Notas iniciais
Eu demorei, sei que sim! Deveria ter postado antes. E obrigada pelo comentário, Lucas! Espero que goste desse. *^*

Veja bem, vamos analisar os pontos. No fundo, você pode pensar – todos pensam – na forma comovente como as palavras são escritas, como as respectivas letras remetem as pessoas e os seres às coisas mais incríveis a se imaginar no mundo mágico. Há tanta atração, caminhos e lampejos que faz com que a cabeça de qualquer que possua no mínimo um pingo de humanidade se veja transtornado e embalado pelo seio do poder. Parece que para cada escolha e novo desafio, se resta perder algo mais do que a própria alma, a dignidade, ou a honra. Significa perder aquele que pode permanecer batendo, agudo, e arrastado – vivendo –, mas destruído. Aquele que nos leva para as mais impensáveis loucuras e exorbitantes sentimentos: O coração.

Aleister, O Protetor. Provindo de uma relação muito conturbada, repleta de altos e baixos, ódio, conflitos; todo o desnecessário, menos amor. Talvez, seja injustiça constatar que Rhaella ficou feliz com a morte – por causas desconhecidas – do marido, no entanto, isso é apenas um talvez. Depois de tanto cavoucar no buraco infinito de provas invisíveis e suposições, a família Lamprecht arrumou uma forma não abundantemente eficaz para se livrar dos olhos arrebatados. As investigações cessaram, como pó dissolvido na mais límpida água; já não posso afirmar o mesmo sobre as suposições. Por um longo e exasperado tempo, caíra na boca dos bruxos e alta e média classe que Kieran havia sido assassinado, e a cobra parecia desfalecer a cada golpe. A mãe, indigna, diante da enorme mancha de reputação que começava a se expandir naquele impecável leito de sangue, foi obrigada a engolir a nora injustiçada e aceitá-la no trono. Tachada com velha e insensata demais, a irredutível senhora, escassa da presença do filho e de seu progenitor, foi somente mais uma das peças vencidas no tabuleiro de xadrez. Quem segurava as rédeas agora era Rhaella, aquela que mantém casta e estirpe; até que seu herdeiro possuísse idade o suficiente para então fazê-lo em seu lugar.

Passado pelo mesmo típico costume, Aleister iniciou sua escolaridade por volta do ano de 1971, de praxe para que todos os que se despusessem de uma linhagem bruxa recebiam: A carta de Hogwarts. Em uma elegante coruja, o garotinho logo a teve em mãos, usufruindo, antes mesmo de sua partida, dos dotes familiares, nem tão bons assim, ensinando-lhe como deveria ser e de que jeito deveria agir quando chegasse, visando sempre manter a aparência e o respeito. Os anos desbotaram a rispidez e a ignorância recebida no berço, sendo que, involuntariamente, o primogênito desejava poder escolher seus próprios caminhos, mas nunca ousava desafiar a mãe se ela o prendesse no olhar. Merlim sabe como Aleister tinha medo da face inexpressiva de Rhaella, lendo seus pensamentos e invadindo a mente, sentada, sozinha, na mesa de jantar, esperando, por desventura, o fantasma de Kieran. Ainda desconfiava que, caso ele aparecesse, ela o apunhalaria pelas costas na primeira oportunidade. A viúva negra. Ele possuía uma mente inocente e um pouco conturbada, sofrendo constantes ataques de personalidade e pressão; foi bem recebido na ambiciosa casa da Sonserina, embora sua personalidade implacável o dividisse também para a Corvinal e a Grifinória. O chapéu entrou em um impasse, e vasculhou as mais profundas valetas da consciência difícil do jovem, encontrando, unicamente assim, o que procurava. Sua inteligência brilhante não foi o suficiente para guiá-lo para a casa de Rowena, e seu coração resguardava demasiada ambição para que abitasse o lar de Godric – e caso o fizesse, a punição seria iníqua –; entretanto, o ofidioglota o acolheria longe do desprazer, afinal, a Sonserina é igualmente a casa dos sábios. Não demorou para que crescesse em meio à luxuosa sala comunal esmeralda como o forro das paredes da mansão de sua família; e que se destacasse perante seus colegas e invejosos de segundo plano. Aleister não tinha amigos verdadeiros, os que se manteriam ao seu lado caso uma enorme bomba tornasse a explodir, ou que sequer se aproximassem dele sem desinteresse após o final relevante de uma aula ou de um esplêndido ano letivo. Por exatos três anos, aquele que era insensato e inofensivo se contaminasse com a podridão de um legado. O sucessor, há duas séries de tornar-se o esperado, coincide em milhares de lutas internas a serem travadas, influências e decisões; E é onde começa nossa história, em uma exata, gelada e intempérie tarde de inverno...

Aleister abrira os olhos. Aquele não era um fim de tarde comum. Estava deitado em um emaranhado de lençóis cinzas, cor que habitava o quarto de seu pai desde o dia em que desfalecera. Geralmente, pelas histórias da avó, Kieran era um homem forte e decidido; jamais permitiria que uma essência tão sem graça como essa permanecesse na mesma cama em que dormiria. No entanto, as regras mudaram e Rhaella insistiu para que tudo o que fosse vívido no cômodo seria jogado fora, assim condenando-o ao luto eterno, como ela ficaria enquanto respirasse. O rapaz, na verdade, tampouco se importava com essas decisões ríspidas por parte de sua mãe. Ele não conhecera seu pai, e os contos e a reputação não eram suficientes para que nutrisse uma imagem completa do que seria o bruxo. O garoto tinha pesadelos em seu próprio quarto, de modo que viesse a buscar uma sensação inexistente de conforto entre as quatro paredes no do falecido. Mais à frente, havia um enorme espelho, de ponta a ponta, refletindo boa parte do leito acinzentado; Aleister levantou-se, inseguro, dedilhando o sólido refletido com a ponta dos dedos, como se buscasse alguma espécie salvação. Os cabelos platinados do primogênito por pouco não se escondiam em seu rosto emoldurado a uma pintura a óleo, do quão surreal sua pele clara escondia as linhas de expressão. O mais assustador nele, com certeza, eram os olhos. As íris absurdamente azuis que chegavam a puxar para o lilás, se vista de indistintas posições; era impossível descrever o que pensava naquele momento.

Quando caminhou, a sola dos pés descalços não fez sequer um mísero ruído no carpete branco. Agora, por curiosidade, se aproximara da admirável e irredutível obra de Kieran pendurada na parede por um esplendoroso quadro; o mesmo que Rhaella fizera questão de lembrar-lhe, a cada amanhecer, de tirar forças do olhar morto detalhado e perfeitamente esculpido ali, enquanto seu pequeno guerreiro lutava para nascer. O jovem repetia o feito de dedilhar e conhecer, pelas vestes, o rosto, o fundo; talvez esperasse que ganhasse vida e saltasse para fora da moldura. O Kieran pintado se mexia, desconfortável com os toques. Lançou ao filho um olhar severo, que o fez afastar-se dois passos. Ainda que abstente no túmulo, enterrado, o maldito não o deixava em paz? Com um único e violento movimento, arrancou o quadro da parede, jogando-o no chão, que se espatifou com um baque estrondoso de vidro quebrado; ele se sentia assustado. Pelo acesso de raiva, as futuras escolhas e principalmente... Por estar sendo sutilmente vigiado. Suas pálpebras pesaram com os múltiplos questionamentos, e por pouco não saiu desatado dali sem perceber o que esteve o tempo inteiro embaixo de seu nariz. Onde outrora residia a pintura, haviam cinco blocos imprecisos. Eles pareciam encaixar-se simultaneamente um ao outro, por linhas, pontos gastos, rachaduras – peças de um quebra-cabeça – e formatos. Lembrava muito à ele o gênero de combinação do Beco Diagonal, que maravilhosamente separada o mundo trouxa do mágico. Quem sabe não fosse? Forçou a memória a lembrar dos movimentos, porém, foi em vão; a varinha nem cócegas produziu ao entrar em contato com o concreto. Suspirou, umedecendo os lábios, vasculhando seu cérebro em uma resposta óbvia; um objetivo fácil demais a se alcançar. Tanto que ele quase hesitou em tentar, com medo de despertar a ira da alma de seu antecessor. Devagar, pousou a mão sob a superfície, relacionando-a com os dedos abertos nos pontos de ligação corretos; a respiração entrecortou, mas Aleister continuou: Pressionou a palma, com toda a força que conseguiu, para dentro, empurrando os blocos enferrujados pelo tempo.

Logo que chegou da metade, o que era inanimado ganhou vida própria. A parede se ampliou e os blocos foram sumindo, um por um, adentrando seus companheiros, subindo, descendo ou dançando em diagonal aleatoriamente; o lustre e o restante dos objetos menores do cômodo tremeram, tal como o chão, dando a angustiante sensação de que se abriria para o inferno a qualquer momento, até que não fosse mais uma passagem lacrada de tijolos. Boquiaberto, o herdeiro mal sabia que fitava um dos maiores segredos resguardados a um só em meio a enorme mansão Lamprecht; ele fora guiado pelo impulso de descobrir e jamais tivera noção do que o esperava lá dentro. O jovem era corajoso e astucioso o suficiente para desafiar as leis do que exalava o proibido e adentrar os limites que separavam o cômodo daquela espécie de câmara. Ela era maior do que a sala de jantar, recheada de estantes com centenas (milhares?) de livros, diários, folhas abarrotadas, móveis, compartimentos, estranhos pertences e jóias. Incontáveis jóias; sustentada por pilares. E então, com um desconfortável ruir, algo mexeu-se na estrutura superior dos pilares, vinda do chão. Impossível de saber ao certo, de uma distância exígua de no mínimo três metros. Subitamente, as luzes se acenderam, como enormes faróis. Foi nesse instante que, Aleister, que achava que não lhe restava mais ar, prendeu a respiração. A coisa ou o ser que produzira o barulho, era uma cobra; uma assustadora cobra de íris esmeralda. O reptiliano arremedaria mecanismos mecânicos, exceto pelo fato de que rastejava pelo concreto; parte dele. Era um tipo de feitiço, encantamento, transfiguração. Aleister não tinha certeza do nível de realidade do animal. Ela rastejou pela parede e seguiu em linha reta, circulando por entre os... Os... Woow. Até então, o jovem também não tinha certeza do tamanho da enrascada em que se enfiara. Estupidamente, percebeu que o quadro do pai na estrada era apenas uma pobre introdução comparado aos outros. Os outros.

Pelas quatro extremidades vagas do local, pendurados, pendiam molduras em tamanho real de corpos adormecidos. Eram inúmeros deles, poderiam cobrir facilmente a pintura se não fossem cuidadosos e ruidosamente planejados para estar ali, separando-se de seus companheiros apenas por um curto espaço suficiente para a passagem da cobra. Os rostos adormecidos estampados nas telas possuíam traços quase idênticos; a mesma pele clara, as mesmas madeixas tão loiras a ponto de chegarem ao branco. Homens e mulheres, de porte elegante e superior, ainda que distantes da vida... Não por muito mais. Por onde o réptil passava, rastejando-se pela tinta espessa, um recente sopro de existência era deixado. Ela era rápida e alcançava seus objetivos em velocidade surreal e eficaz. Nos trajetos pelos quais completara, as pinturas, anteriormente mortas e imóveis, mexeram-se, como um corpo que passa muito tempo no pó e na podridão; apesar de aparentarem, não poderiam estar mais longe disso. No exato segundo em que as pálpebras se abriam, eles assumiam a típica postura impecável de que foram pintados; os pares de olhos em vários tons de azul gélido fitando o intruso com despeito; se dependesse deste efeito, Aleister, passando a um triz, não derreteria de desconforto.

Por fim, o animal rastejou, agora vagaroso, em uma direção horripilante. No meio da câmera, em um espaço privilegiado, se encontrava o maior deles; mais um monumento do que um quadro, expressava os traços de um homem altivo e poderoso de longos cabelos platinados a lhe cairem pelos ombros, que em sua forma completa e inerte era horrivelmente assustador; quando se moveu, o garoto teve vontade de sair correndo, desejando nunca ter encontrado aquele pesadelo. Abaixo da moldura do quadro, incrustada nela, um gigante e elegante “B” se formava, ligando as quatro linhas. De relance, poderiam aparentar galhos de árvore. Por um momento, a câmera permaneceu em silêncio, e de súbito, os olhos do gigante se abriram; no entanto, as íris não eram azuis como as do restante; e sim, esmeraldas... Duas intensas esmeraldas, idênticas às da cobra que despertara as essências. Esta, por sua vez, desceu e enroscou-se afetuosamente aos pés de seu dono que parecia avaliar a alma de Aleister enquanto o fitava; olhou para os outros quadros e esboçou um sorrisinho cínico, mas permaneceu calado em seu trono quando, todos eles, em uníssono, questionaram:

— Quem é você?

...e a última coisa a ser ouvida, foi o barulho da parede de entrada fechando-se novamente, às costas de Aleister.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.