A dor é companheira.

— E então ele olhou pra você... E... Meu Deus! Como... Ele te olhou assustado! — Trevor tentava falar enquanto ria descontroladamente, a respiração descompassada, a barriga doendo. A garota à sua frente também sorria, mas, de maneira mais contida. Olhava fixamente para o rapaz à sua frente e se perguntava se isso era realmente certo. Eles acabaram de explodir uma cama d’água em uma loja e depois saíram correndo. Foi uma das coisas mais alucinante que ela fizera e tinha certeza que foi a coisa mais emocionante que ele já fez.

A garota parou de sorrir e observou com mais atenção. Seus olhos refletiam luz, energia, felicidade. Como aquilo poderia ser ruim? Eles se conheciam há seis meses, maior tempo que ela passou com alguém. Estavam juntos, eram um casal de verdade; dentre todos os outros, essa foi a pessoa a quem ela mais se apegou e a todo instante ela temia quando o pior chegasse. Mas ela sabia que iria chegar, sempre chegava. Eles estavam na calcada de uma rua pouco movimentada, não havia nem carro na rua, apenas algumas pessoas de um lado e do outro nas calçadas. Era fim de tarde de um domingo. O dia foi calmo, sem chuva, o vento foi gostoso e refrescante. O que de errado poderia acontecer?

— Z. você definitivamente vai me levar preso algum dia, mas desde que fiquemos juntos, eu não ligo. — Trevor se pronunciou após controlar sua respiração. Ele sentia seu corpo leve. Olhou ao redor e J. seguiu seu olhar, queria saber exatamente para onde ele estava olhando, mas não viu nada que pudesse significar perigo. Talvez nada fosse acontecer. Talvez hoje não fosse o dia.

Ela riu e deu de ombros. Talvez ser presa fosse uma coisa que ele devesse experimentar também, antes que algo acontecesse. Mas não seria exatamente assim.

viu Trevor dar um passo para trás, passar a mão pelos cabelos e sorrir. E então foi tudo muito rápido. Ela só viu o choque do carro acelerado batendo de encontro com o corpo do rapaz a sua frente. Ela não se mexeu, quem sabe, assim, fosse levada também. Mas a morte sempre a ignorava. E dessa vez não foi diferente. Eles estavam perto, mas o acidente não lhe afetou, não bagunçou nenhum fio de cabelo. Ela estava intacta. Mas o corpo de Trevor jazia no chão, embaixo carro. Um poça de sangue se formara em baixo do pneu e não parava de jorrar. Ela então se sentou no chão, ao lado do carro, puxou os joelhos para perto do corpo e ficou ali. Observando o sangue jorrar enquanto lágrimas pesadas molhavam seu rosto.

Era sempre assim.

tinha um dom terrível: ela trazia alegria para as pessoas. Era capaz de fazer qualquer pessoa ter felicidade plena com apenas algumas ações ou palavras. Ela conseguia sentir o que cada um precisava fazer, precisava ouvir ou precisava sentir para ser feliz. E ela realmente conseguia fazer tudo que a pessoa precisava. Mas estava o terrível? Todas as pessoas que Z. conseguia fazer feliz, morriam. Todas, sem exceção. Amigos, família, amores. Todos a quem ela conseguia fazer se sentir feliz, morriam. Por doença, acidentes ou porque escorreu na poça d’água no chão da cozinha. A morte não precisava de uma ao justificativa, ela vinha de qualquer jeito.

Ela desviou o olhar do corpo e fitou o nada a sua frente. Tinham muitas pessoas ao redor, choro, vozes e pessoas assustadas, pessoas perguntando se ela estava bem; ela sabia como era todo aquele caos, mas Z. não enxergava nada a sua frente, via apenas escuridão. Mais uma vez ela se perguntou porque estava fazendo aquilo. Por que ela sempre insistia em fazer alguém feliz? Ela não era Deus. As pessoas que se preocupassem com sua própria felicidade, não era sua obrigação. Certo? Sim. Mas, por que ela sempre insistia no erro? Será que sua função na terra era matar as pessoas? Será que ela era um tipo de anjo da morte disfarçado? Foi Deus ou o Diabo que a colocou nessa função?

Ela fechou os olhos e prometeu a si mesma que isso jamais aconteceria. Ela não deixaria isso acontecer de novo. Nunca mais. Não conseguiria sobreviver depois de ver mais alguém que ela ama morrer. E, se para isso ela tivesse que se isolar do mundo, então assim seria. Z. passaria a não existir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.