Com certeza o local deveria estar repleto de futuros estudantes das melhores universidades e cidadãos exemplares. Tentei ver aquilo com superioridade e indiferença, mas estava realmente gostando daquilo. Aquele era o meu estilo de vida. Era exatamente o tipo de lugar que eu gostava de frequentar e parecia que Brian sabia disso. Depois de verificar se as quatro portas do carro estavam fechadas, me dirigi até a entrada.

Fiquei na fila, esperando para entrar. Assim que o grupo à minha frente pagou a entrada, eu me esmaguei entre eles, caminhando na direção de um labirinto de sirenes estridentes e luzes que piscavam.

- Você acha que merece entrar de graça, gordinho? – Urrou uma voz áspera de tabaco.

Virei e pisquei diante do caixa, um sujeito mais gordo que eu, com mais tatuagens do que eu.

- Não estou aqui para jogar. Estou procurando alguém. E gordo é você.

Ele grunhiu.

- Se quiser passar por mim, vai ter que pagar. Agora.

O cara me estendeu uma tabela com todos os valores. Isso indicava que eu estava devendo 15 dólares. Pagamento só em dinheiro.

Eu não tinha dinheiro. E se eu tivesse, não desperdiçaria com alguns minutos fazendo perguntas ao bobo do Brian. Senti uma onda de raiva pelas mudanças na sala de aula e, em especial por estar ali. Só precisava encontrar Brian e então poderíamos fazer a entrevista do lado de fora. Eu até ligaria pra ele, se ele não tivesse desligado aquela merda na minha cara. E outra, eu não tinha dirigido até ali pra sair de mãos abanando. E nem pra ficar com nota vermelha.

- Se eu não voltar em dois minutos, eu pago os 15 dólares.

Antes de pensar melhor no que estava fazendo ou de juntar um pouquinho mais de coragem, fiz algo completamente fora do habitual: Passei por debaixo das cordas. E não parei. Saí correndo pela sala de jogos à procura de Brian. Disse a mim mesmo que não acreditava que estava fazendo aquilo, mas eu parecia uma bola de neve rolando ladeira abaixo, ganhando força e velocidade. Àquela altura, só queria encontrar Brian e sair dali.

- Ei, você! – O caixa me seguia gritando.

Convencido de que ele não estava no andar principal, desci as escadas correndo, seguindo as indicações até o Ozz’s Pool Hall. No fim da escada, luzes fracas iluminavam diversas mesas de poker, todas ocupadas. A fumaça de cigarro, quase tão densa quanto a neblina que envolvia a minha casa, pairava no teto rebaixado. Disposto entre as mesas de poker e o bar, estava uma fileira de mesas de sinuca. Brian estava debruçado sobre a mais distante de mim, tentando uma jogada difícil.

- Ow, Brian! – Exclamei.

Assim que falei, ele empurrou o taco, acertando-o no tampo da mesa. Virou a cabeça e me encarou com um ar de surpresa e curiosidade.

O caixa desceu pesadamente os degraus atrás de mim, agarrando meu ombro com a mão.

- Pra cima, agora.

Na boca de Brian surgiu um sorriso, quase que imperceptível. Era difícil dizer se era um sorriso simpático ou debochado.

- Ele ‘tá comigo.

Isso pareceu servir para o caixa, que afrouxou a pegada. Antes que ele pudesse mudar de ideia, soltei-me da mão dele e avancei por entre as mesas até chegar a Brian. Dei os primeiros passos bastante segura, mas descobri que minha confiança diminuía conforme eu chegava mais perto dele.

Na mesma hora, percebi que havia algo diferente em Brian. Não sabia exatamente o que, mas parecia uma espécie de eletricidade. Mais hostilidade?

Mais confiança.

Mais liberdade para ser ele mesmo. E aqueles olhos negros estavam me dando nos nervos. Eram como dois imãs grudados em cada movimento que eu fazia. Engoli em seco discretamente e tentei ignorar qualquer coisa. Não sabia exatamente o que era, mas havia algo de errado em Brian. Algo nele não era normal. Algo nele não era… seguro.

- Desculpa por ter desligado. – Disse ele, aproximando-se de mim. – O telefone não pega muito bem aqui embaixo. Então não pense que eu desliguei na sua cara. Eu sei que você ficou nervoso.

Sim, claro.

Com um gesto de cabeça, Brian indicou aos outros que saíssem. Houve um silêncio desconfortável antes que alguém se mexesse. O primeiro cara esbarrou no meu ombro ao passar. Recuei um passo para recuperar o equilíbrio e olhei para cima a tempo de ver a cara feia dos outros dois jogadores ao partirem.

Que beleza, a culpa não era minha. A culpa era do Brian em ser meu parceiro em Biologia.

- Sinuca? – Perguntei, levantando as sobrancelhas, tentando parecer completamente seguro e indiferente. Talvez ele estivesse certo e o Bo’s Arcade não fosse mesmo um lugar para mim. Isso não queri dizer que eu ia sair correndo de novo. – Em quanto estão as apostas? Quero jogar.

Ele abriu um sorriso. Dessa vez fiquei convencido de que estava rindo da minha cara.

- Não jogamos por dinheiro.

Coloquei minhas coisas na beirada da mesa.

- Que pena! Ia apostar todo o meu dinheiro contra você. – Segurei meu trabalho, com algumas linhas já preenchidas. – Mais algumas perguntas e eu dou o fora.

- Babaca? – Brian leu em voz alta, apoiando-se no taco. – Câncer no pulmão? É pra ser uma espécie de profecia?

Abanei o ar com o papel.

- Presumo que dê sua contribuição para esta atmosfera carregada. Quantos cigarros por noite? Dez? Vinte? Cinquenta?

- Eu não fumo. – Parecia sincero mas não me convenceu.

- Próxima mentira?

Apoiei a folha no meio da mesa e escrevi em outra linha, fuma cigarros, com certeza.

- Qual é o seu maior sonho? – Perguntei olhando para a folha.

Estava orgulhoso dessa pergunta porque sabia que ia desafiá-lo; exigiria que ele pensasse.

- Beijar você.

- Ow idiota, não tem graça. – Falei, olhando-o nos olhos. Verdes nos negros.

- Não teve mesmo. Mas você ficou vermelho.

Sentei-me na lateral da mesa, tentando parecer indiferente mais uma vez. Curvei as costas, usando o joelho como apoio para escrever.

- Você trabalha?

- Trabalho em um bar parecido com esse, se chama Borderline.

- Religião?

Ele não pareceu surpreso com a pergunta, mas também não pareceu ter gostado.

- Achei que tivesse dito que eram algumas perguntas rápidas. Você já passou do limite.

- Religião? – Perguntei com mais firmeza. Novamente os olhos verdes nos negros.

- Não é religião, é um culto…

- Você pertence a um culto?

- Acontece que, preciso de uma fêmea saudável para sacrifício. Tinha planejado ganhar a confiança dela primeiro e atraí-la, mas como você já está por aqui…

- Olha, primeiro: Eu não sou uma fêmea e tampouco pareço. E segundo: Você não está me surpreendendo.

- Ainda nem comecei.

Desci da mesa e fiquei de frente pra ele. Ele era mais alto, mas isso não queria dizer nada.

- Quantas vezes você foi reprovado, ein?

- Não importa.

- Está dizendo que não foi reprovado?

- Estou dizendo que não frequentei a escola ano passado.

- Pulou o ano?

Brian pousou o taco sobre o tampo da mesa e fez um sinal com o dedo para que eu me aproximasse. Eu não me aproximei.

- Um segredo? – Disse-me em tom confidencial. – Nunca fui a escola. Outro segredo? Não é tão chato quanto eu imaginava.

Ele estava mentindo. Todo mundo vai a escola. Existiam leis. Ele estava realmente tirando com a minha cara.

- Acha que eu estou mentindo. – afirmou ele com um sorriso.

- Você nunca foi pra escola, nunca? Se é verdade, o que te fez frequentar a escola depois de 16 anos, praticamente?

- Você.

O impulso de sentir medo me atravessou, mas disse a mim mesmo que era isso que Brian queria. Mantendo-me firme, tentei parecer apenas incomodado. Ainda sim, precisei de um momento para recuperar a voz.

- Resposta errada. Tente novamente mais tarde.

Ele deve ter se aproximado, pois de repente nossos corpos não estavam separados por nada além de uma nesga de ar.

- Seus olhos, Zacky. Esses olhos verdes, pálidos e frios são surpreendentemente irresistíveis. – Ele inclinou a cabeça para o lado como se quisesse me ver de outro ângulo. – E essa boca carnuda?!

Dei um passo para trás, desconcentrado nem tanto pelo comentário, mas por parte de mim reagir àquilo positivamente.

- É isso, vou embora.

Dei mais um passo para trás e pude sentir sua mão envolvendo meu braço. Nesse momento eu percebi que o que disse era mentira. Queria muito dizer mais. Examinando os pensamentos torturosos que passavam por minha cabeça, tentei encontrar o que achava que devia dizer. Por que ele debochava tanto de mim e por que agia como se eu tivesse feito algo para merecer aquilo?

- Você parece saber muito sobre mim... – soltei, olhando para a mão dele em meu braço e logo depois para seu rosto. – Mais do que deveria. Parece que sabe exatamente o que dizer para eu me sentir mal.

- Você ajuda.

Uma fagulha de raiva percorreu meu corpo, e eu soltei meu braço de sua mão com toda força que eu tinha.

- Você admite que faz isso de propósito?

- Isso?

- Isso… Me provocar. Você não é um idiota.

- Diga “provocar” de novo. Sua boca fica provocante quando você diz isso.

- Chega. Termine essa porra de jogo.

Tirei o taco da mesa e empurrei-o contra ele, que não pegou.

- Não gosto de sentar ao seu lado. Não gosto de ser seu parceiro. Não gosto dessa sua cara. Não gosto desse seu sorriso esperto. – Meu queixo estremeceu, isso geralmente acontece quando eu minto. – Não gosto de você. – Disse da forma mais convincente que consegui e empurrei com força o taco sobre o peito dele novamente.

- Estou feliz que o professor tenha nos colocado juntos.

Percebi uma leve ironia na palavra “professor”, mas não entendi o que aquilo poderia significar. Então ele pegou o taco.

- Estou tentando mudar isso.

Brian achou tão engraçado que chegou a mostrar os dentes quando sorriu. Ele estendeu sua mão para mim, passando-a em meu queixo devagar. Quando ele estendeu a mão, percebi uma marca no lado interno de seu pulso. A princípio, achei que fosse uma tatuagem, mas, ao prestar atenção, percebi uma marca de nascimento marrom avermelhada, ligeiramente em relevo. Tinha o formado de uma gota de tinta.

- Lugar infeliz para ter uma marca de nascença. – Falei, um tanto nervoso por notar que a posição fosse tão semelhante à minha.

Brian abaixou a mão.

- Você preferiria que fosse em um lugar mais íntimo?

- Preferiria que fosse em lugar nenhum, idiota.

- Mais alguma pergunta? Algum comentário? Me chama de gostoso.

- Não.

- Então até a aula de biologia. E pare de corar do meu lado, garoto.

Pensei em dizer a Brian que ele nunca mais me veria. Mas não ia engolir o que disse duas vezes no mesmo dia.

(...)

Mais tarde, naquela mesma noite, despertei com um barulho. Com o rosto apertado contra o travesseiro fiquei quieto, todos os sentidos alertas. Minha mãe ficava fora da cidade pelo menos uma vez no mês e por isso eu estava acostumado a dormir sozinho. Já tinham se passado meses desde que eu imaginara ter ouvido o som de passos se arrastando pelo corredor rumo ao meu quarto. A verdade era que eu nunca me sentia completamente sozinho. Logo depois que meu pai foi morto em Portland, enquanto comprava um presente de aniversário para minha mãe, uma presença estranha surgiu em minha vida. Como se alguém estivesse me vigiando o tempo todo. A princípio a presença me preocupava, mas aos poucos a preocupação foi passando. Talvez fosse o espírito de meu pai. Se eu tivesse certeza disso, eu me sentiria bem mais confortável. Porra, ele era meu pai. Nunca me faria mal.

O pensamento costumava ser reconfortante, mas naquela noite foi completamente diferente, a presença era como gelo sobre a pele.