Abri os olhos rapidamente, mais uma vez observando o teto branco acima de mim. Foi um sonho?

Parece que eu tinha cochilado afinal de contas, mas antes não tivesse. Levantei da cama e peguei uma muda de roupas e uma toalha vermelha, dei alguns passos em direção ao banheiro mas senti as imagens do sonho me atingindo com a força de um tiro. Todo o medo, o desespero, angustia, tudo voltou para mim e se misturou com uma raiva que nem eu mesma sabia que estava guardada dentro de mim. Raiva dos sonhos, raiva de mim por ficar com medo deles, raiva da minha vida que se transformou em uma série de desventuras, raiva do mundo que resolveu se virar contra mim.

Quando dei por mim já estava apertando a toalha com mais força que o necessário. Folguei meus dedos ao redor dela e os vi brancos, brancos como papel, brancos como ossos... Não! Minha mente gritou para mim recusando-se a me deixar voltar a pensar nisso. Saí do quarto e fui em direção ao banheiro comum no corredor, entrei ali e o encontrei bem arrumado, quase do mesmo modo que o do meu quarto, só que as paredes eram de um tom azul marinho que acalmava.

Tomei um banho rápido e gelado, vesti uma calça jeans preta, uma camiseta branca e uma jaqueta de couro também preta acompanhados de um tênis surrado. Voltei para o meu quarto e vi, em cima da cômoda ao lado da cama, uma pequena caixinha dourada bem conhecida por mim. Abri a mesma e vi um colar dourado com uma concha como pingente, dentro dela estava escrito em uma letra conhecida por mim: “N&L para sempre.”

Palavras tão simples e inocentes mas que faziam meu coração doer e meus olhos lacrimejarem. Acabou não sendo para sempre... Coloquei-a em meu pescoço vendo que mesmo agora, depois de tantos anos, ela continuava grande para mim.

Escovei os dentes e ajeitei os cabelos de modo que eles ficassem presos em um coque mal feito e não muito firme, mas era o suficiente para mim. Olhei-me no espelho receosa, ainda com medo da minha imagem, mas estava tudo bem, nada fora do normal. Resolvi que hoje iria tentar me arrumar mais um pouco além do básico então usei um delineador preto para destacar meus olhos e um batom levemente avermelhado, que tirou um pouco o aspecto pálido que eu tanto gostava, deixando-me “saudável”. Meus cílios já eram grandes e negros então não precisei colocar máscara para cílios. Passei um pouco de meu perfume usual que era doce mas não enjoativo e resolvi que era o máximo que conseguiria fazer.

Desci as escadas e encontrei meus pais tomando café da manhã na sala mesmo, não éramos uma família realmente luxuosa, pelo contrário, éramos bem simples. Eles não me viram então passei direto para cozinha e peguei de lá uma caixa com alguns morangos e comi sem muita vontade, apenas para não dizerem que não poderia sair de casa com fome.

– Onde vai? – Meu pai perguntou com uma falsa voz irritada quando voltei para sala e me dirigi até a saída. Precisava sair daquela casa, aquele lugar não era normal.

– Para um parque que descobri existir aqui perto. É bem legal. – Falei calmamente e sem muito interesse. Ele apenas assentiu. Saí de casa e pude ouvir alguém gritar: “ Tenha cuidado” – OKAY. – Gritei de volta e assim saí rua abaixo, tentando tirar todos aqueles pensamentos sombrios de minha mente que eu já estava começando a acreditar que era levemente perturbada.

Andei por alguns metros quando vi uma biblioteca pública com uma fachada velha e acabada, assim como quase tudo naquela rua. Entrei ali achando que se conseguisse achar um livro interessante o suficiente conseguiria me distrair dos recentes acontecimentos. O aquecedor estava ligado, mas ainda sim estava frio, então permaneci com meu casaco. A primeira pessoa que vi quando entrei foi a bibliotecária, que, diferente do padrão mundial, era jovem e bonita. Os cabelos loiros e lisos até os ombros e os olhos castanhos claros faziam seu rosto parecer delicado como o de uma pequena boneca. Quando finalmente me viu ela pareceu me analisar de cima a baixo com a boca levemente aberta.

– Bom dia! – Falei quando cheguei perto o suficiente para que ela escutasse minha voz que sempre foi naturalmente baixa.

– Bom dia! Você não é daqui é? – Perguntou antes que eu sequer abrisse a boca para perguntar onde ficavam os livros de mistério.

– Não, me mudei a alguns dias. – Expliquei e ela sorriu gentilmente. – Sou Lua, e você?

– Brook. – Deu-me um sorriso tão radiante que me fez sorrir de volta de modo automático. – Você é a primeira que vem aqui em semanas, quase ninguém sai de casa nessa época do ano, principalmente hoje, só os que são obrigados. – Falou de modo misterioso e senti minha curiosidade adormecida crescer consideravelmente.

– Por que?

– Por causa de uma velha lenda que existe aqui.

– Gosto de lendas... Pode me contar? – Pedi e ela acenou positivamente.

– Acho que você já percebeu que grande parte dos habitantes dessa cidade são velhos certo? – Acenei positivamente embora tenha visto algumas crianças no parque no dia anterior. Acho que eram a tal minoria. – Bom, pessoas idosas tem uma certa tendência a acreditar no sobrenatural, disso todos nós sabemos... Eles dizem que entre nós existem esses seres sobrenaturais, aqueles de seriados sabe? Lobisomens, vampiros, bruxas, etc. E que o inverno é a estação perfeita para eles, é frio, escuro, sombrio... Tudo que eles gostam. Então eles saem por aí escolhendo suas vítimas, e elas podem ser qualquer pessoa com a qual esbarram na rua ou apenas trocam olhares. É aí que eles decidem quem vai ser a presa da vez. – Falou com um tom que deveria ser assustador mas só conseguiu me dar tédio.

– E como toda essa bobagem começou? – Perguntei mas quem respondeu não foi Brook, foi uma senhora que eu não tinha notado estar sentada atrás dela. Com os cabelos grisalhos e olhos negros penetrantes.

– Eu não diria que isso é bobagem criança. – Sua voz trêmula me fazia acreditar que menos de 90 anos ela não tinha. – E começou a muitos anos atrás... Com uma menina doce e gentil que andava nessas ruas, eu sei porque ela era minha amiga, tínhamos apenas 15 anos na época. Ela era doce, como eu disse, mas também era muito liberal, não se importava em namorar com quantos quisesse, e eu? Bom... eu era tímida demais para ser assim. Um dia ela me apresentou o novo namorado dela, era um rapaz muito bonito, jovem, cabelos pretos e olhos bonitos e gentis, branco, alto... tudo o que uma menina de nossa idade queria. Até a pagina 2. – Ela tossiu um pouco nessa parte. – Um dia, fui visitar minha amiga, ela havia fugido da casa dos pais que não aceitavam seu namoro e comprou, com minha ajuda, uma pequena casa mais afastada da cidade. Só que quando cheguei lá só o que vi foi sangue, sangue e pedaços do corpo dela espalhados por toda a casa. E mais ao centro estava ele... O namorado dela, aquele que ela dizia que a amava, com os olhos mais vermelhos que o sangue que jazia fresco em suas mãos, rosto e roupas. – Ta, agora eu tinha que admitir que estava começando a ficar com um pouco de medo, a voz tremida e a expressão cadavérica fez com que sua história parecesse ter um pouco mais de credibilidade. – Ele me fez jurar sobre o sangue da minha amiga, minha melhor amiga, que jamais iria contar quem ele era a ninguém, ou então teria uma morte pior que a dela, mas, se não citasse seu nome ao falar do horrível episódio, ele me deixaria em paz. E foi o que aconteceu. Desde então ele vem caçando novas vítimas e matando todas elas de maneira horrível, todas tão jovens e inocentes...

– E por que está contando tudo isso agora? Não tem mais medo dele? – Ela me lançou um sorriso seco.

– Me ouviu citar o nome dele em algum momento? – Neguei um pouco envergonhada por minha pergunta tola. – Sabe... Você se parece com ela... Na verdade são quase idênticas, só que os cabelos dela eram de um tom castanho mais claro, chegando perto do loiro, mas os olhos... ah os olhos, são do mesmo jeito, até mesmo no formato e no modo de olhar para as pessoas, o andar tão decidido, tão confiante... Ela também andava dessa forma.

– Mesmo? Como ela se chamava? – Perguntei depois de um tempo sendo analisada pelas orbes negra e enrugadas da velha senhora.

– Luna. Seu nome era Luna. – Senti um leve arrepio tomar conta de meu corpo quando ouvi seu nome, mas tentei não demonstrar. – E sabe como eles se conheceram? – Perguntou como quem não quer nada, mas me olhando profundamente nos olhos, algo naquela imensidão negra me fez acreditar que aquela pergunta não era inocente, engoli em seco e neguei. – Ele esbarrou nela um dia na rua e desde então ele continuava inexplicavelmente indo pros mesmos lugares que ela frequentava, até mesmo apareceu na casa dela. Quanta ousadia... – Riu ela, mas não era um sorriso alegre, era rancoroso e melancólico. – Aquele monstro... E agora ele está a solta de novo... Cuidado menina, ele pode querer relembrar os velhos tempos, e nada melhor para isso do que voltar para a primeira vítima não é? – Meus olhos se arregalaram inevitavelmente e minha boca ficou seca, abrindo e fechando como se quisesse pronunciar algo que não conseguia. Comecei a ficar levemente ofegante, mas me recusei a demonstrar medo em frente a elas, sempre fui orgulhosa, e não é agora que iria mudar.

– Vovó! – Repreendeu Brook. – Pare de tentar assusta-la.

– Não estou tentando assusta-la. Apenas alertá-la. Cuidado menina, vocês duas são iguais, e se ele te ver, ele vai querer você. – Dessa vez sua voz estava urgente e pela primeira vez consegui ver alguma emoção estampada em sua face fria, quase tão fria quanto a neve lá fora.

– Vem Lua, vou te mostrar os livros. – Brook me puxou pelo braço para longe dali, por entre as estantes cheias de livros bem organizados, paramos do outro lado do lugar, de onde não poderia ser encarada pelos olhos negros. – Desculpa, ela nunca fez isso antes. – Brook falou de modo nervoso, enquanto tudo o que eu podia fazer era encarar o nada. Cabelos pretos, alto, branco...

Arregalei os olhos e corri de volta para o balcão com a loira em meu encalço, mas parei assim que vi Brian olhando ameaçadoramente para mulher enquanto ela parecia assustada. Nenhum dos dois parecia ter me visto então me joguei para trás de uma das estantes mais próximas deles e puxei Brook comigo.

– O que nós...

– Shhhh – Coloquei um dedo sobre os lábios para sinalizar um pedido de silencio. Comecei a ignorar a cara feia da loira que pelo visto não gostava de ser repreendida e me concentrei em ouvir a conversa. Eles falavam muito baixo, pareciam não querer que ninguém ouvisse.

– Eu não disse seu nome, eu juro. – Ouvi a voz da idosa soar meio suplicante.

– Você fez praticamente o mesmo, ela não é burra. – Brian sussurrou raivoso e eu arregalei os olhos.

– Que seja, já estou velha, pode me matar se quiser. – Tentou parecer desafiante mas não deu muito certo. De onde estava só podia ver ela por uma pequena brecha entre os livros, percebi que Brook também estava boquiaberta com a situação.

– Não vou matar você. Afinal não descumpriu o juramento. – Afastei um pouco outro livro para conseguir ver Brian. – Mas pare de falar do que você não sabe. – Avisou ainda em um sussurro raivoso, apontando seu longo dedo indicador em meio ao rosto da velha.

– E por acaso eu menti? – Retrucou com sua voz exalando veneno. Brian abriu e fechou a boca como se quisesse dar uma resposta, mas então apenas deu de ombros e a olhou de forma indiferente.

– Não vale a pena. – Murmurou para si mesmo e saiu da velha biblioteca. Escorreguei pela prateleira até me sentar no chão e vi Brook fazer o mesmo, ela estava chocada. Não a julgava, afinal eu também estava.