The rose in solitude
33 Capítulo 32
Notas iniciais
No momento em que escreveu aquelas palavras, Shaka fechou o caderno. Estava agoniado demais e ler sua agonia escrita no caderno não melhorava nada. Ele suspirou e fechou os olhos. Estava sozinho ali, já que Shaina precisara ir para casa sob um ataque de nervos. Ele próprio estava esgotado, mas tinha que ficar ali. Até o fim.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho do sapato de Luna. Ela quase corria pelo corredor e ele teve um lampejo de esperança. E medo. Quando ela parou na frente dele, ele a viu morder o lábio inferior. Ficou preocupado.
Shaka: Aconteceu alguma coisa?
Luna: Nada mudou. Mas quero que você venha comigo.
Shaka: O que houve?
Luna: Não questione Shaka. Apenas venha comigo.
Ele se levantou. Conhecia Luna através de Anna. Mas não eram íntimos. Preocupado, ele a seguiu. Olhando para os lados, Luna o conduziu até um quarto, do lado da UTI onde Anna estava internada, sem poder receber visitas, exceto pela visão através do vidro. Luna passou para Shaka uma roupa de hospital, uma touca para os cabelos e uma máscara. Ele a olhou intrigado.
Shaka: O que é isso?
Luna: Roupa para você entrar na UTI. Agora anda logo. Saori chegará em breve.
Ele teve uma breve idéia do que Luna ia fazer. Ele entrou no banheiro enquanto ela o esperava sentada na cama. Quando ele saiu, ela já estava impaciente.
Shaka: Luna, isso é permitido?
Luna: Claro que não. Mas acho que você deve entrar lá. Sabe, há alguns meses, eu vi o homem que eu amava em coma. Mesmo sendo médica e um ser humano racional e frio, fui até ele e falei com ele, sabendo que não ia dar em nada. E ele acordou. E, o resto você deve saber pela Anna. Enfim, se foi um milagre, minha voz ou a cura médica não sei. Só sei que eu tive a chance de tentar. E você deve ter a sua também.
Shaka não sabia como agradecer Luna. Nem sabia como expressar como se sentia. Ele abriu a boca para falar algo, mas Luna o silenciou.
Luna: Anda logo.
Os dois saíram rapidamente e foram para a UTI. Luna abriu a porta e deixou Shaka entrar. Sem pronunciar uma palavra, ela fechou a porta e ficou observando o corredor.
Ela não tivera fé quando falara com Saga. Talvez a fé de Shaka fizesse um milagre acontecer novamente.
Shaka se aproximou da cama com lentidão. Anna recebia um soro nas veias. Estava corada, embora aparentasse estar fraca. Ele se ajoelhou do lado dela, na cama. Acariciou os seus cabelos com carinho. A rosa que ele lhe dera havia murchado, mas continuava ali, do lado dela, intacta.
Será que a vida de Anna estava condenada a murchar como aquela rosa? Será que ela não acordaria daquele sono? Ele não queria saber. Queria que ela acordasse e lhe repetisse que tudo ia ficar bem. Que eles teriam que ser forte.
Fechando os olhos, encostou o rosto no rosto de Anna. Ela estava quente, para o espanto dele. Ele a encarou.
Shaka: Meu amor, acorde... por favor Anna acorde... não conseguirei cumprir a minha promessa, eu não sei viver sem você... por favor, acorde.
As lágrimas dele foram engolidas pela máscara, mas os soluços eram audíveis. Ele não sabia o que dizer. Apenas podia implorar para ela acordar. E ao ver que ela não atendia o pedido, ficou desesperado. Chorou com mais força.
O tempo estava se esgotando. Podia ouvir Luna batendo na porta, alertando-o. Ele se ergueu. Não sabia mais o que fazer. Havia falhado. O milagre não acontecera. Antes de sair, contudo, ia provar mais um beijo de Anna. Mesmo que ela não correspondesse. Mesmo que ela não sentisse.
Ele lhe deu um selinho. Os lábios estavam colados e Shaka não queria romper o contato. Entretanto, a batida na porta o alertou novamente. Abrindo os olhos, Shaka se despediu silenciosamente de Anna. Mas quando ia se afastar, sentiu alguém apertando fortemente a sua mão.
Shaka se voltou. Anna segurava sua mão com tanta força que ele pensou que ela ia arrancá-la. Se voltou para ela e retirou a máscara que usava.
Shaka: Anna... meu amor... você... você acordou....
Anna sorriu. Sua voz saía tão baixa que ele mal conseguia ouví-la.
Anna: Eu te disse... te disse que tinha motivos para viver... acha mesmo que eu ia me contentar em ficar presa numa cama?
Ele não disse nada. Esquecendo do coma recente, da fragilidade de Anna, da cirurgia, ele apenas a beijou. E não conseguia parar de beijá-la. Os dois choravam tanto que as lágrimas se misturavam. Luna abriu a porta com tanta força que podia até quebrá-la.
Luna: Shaka... então o milagre aconteceu.
Shaka: Sim. (sem desviar o rosto de Anna) Aconteceu. (beijou Anna novamente, ainda chorando)
A própria Luna fez um esforço para cessar as lágrimas. A cena era digna de ser filmada. Shaka e Anna chorando abraçados e Luna segurando o choro, pensando em ligar para a família. Saori foi a última a integrar o quadro.
Saori: O que está acontecendo aqui? Como Shaka entrou? E... Anna?
Luna: Anna acordou Saori. (disse enxugando outra lágrima) Me dê a bronca depois.
Saori apenas sorriu junto com Luna. Mas depois recuperou a pose profissional.
Saori: Luna, acompanhe Shaka até a sala de espera. E ligue para os Portillo. Anna precisa ser examinada. E já.
Luna viu que a voz de Saori vacilava. Sorrindo, tocou no ombro da chefe e olhou para o casal, que ainda choravam abraçado entre beijos.
Luna: Dê um tempo para eles.
Saori apenas balançou a cabeça. Era o que esperava ouvir. Agradeceu finalmente que Luna agisse como o ser humano doce que era. E ao lado dela, também começou a chorar ao ver a cena.
Dia Seguinte
Saori: Não pode ser.
Era de manhã. Saori estava com a pilha dos exames de Anna nas mãos. Não podia acreditar. Não podia ser verdade.
Ela releu e até refez os exames na esperança de ter sido um erro. Mas não. O resultado era claro e definitivo. Mas como ia dizer aquilo em voz alta? Anna estava feliz, em seu quarto, com os pais e o namorado esperando a alta. E agora, ia lhe dizer que estava condenada.
Ela estava escorada sobre a mesa quando Luna entrou, sorrindo, com a ficha médica na mão.
Luna: Anna está ótima. Creio que amanhã ela sairá do hospital, basta apenas analisarmos seus exames. (ao ver o olhar da chefe, Luna ficou rígida) Saori?
Saori: Recebi os exames da Anna, Luna. (fez um gesto para Luna se sentar)
Luna: E o que eles dizem?
Saori: O tumor não foi contido com a cirurgia. Não houve o recesso que esperávamos. Ele voltou a se regenerar e continua atacando o cérebro de Anna, como... como se a cirurgia nunca tivesse ocorrido.
Luna tapou a boca com as mãos. Sabia que aquilo era um risco, mas tudo era tão injusto... Anna recém havia ganhado uma batalha. E agora, perderia a guerra.
Luna: Oh Deus. Oh Deus, não.
Saori: Sim. Ela tinha mais ou menos seis meses de vida antes da cirurgia. Perdeu três meses e 10 dias em coma. E, devido a fragilidade do organismo, o tumor avançou com tudo. Agora ela tem... ela tem... (engoliu em seco)
Luna: Quantos meses de vida ela tem agora Saori?
Saori: Não são meses Luna, são dias. Ela tem apenas uma semana de vida.
Uma semana... sete dias. Era nisso que Luna pensava enquanto tomava um café com um calmante. Havia abandonado os calmantes e o café excessivo ao começar a namorar Saga, mas agora sabia que precisava de um.
Céus, Anna... aquilo não era justo. Ela ia morrer. Milagres não acontecem duas vezes, não assim... Anna ia morrer depois de pensar que tudo estaria bem com ela naquele momento.
Tomou o calmante e mesmo aquilo não aliviou o sofrimento. Quando jogou a xícara fora, se deparou com o olhar de Saga, acusador e severo.
Saga: Achei que havíamos combinado que você não ia mais tomar isso. (apontando para a cartela vazia)
Luna jogou a cartela no lixo. Sabia que estava agindo como uma fraca mas... sua única amiga, sua melhor amiga ia morrer. Luna já lidara com a morte, mas nunca de uma pessoa como Anna.
Luna: Sinto muito. Aconteceram coisas demais hoje e acho que não consegui suportar.
Saga, ao sentir o tom de voz, se sentou do lado dela.
Saga: O que houve?
Luna: Anna. Ela... vai morrer em uma semana.
As palavras soaram apagadas e amargas.
Saga: Anna? Mas você não me ligou a pouco para dizer que estava tudo bem com ela?
Luna: E estava. Mas avaliamos os exames e... houve complicações. Ela vai morrer. E não podemos fazer nada a respeito. E não sei como contar isso a família dela, ou a ela... eu não sei.
Luna soluçou, mas não chorou. Saga acaricou os cabelos curtos tentando consolá-la.
Saga: Sinto muito. Anna é uma grande pessoa. Todos vão sentir sua perda.
Luna: Eu mais do que ninguém. Minha única amiga, uma das poucas pessoas em quem confiei... morrendo, sendo que tinha tudo para ser feliz... a vida é injusta demais.
Saga: Não. Vivemos o que temos de viver meu amor. Anna sabe disso. Ela vai enfrentar a situação com coragem. Como você sempre disse que ela fez.
Luna apenas soluçou novamente. Sabia que Saga tinha razão. Mas não podia deixar de sofrer.
Shaka foi o primeiro a pressentir que as coisas não estavam bem. Viu Saori correr de um lado para o outro, seguida de Luna que aparentemente estivera chorando. Anna estava dormindo e, ele saiu silenciosamente do quarto. Milo e Shaina estavam na casa deles, pegando roupas e acessórios diversos.
Shaka suspirou. O que poderia ter havido de errado? O inferno não tinha acabado? Estava assustado só de pensar no que poderia estar acontecendo agora. Tentara falar com Luna ou Saori, mas ambas lhe deram respostas evasivas e se afastaram. Intrigado, ele estava decidido a descobrir o que acontecera, mesmo que tivesse de agir mal por isso.
Luna estava em um corredor, junto com Saori, as duas conversando com uma enfermeira. Ele se escondeu em um canto, a fim de não ser visto. Luna parecia arrasada e Saori fazia força para não trair sua pose profissional.
Saori: Refiz os exames. Ainda tinha um fio de esperança mas... nada mudou.
Luna: Nem uma chance?
Saori: Os dias talvez não sejam exatos sete dias. Podem ser 10... ou três. De qualquer maneira, ela deve sair do hospital. É injusto ela passar os últimos dias dela num quarto. Não poderemos lhe dar mais tempo do que já tem.
Luna: Anna... justamente com a Anna. Milhares de pessoas fizeram essa cirurgia, acordaram e ficaram bem. Mas ela... apenas perdeu tempo.
Saori: Ao menos ela tentou. Ela nunca desistiu. Anna morrerá, mas lutou até o fim. Isso nos deve servir de consolo. Agora teremos... que contar aos pais dela... e ao namorado.
Luna: Shaka é o que mais sofrerá. Saori, sei que você é a chefe mas... prefiro eu dizer. Eu conhecia Anna, conheço o Shaka, a família... será melhor que ouçam de mim.
Saori: A vontade. Essa não é uma missão que eu gostaria de assumir. Fico feliz que queira fazer isso.
Shaka: NÃO. ISSO NÃO PODE SER.
O berro dele ecoou pelo corredor praticamente vazio. As três mulheres se voltaram. A dor havia começado. E da pior maneira possível.
Luna e Saori ficaram paradas. Shaka não chorava, mas a angústia em seu rosto era tanta que era melhor que ele caísse no choro.
Shaka: Ela não pode morrer... não pode... ela sobreviveu a cirurgia...
Ele falava frases sem sentido. Vacilando, Luna se aproximou dele.
Luna: Ela vai morrer. Não quero aceitar isso tanto quanto você mas... não podemos fazer nada. Tudo o que fizemos foi em vão... em alguns dias, Anna morrerá. Eu sei que você está sofrendo. Deve estar sofrendo mais do que os próprios pais dela sofrerão quando souberem... mas você precisa ser forte. Precisa fazer ela feliz nestes momentos finais. Se você fraquejar agora, Anna morrerá em meio a amargura e a dor.
Shaka: EU NÃO QUERO FAZER ELA FELIZ POR ALGUNS DIAS. QUERO FAZÊ-LA FELIZ PARA SEMPRE.
Luna: Eu sei. Eu sei. Mas você não pode.
Aos poucos, Shaka foi se acalmando. Com um tom de voz mais baixo, ele perguntou a Luna, o coração dilacerado.
Shaka: Ela vai sofrer muito? Quero dizer, os dias finais dela serão dolorosos?
Saori engoliu em seco. Sim, aquele era um exemplo de amor. Geralmente os entes queridos ficavam tão imersos na própria dor que não pensavam no sofrimento do paciente. Mas ali estava alguém que se preocupava com a dor final de sua namorada do que com a dor que sempre o acompanharia. Teve pena de Shaka. Não deixou Luna responder.
Saori: Não. Lhe juro isso. As dores de cabeça, o mal estar... tudo isso apenas dura enquanto a doença está ocorrendo em seu estado intermediário. A morte de Anna... será... (respirou fundo) quando ela menos esperar, sentirá uma forte pontada na cabeça... e morrerá. Não há como prever quando ou como. Mas ela não sentirá dor. Não dará tempo.
Shaka engoliu em seco. Estremeceu.
Shaka: Os pais dela... já sabem?
Luna: Tencionávamos em dizer isso hoje.
Shaka: Não se incomodem. Eu faço isso.
E sem dizer mais nada, deu meia volta, mais desamparado e perdido do que nunca. Mas sem dúvida com toda a força que necessitava.
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