The mouth test
1 Ler instruções de uso é para os fracos de espírito
A Germa 66 nunca tinha conseguido crescer bem o suficiente durante as administrações anteriores para ser considerada uma empresa de peso no mercado, mas quando Judge Vinsmoke conseguiu tomar a Germa 66 das mãos de seu avô isso mudou. Sob sua condução ambiciosa e firme, ele abandonou as linhas tradicionais de sua família e conseguiu, ao investir pesadamente no ramo das tecnologias inovadoras, construir um império multinacional. Foram necessários anos de investimento e apostas perigosas — além de conexões suspeitas, mas agora a logotipo da Germa 66 era facilmente reconhecida por qualquer consumidor que a avistasse nos produtos. Seu nome tornou-se famoso e a empresa, bem vista.
Judge tinha muito orgulho de sua própria conquista e visando a manutenção desse império mesmo quando este saísse de suas mãos, ele treinou — desde muito cedo — todos os seus cinco filhos a serem igualmente ferozes e ambiciosos para alcançarem aquilo que desejassem. Infelizmente, seu quarto filho, Sanji, em momento algum demonstrou ter o mesmo empenho que seus irmãos na arte da ferocidade. Ele era o mais parecido com a mãe tanto nos cabelos loiros, quanto no comportamento amistoso, para aborrecimento de Judge.
Sem desconfiar, Sanji passou a ser considerado um completo fracasso pelo próprio pai. Inicialmente ele não achou que o descontentamento do pai, apesar de visível, fosse tão profundo, mas ao ser transferido para um dos menores — e insignificantes — departamentos tão logo sua mãe, Sora Vinsmoke, faleceu de um câncer, Sanji percebeu que o único motivo para Judge o tolerar próximo a si era por causa da doce influência dela.
Curiosamente essa percepção o deixou mais empenhado em dar seu melhor na nova área em que estava para provar ao pai que não precisava agir do modo autoritário ou estritamente punitivo para alcançar bons resultados. Tornou-se gestor do departamento de aparelhos e utensílios de cozinha, e sob seu comando houve tempo de prosperidade com seus subordinados oferecendo boas ideias. Sanji até resolveu ir um pouco além de sua função — após descobrir uma certa paixão pela culinária — e foi o responsável pela criação de alguns dos projetos de aparelhos entregues no ano anterior.
O item de seu maior orgulho e que esteve liderando as vendas do departamento por nada mais nada menos do que seis meses foi um incrível liquidificador que lhe rendeu até um e-mail do presidente da empresa — vulgo Judge — com um seco “parabéns”. Sanji quase conseguiu sentir o gosto azedo da má vontade contida naquele curto e-mail, mas a satisfação foi imensa. Mas com certeza sua mãe estava orgulhosa dele, seja lá em qual paraíso estivesse.
*
Naquela manhã bem cedo Sanji leu em seu horóscopo: Um imprevisto colocará sua tranquilidade em xeque, mas lide com paciência e os problemas serão mínimos. A impulsividade deve ser canalizada para ações benéficas. Falta de inspiração? Invista em novos ares para espairecer. Cor da sorte: Cinza Incerto.
Sanji particularmente não tinha entendido o porquê daquele site ter decidido usar nomes de cor de esmalte para as cores da sorte. E onde, por acaso, ele poderia encontrar algum item de cor “cinza incerto”? De qualquer modo, não era um adicto profundo de coisas como horóscopo, mas achava ligeiramente divertido comparar seu dia a dia aos horóscopos semanais. Talvez lá em seu íntimo até acreditasse um pouco — afinal, a frequência que os consultava aumentava cada vez mais —, entretanto jamais admitiria isso em voz alta. E apesar de recusar-se a se mostrar crédulo quanto a essas aleatoriedades, passou o dia ligeiramente apreensivo com a parte de “tranquilidade em xeque”.
O que isso significaria?
Inclinando-se um pouco para poder visualizar melhor o design exibido no monitor, Sanji apontou para a alça do espremedor de fruta ali representado. Era o modelo que seria adicionado como complemento na linha premier de produtos VidaSaudável ou talvez fosse colocado junto com o prêmio do sorteio de aniversário da empresa que estava por vir.
— Esse formato não combina com o tamanho do produto. E lembre-se que tem que harmonizar com a jarra de suco. — Sanji comentou, mas ao se voltar para seu subordinado logo notou aflição em seu rosto. — Você está fazendo um ótimo trabalho. — acrescentou rapidamente, dando-lhe tapinhas parabenizadoras nas costas.
Houve uma visível melhora do nível de aflição que havia no semblante do rapaz que entrara recentemente no departamento e ainda estava tentando se adaptar ao novo ambiente de trabalho. Como ainda não tinha tido tempo o suficiente de convivência para descobrir que ali não ocorria casos de demissões por qualquer trivialidade (o que parecia ter sido o caso em seu trabalho anterior), o jovem em questão ficava apreensivo por qualquer comentário vindo do Vinsmoke.
Sanji deu uma verificada no relógio de pulso e seguiu para sua própria mesa para deixar o pobre novato trabalhar sossegado nos minutos finais do expediente. Durante o curto trajeto outra subordinada pediu seus conselhos sobre os detalhes de uma coleção de assadeiras para bolo, que ele deu de muito bom grado e cheio de educação como sua boa mãe o tinha ensinado. “Sempre trate as mulheres como deusas, meu menino bonito. Não se bate nelas nem com asas de borboletas.”, ela disse certa vez quando Sanji brigou com uma coleguinha na escola. Ou ao menos ele tinha quase certeza que essas tinham sido suas palavras.
Quando por fim ele conseguiu sentar em sua cadeira, o fim do expediente chegou e seus funcionários começaram a arrumar suas próprias mesas para irem embora. Ele não se apressou, já que era sempre o último a sair. Observou seus subordinados saírem despreocupados, agradecendo mentalmente sobre o alarme falso que o horóscopo daquela manhã lhe proporcionou. Não houve xeque algum, afinal.
Voltando a atenção para o computador, desbloqueou a tela de descanso tranquilamente e iniciou o ritual que vinha seguindo desde que seu último projeto foi lançado no mercado. Ele abria o site do maior parceiro da empresa e verificava cada um dos seus itens, analisando as avaliações e os comentários deixados por clientes que adquiriram os produtos. Ia em ordem crescente, deixando por último o seu produto mais famoso: o liquidificador Arnory Mimorin Techclic 66.
Apreciou orgulhosamente as quatro imagens que haviam no anúncio, admirando seu próprio trabalho. Era considerado um, se não for O melhor, dos melhores liquidificadores do mercado e logo abaixo na página havia uma cascata de comentários e avaliações positivas para provar a qualidade do produto. Um sorriso involuntário tomou seus lábios e ele buscou um cigarro no bolso da calça por puro hábito. Não encontrou cigarro algum, já que estava tentando parar de fumar, e se conformou em pegar uma balinha de hortelã de um recipiente sobre a mesa.
Seu Arnory Mimorin Techclic 66 possuía uma jarra que não ficava impregnada por odores e nem ficava manchada com o passar do tempo, era resistente a choques térmicos, possuía uma tecnologia de corte com seis lâminas (enquanto que as suas concorrentes exibiam apenas quatro lâminas simples), permitia o desengate das lâminas da própria jarra para facilitar a limpeza e ainda dispunha de uma tampa flexível de silicone com uma abertura maior que permitia a inserção de ingredientes durante o preparo. Além de todas essas qualidades o modelo do liquidificador ainda tinha um design charmoso que combinava com qualquer cozinha e era disponibilizado numa variedade de quinze cores.
No entanto, quando ia levar a bala em direção a boca, rolou o botão giratório do mouse com a outra mão e constatou, para seu total horror, que havia uma avaliação negativa recente. A balinha caiu no chão, mas ele nem se importou. Toda sua atenção estava agora naquele número 1 marcado em avaliações negativas num terrível tom vermelho.
Como aquilo tinha acontecido? Não, não podia ser real. Fechou a página e depois voltou a abri-la, sem conseguir realmente deixar isso para lá. Encarou o número por uns bons minutos pensando em qual atitude tomar. Mas afinal que raios poderia fazer naquela situação? Nada, essa era a resposta. Por causa disso levou outros bons minutos para conseguir enfim ter coragem de clicar em cima do número vermelho para poder visualizar o que o reclamante deixou por escrito. Assim que a mensagem foi exibida seus olhos correram nervosamente pelas poucas palavras ali contidas.
“Essa porcaria não presta”.
Piscou, desacreditado. Sério que a mensagem só tinha isso? A pessoa nem explicava o motivo de não ter gostado do produto! Ah, isso não ficaria desse jeito! Não iria ser ofendido (indiretamente) dessa forma e ficar quieto. Nem se quisesse conseguiria. Subitamente decidido a descobrir a identidade do usuário que postou a reclamação, Sanji destravou o celular. Já sabia até com quem falar para adquirir essa informação.
Era nessas horas que ele gostava de usufruir de certos benefícios que o sobrenome Vinsmoke o fornecia.
*
Zoro Roronoa era um homem simples. Tão simples, mais tão simples, que não conseguia se entender muito bem com coisas tecnológicas demais. Alguns até o chamavam de homem das cavernas, mas isso não vem ao caso nesse instante. O que importa é que ele vinha sobrevivendo bem nessa era moderna em que a cada dia as coisas ficavam mais e mais cheias de funções, porque vivia junto com sua irmã, Tashigi Roronoa, e era ela quem lidava com tais objetos. No entanto, após Tashigi se casar com um sujeito chamado Smoker, ela resolveu se mudar para uma cidade vizinha e lá iniciar sua vida de casada. Restou a Zoro, então, aprender a lidar sozinho com os aparatos da vida moderna.
No início ele não imaginou que fosse ser muito difícil, mas depois de quebrar a quarta panela elétrica e jogar umas boas espátulas e colheres de plástico no lixo por terem derretido enquanto tentava preparar alguma comida, decidiu que a cozinha definitivamente o odiava. Para sobreviver começou a comer, durante o almoço, as marmitas prontas das lojas de conveniência de perto do trabalho e para o jantar comprava uma porção da primeira barraquinha de comida que encontrasse no caminho.
Por um tempo conseguiu se enganar de que não estava numa situação ruim, mas depois de um mês comendo desse jeito já não aguentava mais ver a cor do yakisoba que vendia na esquina da rua onde morava ou ter que mastigar o conteúdo da marmita que era misteriosamente desgostoso apesar de ser colorido. Por fim, um amigo que estava a par de sua situação resolveu lhe dar dicas de como viver sozinho e recomendou alguns produtos culinários indispensáveis para quem deseja começar a preparar a própria comida. E confiando nos relatos de uso do próprio Johnny, Zoro comprou um liquidificador que prometia ser revolucionário e que possuía lâminas tão afiadas quanto uma shuriken.
O produto foi entregue no tempo hábil e bem embalado em plástico bolha. Zoro retirou-o da caixa, acomodando o liquidificador num canto livro do balcão ao lado da pia. Tinha que admitir que a peça era bonita — embora não entendesse muito disso —, além de vir com um manual relativamente grosso descrevendo todas as funções e possibilidades culinárias que o liquidificador permitia. E é claro que ele jogou o pesado manual na lixeira da cozinha. Quem precisava ler tanta folha pra aprender a usar um negocinho simples daquele? Bom mesmo é seguir seus instintos e, confiando nisso, virou-se pra enfiar alguns alimentos dentro do copo do liquidificador.
Levou uns minutos para conseguir encaixar direito o copo na base e também para conseguir fechar a tampa, pois aparentemente o copo ficara abarrotado com a quantidade de alimentos que ele botou. Quando, enfim, ligou o aparelho e o zumbido do eletrodoméstico ecoou pelo ar, Zoro sentiu-se orgulhoso de seu desempenho autodidata. Dedicou um sorriso escarnecedor para o manual no lixo e foi no banheiro urinar enquanto o liquidificador trabalhava furiosamente.
Entretanto, contrariando suas expectativas, ao sair do banheiro sacudindo as mãos para retirar o excesso de água, sentiu um cheiro curioso no ar que em nada lembrava a comida que estava preparando. Franziu o cenho e seguiu rápido em direção a cozinha, que parecia ser a origem do cheiro. E foi com bastante espanto que viu um fogaréu ardendo em cima da bancada ao lado da pia, quase tocando o armário acima dele.
— Hm... — comentou sabiamente.
Os planos de um jantar caseiro feito por ele mesmo foram mais do que frustrados, visto que o liquidificador cometeu suicídio no primeiro dia de uso. Coçou a nuca, totalmente insatisfeito. Que porcaria era aquela que Johnny tinha lhe recomendado? Ou será que a cozinha realmente o odiava?
De qualquer modo, apagou o fogo com o extintor indicado — aprendera a usá-lo depois de ter incendiado um par de assadeiras com seus conteúdos pra lá de tostados — e depois de aquecer um Cup Noodles sabor frutos do mar, sentou-se em frente ao notebook pronto para reclamar do produto. O notebook era de um modelo bem antigo, do tipo que não recebia atualizações para o Sistema Operacional há mais de ano e talvez por conta disso ele era muito lerdo para realizar qualquer pequena atividade.
No fim, o notebook travou e Zoro precisou pedir ajuda a sua amiga Robin para conseguir enviar o bendito comentário. Ou maldito comentário, caso prefira.
Nunca mais compraria coisa na internet.
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