Notas iniciais
Infelizmente, ontem eu não pude postar este capítulo, mas prometo ressarcir meu erro! ^^ aqui está o 7º, espero que gostem!

Encontrei-me com a tia Joyce depois que aluguei uns livros na biblioteca e conversei com Dean O’Conner, um estranho realmente “estranho” que acabei de conhecer. Mais anormal ainda é o fato de eu ter aceitado sair com ele, mas reprimi esse pensamento quando lembrei de que ainda não havia falado com ninguém desde que cheguei de viagem, nem mesmo havia pegado no meu celular.

Quando voltamos para casa já era noite, o tio Roger estava na sala assistindo a um programa de esportes e a tia Joyce se enfiou na cozinha para preparar o jantar. Fui para o meu quarto e vasculhei em tudo à procura do celular e o encontrei no bolso lateral da mochila da escola. Não estava ligando de maneira alguma. Maldição, resmunguei comigo mesma. A bateria dura menos do que a minha paciência, o liguei no carregador e assim que passou a parte da abertura, uma, duas, vinte, cento e cinquenta e duas mensagens não lidas. Jasmine havia feito um grupo num aplicativo e a conversa deles já era desde o dia anterior.

Eu: Jasmine, você sabe que odeio quando me adiciona nesse tipo de coisa. Mesmo assim já estou com saudades de todos vocês e só estou respondendo agora por que tive que fazer algumas coisas. Abraços.

Não esperei resposta, deixei o celular carregando enquanto tomava um banho. O jantar já estava pronto quando terminei de me vestir, desci e tomei um lugar na pequena mesa.

— Como foi o dia? — perguntou tio Roger meio genérico.

— Como se você estivesse interessado em saber — replicou tia Joyce com uma pontada de ironia.

O jantar estava uma delícia, mesmo que a tia Joyce seja irmã da minha mãe, Rachel não tem nada a ver com ela no quesito comida. Uma vez ela tentou fazer um bolo e causou um pequeno incêndio na cozinha, quando os bombeiros apagaram as chamas tiraram um carvão gigante de dentro do forno por que ela também tinha exagerado no fermento.

— Então, querida, o que vai fazer da sua vida aqui em Nova York? — perguntou tia Joyce, cortando o bife — Pelo que você me disse não se inscreveu em nenhuma faculdade.

— Eu estava pensando em trabalhar.

— Sério? — ela arregalou os olhos em surpresa — Um pensamento muito maduro para alguém da sua idade.

— É que quero ser independente e estou adiando a ideia da faculdade por que não sei no que quero me formar — falei, sincera.

— Eu tenho uma amiga, naquela biblioteca que você foi ontem. — Disse tia Joyce e eu assenti com a cabeça — Ela está me devendo um favor e eu soube que precisam de uma ajudante lá, não é grande coisa, mas para alguém que está começando...

— Aceito! — respondi antes que ela terminasse — Para mim está de ótimo tamanho, contanto que eu não fique desocupada.

— Amanhã irei falar com ela — ela piscou para mim.

— Você parece seu pai, Aurora — falou tio Roger — Ele também tinha esse espírito de quem quer bater as asas logo cedo. Isso é bom.

A lembrança do meu pai fez voltar todas as imagens dele que eu havia escondido em algum lugar da minha mente, não era desconfortável, só dava saudades. O jantar terminou silencioso e ainda ajudei tia Joyce com a louça. Assim que subi para o quarto tirei todas as roupas que estavam emboladas dentro das malas e as coloquei na cômoda e no pequeno guarda-roupa que havia ali. Depois ignorei as oitenta e cinco mensagens não lidas e disquei para o telefone de casa. Quem atendeu foi Edith.

— Alô.

— Vó, sou eu — era um alívio ouvir a voz dela.

— Aurora! Como vai, você chegou bem, foi bem recebida?

— Sim e sim, estou bem e meus tios são legais. Adoro a cidade e até já estou prestes a conseguir um emprego. Como vão as coisas por aí?

— Bom, estão suportáveis. Assim que você saiu Rachel começou a chorar, mas está mais calma agora. Grace anda me escondendo coisas, mas eu me faço de desentendida já sabendo de tudo. E quanto à mim, já estou com saudades. Mas fico feliz por você.

— Obrigada, vó — meu coração quase se partiu quando a voz dela falhou no final.

Eu não tinha mais nada a dizer e era péssima em puxar assunto, ainda bem que Edith me conhecia bem e quebrou o silêncio.

— Eu tenho que desligar, ainda vou preparar o jantar, hoje perdi a hora.

— Tudo bem. Até mais.

— Até mais, querida.

A linha ficou muda. Tia Joyce bateu na porta e eu deixei que entrasse.

— Está tudo impecável. — ela reparou no quarto arrumado — Eu só passei para desejar boa noite.

— Só para isso? — franzi a testa.

— Algum problema...? — ela mudou de tom, se sentindo errada — Eu estou atrapalhando?

— Não, não. É só que não estou acostumada a dizer bom dia, boa tarde e boa noite todo o tempo.

— Você se acostuma — ela piscou — Até amanhã.

— Boa noite — falei seca.

Passei o resto da noite conversando no tal grupo que Jasmine me adicionou, me deu um pouco de dor de cabeça com tantas mensagens ao mesmo tempo dela, de Brian e Oliver. Mas foi bom saber que Brian arranjou uma namorada em tempo recorde, que Oliver ganhou mais dois centímetros de altura e que Jasmine finalmente mudou o tom do cabelo para preto. Falei tudo sobre meu dia deixando Dean de fora, eu ainda não tinha contado à eles que eu e Brad terminamos. Meus dedos já estavam doendo de tanto deslizarem freneticamente pela tela do celular e o sono pesado me fez dar tchau ao grupo segundos antes de eu apagar de vez.

O sol me acordou com aqueles raios intrometidos que penetravam pela minha janela. Tomei um bom café da manhã, tio Roger passou o tempo inteiro dividindo sua atenção com o jornal e a xícara de café não dando a mínima para o que sua esposa tagarelava. Como combinado, eu e tia Joyce fomos até a biblioteca e quando chegamos lá ela falou com Lourien, a dona do estabelecimento. A senhora de óculos pequenos e expressão carrancuda me olhou de esguelha dos pés a cabeça e não esboçou nenhuma reação, apenas pediu que eu lhe trouxesse um currículo quando fizesse um.

Nunca havia precisado fazer um currículo antes, fiz milhares de pesquisas no Google e até vi alguns modelos, mas como colocar o primeiro passo da sua vida em um papel? O dia se tornava noite e eu quase havia me esquecido do encontro com Dean, tomei banho e o dilema da roupa me atrapalhou um pouco, mas pus uma calça que ficou bem com a minha bota preta e depois bastou uma blusa branca por cima. Meu cabelo estava uma porcaria, penteei e o deixei solto com as ondas nas pontas, maquiagem básica, perfume e pronto.

— Vai a algum lugar? — perguntou tia Joyce enquanto eu passava pela sala.

— Eu tenho um encontro, prometo que não volto tarde demais.

— Encontro? — ela uniu as sobrancelhas — Já conheceu alguém em tão pouco tempo?

— Demore o quanto quiser, Aurora — reagiu tio Roger — Você é jovem, precisa se divertir.

— Obrigada — falei e saí apressada.

***

Dean estava me esperando em frente à biblioteca, ele usava uma roupa de estilo bem nova iorquino mas com alguns traços de nerd. Assim que me viu um sorriso surgiu de uma ponta a outra de seu rosto.

— Você veio. — ele pareceu hesitante.

— Não, o que você está vendo aqui é uma réplica digital quase humana minha — falei sarcástica.

— Eu adoro esse seu senso de humor, — ele arregalou os olhos e riu como se eu houvesse acabado de contar uma piada — até agora não mereço nem um sorriso?

— Quem sabe se você fizer por onde terá a honra de receber o primeiro sorriso meu da sua vida.

— É melhor eu começar logo, então — ele mexeu nos cabelos — Vamos, madame?

O restaurante ficava a duas quadras dali, era simples e aconchegante, não havia tantas pessoas e a comida era ótima. Depois de termos raspado o prato de macarronada e tomado goles e goles de refrigerante, Dean pagou a conta e saímos.

— Foi aqui que dei meu primeiro beijo — revelou ele enquanto caminhávamos ao longo da calçada "menos movimentada" da noite agitada em Nova York, era incrível, eu nunca havia visto tantas pessoas assim a essa hora nas ruas em Lexington.

— E o que aconteceu com a garota que o beijou? — perguntei curiosa.

— Ela saiu correndo logo depois — dei um meio sorriso ao imaginar a cena, Dean não viu, estava olhando à frente — Eu tinha doze anos e meus dentes eram tortos, usava óculos e resumindo, não era do tipo que as meninas sonham em dar o primeiro beijo.

— Dei o meu primeiro beijo com quinze anos. — confessei — Embora meus dentes não fossem tortos ou eu não usasse óculos, meu jeito afastava os meninos. Até que um teve a coragem de se aproximar de mim.

— E o que houve com ele? — Dean perguntou.

— Virou meu primeiro namorado — respondi um pouco desconfortável.

— Ainda estão juntos?

— Nós terminamos.

— Por quê?

— Você é sempre assim tão curioso?

— Quase sempre, você me desperta curiosidade.

Respirei fundo, revirei os olhos e comecei a falar.

— Eu e Brad namorávamos há bastante tempo, sabe aquela frase que sempre dizem por aí? “No começo é tudo um mar de rosas". Pois é, eu e ele éramos o casal perfeito que todo mundo pensava que acabaria no altar, não que eu sequer tenha pensado nessa possibilidade. Mas ele era carinhoso, atencioso e não vivia um dia sem demonstrar que gostava de mim. Com o passar do tempo as coisas foram mudando, o nosso relacionamento ficou mais frio do que a Terra na era do gelo e eu fui cada vez mais me afastando dele. Brad também não me procurava mais e um dia antes de eu vir para Nova York nós brigamos e terminamos. Fim.

— Você não sentiu nada com isso? Pelo Brad, quero dizer.

— Não, acho que nosso relacionamento foi tão vago que não deu tempo de eu sentir alguma coisa de verdade por ele.

Dean me fitou como se eu houvesse acabado de desvendar um dos maiores mistérios da humanidade, ele tinha alguma coisa naquele par de nozes ao invés de olhos que esbanjavam inocência e sinceridade, além de um magnetismo perigoso no qual eu não queria me entregar. O’Conner ficou em silêncio e continuou a andar, desta vez mais pensativo.

— Você tem algum objetivo? — questionou ele.

— Não viver o resto dos meus dias como uma inútil. E você? Ainda não me disse o que faz da vida.

— De tudo um pouco. — ele soltou uma risadinha — Na verdade trabalho naquela biblioteca em que você e eu tivemos nossa primeira conversa.

Tremi quando lembrei que provavelmente trabalharia lá também.

— Interessante — camuflei meu constrangimento enquanto observava as luzes da cidade, brilhantes e convidativas. — Você tem namorada?

— Não. — ele me olhou de relance — Mas eu gosto de flor venenosa, é bela e ao mesmo tempo mortalmente perigosa, é uma adrenalina apaixonante que quanto mais você se fere melhor.

— Essa cantada ridícula funcionou com as suas outras vítimas?

— Não, eu as matei antes de terem que ouvir essa porcaria — ele riu e não consegui evitar imitá-lo também. — Não acredito que consegui.

— O quê? — parei de gargalhar.

— Um sorriso de Aurora Hopper.

— Nao é possível que tenha acreditado naquilo que eu disse — revirei os olhos.

— Seja como for cada vez mais estou gostando disso.

— Do quê? De ser vítima do mau humor de outra pessoa?

— Não, de ser vítima do mau humor de Aurora Hopper — Dean se virou para mim com um sorriso hipnotizante e expressão confusa. — Aliás, não é de um assassino psicótico ser vítima de alguém.