The only treasure

1 Os olhos de ametista


Notas iniciais
Hello pessoal! Eu pretendo mudar um pouco de ares e de personagens. Espero que essa história seja bem aceita por vocês, e eu aceito quaisquer interferências construtivas (por exemplo: "Ah, você podia fazer xxxxxx acontecer." ou "Você podia juntar/separar xxxxx e xxxxxx.")

Boas leituras aê!

Eu estava morto de fome. Tinha acabado de vir da casa de uns amigos, onde passamos a tarde toda jogando videogame. Aquela não era uma hora muito própria para se comer, mas estava difícil aguentar a fome. Parei o carro na primeira pizzaria que estava visível e desci. Fiquei surpreso por haver serviço até mais de 3 horas da manhã. Me sentei à mesa mais próxima, apesar do lugar estar deserto. Logo um jovem veio até mim, e eu pedi a pizza mais completa acompanhada de refrigerante gelado.

Assim que ele saiu, reparei que havia alguém deitado na mesa da frente, de frente para a cadeira em que eu estava sentado. Ela parecia estar adormecida no sono mais profundo o possível. Cerca de quarenta minutos olhando para o nada foram suficientes para trazer a pizza até mim. Por coincidência, a mesa da pessoa deitada também recebeu uma pizza e refrigerante, porém na versão família. Fiquei impressionado com aquilo:

[Ace]-Oe, aquilo ali é pegadinha?

[Garçom]-Hã? Ah não. É só uma garota que vem aqui quase todo dia pra comer. Fica aí o dia todo e dorme na porta.

[Ace]-Ela é pedinte?

[Garçom]-Nem adianta informar as autoridades. Ela fica aqui porque quer. Tem dinheiro, mas desafia os chefs a fazerem a maior pizza o possível, e só paga se não aguentar comer.

[Ace]-E?

[Garçom]-Nunca pagou. E sobre o refrigerante, é cortesia. O gerente acabou cedendo por conta própria.

[Ace]-Qual o nome dela?

[Garçom]-Ela não diz nada sobre si. Apenas pede pra ser tratada como um cliente qualquer. Ela é muito bela... Difícil crer que alguém assim dorme nas caixas de papelão que ficam ali no jardim. Bom, desculpe interromper seu lanche.

Resolvi arrancar uma parte da pizza e comer. Cheirava maravilhosamente bem e estava bem quente. Detonei o primeiro pedaço num piscar de olhos. O mesmo com o segundo. De repente, algo começou a me incomodar à frente. Ergui a cabeça e vi que ela fitava-me. Por impulso, resolvi abrir a boca:

[Juntos]-A sua pizza parece deliciosa.

Os dois, ao mesmo tempo?! Mas... Mas... O que foi aquilo?! Resolvi desviar o olhar e percebi que ela fez o mesmo. Acho que a vergonha atingiu os dois pela atitude inesperada. Comi os outros dois pedaços e terminei de beber o refrigerante, rapidamente levantei e me dirigi ao caixa para pagar pela refeição. Assim que paguei, me aproximei da jovem:

[Ace]-Ei, se quiser, posso te dar carona para casa.

[Bonney]-Mas minha casa é aqui na frente.

Os olhos dela eram da cor de ametista. Tão profundos que eu quase me perdia na vastidão:

[Bonney]-Por que tá me olhando assim?

[Ace]-Me desculpe, mas caixas de papelão não são casa de ninguém.

[Bonney]-Então me dê a sua casa.

[Ace]-A minha casa?

[Bonney]-Se a minha é ruim, é porque a sua é boa.

[Ace]-Isso não faz o mínimo sentido...

[Bonney]-O que é você, um corretor imobiliário?

[Ace]-Nas horas vagas, eu sou um faz tudo. -mentira

[Bonney]-Agradeço, mas não quero voltar pra casa.

[Ace]-E por que não?

[Bonney]-Não posso. Você vai me levar?

[Ace]-Vou. Mas por que não pode voltar?

[Bonney]-Ótimo, então eu aceito.

[Ace]-Garota, qual o seu problema? Você quer ou não quer ir pra casa?

[Bonney]-Você vai me levar, não vai?

[Ace]-Sim.

Continuei vidrado nos olhos dela:

[Bonney]-Então sim. Mas antes, eu quero ir pra sua casa.

[Ace]-O que diabos você quer com a minha casa?

[Bonney]-Você desdenhou da minha. Quero ver o quão melhor é a sua.

[Ace]- Ma.... Ah, desisto. Você venceu. Eu te mostro a casa e em seguida te levo pra sua.

[Bonney]-Aceito.

Ela se levantou e agradeceu pela comida. Fui para a porta e ela me seguiu. Entramos no carro e saímos:

[Bonney]-Você tem um belo carro. Quanto ele vale?

[Ace]-Se está tentando me roubar, eu sugiro que desista.

Ela desviou o olhar para a janela:

[Bonney]-Eu tenho cara de marginal? -disse, com um tom de tristeza

[Ace]-Me perdoe. Não foi o que eu quis dizer.

[Bonney]-O que eu pareço pra você? Diga a verdade, está tudo bem.

Respirei fundo e falei calmamente:

[Ace]-Uma garota linda, de olhos incríveis, que parece ter fugido de casa e não tem rumo. E tenta se mostrar machona pra disfarçar o medo que tem de ficar sozinha.

Ela começou a me encarar com os olhos bem abertos:

[Ace]-O que foi?

[Bonney]-Não é que... s-seja isso, mas... Obrigada, de qualquer forma. -ela mais uma vez desviou o olhar

[Ace]-O que aconteceu?

[Bonney]-Ah, algo que me desagradou. Não posso voltar pra casa de jeito algum.

[Ace]-Seus pais sabem onde você está?

[Bonney]-Tá até nos jornais. Eu tive que mudar minha aparência pra poder me esconder deles. Me sinto uma bandida procurada.

[Ace]-Mas você me parece normal.

[Bonney]-É por isso que tenho que usar essas roupas esfarrapadas. Não sou a maior fã delas, mas me vale o anonimato. Ei, qual o seu nome?

[Ace]-Ace. Você?

[Bonney]-Meu nome é Bonney. Por favor, me prometa que não vai levar pra casa e me entregar pros meus pais e nem dizer que sabe onde eu estou caso encontre eles em algum momento.

Ela parecia séria com o pedido. Bastante séria:

[Ace]-Feito. Mas onde você vai dormir?

[Bonney]-Na sua casa.

[Ace]-Quê?! Mas eu...

[Bonney]-Eu prometo que você não vai nem notar a minha presença! Por favor...

[Ace]-Você tá se oferecendo demais, não acha?

[Bonney]-Eu não vou nem dormir do lado de dentro! Fico no corredor, quintal, canil, sei lá! Só, por favor... Não me leve pra casa. Eu não quero voltar... -ela amarrava as lágrimas o máximo que conseguia

Suspirei e pensei por pouco:

[Ace]-Tá bem. Mas você não vai ficar lá mais do que três dias, tá? Arrume algum lugar decente pra ficar, que não seja naquelas caixas de papelão.

[Bonney]-E se eu ficar?

[Ace]-Vou buscar você de novo. -falei sem pensar

[Bonney]-Você... Se importa comigo?

[Ace]-Você é uma garota. Por que não deveria me importar? -tentei disfarçar a vergonha emergente- Você não me parece nenhuma ameaça. Você não tem jeito de ladra, nem nada. Eu disse o que achava: Você é uma garota que fugiu de casa. Se você estiver mentindo pra mim, não vou me importar. A índole é sua. Mas saiba: Se eu descobrir, suma. Vou te entregar na mesma hora aos seus pais.

Ela ficou calada o resto do caminho. Pouco tempo depois, chegamos na porta da garagem:

[Ace]-É aqui. Vamos descer?

[Bonney]-Sua casa é bem grande. Eu vou dormir aqui?

[Ace]-Não. Me siga.

Guardei o carro e o tranquei. Subimos as escadas e eu abri a porta:

[Bonney]-Uaaaaaaau, aqui é tão quentinho. Tinha me esquecido de como era uma casa quente.

[Ace]-Você está fora de casa há muito tempo?

[Bonney]-Desde os 10 anos. Eu perambulo pela cidade. Já morei em vários restaurantes.

[Ace]-E você não... se limpa?

[Bonney]-Bom... Quando chove, sim. É bem precário, mas resolve.

[Ace]-Vá tomar banho. Eu vou te arrumar uma toalha. Use o que quiser lá dentro.

Ela me olhou, surpresa:

[Ace]-Fique calada e faça o que eu digo, antes que eu me arrependa do que estou falando. O banheiro é no final do corredor. E -entreguei a ela uma toalha amarela- essa é a sua toalha. Leve o tempo que quiser lá.

Ela correu para o banheiro e fechou a porta. "O que diabos eu estava fazendo? Eu nunca vi aquela garota na vida, e a trouxe pra minha casa. E agora ela está usando o meu banhei... Oe, Ace! Não fique pensando nessas coisas. Não seja um aproveitador de merda."-pensei, encarando meu reflexo no espelho da sala. De repente, ouço uma voz vinda do corredor:

[Bonney]-Ei... Moço.

[Ace]-É Ace.

[Bonney]-Seria pedir muito uma roupa velha sua? É que... Então, acho que as minhas iriam sujar sua casa.

[Ace]-Providenciarei. E me dê as suas, vou colocar na lavadora.

[Bonney]-N-não precisa lavar.

[Ace]-Shhh. Me dê logo. -tentei ao máximo não olhá-la no rosto

[Bonney]-Por que você não olha pra mim?

[Ace]-Você está nua, sua bocó. Seria desrespeito ficar te encarando.

Ela me entregou o bolo de roupas e fechou a porta. Fui para a lavanderia preparar a máquina. Coloquei tudo junto dentro... Quando reparei na peça destacada no meio da montanha de sujeira: "V-v-v-v-vermelha? Pera, não faça isso. Concentre-se. Foco. Vamos lá, você tem 22 anos. Se acalme.". Configurei a máquina e deixei-a fazer seu trabalho. Depois, fui ao meu quarto e abri o armário. Peguei uma velha camisa da época de Jogos do colégio. O barulho do chuveiro tinha cessado. Dei dois toques na porta:

[Ace]-Com licença. Com licença.

[Bonney]-Pode abrir.

Enfiei o braço com a camisa na mão:

[Ace]-Toma aqui. Pode usar essa.

[Bonney]-Qual o problema em olhar aqui dentro?

[Ace]-Quer que eu fique te olhando pelada?!

[Bonney]-Eu não estou, pode ficar tranquilo.

Pus metade da cabeça, e realmente ela estava envolta na toalha:

[Ace]-Você parece outra pessoa.

[Bonney]-Vou tomar isso como um elogio. E obrigada pela camisa. Você vai me deixar dormir no sofá?

[Ace]-Ainda estou pensando.

Voltei para o meu quarto e comecei a mexer nas gavetas:

[Bonney]-Eu posso entrar?

[Ace]-Claro, claro. Sinta-se a vontade até mesmo pra se vestir. Estou ocupado olhando a gaveta.

Ela rapidamente soltou a toalha e vestiu a camisa. Logo depois, ela sumiu e reapareceu:

[Ace]-Onde você foi?

[Bonney]-Você não põe a toalha no banheiro?

[Ace]-Ah, claro...

Ela sentou na cama e cruzou as pernas:

[Bonney]-Por que sua cama afunda assim?

[Ace]-Nunca dormiu num colchão de molas?

[Bonney]-Não que eu me lembre...

[Ace]-Sério, você tinha uma vida boa?

[Bonney]-Ah... Dava pra resistir bastante. Mas sim, era boa.

[Ace]-Há quanto tempo você não deita numa cama?

[Bonney]-Uns 9 anos, por aí. E antes que você pergunte, eu não sou menor de idade! Tenho meus 18 anos, muito obrigada. -ela fechou a cara

[Ace]-Mas eu... Ah, tá bem. Você dorme aí.

[Bonney]-Quê?! Não, mas essa é a sua cama. Onde você vai dormir?

[Ace]-Eu dou um jeitinho. Você fica aí. Gosta de cobertores?

[Bonney]-Hmm...

[Ace]-Você pode dizer "sim" e "não". É grátis.

[Bonney]-Hoje está frio... Acho que quero.

Apontei para a gaveta:

[Ace]-Escolha.

[Bonney]-O preto.

[Ace]-Meu favorito.

[Bonney]-Então... Aquele azul do canto.

[Ace]-Mas não era o preto?

[Bonney]-Você disse que era seu favorito...

[Ace]-E daí?

[Bonney]-Que você deve querer dormir com ele....?

[Ace]-Nah. Já disse: Esqueça de mim. Preocupe-se com você. Você quer o preto?

[Bonney]-Quero.

Coloquei-o aos pés da cama:

[Ace]-Aqui está. Eu vou dormir na sala. Qualquer coisa, pode me acordar. Se algo não estiver bom, fique a vontade para mudar. E eu não vou acordar você, prometo. Agora, se me der licença... -pus a mão na maçaneta da porta e fechei a porta

[Bonney]-Espera!

Parei pouco antes de fechar a porta:

[Ace]-Que é?

[Bonney]-Volta aqui.

Retrocedi. Ela se levantou e me abraçou forte. Fiquei um pouco sem ação, mas a abracei de volta:

[Bonney]-Obrigada, de verdade. Prometo que não vou decepcionar você. Obrigada de verdade por fazer tudo isso por uma desconhecida. Eu... Eu...

[Ace]-Shhh.... -passei a mão em sua nuca- Menos papo. Não quero que me agradeça, só que curta. Agora, vá dormir. Você merece uma cama decente depois de 9 anos sem.

Ela voltou para a cama e se cobriu. Apaguei a luz e fechei a porta. Fui para a sala, ajeitei as almofadas do sofá e me atirei nele. "Não sei o que estou fazendo, mas algo me diz que é o que eu deveria fazer... E ela não é uma desconhecida. Quero dizer, não é pra mim... Parece que eu a conheço. Mas eu nunca a vi... O que diabos tá acontecendo?

Fui dormir.

Notas finais
Espero ter ficado do gosto de vocês. :D