PARK JIMIN

Jeon Jungkook. Um nome e um sobrenome, uma pessoa que em pouco tempo já havia feito mudanças tão profundas na minha vida que eu já não sabia como era viver sem ele ao meu lado.

Mas, vamos desde o começo para melhor entendimento.

Eu conheci Jungkook quando eu tinha quinze anos, ele tinha quatorze. Foi em um aniversário de um amigo que tínhamos em comum, eu era muito tímido e ele muito extrovertido. Éramos polos distintos, por isso já de cara conseguimos nos acertar. Ele me ajudou a lidar com aquela timidez e, por conta disso, minha primeira festa não foi um verdadeiro desastre.

Com o passar dos meses nós nos unimos, com Jungkook eu tive o meu primeiro beijo bem no meu aniversário de dezesseis anos. Nós estávamos em uma roda brincando de verdade ou consequência e eu fui desafiado a beijar alguém dali, como Jungkook sabia que eu nunca tinha beijado antes ele fez um sinal com a cabeça para que eu o beijasse. Antes não tivesse feito isso, porque naquele instante eu me vi totalmente apaixonado por ele.

Jungkook era tudo que eu queria, era o meu anjo da guarda praticamente. Ele me fazia bem em qualquer momento. Nós dois éramos extremamente unidos, contávamos tudo um para o outro.

E em um dia ele me contou que estava namorando. Eu fiquei arrasado, porque eu o amava de uma forma diferente da maneira que ele me amava. A dor foi insuportável, mas eu vesti uma máscara de alegria para poder vê-lo feliz, da mesma maneira que eu sempre fazia por ele. Porque é isso que fazemos quando amamos, não importa o quanto doa.

Exatamente um ano atrás ele se mudou para outro país e seu querido namorado foi junto. Pelo que soube eles estavam noivos, mas a nossa amizade abalou-se no instante em que ele me deixou chorando no aeroporto. Jungkook disse que não podia ficar, que precisava ir atrás do seu sonho, e que deixar Busan doeria, porém com o passar dos anos doeria ainda mais ter desistido de algo que amava tanto.

Eu queria que a saudade doesse, mas durante seis meses fomos nos distanciando até nas conversas pela internet, e chegou em um ponto onde eu não era mais importante.

A minha avó foi parar no hospital cerca de um mês atrás, ela estava bem na medida do possível, mas noite passada tudo ficou complicado e ninguém foi rápido o suficiente para socorrê-la. Minha mãe chorava abraçada em meu pai, eu não podia roubar o espaço dela nos braços dele porque sabia que ela precisava mais do que eu.

Eu só queria Jungkook ao meu lado, me abraçando da forma firme que sempre fez.

Por isso que, mesmo sabendo da nossa distância, tanto física quanto emocional, eu liguei para ele. Talvez sua voz tivesse algum poder para me acalmar, afinal nos nossos seis anos de amizade isso sempre resolveu.

— Jungkookie... — Sussurrei assim que ele atendeu, já começando a me debulhar em lágrimas pelo simples suspiro que ele soltou do outro lado.

— Oi, bebê. — Ah, ele sempre me chamava assim, mesmo que fosse mais novo que eu. E eu amava esse apelido, mas apenas se ele saísse dos lábios dele.

— Você sempre soube o quão sensível eu era, sempre soube que as minhas certezas eram invisíveis perto do meu mar de incertezas. Você sabia que eu era um rio de tristeza e aceitou com todo seu coração mergulhar sem colete salva-vidas nesse rio. E agora eu te pergunto, Kookie, onde você está quando eu mais preciso de alguém para me salvar? Você não prometeu que estaria sempre aqui por mim?

Um silêncio que me torturava pareceu me ensurdecer naquele instante, onde eu estava sentado em um banco dentro de um cemitério e só queria um abraço. Eu só queria ele ali comigo, me acalmando como sempre fazia.

— Olhe para trás, bebê.

No mesmo instante eu olhei, encontrando ali aquele que durante um ano inteiro eu queria poder prender nos meus braços e apenas colocar para fora toda a dor da solidão que eu sentia. Eu não sei de onde arranjei forças, mas levantei e fui correndo até ele, me afundando no abraço que me foi oferecido.

Uma de suas mãos foi para os meus cabelos, afundando seus dedos compridos em meus fios loiros. Se eu fosse um gatinho eu estaria ronronando, eu sempre derretia quando ele me acariciava ali.

Jungkook estava mais magro, tinha olheiras pendendo por seus olhos, ele parecia tão destruído quanto eu, mas ainda era o meu Jungkook ali, ainda era o meu grande amor e melhor amigo, aquele que eu sentia falta todos os dias, aquele por quem eu ainda daria minha vida apesar de tudo.

— Estou aqui com você. — Garantiu, me apertando mais contra si.

— Mas aposto que amanhã já vai embora, vai voltar para a Inglaterra para terminar sua faculdade, vai casar com aquele idiota e vai esquecer de mim de novo. — Eu estava sim magoado, estava sim com ciúmes e estava sim sendo egoísta, mas eu queria ele comigo.

Eu ficava feliz o vendo feliz, mas meu coração não aguentava mais.

— Minnie, olha esse papel. — Encarei a folha, mas não entendi sobre o que se tratava. — É o meu visto para a Inglaterra, é o que me mantém por lá enquanto eu estiver estudando.

E Jungkook simplesmente rasgou o papel, me deixando ainda mais confuso do que eu já estava.

— Precisamos conversar, mas não vamos fazer isso em um cemitério, tudo bem? Eu estou aqui para te apoiar, ficarei aqui o tempo que você quiser. Agora eu preciso dar um abraço na sua mãe também, então vamos lá. — Esticou o braço para mim. Agarrei sua mão e ele entrelaçou nossos dedos.

Porém ele pareceu perceber o quão distante eu estava. Por isso Jungkook passou o braço por trás de mim, me trazendo para mais perto e entrelaçando sua mão na minha outra mão, deixando assim nossos corpos bem juntinhos. Eu o abracei de volta, não importando o quão desconfortável fosse caminhar daquele jeito.

Voltamos para dentro da capela que eu tanto já odiava e fomos até meus pais. Jungkook abraçou tanto meu pai quanto minha mãe, dizendo que sentia muito. Depois voltou até mim e me abraçou com força, me mantendo ali, bem pertinho dele. Minha avó sempre dizia que eu e Jungkook éramos feitos um para o outro, eu nunca duvidei, e ela nunca errou em algo.

Após a tão dolorosa cerimônia nós seguimos para a minha casa, Jungkook acabou dirigindo o carro por conta de meu pai estar ainda consolando minha mãe. A mão do moreno sempre escorregava para a minha quando ele trocava de marcha enquanto dirigia, seu olhar sempre cruzava com o meu nos sinais e ele cantarolava em um sussurro uma música calminha. Sabia que era para acalmar todos nós, Jungkook tinha muito carinho por meus pais e os mais velhos também o adoravam. Jungkook era parte da minha família, sempre foi.

Quando adentramos a minha residência meu pai disse que iria levar minha mãe para o quarto para ela descansar, e Jungkook disse que nos faria um chá calmante. Eu tentei ajudar, porém como eu não era tão pesado e ele era forte Jungkook simplesmente me puxou, me pegou e colocou sobre o balcão, dizendo que sabia se virar.

Se eu não estivesse tão triste eu poderia ter sorrido. Aceitei de bom grado o meu chá e ajudei Jungkook a levar as canecas para minha mãe e meu pai.

— Eu amo você, mãe. — Sussurrei no ouvido dela, depositando um beijo em sua bochecha.

— Também amo você, meu pequeno. — Ela abriu um minúsculo sorriso. — Obrigada pelo chá, Jungkook. E obrigada por estar aqui agora.

— Não pretendo ir a lugar algum mais. — Meu coração, tão estraçalhado pelo que houve, aqueceu um pouco por suas palavras. — Eu sei onde é meu lar, e não é na Inglaterra.

Ele abriu um pequeno sorriso e então saímos do quarto de meus pais, indo para o meu próprio em seguida. Ele sentou em minha cama escorado na cabeceira, e eu sentei em seu colo para beber meu chá. Como ele sempre me disse, eu pertencia a ele de uma forma que não sabíamos explicar.

Mesmo quando recém havíamos nos conhecido, eu sempre ficava assim agarrado nele. E no início de seu namoro isso foi um problema, porque para nós era normal, mas não para o insuportável que meu melhor amigo tinha como namorado.

— Eu estava terminando minhas malas quando seu pai me ligou. Ele disse que me contou antes mesmo de você saber, e que você com certeza iria precisar de mim. Eu sabia o quão péssimo amigo estava sendo, meu lugar não era lá, talvez nunca tenha sido, mas eu estava cego demais. Eu demorei para perceber que aquilo que mais me fazia falta havia sido o menino que eu deixei chorando em um aeroporto de Busan. Essa história te é familiar?

— Até demais. — Murmurei, largando a caneca e escorando a cabeça em seu ombro.

— Meu namoro era bom enquanto estávamos aqui, mas na primeira noite onde éramos apenas nós, como um casal, dentro de um quarto, tudo desabou. Ele me ditou regras como se eu fosse um nada. Eu só podia falar com você se fosse escondido, e isso piorou com o passar dos meses, porque até quebrar o meu celular ele quebrou. Entendi que aquilo era um aviso, e que eu deveria me afastar de você. Errei tanto em fazer isso. — Sua voz foi falhando conforme ele falava e minha raiva só crescia. — Eu pensei que poderia mudá-lo, mas no fundo sabia que era impossível.

"Eu e ele não éramos um casal bom, vivíamos um relacionamento conturbado que apenas nós sabíamos. Chegou em um ponto onde ficou insuportável, eu não podia sair com ninguém, nem ao menos falar com os outros que ele já me xingava e começava uma discussão. Vinha com o papo de que eu não o amava e que assim não poderíamos casar. Foi horrível."

— Eu odeio ele.

— O pior é que eu também, só demorei demais para perceber. — Iniciou um carinho em meus cabelos, fazendo com que eu me aconchegasse mais em seus braços. — Ficou cada vez mais insuportável, não tinha mais nenhum sentimento bom sendo partilhado, e eu sentia sua falta a cada instante mais. Eu já não estava mais me concentrando na faculdade ou no meu estágio, o relacionamento que eu tinha estava me esgotando, me desgastando ao máximo.

"E então aconteceu o que foi a gota d'água. Eu cheguei em casa e vi ele nos braços de outro, dando todo o amor que deveria ter dado a mim, se entregando de uma forma que deveria ser apenas minha. E doeu, mas não por ver ele com um outro alguém, e sim por saber que eu vivia uma grande mentira. Eu não o amava, então por que eu sentia raiva?"

— Porque ele é um idiota. — Murmurei.

— Não, bebê. Eu prometi que sempre estaria com você, então por qual motivo eu não estava? — Segurou meu rosto com as duas mãos, me fazendo encará-lo. — Eu não aceitava que pudesse te amar de forma diferente. Eu tentei me iludir e fingir que não, mas a minha raiva é porque eu sabia que os momentos que eu tinha com ele só eram ruins porque eu não queria que fossem com ele.

"Aí quando eu o peguei no flagra o outro qualquer foi embora e nós discutimos. Mas foi tão feio que nós saímos literalmente aos socos. Ainda estou um pouco dolorido, mas o roxo do meu rosto já está quase imperceptível. Eu disse que não o amava, que meu coração estava aqui e que meu lar era em outro lugar. Ele ficou irritado, tentou jogar coisas em mim, mas eu não deixei. Eu o mandei embora, e enquanto ele saía irritado eu chorava. Estava fazendo tudo errado.

"Demorei cerca de uma semana para organizar minha viagem de volta. Meus pais me apoiaram, disseram que apoiariam qualquer coisa para me ver feliz. Eu consegui uma vaga por transferência aqui para Busan, consegui pegar de volta meu quarto na casa dos meus pais, o que já era óbvio que continuaria a ser meu, e comprei as passagens. Então recebi a ligação do seu pai enquanto terminava de arrumar as malas, e tive que jogar minha passagem que era só para amanhã no lixo, porque antecipei o voo em cima da hora. Mas não me importei de gastar minhas economias com isso, eu viria a pé se fosse necessário, mesmo que eu talvez só chegasse aqui ano que vem.

"O que importa é que eu percebi o quão errado estava. Eu perdi um ano e não pretendo perder mais nenhum."

— Eu odeio muito ele. — Murmurei de novo, ainda o olhando. — Você disse que finalmente percebeu onde é o seu lar. Onde é? Busan?

— Na verdade, você é o meu lar. Estar aqui, com você nos meus braços, é onde quero estar. É com você que quero ficar, e mesmo que você não me queira desse jeito eu não me importo, eu faço de tudo para reconquistar sua amizade, para merecer te ter ao meu lado de novo.

Eu o encarei com os olhos vertendo lágrimas. Não podia acreditar que ele estava dizendo aquilo. Depois de um ano?

— Você é um otário! — Esbravejei, virando de frente para ele, ainda sentado em suas pernas. — Você é um idiota mesmo. Você demorou todo esse tempo para perceber? Nossa, eu te odeio tanto quanto eu te amo!

— Você está irritado? Depois de tudo que eu disse? Por quê?

— Porque desde que você me beijou eu sou totalmente apaixonado por você, seu ridículo! Não sei o que me dá mais ódio, se é a sua lerdeza em nunca ter...

E eu fui interrompido, mas não por sua voz e sim por sua boca colada na minha. Meu emocional estava um verdadeiro lixo — e bagunçado ainda por cima — e eu o amava tanto, que não resisti, óbvio que não. Eu apenas passei os braços em volta do seu pescoço e me aproximei mais, deixando que ele aprofundasse o beijo e me apertasse o máximo possível contra si.

— Eu te amo, seu idiota. — Falei ainda chorando, de raiva, tristeza, talvez até um pouco de alegria. — Nossa, eu amo tanto.

— Eu também te amo, bebê. — Ele abriu aquele sorriso de um verdadeiro coelhinho que tanto me desconcertava. — E eu vou refazer a minha promessa, então gruda esse dedinho aí no meu.

— Não debocha do meu dedinho, seu ridículo. — Murmurei falsamente irritado, o roubando mais um selinho. — Só prometa se você for cumprir. Ouviu bem?

— Eu vou cumprir.

— Tá.

— De hoje em diante você nunca mais estará sozinho. Eu aceitei sim mergulhar no seu mar, posso até me afogar se for preciso, mas estarei sempre lá por você. Ou melhor, estarei sempre aqui por você e com você. Sempre e para sempre.

E pela primeira vez nos últimos meses eu abri um sorriso verdadeiro. Eu estava triste, óbvio que estava, mas pelo menos uma das últimas coisas que prometi para minha avó eu consegui cumprir: não desistir de quem eu amo.

Eu a perdi e isso vai doer por muito tempo, mas pelo menos agora eu não preciso sofrer sozinho.

Eu tenho Jungkook comigo.

Ele sempre estará aqui por mim.

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