The -not so- Lucky Ones
1 O terrível e horrível match
Notas iniciais
It's a Match!
Você e Miguel se curtiram!
Dê um oi.
Foi assim que a merda toda começou. Com um match no tinder. Entenda, eu namorava há dois anos. Quer dizer, ainda estou namorando. É um relacionamento aberto, do tipo em que a gente fica com pessoas diferentes de vez em quando. Mas por enquanto eu não quero falar sobre o meu namoro. Vamos voltar para o que eu sentia antes de tudo isso começar.
Sábado 13h45
O tédio de ser deixada sozinha em casa pelo meu namorado raver que estava pelo quarto dia seguido fora de casa já me consumia desde os primeiros segundos sozinha. Eu já havia terminado Friends (não que eu tivesse maratonado todas as temporadas de uma vez, mas talvez as duas últimas), feito hidratação no cabelo, passado umas máscaras horríveis na cara, pintado as unhas com uma cor super velha que já tinha estragado no dedo anelar... parecia que todas as tarefas possíveis já haviam sido feitas por mim naqueles quatro dias.
Foi aí que eu tive a brilhante ideia de baixar o tinder e deslizar pessoas, como se fosse um catálogo humano em que você escolhe alguém só com base em meia dúzia de fotos. Eu sentia dentro de mim que esse tipo de coisa ia dar merda, mais cedo ou mais tarde. Veja bem, eu moro sozinha, em um apartamento com uma enorme cama queen size, em um condomínio pacífico no qual só moram pessoas desinteressadas na vida alheia.
Eu podia fazer o que eu quisesse.
E eu fazia.
O aplicativo terminou de ser baixado, fiz minha conta, escolhi meia dúzia de fotos de mim (escolher fotos boas levou mais ou menos uns 90 minutos, sem brincadeira, é horrível quando você tem transtorno dismórfico corporal e não se enxerga do jeito que é) e comecei a deslizar pessoas para a esquerda e para a direita.
Uma linda morena com um sorriso cativante. Direita. Um loiro meio estrábico segurando uma arma na mão. Esquerda. Uma guria cuja descrição dizia "adoro apanhar de mulher bonita", seus olhos eram cor de caramelo. Direita. Uma bunda cujo nome era "Casal". Esquerda. Um homem forte, negro, com um sorriso que me fazia pensar em calor e lençóis de seda. Direita...
Fiquei por um bom tempo deslizando vários seres para a esquerda quando uma foto fez meu coração pular uma batida. Seus olhos eram verdes? Ou azuis? Eu não sabia dizer. Mas seu olhar me penetrava fundo, sua cabeça inclinada levemente para baixo, sua boca entreaberta, seus cabelos rebeldes sugeriam uma brincadeira ao vento. Sua pele era tão branca que chegava a reluzir. Havia uma foto dele sem camisa, ele parecia ser bem alto, era magro, mas não tanto, seus músculos eram definidos, parecia um Adonis talhado em mármore. Igualzinho às estátuas que vi em minha viagem pela Itália.
Meu primeiro pensamento foi: Esse cara é a epítome de Edward Cullen. Exceto que era uma pessoa, real, bem ali, à distância de uma tela. Sua mandíbula marcada, seus semi-cachos, até mesmo os óculos que pareciam emoldurar aqueles dois globos oculares que faziam meus olhos castanhos parecerem duas bolinhas de gude feias... Todo seu semblante fez um calor subir por entre minhas pernas e eu arfei com um tesão reprimido.
Miguel era seu nome, e ele tinha apenas uma ano a mais que eu, 23 anos. Eu ri, porque Miguel era o nome do meu namorado. As ironias da vida eram incríveis, o meu namorado era lindo e esse cara era lindo. Será que eu tinha algo com o nome Miguel? Ou será que todos os "Miguéis" do mundo eram lindos desse jeito? Mordi o lábio pensando em coisas loucas e sensuais, hesitei em deslizar para a direita. Meu dedo balançando sua foto para um lado e para outro, até finalmente arrastar para a direita.
Aquele segundo pós-deslizada deixou meu coração sobrecarregado com o peso da insegurança de não ser correspondida. E se ele tivesse passado por minhas fotos e rido da minha cara zoada, meu sorriso torto e minhas pálpebras gordas e bochechas enormes?? Eu não iria aguentar a humilhação de algum dia cruzar com ele pelas festas da faculdade e ver seus incríveis olhos e...
It's a Match!
Você e Miguel se curtiram!
Dê um oi.
Soltei um gritinho de gozo. YAAAAAS. Eu não acreditei naquilo que meus olhos estavam vendo. Meu Adonis tupiniquim estava a fim de mim.
Piiiiiiiiiiiii.Piiiiiiiiiiiii.Piiiiiiiiiiiii.
O barulho do microondas me tirou dos meus devaneios e fantasias sexuais que estavam borbulhando a um milhão em minha mente. Levantei-me do sofá, onde estava largada, nua, coberta levemente por um roupão largo e velho e fui cambaleando, ligeiramente bêbada, até a cozinha, onde tinha colocado o resto da janta do dia anterior para esquentar.
Quando eu ficava sozinha em casa, gostava de fazer duas coisas: beber e fumar. Era um pesadelo ficar sozinha, ainda mais depois de ter me afastado das pessoas tóxicas que por tanto tempo eu havia chamado de "amigos". Minha barriga doía com o peso da solidão. Meu olhos bêbados lacrimejaram de raiva do meu namorado, por me deixar tanto tempo sozinha em um período tão conturbado da minha vida.
Estava em meu pior período da faculdade, passando por estresses familiares e pessoais, preocupada com meu peso e minha aparência (afinal, entrei na faculdade com 53kg e, no final do terceiro ano, já estava com 66kg). Minha ansiedade me consumia por dentro e eu descontava tudo na comida e, agora nos últimos 3 meses, na bebida.
Minhas mãos alcançaram o prato quente e minha boca começou a salivar. O cheiro da carne esquentada, minha larica e minhas várias horas sem comer fizeram minha barriga roncar tão alto que eu cheguei a dar risada. Percebi que tremia quando quase derrubei o celular e o prato. Era muita euforia para uma pessoa só.
Almocei aquele "restô" como se comesse uma iguaria exótica, enquanto minhas papilas gustativas provavam o tempero picante da carne, meus olhos seguiam meus dedos enquanto eu digitava um "Oii" com tremenda preocupação, mas tentando passar um ar displicente e despreocupado.
Apertei o enviar antes de pensar uma segunda vez e desistir da ideia.
Não recebi nenhuma resposta.
E nem receberia.
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