Não havia dúvidas do quão pesado era o clima naquele instante. Um momento em que o tempo simplesmente parou e ficou olhando, como todos, a façanha a qual estava lhe apresentando aqueles rapazes. A esta altura, Toruna e Kyoichi já estavam caminhando em direção às suas casas, tinham andado dez passos do local do incidente. De repente, Toruna parou e disse:

– Por que estamos indo embora?
Parando à sua frente, estava Kyoichi. Calado e sério, como se tudo o que vira fora um choque e quisesse apenas esquecer e sair logo dali.

– Eu não sou obrigado a estudar numa faculdade assim. — Continuou sério e imóvel, enquanto a garota observava suas costas. — Por que eu deveria estudar ali?- Dessa vez olhou para ela ao mesmo tempo que lhe emitia a pergunta.

– Não estou entendendo nada, mas eu vou voltar. Com certeza agora já devem ter parado a briga e mesmo que só haja o portão principal, deveremos passar por lá sem problemas... assim como todos os outros universitários. — Falava enquanto olhava para trás, vendo que não estavam muito longe, apenas dez pequenos passos e bastava darem um pulo para chegarem aonde estavam.

[...]

No portão principal, por sua vez, a confusão ainda não havia cessado. As pessoas olhando para um único ponto, o empecilho que lhes impunha tremendo medo. O ruivo limpava suas vestes com as mãos enquanto seu antagonista, ofegante, limpava o sangue do rosto. Seus parceiros conversavam entre si, eram dois e, atrás do que poderia ser seu "chefe", só que agora muito machucado, falavam coisas do tipo "Quem é esse cara?", "O que ele quer?" "Está maluco, por pouca causa fez esse espetáculo", "humpf, deve ser um filhinho rico do papai", "Não se preocupe, Yzo, vamos dar um jeito nesse moleque". Enquanto os três rapazes conversavam entre si, o ruivo apenas observava com rabo de olho, não dando a mínima para seus comentários. De repente, levantou a cabeça e fixou o olhar nos garotos e, pela primeira vez, todos ouviram sua voz.

– Eu não me importo com o que vocês falam de mim. Apenas não se aproximem mais!– Era uma voz séria, seca, mas bonita. Uma voz que emanava desprezo, raiva... Mas, acima de tudo, não era uma voz de maldade, parecia mais de uma criança, uma criança adulta, com conhecimento suficiente para saber o que estava fazendo. E o sabia.

Todos se entreolhavam, olhavam para os garotos e se entreolhavam novamente.

– Meu nome é Yuuki.– Todos ouviram uma voz que assim dizia e ela vinha do ruivo que, desta vez, estava com um sorriso no rosto, um daqueles sorrisos de um lado só. — Não que eu queira que me chamem por este nome, mas lembrem-se dele.– Falava encarando os três adolescentes. Dito isto, caminhou calmamente para dentro do prédio, deixando livre a passagem para os demais estudantes.

Enquanto caminhava rumo ao interior do prédio, sobre tudo o que ocorrera, o garoto Yuuki só conseguia pensar em uma coisa, algo que realmente o perturbara e que era a personificação em pensamentos.

– Yzo?? Que diabos de nome é Yzo??– Pensava e sussurrava consigo mesmo, sem encontrar razões para um nome que ele denominava "de outro mundo". Gargalhava para si e, de longe, as pessoas que haviam ficado olhando-o entrar apenas viam expressões estranhas que ele fazia. Às vezes viam acenos com as mãos, chutes, a cabeça balançando, arrepios, a partir de quando reconheciam que seu corpo comprimia-se dando esta impressão.

– Q-Quem é ele?

– Ele é até engraçado.

– Mas que estranho

– Mas ele não é bonitinho? Kyah ~

– hum rum, ele é lindo, sim.

– Pena que é muito novinho.

– Que cara estranho.

– Muito estranho.

– Derrubou aquele outro tão facilmente.

– Estranho.

– Que dia esse!

– Que garoto estranho!

– Não quero estudar com ele.

– Ele é engraçado, não é?

– Né?!

– Estúpido! — Destacava-se uma voz dentre todas as demais e dentre todos os comentários, sejam eles de pavor ou de admiração. Era um homem alto, parecia rico. Com um segurança ao lado, que o seguia calmamente, de acordo com suas passadas.

– S-Senhor?! — Respondia o dito "segurança", não que realmente o fosse. Mas um homem ainda mais alto que o rapaz, de terno preto, gravata preta, cabelo arrumado, expressão definida e delicada, de nobreza, um "criado" que é tão elegante quanto o próprio "Senhor"... Não havia mais o que pensar, se não fosse um segurança, seria, com certeza, seu próprio pai, pela vestimenta, elegância e fineza. Mas denunciado pela palavra "Senhor" que acabara de pronunciar, dá para concluir quais dos dois realmente era, e pai seria impensável.

– Às vezes minhas escolhas são tão erradas que até fico cansado ao pensar sobre isso. — Suspirava o rapaz. — Mas deixando de lado este espetáculo lamentável, posso esperar algo desse lugar. — Afirmou enquanto olhava o imenso prédio à sua frente.

[...]

– Viu só? Eu disse, já está tudo bem.

– Não me trate como criança, Toruna, se for olhar por esse ângulo, sou muuuuuito mais velho que você. — Demorou-se na palavra "muito" para fortificar seu sentido e também para que a menina a entendesse totalmente.

– Não estava com medo? — Olhou-o normalmente... com rabo de olho.

– Não se pode viver com medo pra sempre.

– Filosofando?

– Aff... tudo bem, tá tudo bem... — Suspirou colocando as mãos sobre os cabelos que tampavam sua testa. — Eu ainda vou mudar sua maneira de pensar, suas manias e suas desgraças. Você vai me agradecer um dia, conte com isso. — Ainda com a mão sobre os cabelos, olhava-a sorrindo gentilmente. — Neste dia, perderei meu medo. — Soltou esta frase sem muita consciência, talvez por ser no calor do momento, mas o que importa veio adiante... Não que estivesse com medo, na verdade, ele não estava com nenhuma ponta de medo com relação a tudo que vira. Percebendo a ironia da amiga, respondeu-a com outra ironia. Sua face ficou tão avermelhada de tal maneira, que quase tombou na sua receptora, tonteando um pouco e finalmente pensando com logicidade no que acabara de dizer. Criando coragem para olhar a face da amiga, engoliu no seco e a fitou rapidamente.

– Posso anotar o que disse? — Estava ela com uma pequena caderneta na mão esquerda e uma caneta na direita, prontamente preparada para um "sim" do garoto.

– VOCÊ É IDIOTAA?!!! — Bradou Kyoichi.

– N-Nani?! — Respondeu sem entender nada.

– Tsc... que bom que você é burra! — Saiu novamente, sem pensar, sem consciência. Mas desta vez, sabia que ela não iria dizer nada nem sentir nada, como da última vez. Mas foi tão rapida a reação de Toruna, que o que ele sentia foi uma pequena dor em sua bocheha esquerda, que aumentava cada vez mais. Ela estava beliscando-o.

– AAAI! Me larga!

– Burra, você disse, o que eu deveria ter entendido, ou você realmente não quer me ajudar na minha estória, você me disse que iria dar frases legais pra ela, seu babaca. — Apertava mais e mais, balançando a face do rapaz.

– QUÊ??! VOCÊ TÁ PENSANDO NA SUA ESTÓRIA? EU DISSE QUE IRIA TE AJUDAR, MAS FOI A UM ANO ATRÁS, PENSAVA QUE HAVIA DESISTIDO DISSO. E O QUE ISSO TEM A VER COM O QUE EU FALEI? ESPERE.. VOCÊ SÓ QUERIA ESCREVER PARA COLOCAR NELA? SUA... — Bradava sem respirar, enquanto uma lágrima bem sutil quase caia de seu olho direito.

– Sabe... aqui não parece um bom lugar... — Estava com uma expressão triste. Falava baixo, mas era compreendida. Acabara de soltar a bochecha vermelha do amigo, que amenizava a dor com a mão.

– Por que diz isso, assim? Nem tudo que aconteceu por um minuto pode ocasionar uma conclusão dessas. — Fitava-a.

– Não foi pela briga, pouco me importa. Mas você não sente? Eu sinto! E é uma sensação que dá arrepios, me faz querer sair correndo, é como quando estamos no inverno... — Olhou para ele um instante, mas logo abaixou novamente o olhar. Kyoichi, sem fazer um ruído sequer, observava atenciosamente aquelas palavras. — Um frio que te gela por dentro e te faz querer arrancar o coração do teu corpo, só para aquecê-lo com roupas. — Parou um instante e continuou, olhando para o rapaz e perguntando:

– Não está doendo?

– Hã? A-Ah.. Não..Tudo bem, não está.

– Hm, que bom. Eu não estava pensando em pedir desculpas. — Fez birra com o rosto.

– Eu não sei de onde você tira essas palavras... Nem como consegue... colocá-las em ordem. Eu não entendo onde nem como... Mas é simples compreender, mesmo não podendo sentir o mesmo. — Disse Kyoichi, sem dar importância ao que falara à pouco a menina. Toruna o olhava radiante, sutilmente radiante. Recompôs-se imediatamente para que não percebesse aquela sua expressão.

– De qualquer forma, vamos logo. Já tem poucas pessoas aqui fora. O portão principal... — Arregalou os olhos quando falou esta útima frase — ... ESTÁ QUASE FECHANDO!!!!!!

Correu em direção ao portão e, vendo que Kyoichi ficava para trás, informou-lhe em alta voz:

– Vou na frente!

Ele apenas viu seu vulto desaparecendo por entre as enormes muralhas do prédio. Imóvel. E, suavemente, levantou a mão esquerda sobre a bochecha, abaixando-a logo em seguida. Caminhava até o portão, sem pressa nem medo de ficar para fora. Enquanto dava lentos passos em direção à entrada principal, pensamentos fluiam... "Você apenas entende tudo errado no quesito "sentimentos". Tanto faz. Pra mim é o suficiente assim..." Este "assim" que Kyoichi sorria quando o pronunciou, era com relação a nada mais que a distãncia. "Que bom que eu te conheci." Um "conheci", não relacionado a encontrá-la, mas a realmente saber quem é ela. De repende, quando chegava perto do portão, recobrou a própria consciência, parecia que estava em outro mundo, e lavantou os olhos à altura dos olhos do porteiro.

– Com licença. — Frisou-o Kyoichi, um tanto chateado, sabendo o que iria acontecer...

– Está atrasado, rapaz. Estava pensando em quê, nas namoradas? — Falava um homem enorme, de uns quase 2 metros, com terno.

– Hã?! — Protestou o garoto, como se esse 'hã' guardasse tudo o que queria dizer e fazer com o porteiro. Prosseguiu. — Está louco, senhor, não preciso disso. Mesmo que esteja pensando em alguém, é o tipo de pessoa que me deixa com raiva todos os dias. É burra, sem conhecimento prévio, impulsiva, feia, instável, realmente alta, da sua altura, parece minha irmã mais velha, e é. — Dirigiu estas palavras ao elegante porteiro, como percebe-se, as qualidades contrárias dadas à quem estava pensando. "Como se eu me importasse com isso, como se..." — Pensou. E cotinuou a falar... — Espere um pouco, eu estou apressado, se me deixar passar... vai me fazer um grande favor.

– Claro, meu jovem. Adiante!

– Obrigado! — Falou calmo por fora, mas por dentro quase explodiu de tanta vergonha. "Que porra é essa? Por que quando eu penso sobre aquela idiota essas coisas acontecem? Toruna, me deixe em paz." Confortava-se afastando-a psicologicamente. Uma gargalhada repentina e bondosa surgiu em meio àqueles pensamentos insanos.

– Tá, tá tudo bem. — Andava pelos corredores... — Agora só preciso encontrar a Toruna nessa multidão.

Uma pequena última frase que contrariou tudo o que havia pensado até aqui. Este é o garoto chamado Kyoichi.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.