COLDWATER, MAINE.

Entrei no laboratório de Biologia e logo o meu queixo caiu. Lá estava, estranhamente grudada no quadro-negro, uma boneca Barbie, devidamente acompanhada por um boneco Ken. Os dois tinham sido postos de braços dados e estariam completamente nus, se não fossem as pequenas folhas artificiais colocadas em alguns lugares porcamente estratégicos. Rabiscado em giz cor-de-rosa neon sobre a cabeça dos dois, lia-se:

“Bem-Vindos à Reprodução Humana (Sexo)”

- É por essas e outras que essa merda de escola proíbe celulares com câmeras – Disse Jonathan Lewis Seward ao meu lado.

- Como assim? – Perguntei um pouco distraído.

Johnny apertou os olhos com força e abriu um sorriso de canto.

- Aqui ninguém vai me ensinar nada que eu já não saiba.

- Seu nome deveria começar com V. V de virgem.

Ele olhou com raiva pra mim bem na hora em que o sinal tocou, obrigando-nos a ir para nossos lugares que ficavam lado a lado.

O professor Mike Portnoy agarrou seu apito que pendia de uma corrente em seu pescoço e soprou. Soprou o mais alto que pode, fazendo eu – e provavelmente a sala inteira – retorcer a cara com raiva.

- Todos sentados!

Para o professor, ensinar biologia às turmas do ensino médio era um bico para complementar a renda de seu emprego como treinador de um time universitário de basquete. Todo mundo sabia disso.

- Talvez não tenha passado pela cabeça de vocês que o sexo é mais do que um passeio de 15 minutos no banco de trás de um carro. É uma ciência. E o que é ciência?

- Uma porra de uma chatice! – Exclamou Benji Madden, no fundo da sala.

- A única matéria em que eu estou levando um pau. – Disse seu irmão Joel, logo em seguida.

Os olhos do professor focalizaram os dois garotos idênticos, ao fundo da sala. Depois disso ele pegou seu diário e em frente aos nomes, fez algumas anotações. A sala toda riu.

Mais uns minutos e o professor voltou a olhar a sala. Percorrendo as últimas fileiras, seus olhos pararam em mim.

- Zachary?

- É o estudo de alguma coisa. – Respondi entediado.

Ele se aproximou e bateu com o indicador na mesa à minha frente. Juro que aquela barba gigante e aquele monte de cabelo me assustaram.

- O que mais?

- Eu não sei, droga.

Que beleza, agora parecia que eu estava fazendo um teste para a versão em áudio do nosso livro escolar. Não que eu escutasse aquela merda. Só dizendo.

- Com suas palavras.

- Ciência é uma investigação…

- Investigação. – Disse o professor esfregando as mãos. – A ciência exige que a gente se transforme em espiões.

Explicada dessa maneira a ciência até parecia divertida.

- É necessário muita prática para se realizar um bom trabalho.

- O sexo também exige muita prática – Disse novamente Benji Madden.

Todos tentaram conter os risos, mas não pareceu dar certo.

- Esse não vai ser o seu dever de casa hoje. – O professor voltou-se novamente pra mim. – Zachary, você senta com Jonathan desde o ínicio do ano.

Assenti com cara de enterro, sem saber que rumo aquela merda de conversa tomaria.

Depois disso o professor contemplou a turma.

- Na verdade, aposto que cada um de vocês conhece bem demais a pessoa que está sentada ao lado. Vocês escolheram esses lugares por alguma razão. Foi pela familiaridade! Que pena, pois os melhores detetives evitam-na. Ela embaça o instinto investigativo. E é por esse motivo que hoje vamos trocar de lugares.

Abri a boca pra falar alguma coisa, mas Johnny foi mais rápido.

- Como assim? A merda do ano está acabando. Você não vai querer inventar esse tipo de coisa agora. Ninguém concorda.

O professor esboçou um sorriso.

- Posso fazer isso até o ultimo dia de aula. E se você for reprovado na minha matéria, vai voltar para o mesmo lugar e aguentar todas as minhas novidades mais uma vez.

Johnny olhou feio pra ele. Ele é famoso por esse olhar. Um olhar que já diz tudo, ele nem precisa abrir a boca. Sem parecer se importar, o professor levou o apito aos lábios mais uma vez.

- Quem estiver sentado no lado esquerdo da mesa, isto é, à sua esquerda, deve avançar um lugar. Aqueles que estão na primeira fila, e isso inclui você Jonathan, vão para o fundo da sala agora.

Johnny jogou o caderno dentro da mochila e fechou o zíper lentamente.

Virei-me para acompanhar meu amigo indo até seu novo lugar. Aproveitei e observei toda a sala. Eu sabia o nome de todo mundo ali… menos de um. O aluno novo. O professor nunca falava com ele e acho que ele gostava assim. Estava jogado em uma carteira atrás de mim, os olhos negros e frios fixados num ponto adiante. Como sempre. Ele parecia uma estátua.

Ele colocou o livro de biologia na mesa e se arrastou para a antiga cadeira de Johnny.

Sorri tentando ser simpático.

- Meu nome é Zachary. Mas pode me chamar de Zacky, ou de Vengenz… Você que sabe.

Seus olhos negros me atravessaram e os cantos de sua boca fina se ergueram. Eu fiquei estático por um segundo, e nesse segundo, um sentimento sinistro e desesperador pareceu me envolver como uma sombra. Passou, mas eu continuei a encará-lo. O sorriso dele não era nada amistoso. Era um sorriso que queria dizer confusão. Confusão fodidamente garantida.

Voltei a minha atenção para o quadro e percebi Barbie e Ken me fitando com aqueles sorrisos estranhamente animados.

- A reprodução humana pode ser um tema pegajoso… — O professor falou.

- Eca! – disseram os irmãos Madden em coro.

- Exige tratamento maduro. E, como todas as ciências, a melhor abordagem para o aprendizado é a investigação. Até o final da aula, pratiquem essa técnica desvendando tudo o que conseguirem sobre o seu novo parceiro. Amanhã tragam suas descobertas por escrito, e podem acreditar: Vou checar a autenticidade das informações. Estamos falando de biologia, não de aula de redação, seus merdas. Por isso, nem pensem em inventar respostas, quero ver a interação e trabalho de equipe de verdade.

Fiquei imóvel sem fazer nada. O passo seguinte deveria ser do idiota ao meu lado – eu já tinha sorrido e não tinha adiantado. Isso costumava adiantar com garotas.

Funguei discretamente, tentando decifrar o cheiro dele. Não era de cigarros, por mais que ele tivesse um “Marlboro” tatuado nos dedos. Fazia sentido. Eu tinha 17 anos – creio que ele também, mesmo parecendo mais velho -, e tinha algumas tatuagens também, mas ele tinha bem mais que eu. Percebi por causa da camiseta em gola V que ele usava. Não achei muito estranho já que eu tinha um “Cali4nia” tatuado nos dedos e atualmente estava morando em Maine. Porém, o cheiro era mais intenso e desagradável.

Charutos.

Olhei para o relógio na parede e bati meu lápis no ritmo do ponteiro dos segundos. Repousei meu cotovelo na mesa e o queixo no punho, totalmente entediado. Soltei um suspiro.

Que beleza, desse jeito eu seria reprovado em biologia. Não que eu me importasse. Foda-se a escola e todas essas coisas, só não queria ficar olhando para o relógio a aula toda.

Meus olhos estavam fixos a frente, mas escutei o toque dele em sua folha. Ele estava escrevendo, e eu quis saber sobre o quê. Dez minutos sentado ao meu lado não davam o direito de adivinhar nada a meu respeito. Dei uma olhada para a folha e vi que já continha diversas linhas.

- O que está escrevendo?

- E ele fala – Disse o garoto enquanto continuava a rabiscar em um movimento suave e descuidado.

Me curvei, aproximando-me dele o máximo que minha ousadia permitia, tentando ler o que mais escrevera, mas ele dobrou metade da folha, escondendo o que tinha escrito.

- Que porra você escreveu, cara? Eu quero saber.

Ele alcançou minha folha ainda em branco e a puxou para perto. Amassou-a rapidamente até formar uma bola. Antes que eu pudesse reclamar, ele a lançou na lixeira que ficava ao lado da mesa do professor. Cesta!

Fiquei olhando aquela porcaria de lixeira por algum momento, dividido entre a descrença e a raiva, abri o meu caderno e arranquei uma folha nova.

- Qual é o seu nome?

Levantei o olhar a tempo de ver outro sorriso sinistro. Este parecia me desafiar a conseguir qualquer informação sobre ele.

- Dá pra falar a merda do seu nome?

- Me chame de Brian.

Ele piscou ao falar e eu tive certeza de que ele estava debochando de mim. Imbecil.

Ele fez mais algumas anotações na folha e eu juro que queria saber da onde ele estava tirando aquele monte de informação. Me inclinei mais uma vez e pude ver que ele se mexeu um pouco. Ele enfiou os dedos debaixo do assento de minha cadeira, arrastando-a para mais perto de si. Sem saber bem se deveria me afastar, não reagi e fingi o tédio.

- Fazer julgamentos apressados é sua terceira fraqueza.

- E a segunda? – Falei contendo a raiva.

Quem era aquele idiota? Que tipo de piada ele pensava que estava fazendo?

- Você não sabe confiar. Quer dizer, você só confia em pessoas erradas.

- E a primeira?

- Você leva a vida em rédeas curtas.

- E o que isso quer dizer?

- Isso quer dizer que você tem medo daquilo que não pode controlar.

Eu sou o cara mais chato desse mundo. O mais teimoso e o mais impaciente, mas não pude negar que senti um arrepio na nuca. A temperatura da sala pareceu cair. Em uma situação comum eu tinha ido até a mesa do professor pedido para mudar de lugar. Porém, algo ia contra a minha vontade e nada poderia me tirar do lado de Brian naquele momento. Eu só não queria que ele pensasse que podia me assustar ou me intimidar com esse tipo de coisa. Eu sou gordo e tenho cara de idiota, mas não sou tão influenciável assim quanto parece.

- Você dorme pelado?

Meu queixo quase caiu no chão, mas eu mantive-o no lugar.

- Desiste. Você está longe de ser a pessoa a quem eu contaria isso.

- Já fez terapia?

- Não – Menti.

A verdade é que eu estava sob aconselhamento do psicólogo da escola, o Dr. DePoyster. Não tinha sido por escolha própria e não era algo que eu gostava de ficar comentando.

- Já fez algo ilegal?

- Porra! Olha pra minha cara. O que você acha? – Falei impaciente. – Por que não me faz perguntas normais?

- Não vou perguntar o que posso deduzir.

- Você não sabe que tipo de música eu escuto.

- Rock. Metal. Todos esses gêneros que contém guitarras pesada a baterias dilacerantes. E ainda posso apostar que toca… Guitarra? Com a mão direita.

- Errado – Menti de novo.

Quem esse cara era de verdade? Se sabia que eu tocava guitarra, e com a mão direita, o que mais poderia saber?

- O que é isso? – Brian perguntou tocando com a caneta na parte interior do meu pulso. Recuei.

- Não tá vendo que é uma marca de nascença?

- Parece uma cicatriz. Já tentou o suicídio, Zacky? – Nossos olhos se encontraram e eu podia sentir que ele estava rindo. – Pais casados ou divorciados?

- Moro com a minha mãe.

- Onde está seu pai?

- Meu pai morreu ano passado.

- Morreu como?

Abaixei a cabeça e diminui o tom de voz.

- Ele foi assassinado. E é um assunto particular, só meu.

Houve um minuto de silêncio.

- Deve ter sido difícil – Disse, parecendo sincero.

O sinal tocou, e Brian levantou-se e caminhou até a porta.

- Dá pra esperar? – Chamei. Ele não se virou. – Dá pra esperar, porra? – Bradei um pouco mais alto mas ele pareceu não ouvir. – Brian, eu não sei nada sobre você – Falei nervoso.

Ele deu meia-volta e andou em minha direção. Puxou minha mão com toda força que podia e escreveu nela alguma coisa antes de eu sequer poder puxá-la.

Olhei para os números escritos em tinta vermelha na palma de minha mão . Cerrei o punho e queria acertá-lo na cara dele.

- Vou estar ocupado essa noite. Não tenho tempo para te fazer perguntas fúteis de biologia.

- Eu também estarei ocupado. – Ele respondeu sorrindo, antes de partir. – Bela tatuagem. Já morei na Califórnia também.

Fiquei imóvel tentando digerir o que ele tinha acabado de dizer. Como ele sabia que eu morei na Califórnia? Ninguém sabia disso. Apenas Johnny, minha mãe e… Johnny.

- Eu não vou te ligar – Gritei pra ele. – Nunca!

- Já tomou suas pílulas para emagrecer? – Ele retrucou.

No meio disso aparece Johnny rindo da situação. E novamente eu me perguntei como ele sabia disso. Eu estava sim fora do peso e estava sim tomando pílulas para emagrecer. Mas nem minha mãe sabe disso. O que há de errado comigo? Eu sou tão… previsível desse jeito?

- Nossa, ele adivinhou um de seus segredos.

- É, meu novo parceiro.

Ele tinha um jeito de andar irritantemente confiante, do tipo que combina com camisetas coladas em gola V e calças mais largas. Brian usava os dois. Era um sujeito tipo jeans escuros, camisetas claras e tênis nike modelo cortês, às vezes usava um preto com branco e às vezes usava um cinza com branco. Durante todas as vezes que eu o vi, ele estava usando preto, cinza, ou branco. Apenas cores neutras.

- O aluno novo? Ele não parece ser do terceiro ano. Parece que repetiu umas três vezes.

- Ele me irrita. Sabia minha música preferida. Sem nenhuma dica ele disse “rock, metal e derivados”.

Johnny gargalhou.

- Cara, é lógico. Isso está escrito na sua testa praticamente. Olha a sua camiseta, – Olhei para a minha camiseta antes de Johnny terminar. — é dos Misfits.

Revirei os olhos.

- Eu sei que pode ter sido um palpite, mas era uma coisa óbvia.

- Ele sabia… de outras coisas.

- Como o quê?

Suspirei pesadamente. Johnny sabia me desafiar quando queria.

- Ele sabia como me encher o saco – Disse, finalmente. – Vou pedir ao professor que me troque de lugar de novo.

- Vá em frente, chubby.

No final das contas, a única pessoa prejudicada foi eu. O professor Mike recusou meu pedido de mudanças de lugar. Aparentemente, eu estava preso a Brian.

Pelo menos por enquanto.

Notas finais
Reviews?