The story of us
1 O chamado
Se eu cheguei até aqui foi porque eu mereci. Então, nada mais justo que agradecer a pessoa responsável por essa vitória: eu mesma. Nem nos meus melhores sonhos, eu me imaginei segurando um Grammy. Era tudo surreal demais para mim. Eu não consegui fingir costume e nem mesmo tirar o sorriso do rosto. Dava pra fazer uma cópia para cada um dos indicados? Porque eu acho que todo mundo que estava lá comigo merecia levar o prêmio para a casa.
Bom, se você caiu de paraquedas na minha história só agora. Então, cancela todo Glamour. Vamos começar do começo. E, como diria o meu amigo íntimo Coldplay que, a propósito, está logo ali:“Nobody said it was easy. No one ever said it would be so hard”.
Eu era uma mera mortal. Pais imigrantes. Sem muito dinheiro. Poucos amigos. E um sonho maior que a minha realidade. Poxa, eu era feliz, nunca me faltou nada e eu tive uma vida perfeitamente comum — até não ser mais.
Eu estava no ensino médio quando recebi o chamado do universo. Era só mais uma noite normal. Postei um cover de uma música aleatória como fazia toda semana. Mas logo depois de pegar no sono, meu celular não parava de tocar. A minha inocência pensou: despertador maldito, afinal, eu só queria dormir! Estendi minha mão direita e apertei o botão grande na lateral do aparelho. Voltei a dormir. E, surpreendentemente, o barulho perturbador voltou a atacar novamente. Inferno! Parecia que eu tinha dormido apenas 30 minutos a noite inteira. Então, fiz o que qualquer jovem faria no meu lugar: desliguei o celular e confiei no potencial dos meus pais.
"Theo, acorda!” senti uma mão me sacudir de um lado para o outro.
"Só mais 5 aninhos, por favor," pedi resmungando sem abrir os olhos.
"A G O R A" minha mãe falou em um tom doce, mas incisivo.
"Sim, coronel!" falei levantando em um pulo e coçando os olhos.
Atrasada era otimismo. 30 minutos. Esse era o tempo que eu tinha para me arrumar e chegar na escola. Saí correndo para tomar banho. Vesti a primeira roupa que eu vi. Agarrei minha mochila sem nem organizar meu material. E então, boom, meu pai me levou de carro e salvou a pátria. Nada de atrasos, mas o café da manhã também virou história.
Olha, aquele certamente não era o meu melhor dia, mas eu estava tão no fundo do poço para chamar a atenção de todo mundo? Desarrumada sim. Sem vontade de viver também. Mas, poxa, o jovem moderno não tinha direito de ter um dia ruim em paz. O que eu fiz de errado? Senti meu cheiro debaixo do braço e estava suportável — o milagre do sabonete. Dei uma ajeitada no cabelo olhando meu reflexo na tela desligada do celular. Analisei minha roupa e não estava do avesso.
Vi minhas amigas no final do corredor fofocando e corri até elas em desespero.
"Eu to cagada? Por que tá todo mundo me encarando? Parece que nunca viram uma sapatão antes" meus olhos estavam tão arregalados que pareciam prestes a saltar do meu rosto. Eu havia cometido um erro social e nem sabia o motivo... O ano era 2015 e sofrer bullying por ser sapatão já era coisa do passado. Glee já tinha ensinado que ser gay era legal a essa altura do campeonato.
"Em que planeta você está vivendo?" Sophia falou balançando a cabeça incrédula.
"FALA SÉRIO! EU TO CAGADA?" gritei dando um tapinha no ombro da minha amiga.
"Theo, qual foi a última vez que você usou seu celular?"
"Antes de dormir, por quê?"
Minha amiga só retirou o aparelho do bolso, procurou por algo e me entregou o aparelho.
"QUE?" gritei ao analisar o meu perfil. Meu número de seguidores tinha crescido exponencialmente.
"A MIA REPOSTOU O SEU VÍDEO!" minha amiga revelou entre pulinhos de felicidade.
"A MIA REPOSTOU O MEU VÍDEO? A MIA REPOSTOU O MEU VÍDEO!!!!!!!!!!" falei sem acreditar e aos gritos. O que estava acontecendo?
Um dia você é uma anônima e no outro “booom”. Eu consegui 60 mil seguidores só nessa brincadeira. Eu me tornei famosa, meus amores — quase isso. Adeus escola. Adeus mundo. Eu ia viver de música e era isso… Naquele dia, senti que estava no caminho certo, mas foi um doce sonho adolescente.
Então, você pensa, eu fiquei famosa de verdade depois disso? A resposta é: não! Eu tentei continuar com meus conteúdos… mas nada nunca chegou perto do sucesso daquele vídeo. Dizer que eu era anônima era forçar demais. Eu tinha meus quatro fãs. Mas eu estava longe de ser famosa também… Porém, eu entendi isso como um chamado do universo. Podia não ser fácil, mas eu iria viver de música. E foi essa a faculdade que eu escolhi. Portanto, passei a me apresentar em barzinhos em diversas cidades tocava na rua aos finais de semana e esses foram os meus maiores palcos ao longo de todos esses anos.
Fale com o autor