The noble House of Lamprecht.
1 Prólogo.
Era uma noite fria, mórbida e muito escura quando Kieran Lamprecht foi enterrado. O vento gelado ricocheteava as folhas das grandes copas das árvores, a folhagem seca e o cheiro da tempestade que estava por vir. Os parentes e entidades que se despediam do homem sob seu caixão mantinham-se cientes e respeitosos perante o sobrenome da família. Ele nunca fora um bruxo muito amigável, pelo contrário, um líder nato; regendo a responsabilidade de chefe de linhagem. Mesmo que involuntariamente, alguns murmúrios corriam pelo cemitério, sobre a causa do óbito. Na posição em que Kieran se encontrava perante o início de guerra, os segredos e as balbúrdias por pouco não entregavam um assassinato; ou se perguntavam o motivo da esposa não estar presente, tendo em vista que a velha senhora à frente, a mãe, mergulhava em profunda tristeza, os olhos marejados. No entanto, nenhum dos presentes ousava pronunciá-lo em voz alta. Ainda que no túmulo, o terror de sua alma exalava, e podia ser sentido por qualquer ser vivo que se aproximasse, ou blasfemasse a seu respeito.
— Este é o enterro dele? — Perguntou uma voz feminina, fina e estridente. Ela era sussurrada, distante. Provavelmente vinda de longe.
Na verdade, seu timbre nem sonhava em ultrapassar a grande comoção por onde se localizava o tão trágico funeral de Kieran Lamprecht. Na esquina longínqua e ladrilhada por pedras gastas, plantas e flores rasteiras, a concubina parecia falar com o nada; e assim teria passado despercebido caso você estivesse com demasiada pressa. Ela falava com uma pessoa, um mistério. Suas características não eram notáveis, tampouco ele poderia ser distinguido. O guarda-chuva negro tiritou suavemente entre os dedos enluvados da moça.
— O traidor nunca mais verá a luz do dia novamente. — A resposta de veio, rápida e sutil, como três criaturas proferindo em um único espaço tempo, indistinguível. Quem era ele? Estava de fato ali?
A cúmplice sorriu, um mover dos lábios malicioso, mesclado por ironia; coincidia a expressar um único sentimento: Satisfação.
[...]
Há milhares de metros da morada dos mortos, em uma mansão rodeada por muralhas e pedregulhos altos, exatamente no quarto de casal do segundo andar, o inesperado acontecia. Na grande cama, Rhaella Lamprecht gritava de dor, entregando, com clareza, as causas de estar ausente no momento em que o marido, sem vida, perdeu-se perante os grossos grãos de terra. Duas empregadas circulavam o local, beirando o desespero. Já se passara muito tempo, a criança deveria ter nascido! E não havia possibilidade de saírem ou clamarem por ajuda, pois a tempestade que almejava o céu turbulento agora recaía com fúria das violentas nuvens para o chão. Ambas aparentavam não saber o que fazer, porém, a que apoiava-se entre os joelhos da moça, afastando suas pernas e encorajando-a a continuar, era dotada de sabedoria e notáveis rugas de expressão.
— Vamos, minha querida, você é forte! — Incentivou, verificando qual era o estado atual da situação.
Rhaella tentava, e tentava além de sua possibilidade e força. Seus longos cabelos platinados esparramavam-se, desgrenhados e suados, pelo colchão, de lençol úmido provido do esforço. Ela agarrava o tecido abaixo de si, apertando-o entre os dedos. A pele estava branca, ainda mais branca do que o normal; pálida, como se perdesse o brilho natural aos poucos. Por um triz, o barulho da chuva torrencial lá fora não abafava os gritos da parturiente. Os olhos da empregada, embora inteligentes, carregavam preocupação. Era de mau agouro que um rebento nascesse antes do período predestinado e completo dos nove meses, naquelas circunstâncias. No dia da morte do pai, o inferno consumado; ela era forte, entretanto, era visível que não suportaria por horas a fio. A parteira, desesperada, em um decisivo fio de esperança, implorou:
— Rhaella, honre o sobrenome que recebeu! É seu filho! Ele precisa vir ao mundo! — As palavras saíram com determinação. Não havia feito um pedido, e sim dado uma ordem. Sabia que conseguiria.
Naquele instante, a futura mãe assentiu. Não podia negar a verdade; ele estava morto, mas ela não podia desistir por causa disso. O ser que lutava para libertar-se do seu ventre merecia viver, ter o mérito de um guerreiro. Seria injustiça morrer sem ao menos ver a luz do dia, o mundo mágico que lhe aguardava, a linha do tempo gloriosa, a honra. O poder, e a liderança. Ela esperara esse tempo todo para provar que seu sangue era tão forte quanto os paredes que sustentavam a mesma casa que a abrigara, com tanto despeito. Seu fruto seria alguém. Cresceria, e comandaria os sete ventos daquela linhagem maldita. Nessa força de vontade, Rhaella apoiou-se a cerca da estrutura amadeirada do leito, e por uma fração de segundo, encontrou com os olhos de Kieran, na pintura a óleo circundada de dourado, pendurada na parede. Com um último grito, do fundo de sua estrutura, usou sua estância de força que restava; depois dela, nem se quisesse, ou por mil magias complexas, poderia dar à luz. Os músculos ardiam, queimando, de uma dor inexplicável que desejava não mais sentir. Todavia, não foi necessário. O choro da criança recém-nascida inundou os cômodos, potente e sagaz. O corpo quase inerte da progenitora desabou, mesmo que procurasse, involuntariamente, por seu primogênito.
A serviçal, esboçando um sorriso glorioso, separou o elo físico que restava entre Rhaella e o bebê, que ainda chorava. Um menino! Ele era pequeno e frágil, mas tinha uma garganta muito eficaz.
— Me dê. — Pediu a mãe, cansada. Sua voz era praticamente inaudível, insistente. — Me dê meu filho.
Obediente, a ordem foi cumprida. A criada atravessou o quarto, de modo que pudesse entregar o garoto que berrava. Assim que pôde tocá-lo, Rhaella o aninhou em seus braços, os lábios se curvando de vitória; um menino. Os bracinhos se remexiam, ansiando por tocar. Apesar disso, ela balançou a cabeça, buscando pelo ar.
— Você terá tudo ao seu alcance, meu filho. – Sussurrava, fitando as íris azuis de seu rebento ensaguentado, sob as pálpebras que mal se abriram. Instantaneamente, o choro cessou; o herdeiro parecia estar atento a cada palavra da mãe, como se entendesse. E talvez o fizesse, porque naquela revoltosa noite, havia vencido a batalha. — Seu nome será Aleister, O Protetor.
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