Therapy Session
1 Capítulo Único
Notas iniciais
The Meeting
Terça feira. 08H42.
O trem partiu.
A paisagem é a mesma. As pessoas são as mesmas.
Depois de tanto tempo na mesma rotina, é normal já reconhecer todos os que fazem parte dela.
A mãe que agarra o braço de sua filha com tanta força que deixa uma marca. Seus olhos inquietos indicam o medo que tem de algo ruim acontecer a alguma delas. Seria o fruto de alguma experiência passada? Um passeio mundano terminado em tragédia? Talvez apenas um susto, porém um tão grande que fez com que a senhora repensasse suas atitudes, sua maneira de ver o mundo.
O garoto que segura a bicicleta com uma mão e o celular com a outra, agarrado aos dois como se ambos fosses extensões de seus braços.
O senhor que lê o jornal do dia anterior; as roupas surradas, a mochila com uma alça arrebentada e o chapéu rasgado sugerindo que tudo aquilo o que possui já pertenceu a outra pessoa.
Mais uma parada e as portas se abrem para dar lugar a outras personagens que também incluo na minha rotina. O chinês que passa a vida em videochamada com sua... namorada? Irmã? Seria sempre a mesma chamada? Não é difícil imaginá-lo dormindo com o celular apontando para o seu rosto enquanto, do outro lado do mundo, a misteriosa mulher o observa, também deitada em sua cama.
Minha preferida é a senhora espanhola que conversa sempre com quem se sentar ao seu lado. Suas roupas espalhafatosas são sempre uma surpresa e seu sotaque madrilenho domina toda a carruagem, estrondoso e imponente. Confesso que só escuto o que ela diz entre as músicas que tocam nos meus fones, mas observá-la é um dos maiores entretenimentos da minha enfadonha ida ao trabalho.
Ou ao menos era, até que, na quarta paragem, ele entrou.
Entrou sorrateiro. Esquivo. Parecia rodeado por uma aura defensiva. Desviava de qualquer um que se aproximasse, de maneira discreta, sutil, mas muito perceptível para mim. Não quis se sentar. Encostou-se numa porta e ali ficou. Evitava o contato visual; fitava o chão, o teto, as propagandas penduradas... qualquer coisa que não o encarasse de volta. Numa curva, desequilibrou-se. Pouco, mas o suficiente para fazer com que tivesse que se segurar em alguma coisa. Instintivamente, sua mão foi para o encosto da cadeira mais próxima. A mulher ao seu lado também deve ter se assustado com o movimento repentino do trem, já que teve a mesma reação. Quando sua mão tocou a dele, os dedos do garoto recolheram-se, lentamente, como um caracol se recolhe para dentro de sua concha. Ele retirou a mão logo a seguir e eu quase pude ver o arrepio que percorreu seu corpo com o toque de uma estranha. De certa forma, movia-se como se quisesse ser invisível.
Minha parada estava se aproximando. Me levantei e me dirigi para a porta. Não sei o que foi... Talvez uma curiosidade despertada pela aparência do meu sapato. Talvez uma dúvida em relação à imagem que via pelo canto dos olhos. O meu cheiro? A minha aura? Não sei se saberei um dia o quê, mas algo em mim fez com que ele me olhasse. Me visse.
Me senti analisado. Como se, assim como eu leio, ou tento ler, todos ao meu redor, o seu olhar me decifrasse. Tão invasivo que tive que desviar. A ânsia por voltar a ver aqueles olhos esverdeados, no entanto, fez com que eu o encarasse de volta mais uma vez. Mais uma vez, me senti refém, prisioneiro do poder que o garoto exercia sem sequer se mover.
Por mais que a minha vontade fosse ficar, fosse ir atrás dele, abordá-lo de alguma forma, eu tinha que ir. As portas se abriram e, por um breve instante, pesei as duas opções. Infelizmente, não era um dia no trabalho que eu pudesse faltar.
Avancei por uma rua mais escura do que o normal para aquela zona. Na verdade, eu nem sequer a conhecia. Estranho, dado que eu pensava estar familiarizado com a região. Pelo jeito, ele estava mais.
Ainda não entendo como fui parar ali, mas a verdade é que não consegui sair na minha parada. Não consegui manter a rotina. Ele foi o responsável por quebrá-la, em primeiro lugar.
Claramente tomei a decisão errada em tentar ir atrás dele já que dois ou três quarteirões foram o suficiente para eu o perder de vista.
No lado positivo, fui a tempo de entrar no trem seguinte e só me atrasei dez minutos para o trabalho.
The Party
― Kyle? ― Exclamei, em vão. Era quase impossível que ele me ouvisse em meio a tanta confusão.
De alguma forma, fui parar em uma casa noturna. Não é, de todo, um hobbie meu. Muito pelo contrário, prezo a privacidade, o conforto da minha casa... Mas o fato era que eu estava ali. Um pouco arrastado, um pouco contra a minha vontade, um pouco por influência dos meus colegas mas, principalmente, por querer estar presente na despedida de solteiro do meu melhor amigo no trabalho. Mas, como retribuição pelo meu enorme esforço, Kyle desapareceu, me deixando completamente desnorteado e o mais longe possível da minha zona de conforto.
Pensei seriamente em ir embora, mas receei ser martirizado por todos os meus colegas na segunda feira. Um pouco a contra-gosto, optei por dar uma ronda no local.
― Me seguindo de novo?
Me virei, em busca da origem da voz, e me deparei com os olhos de terça feira, no trem. O impacto daquela surpresa foi tanto que senti as pernas fracas. Não sabia se estava mais surpreendido por vê-lo outra vez, por ter sido abordado por ele ou pela frase em si. “Me seguindo de novo”? Quer dizer que, naquele dia, eu tinha sido deixado para trás de propósito? Ele percebeu que eu estava indo atrás dele e fez o possível para me despistar? Se o fez, por que falar comigo agora? Fiquei tão a nora que não soube como responder.
― Com licença ― murmurei e abri caminho entre ele e as outras pessoas à nossa volta.
Depois de poucos passos de avanço, senti meu braço ser agarrado. Já tinha me afastado do tumulto e, ao meu virar, pude vê-lo com maior clareza. Dessa vez foi mais fácil identificar as diferenças entre os olhos que me encaravam ali e os que me encararam no trem.
Desta vez pareciam mais intensos. Mas, ao mesmo tempo, não me senti tão vulnerável. Era como se procurassem exercem um poder maior mas não conseguissem. Como se ameaçassem mas não chegassem a vias de fato. A mão que me segurava também sofria o mesmo mal. A ponta de seus dedos exercia uma certa força, mas o resto da mão não entrou em contato com o meu braço, como se uma parte do seu cérebro quisesse chamar minha atenção e a outra quisesse ir embora.
― Agora vai fugir?
― Não sei do que você tá falando, mas eu tô procurando um amigo. Dá licença.
Não gostei da forma como aqueles olhos me fitavam. Me deixaram inseguro e por isso minha rispidez ao me afastar. Senti a ponta dos dedos dele tremerem, como se hesitasse um momento antes de me largarem.
Olhei em volta e identifiquei uma parte do meu grupo de colegas, sentados em frente a um dos pequenos palcos, enfeitiçados pela graça de duas stripers. Foi a minha vez de ficar dividido. Olhei para trás por um breve instante, longo o suficiente para ver que o garoto dera alguns passos para trás, mas ainda me olhava. Ainda em dúvida sobre qual atitude tomar, acabei por me juntar a Kyle e seus amigos.
The Afterparty
Estava sufocando lá dentro. Completamente claustrofóbico.
Saí para respirar e já tinha decidido que não voltaria. A única questão era se chamava um táxi para ir para casa ou se fazia tempo em algum café, esperando pela manhã, quando os transportes voltariam a funcionar.
As luzes neon de um diner 24h chamou minha atenção, apenas a alguns metros de distância. Resolvi que faria ali minha espera e já estava a caminho quando, pelo canto dos olhos, tive a impressão de ver alguém no chão. Olhei para o lado e o vi. Sentado, encolhido, tentando desaparecer.
― Ei ― disse, atraindo mais uma vez o seu olhar. Desta vez, o reconheci. Apesar de visivelmente perturbado por alguma coisa, aqueles sim eram os olhos do trem.
A personalidade também estava mais semelhante, já que ele desviou o olhar e fitou suas próprias mãos, me evitando.
―Tá tudo bem? ― perguntei ao me aproximar.
Ele apenas assentiu com a cabeça mas não foi o suficiente para me convencer.
― Eu vou tomar um café, você aceita?
Levantou o olhar e eu pude ver a surpresa que sentiu.
― Anda. ― Estendi a mão, levando-a de encontro à dele.
Acho que naquele momento nenhum de nós sabia se ele iria aceitar o convite... Mas a verdade é que, poucos minutos depois, estávamos sentados, um de frente para o outro, em uma das cabines do diner.
O café fora servido, as panquecas esfriavam. Eu comia em silêncio e ele encarava o prato. Mais de uma vez tive a impressão que ele ia dizer alguma coisa, mas manteve-se calado.
― Posso te fazer uma pergunta? ― arrisquei.
― Pode...
― Mas você pode não responder ― eu disse, completando o seu raciocínio, e ele sorriu, como se concordasse.
― Aconteceu alguma coisa com você lá dentro?
― Como assim? ― ele perguntou, tirando os olhos das panquecas e passando a me fitar.
― Não sei, você tá... diferente. ― Era estranho dizer aquilo, tendo em conta que eu não o conhecia. Foi exatamente esse pensamento que a expressão em seu rosto transmitiu, então eu tentei refrasear: ― Lá dentro você veio falar comigo e aqui, depois de eu falar com você, você parece querer ir embora...
― Ah... ― Ele encolheu-se ainda mais. ― Pra ser sincero não sei muito bem o que eu fiz lá dentro... Desculpa se te incomodei.
― Não, não me incomodou... Mas te vendo assim é impossível não ficar curioso.
― Curioso?
Realmente, não foi a palavra mais adequada... Apesar de ser a verdade, ninguém gosta de ser tratado como um objeto de estudo. Não acho que ele tenha se incomodado, no entanto... Talvez apenas tenha ficado, assim como eu, curioso.
― Por que você não come? ― Desviei do assunto, genuinamente intrigado.
Em vez de me responder, ele preferiu tirar uma garfada.
― Obrigado ― disse, depois de engolir.
Franzi o sobrolho, tentando perceber a razão do agradecimento.
― Pelo quê?
― Por me tirar dali...
Sorri e ele sorriu também antes de tirar outra garfada.
― Você ainda não me disse o seu nome.
― Frost.
Aquele era evidentemente um apelido ou, talvez, seu sobrenome, mas ele não tinha obrigação nenhuma de me dizer seu nome verdadeiro.
― Jay ― disse, mesmo que ele não tivesse perguntado. Percebi que íamos ficar naquele clima meio estranho, conversando pouco por meias frases, então resolvi mudar um pouco o ambiente: ― olha, eu não sei você, mas eu tenho umas duas horas pra matar aqui até sair o primeiro trem. Você tem horas pra ir pra casa?
Ele me olhou um pouco surpreendido. De fato, foi a maior frase que trocamos desde o início da noite.
― Não, não tenho hora...
― Seria muito estranho se eu te pedisse pra me fazer companhia até eu ir embora?
― Seria ― ele disse, e um sorriso discreto tomou seus lábios. ― Mas eu não me importo.
The Outset
Havia se passado uma semana desde o meu encontro com Frost. Era estranho pensar em como nos conhecemos, em como guardávamos o verdadeiro motivo por falarmos um com o outro. A minha curiosidade era a maior razão para eu ter tomado uma iniciativa, mas também não posso negar a atração que senti desde a primeira vez que o vi. A razão dele, no entanto, eu desconhecia. Pensar nele e tentar decifrar seus mistérios era um combustível que mantinha meu cérebro ativo por horas.
Eu estava almoçando, no intervalo do trabalho, quando recebi uma mensagem. Levei o meu tempo até tirar o celular do bolso para ver. Quando o fiz, desejei ter visto mais cedo. Era uma mensagem de Frost, perguntando onde eu estava e se eu podia falar.
Depois do nosso encontro no diner, apesar te termos trocado números de telefone, não voltamos a falar. Respondi dizendo que estava disponível para falar, mas que em meia hora tinha que voltar ao trabalho. Em menos de um minuto, recebi outra mensagem.
Frost: Tô precisando falar com alguém... vc foi a primeira pessoa q me veio à cabeça
J: Tá tudo bem? Pode falar comigo, sempre que precisar.
Frost: posso te ver?
Hesitei um pouco antes de responder. Minha vontade era dizer que sim, mas eu não podia faltar às minhas responsabilidades. De fato, adorei conversar com ele no diner. Depois de um primeiro momento constrangedor em que cada palavra parecia calculada, conseguimos nos entender, nos conectar. Foram duas horas muito bem gastas em que eu pude começar a conhecê-lo.
J: Claro que sim. Depois do trabalho?
Frost: deixa...
J: Deixa? Aconteceu alguma coisa?
Frost: n aconteceu nada, eu só queria conversar, mas n quero te incomodar
J: Não é incômodo nenhum, pode falar comigo, Frost, eu só não consigo te encontrar agora mas podemos nos ver mais tarde.
Ele demorou um pouco para responder e por um momento pensei que ele nunca o fosse fazer. Posso ter soado um pouco dramático, mas era a impressão que ele transmitia. Uma mistura entre carência e desapego que eu ainda não sei decifrar completamente.
Frost: no q vc trabalha?
Não era a pergunta que eu esperava mas, depois de refletir sobre o assunto, percebi que o que ele queria era realmente conversar. Sobre nada em especial. Às vezes tudo o que precisamos é que alguém nos distraia, por um breve instante, da nossa realidade, e acho que foi o caso.
J: Marketing
J: E vc?
Frost: faço uns extras num hotel
Frost: lembra do puri?
Na mensagem seguinte ele anexou uma foto. Era do seu gato, todo enroladinho em uma almofada. Tínhamos falado sobre animais na outra noite, e Frost me disse que ele e Puri eram inseparáveis.
Olhei em volta, pela esplanada do restaurante, e vi um cachorro dormindo do outro lado da rua. Tirei uma foto.
J: Agora eu devia responder com a foto do meu animal de estimação mas, como não tenho um, vai o de outra pessoa
Frost: hahaha e pq vc n arranja um?
Passamos o resto do dia trocando mensagens. Falamos sobre nada e coisa nenhuma. Por mais que eu não soubesse nada sobre ele, me sentia cada vez mais próximo. Como se o que aquela superfície revelava fosse o suficiente para eu saber que podia confiar no que vinha por trás. No que ele escondia.
The Acceptance
As mensagens continuaram. O meu dia só começava depois dele dizer alguma coisa. Era como se, até então, eu estivesse vazio. Era estranho tentar lembrar o que eu fazia quando tinha um problema antes de o conhecer. Com quem eu desabafava? Quando eu via algo engraçado ou curioso na rua, para quem eu enviava a fotografia? Era como se ele fosse a peça que faltava, como se agora minha rotina respirasse, de fato, quando antes sobrevivia com uma máscara de oxigênio.
Nunca pensei depender tanto de alguém. Nunca pensei que uma mensagem de bom dia pudesse ter a força de tornar o meu dia bom. Me perguntava muitas vezes se Frost sentiria o mesmo, mas não tinha a ousadia de perguntar também a ele. Não temia a rejeição, mas temia estragar o que tínhamos. Talvez uma boa amizade fosse o suficiente? Talvez o que eu sentia fosse o que grandes amigos sentem. Mas, além disso, eu sentia uma necessidade física. Como se mensagens não fossem suficientes, como se... Se eu quisesse vê-lo, ouvir sua voz, seu riso... Eu queria tê-lo ao meu lado.
Talvez eu estivesse ficando louco... Provavelmente estava. Mas quem poderia fitar aqueles olhos hipnotizantes e sair impune? Era impossível tirá-lo da minha cabeça. Eu não queria tirá-lo da minha cabeça. Não queria perder o que me fazia sorrir. Estava completamente apanhado em seu feitiço, fosse ele qual fosse, e não tinha intenções de me curar.
É estranho experimentar pela primeira vez um sentimento. A teoria é sempre diferente da prática. Por mais que já se saiba o que é normal sentir, como é normal agir, nunca pensamos perder a razão. Nunca pensei que fosse tão rápido, tão fácil... Eu nem percebi quando começou mas, olhando para trás, sei que foi no primeiro instante.
Um olhar foi suficiente; não poderia ser de outra forma. Por mais que eu tentasse fugir, já era tarde demais. Eu me tornei seu refém.
The Dinner
― Desculpa a demora! ― Frost exclamou, chamando minha atenção. Sentou-se à minha frente e, por instantes, me perdi em seus olhos. Nunca deixavam de me surpreender. Por vezes os raios castanhos eram dominantes, por outras o verde era a única cor presente, nos seus mais variados tons. Naquele momento um tom amarelado pairava, tímido e exótico.
― Sem problemas. Eu pedi um café, você quer alguma coisa?
― Um café? Achei que vínhamos jantar...
Não soube o que dizer. Ele me apanhou completamente desprevenido. Eu tinha ficado com a ideia de que íamos nos encontrar para uma coisa rápida, aproveitando a coincidência de estarmos os dois tão próximos quando trocamos mensagens. Claro que, no fundo, eu queria passar mais tempo com ele, mas não sabia que o sentimento era mútuo. Sequer sabia o que ele sentia por mim...
Pedimos os pratos. Ele escolheu acompanhar a refeição com uma garrafa de vinho e, apesar de eu não ser muito adepto das bebidas alcoólicas, aceitei partilhar. Estava tão distraído na conversa que, quando dei por mim, já íamos na segunda garrafa. A sensação se estar bêbado é um pouco alienígena para mim, então a pergunta escapou pela minha boca antes que eu pudesse contê-la:
― Sabe uma coisa que você ainda não me contou?
― O quê?
― Porquê você falou comigo naquela noite...
Ele desviou o olhar e, por instantes, me arrependi de ter tocado no assunto. Mordeu os lábios e voltou a me encarar.
― Eu digo se você me disser porquê foi atrás de mim quando saí do trem.
Sorri. Eu sabia que um dia essas perguntas seriam feitas e, para ser sincero, estava ansioso pelo desenrolar da conversa.
― Então que o jogo comece ― eu disse, e Frost arqueou uma sobrancelha, como se aguardasse pela explicação. ― Uma resposta sincera dá direito a qualquer pergunta. Por que você foi falar comigo?
― Porque... A sua energia me tranquilizou.
― Como assim?
― Minha vez. Por que você me seguiu?
― Eu fiquei curioso... Queria saber mais sobre você. O que você tava fazendo sozinho do lado de fora?
― Eu entrei com uns amigos e a gente tomou uns comprimidos... não sei o que aconteceu, a maior parte da noite é um borrão pra mim... Só sei que eles desapareceram e eu fiquei desnorteado. Tudo rodava... Quando você foi pra perto dos teus amigos eu fui embora, mas achei que precisava deixar o efeito do que eu tomei diminuir antes de ir pra casa. O que eu fiz pra te deixar curioso?
― Você me olhou. Depois de desviar o olhar de todas as pessoas à sua volta, você me encarou. Depois daquilo eu não consegui continuar a minha rotina, eu... precisei ir atrás de você. ― Era estranho como as frases deslizavam para fora com tanta facilidade. Ao mesmo tempo, eu receava estar falando demais. É verdade que ele me capturou no primeiro instante, mas contar a verdade poderia afugentá-lo. ― Eu nunca pensei que você fosse me reconhecer... Você disse que a minha energia te tranquilizou. O que você quis dizer com isso, se ainda não nos conhecíamos?
― Para ser sincero, eu não sei explicar... Eu sei que você chamou minha atenção no trem e a forma como você me olhou foi tão... pacífica... Na hora eu não dei importância mas naquela noite eu fiquei tão perdido que quando eu te reconheci no meio da multidão agi sem pensar.
Depois da explicação eu entendi a forma como ele me segurou, entendi a diferença no seu olhar. Era como se ele tentasse pedir ajuda. Ele queria que eu ficasse com ele e transmitisse segurança, já que seus amigos o haviam deixado sozinho. Me senti mal por não ter percebido.
Da forma como ele me viu como um porto seguro... Será que ele sentia algo por mim? Foi ali que surgiu uma pequena esperança... A esperança de que pudéssemos escrever essa história juntos.
The Risk
Agendamos outro jantar. Frost duvidara dos meus dotes culinários, por isso eu o obriguei a jantar em minha casa. Àquela altura, já trocávamos mensagens tão constantemente que estávamos sempre a par do dia-a-dia um do outro. Eu ia transmitindo a tempo real tudo o que fazia na cozinha. Ele me disse que entrou no trem e que chegaria em menos de meia hora.
Claro que já tínhamos estado juntos muitas vezes, normalmente para um café no intervalo do meu trabalho ou uma cerveja antes do turno dele começar. Mas um jantar em minha casa era mais do que suficiente para o meu estômago se revirar com o nervosismo.
Normalmente agíamos com tanta naturalidade que o clima que se instalou quando nos sentamos para comer foi inédito. Ele deu uma garfada tímida e elogiou a comida. Eu revirava a massa pelo prato, sentia meu corpo tremer... Não sabia lidar com a sua presença. Algo estava diferente e eu tinha medo de ser a causa. Talvez o meu nervosismo fosse o culpado, talvez eu não soubesse disfarçar o quanto estava ansioso. Talvez ele tivesse percebido como eu me sentia, talvez... Por mais que eu pensasse, não conseguia decifrar o que mudara.
Depois de uma refeição estranhamente silenciosa, convidei-o para se sentar no sofá enquanto eu nos preparava uma bebida. Tanto tempo na presença de Frost acabou fazendo com que eu me tornasse cada vez mais aliado ao álcool, mesmo que em quantidades significativamente menores que as que ele estava acostumado.
Me sentei ao seu lado e pousei as bebidas no centro da mesa.
― Uau! ― ele exclamou, sorridente. ― Minhas aulas tão te influenciando...
Frost é fascinado por mixologia e uma boa parte das nossas conversas se dedicava a isso.
― Não vou negar ― reconheci.
As bebidas mantiveram-se na mesa enquanto nos olhávamos, com sorrisos ainda pairando em nossos rostos, como se quiséssemos ambos dizer alguma coisa mas, ao mesmo tempo, não soubéssemos o que dizer. Como se houvesse algum assunto que devia ser tratado mas que nenhum de nós foi capaz de identificar.
Até eu tomar uma atitude. Pareceu a coisa certa. Seus lábios me chamavam. Eu não pude ficar longe. Ele não faz ideia do quanto é irresistível. Do quanto um simples sorriso, às vezes menos do que isso, faz com que eu perca a cabeça. Me inclinei e, sem qualquer autocontrole, o beijei. Corri a ponta dos dedos por sua nuca. Senti seus pelos se arrepiarem. Os meus também. Um grande receio era não ser correspondido mas, por sorte, fui. Ou, ao menos, por um tempo.
The Disagreement
― Jay, o que... O que você tá fazendo? ― ele disse enquanto me empurrava.
Eu adoraria saber responder mas nem eu próprio sabia muito bem. Eu estava cedendo aos meus instintos, poderia ser uma resposta apropriada. Eu estava finalmente demonstrando um desejo íntimo, que crescia em mim desde o primeiro encontro. Eu estava sendo sincero aos meus sentimentos.
Não, a verdade é que eu estava colocando todas as minhas cartas na mesa e arriscando sair dali sem nada.
― Frost, eu... ― por momentos pensei em culpar o álcool, mas a seguir me lembrei que não tinha bebido.
― Não sei se eu te dei a entender alguma coisa mas...
Eu estava tão atraído pelo seu corpo, pela sua presença, que tudo o que eu queria era beijá-lo outra vez. Ao mesmo tempo, queria voltar atrás e nunca tê-lo beijado em primeiro lugar.
― Acha que dá pra você esquecer isso? ― Eu tentei, com um sorriso quase desesperado no rosto.
― Esquecer eu não sei mas... Podemos falar, se você quiser.
Ao mesmo tempo em que suas palavras pareciam transmitir compreensão e tranquilidade, eu sabia que não era assim que ele se sentia por dentro. Sabia que o beijo mudara nossa relação por completo e não podia estar mais arrependido. Mas que culpa eu tinha se Frost me dominava completamente com cada gesto seu? Que culpa eu tinha ele fora o responsável por eu me apaixonar? Eu devia ser recompensado por me aguentar durante tanto tempo, e não repreendido por ceder de uma vez por todas.
― Queria poder ter uma desculpa, Frost. Queria conseguir pensar em alguma coisa pra te dizer além da verdade mas nada me vem à cabeça.
― Jay, sou eu. Não precisa inventar.
― É, é você. Esse é o problema.
― Não tô te entendendo.
Eu já não tinha nada a perder. Mais valia ser sincero.
― A verdade é que eu sempre quis fazer isso, Frost. Desde a primeira vez que te vi. Eu fui me acostumando à sua amizade e por isso ficou cada vez mais difícil, mas... eu nunca quis ser só seu amigo.
Ele se levantou. Me olhava como se não me reconhecesse, como se visse outra pessoa no meu lugar. Deu um passo para trás e ali eu senti que o perdi. Cerrei os punhos com força para tentar conter as lágrimas. Ele abriu a boca e voltou a fechá-la. Era evidente o quão confuso estava e eu não podia culpá-lo. Tive medo de falar mais alguma coisa e tornar as coisas piores mas, ao mesmo tempo, senti que as coisas não podiam piorar.
― Jay, eu... Não sei lidar com isso. ― Mais um passo para trás.
Sentia ele escapar das minhas mãos como um punhado de areia ao vento.
Para provar que eu estava certo, ele se virou e, ignorando os meus chamados, foi embora.
Fiquei ali sentado. Não sabia como reagir. Uma lágrima fugiu. Atrás dela veio mais uma e, a seguir, outra. Mordi os lábios com força e olhei para cima, interrompendo o choro antes dele começar, verdadeiramente.
Estava em uma espécie de transe e fiquei ali por tanto tempo que o gelo das bebidas derreteu e uma pequena poça d'água formou-se na mesa.
The Second Chance
Ouvi batidas na porta. Meu coração disparou. Seria ele? Se sim, por quê?
Levantei do sofá num pulo e fui em direção à entrada. Parei por instantes e tentei me acalmar. De que adiantava ter um ataque de pânico?
Respirei fundo algumas vezes e, finalmente, abri a porta. Apesar de, no fundo, saber quem me aguardaria do outro lado, me surpreendi ao vê-lo.
― Desculpa, Jay... ― ele murmurou assim que me viu. ― Eu não devia ter ido embora. Não ia conseguir ir pra casa e te deixar aqui assim. Acho que você me apanhou de surpresa, só isso. Mas eu gosto tanto de tar contigo que não saberia jogar isso fora, sabe? A verdade é que eu nunca fui muito bom com os meus sentimentos, eu... Não sou como você.
― Como eu?
― É, sei lá, você sabe ler as pessoas, sabe interpretar cada gesto, cada olhar... Eu não sei o que eu sinto, não sei o que os outros sentem... Nunca soube. Eu não quero te perder por ter me interpretado mal ou simplesmente por ter reagido de forma exagerada. Acho que... eu meio que preciso de você...
Mordi os lábios tentando conter um sorriso. Não me pareceu o momento oportuno para sorrir, apesar da felicidade emergente dentro de mim.
― Eu não quero te forçar a nada, Frost, você não é obrigado a sentir o mesmo que eu. E também não quero que você se sinta mal em não corresponder. A sua amizade é tudo pra mim. Mas também não vou voltar atrás...
Frost sorriu.
― Nem eu quero que você volte atrás.
Ele voltou para o sofá e provou de um dos copos.
― Tá uma delícia, Jay, que gin você usou?
Me aproximei receoso e sentei ao seu lado.
― Citadelle.
Acho que ele fez um esforço enorme para fazer a conversa fluir, mas ele me influenciou o suficiente para que eu me esforçasse também.
Eu tentei olhá-lo de outra forma. Tentei nos ver como amigos. Mas, depois de ter provado o seu beijo, eu precisava de mais uma dose. Precisava tê-lo como mais do que um amigo e, dessa vez, eu pude afirmar com certeza. A noite correu tranquila e, ao se despedir, Frost beijou minha bochecha. Foi a primeira vez que o fez.
Eu me apaixonei. Era tarde demais para negar. Ele sabia. Eu já não podia – ou sequer queria – voltar atrás. Ao invés disso, decidi me esforçar. Decidi conquistá-lo. Se eu sabia como era me apaixonar, também sabia como fazer alguém se apaixonar. Se ele ainda não fugira de mim, eu faria o possível para nunca o perder.
É possível escrever uma história de amor sozinho. É possível amar sem ser amado. Mas eu não vou deixar que isso aconteça comigo. A minha história de amor não é só minha, é nossa, e nós vamos escrevê-la juntos.
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